
   Foto da Zibia Gasparetto

   Aprendi a ler aos quatros anos de idade e, aos oito, muitas vezes passava horas sentada, escrevendo histrias. Com a chegada da adolescncia, deixei esse comportamento
de lado e s o retomei na forma de psicografia quando, anos depois, meu marido e eu, uma vez por semana, estudvamos os livros de Allan Kardec. Meu brao doa e
a mo mexia contra minha vontade. Colocados papis e lpis na minha frente, comecei a escrever rapidamente.
   Ns frequentvamos as sesses da Federao Esprita e eu participava como mdium de incorporao, psicografava e, algumas vezes, utilizava o dom da xenoglassia
(faculdade de falar ou escrever lnguas estranhas). Nessa poca, recebia contos, mensagens de orientao, histrias e, assim, os romances comearam a fluir.
   A sensibilidade se abre e vemos muitas coisas que no entendemos. Venho estudando ha muitos anos e ainda no tenho todas as respostas. Mas sei que  melhor disciplinarmos
o emocional, enfrentar os medos e tomar posse de ns mesmos para que as energias dos outros no nos envolvam.
   Se conseguirmos isso e nos ligarmos aos espritos evoludos, a mediunidade  uma fonte de conhecimento, sade e lucidez.
   Estudar a vida espiritual abre as portas do futuro, derrotando a morte e nos mostrando que somos seres imortais.
   Zibia Gasparetto

   Lucius
   Esse amigo espiritual, que vem me inspirando em todos os romances, trabalhou sem revelar seu nome quando eu comecei a psicografar. Eu sentia sua presena, cheguei
a v-lo algumas vezes, mas nunca perguntei nada. Prefiro as manifestaes espontneas. S quando terminei o livro 0 amor venceu, na ltima pgina, ele assinou Lucius.
   A respeito de sua trajetra so sei o que ele revelou no livro O fio do destino, em que relata duas encarnaes na.Terra: a mais antiga como membro do parlamento
ingls e a outra como escritor e juiz na Frana.
   Para mim ele tem sido um mestre. Suas energias so prazerosas e quando ele se aproxima, meu pensamento torna-se claro, lcido. Sinto-me muito bem.
   Nos primeiros tempos em que trabalhamos juntos, ele costumava andar comigo e conforme o lugar, as cenas que eu presenciava, me orientava, fazendo-me ir mais fundo
nas observaes. Depois de algum tempo, ele passou a vir apenas nos momentos de trabalho.
   Aprendi muito, tanto com seus conselhos quanto com as histrias que ele me passou.
Algumas pessoas me perguntam "por que voc?". No sei por que ele me escolheu, mas sinto que os laos que nos unem so antigos e continuaro existindo pela eternidade.
   Zibia Gasparetto
  Direo de Arte
  Luiz Antonio Gasparetto
  Projeto Grfico Priscila Noberto
Editorao Eletrnica Marina Avila
Preparao e Reviso Fernanda Rizzo Sanchez
1a edio
Dezembro  2009 160.000 exemplares

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Lucius (Esprito).
Se abrindo pra vida / pelo esprito Lucius [psicografado por] Zibia Gasparetto -- So Paulo : Centro de Estudos Vida & Conscincia Editora. ISBN 978-85-7722-079-3
(brochura)
1. Espiritismo 2. Psicografia 3. Romance esprita I. Gasparetto, Zibia II. Ttulo.

ndices para catlogo sistemtico:
1. Romances espritas psicografados: Espiritismo 133.93

Publicao, distribuio, impresso e acabamento
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Proibida a reproduo total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrnico, mecnico, inclusive atravs de processos xerogrficos, sem 
permisso expressa do editor (Lei no. 5.988, de 14/12/73).

   Zibia Gasparetto
   Pelo esprito Lucius
   Se abrindo pra vida


   Prlogo
  A tarde morria lentamente e Jacira olhou desanimada para a extensa fila a sua frente. Tinha vontade de chegar em casa, tomar um banho, deixar-se ficar sem fazer 
nada.
   Estava cansada tambm de obedecer, de fazer coisas das quais no gostava, de trabalhar por obrigao, viver a rotina de sua vida sem graa e sem objetivos.
   A culpa era da pobreza, que no lhe permitia usufruir as coisas boas da vida. Tudo era difcil.
   Trincou os dentes com raiva e colocou-se no fim da fila. Sabia que naquela linha havia poucos nibus e por certo ficaria quase uma hora esperando.
   Se ela houvesse nascido em uma famlia de melhores condies financeiras, no teria de passar por tudo isso. Percebia que para os bairros mais elegantes, os nibus, 
alm de melhores, eram mais frequentes.
   Irritada, sentiu um gosto amargo na boca e uma leve dor de cabea a incomodou.
   O primeiro nibus chegou, a fila andou um pouco, porm ela no conseguiu embarcar. Teria de esperar pelo segundo.
   Quase meia hora e o nibus no chegava. Vida de pobre. Se ao menos tivesse encontrado um marido com quem dividir os problemas e as despesas, talvez sua vida tivesse 
se tornado melhor.
   Aos trinta e oito anos, nunca havia tido um namorado. Os poucos homens que se interessaram por ela, eram to pobres quanto ela.
   De que lhe adiantaria casar e continuar a ter uma vida miservel como sempre tivera? Colocar no mundo crianas sem chance de serem felizes seria um crime ainda 
maior.
   Conformara-se em viver com a famlia. Neto, seu irmo mais velho, sara de casa, fora para o Rio de Janeiro tentar a sorte e nunca mais voltara.
   De vez em quando escrevia para a me, dizendo que estava trabalhando em um hotel, mas como ganhava pouco no tinha como ajudar a famlia.
   Jair, outro irmo, mais novo dois anos do que ela, ao contrrio de Neto, fora embora para o Rio Grande do Sul e havia mais de dez anos no mandava notcias.
   s vezes, ela pensava que talvez ele tivesse morrido por l. Sua me no se conformava em no saber nada sobre ele e, quando se lembrava disso, ficava chorando 
pelos cantos, de cara amarrada, sem falar com ningum.
   Se ela se queixasse, o marido ficava nervoso, brigava, culpando-a pelo filho nunca mais t-los procurado.
   Enquanto Aristides manteve o emprego na montadora de automveis, apesar de ganhar pouco, viviam melhor. Tudo ficou pior quando ele foi mandado embora e no conseguiu 
mais trabalho. 
   Finalmente o nibus apareceu e ela conseguiu subir , mas no havia lugar para se sentar. Ficou em p Sentia as pernas doerem, a bolsa pesava, mas era melhor seguir 
assim do que esperar mais tempo na fila onde ficaria em p do mesmo jeito.
   O nibus lotado no lhe permitia movimentar-se. Suas costas doam e as pernas tentavam manter o equilbrio.
   O ar viciado e o cheiro de suor a incomodavam. De vez em quando algum l de trs         queria passar para descer e apertava as pessoas para abrir caminho.
   Por fim um rapaz desceu e ela conseguiu sentar-se. Pelo menos isso. Do seu lado, um homem robusto suava, apesar do vento que entrava pela janela que ele abrira.
   O ar que entrava trouxe-lhe certo alvio. Dez minutos depois, deu sinal para o nibus parar, levantou-se e tentou passar.
   O nibus comeou a andar e ela aflita gritou: 
   - Desce.
   A brecada forte a jogou em cima de uma mulher que a olhou enraivecida.
   - Desculpe - murmurou ela. Ao passar pelo motorista no se conteve: - No pode esperar os passageiros descerem? Para que tanta pressa?
   - Desce logo, d. Maria - resmungou ele.
   Mal Jacira tirou o p do degrau, o nibus comeou a andar e ela quase caiu. Foi amparada por um homem que estava parado no ponto. Jacira sentiu um perfume gostoso 
e assim que conseguiu equilibrar-se olhou para ele.
   Homem alto, bonito, muito bem-vestido, cheiroso, olhava-a sorrindo, e lhe perguntou amavelmente:
   - Voc se machucou?
   Jacira sentiu uma raiva surda, imensa, e no conseguiu segurar o pranto. As lgrimas desceram pelo seu rosto e ela soluava sem parar.
   O homem a olhava surpreendido:
   - O que aconteceu? Por que est chorando deste jeito?
   Vendo que ela continuava chorando e que as pessoas em volta o olhavam desconfiadas, ele segurou o brao dela dizendo:
   - Acalme-se. Venha. Vamos conversar.
   Apanhou a bolsa dela que estava no cho e comeou a andar levando-a pelo brao. Jacira deixou-se conduzir docilmente. No estava em condies de refletir.
   Um pouco adiante, havia uma pequena praa e ele a levou at l, fazendo-a sentar-se em um banco e sentando-se a seu lado.
   Aos poucos, Jacira foi se acalmando. Ele tirou um leno do bolso e ofereceu-o a ela que, envergonhada, apanhou-o e enxugou os olhos.
   Depois, ainda estremecendo de vez em quando, Jacira disse:
   - Desculpe, no consegui me controlar.
   - H momentos na vida em que no conseguimos nos segurar.
   - O senhor foi muito gentil, estou envergonhada. No costumo perder o controle desse jeito. 
   - Sente-se melhor?
   Ele era um homem bonito, de classe. Muito diferente dos homens que residiam naquele bairro. 
   - J passou. Obrigada.
   Ela fez meno de levantar-se, porm ele colocou a mo sobre seu brao dizendo:
   - Descanse. Espere um pouco mais.
   - Eu preciso ir. Minha me fica preocupada quando demoro para chegar.
   - Voc se machucou ao descer do nibus? Por essa razo estava chorando?
   - No. Eu estava chorando de raiva. O senhor tem boa aparncia,  elegante, no deve saber como  vida de pobre.
   - Vida de pobre pode ser muito boa. 
   Jacira enrubesceu ao responder:
   Est se vendo que no sabe nada sobre isso. Deve ter tido sorte na vida. D para perceber que  uma pessoa fina, que nunca soube o que  ser pobre.
   A revolta no vai ajud-la a melhorar sua vida.
   -  fcil falar. Voc no diria o mesmo se estivesse em meu lugar.
   - Voc no me conhece.
   - No, mas d para notar que  um privilegiado. Uma pessoa que teve mais sorte do que eu.  isso que me enraivece. Por que alguns tm tudo enquanto outros nada? 
Por que alguns so bonitos, ricos, enquanto outros so condenados  misria e ao sofrimento? Estou cansada. Odeio minha vida, minha pobreza. Por que tudo me tem 
sido negado? Por que tenho de trabalhar naquele lugar horrvel, obedecer pessoas desagradveis e no fim do ms no ter dinheiro para comprar nada?
   Ela fez uma pausa enquanto ele a olhava pensativo, e continuou:
   - Pode imaginar como  minha vida? Sem dinheiro, sem amor, odiando cada dia e tendo de continuar assim?
   - Nunca pensou em jogar tudo para o alto e escolher outro caminho onde pudesse fazer o que gosta? Ela olhou-o incrdula:
   -  isso mesmo o que eu gostaria de fazer. Mas  impossvel.
   - Por qu?
   - Porque com meu minguado salrio, alm de mim sustento meus pais. Se eu deixar o emprego do que iremos viver? s vezes sinto raiva dos meus dois irmos. Eles 
saram 
de casa e nunca mais voltaram. Deixaram tudo para mim.
   - Como  seu nome? 
   - Jacira.
   - Eu me chamo Ernesto Vilares. Gostaria de conversar um pouco mais com voc.
   Ela olhou-o desconfiada, porm a fisionomia dele estava calma.
   - Para qu?
   - Desde que comeamos a conversar, voc s se queixou. Acha que isso vai resolver seus problemas?
   - O que acha que posso fazer se tudo d errado?
   - Poderia tentar fazer alguma coisa melhor.
   Jacira meneou a cabea negativamente:
   - Acha que gosto de me queixar? Que fao isso por esporte? Ainda no entendeu que sou uma pessoa sem sorte para quem tudo d errado?
   - Isso no  verdade. Voc  quem procura o lado pior de todas as coisas e assim acaba tendo o pior.  bom saber que as palavras tm fora. Voc est mergulhada 
na queixa e no percebe as oportunidades boas que a vida lhe d.
   - Eu nunca tive uma boa oportunidade. S me acontecem coisas ruins. Sem dinheiro, sem amor, s fao obedecer. Em casa aos meus pais, no trabalho aos meus chefes.
   - E quando  que voc faz alguma coisa que lhe traz alegria?
   - Acha que eu posso? Gosto de ouvir msica, mas meu pai no me deixa ligar o rdio porque diz que o barulho lhe faz mal aos nervos.
   - No sai para passear com amigos?
   - No tenho amigos. A ltima amiga que arranjei, isso h mais de dez anos, meu pai implicou e infernizou a vida de minha me dizendo que se sassemos juntas, 
ela 
iria acabar me perdendo. Ele no gosta que eu saia de casa para passear. Ento, essa amiga percebeu e nunca mais apareceu. A me conformei e nunca mais arranjei 
outra.
   Ele olhava-a penalizado, por fim disse:
   - No sei como voc aguenta essa situao. Agora entendo a crise que teve h pouco. Se continuar assim, vai chegar um momento em que no conseguir trabalhar, 
nem 
fazer mais nada. Voc precisa reagir.
   - Sinto que no estou mais aguentando mesmo. Mas reagir como? No vejo sada. J pensei at em acabar de uma vez com esta vida.
   Pois eu lhe digo que h sada e voc poder encontr-la quando quiser.
   - Sei que quer me consolar, mas no creio que consiga.
   - Quer saber? Voc, durante toda sua vida, s pensou nos outros. Em obedecer aos pais, em trabalhar para ajudar a famlia, mas para fazer isso, esqueceu-se de 
si 
mesma. Deixou de lado sua alegria, seu bem estar. Permitiu que os outros mandassem em sua vida. Quantos anos tem?
   - Trinta e oito.
   - Voc no  mais uma criana,  uma mulher, mas no se permitiu crescer, agir por si mesma. Escolher o prprio caminho. Dentro de voc h uma pessoa oprimida 
que 
no suporta mais continuar limitada, presa.
   - O que posso fazer?
   - Esquea por um momento quem voc  e diga: se voc pudesse escolher, o que gostaria de fazer agora?
   Ela fechou os olhos e no respondeu logo. Seu rosto foi se transformando aos poucos, ficando distendido, e fundo suspiro saiu do seu peito.
   - Ah! Eu gostaria de ir a um baile de formatura. Vestir um vestido longo, estar num salo cheio de flores, a meia-luz, danando com um homem alto, bonito. Sempre 
sonhei em me formar, mas no pude continuar estudando.
   - Mas voc pode.  hora de pensar mais em voc. Ela abriu os olhos e seu rosto contraiu-se novamente:
   -  um sonho impossvel.
  .-  um projeto que voc pode realizar. Olhe, vou dar-lhe meu carto. Eu posso ajud-la a mudar sua vida para melhor.
  .- Como assim? Est me oferecendo um emprego? 
  - No. Vou ensinar-lhe como realizar seus sonhos. Aqui est o endereo. No  longe daqui.
  - Mas eu chego tarde todos os dias.
  - Pode ir  noite. Se quiser poder ir amanh mesmo. Estarei l para explicar-lhe melhor.
  Ela segurou o carto e colocou-o na bolsa. De pois, levantou-se:
  - Vou ver se d para ir.
  - Sente-se melhor?
  - Sim. Desculpe a cena que eu fiz.
  - Est tudo bem. No deixe de ir. Estarei a esperando. At amanh.
  - At amanh.
  Jacira estendeu a mo que ele apertou e se foi rumo a sua casa. No sabia se deveria ir quele lugar. O que ele queria com ela? Por que a tratara com tanta ateno? 
Ela no tinha dinheiro, no era bonita. Estava claro que ele no estava interessado nela. Um homem to fino, com tanta classe, to agradvel!
  Ela chegou em casa e encontrou a me de mau humor.
  - Por que demorou tanto? Aconteceu alguma coisa? Seu pai j estava quase indo atrs de voc.
  - No aconteceu nada. Foi a conduo. O nibus demorou.
  - Deixei seu prato no forno. Coma e no se esquea de lavar tudo. Deixei as panelas para voc. Estou cansada. No aguentava mais. Trabalhei o dia inteiro nesta 
casa. 
Depois, recolha a roupa no varal porque j deve estar quase seca. Pode chover esta noite.
  Jacira olhou desanimada. Estava cansada, as pernas doam e as costas pesavam como chumbo. Mas no retrucou. Lavou as mos, foi  cozinha, apanhou o prato de comida 
no forno e colocou-o sobre a mesa.
  Arroz, feijo, ovo frito e duas rodelas de tomates. Suspirou resignada. No tinha nimo para esquentar a comida. Havia trs panelas sujas sobre o fogo e ela no 
queria sujar mais uma.
  Sentou-se. Enquanto comia sem vontade, lembrou-se das palavras daquele homem.
  "- Vou ensinar-lhe como realizar seus sonhos. Eu posso ajud-la a mudar sua vida para melhor."
  "Pois sim!", pensou irnica. "Ele no sabe nada sobre a vida. Bem-vestido cheiroso elegante. Um homem de sorte. Com certeza nunca enfrentou os problemas que eu 
enfrento."
  A comida estava sem gosto e ela, depois de algumas garfadas, levantou-se, jogou o restante no lixo e procurou o avental para lavar a loua.
  A me no havia deixado apenas as panelas, mas os pratos, talheres, algumas xcaras, o que a fazia supor que havia naquela pia toda a loua utilizada durante o 
dia.
  Esquentou uma chaleira de gua e comeou a lavar. Enquanto fazia o trabalho, sentia que a dor nas costas a incomodava, mas no parou nem um minuto para descansar.
  Queria terminar logo para ir se deitar. Quando terminou a loua, limpou o fogo, guardou tudo, foi ao quintal e recolheu a roupa. Depois, levou-a ao quartinho. 
L 
estava o cesto onde deveria coloc-la para passar. O que faria no sbado  tarde.
  Sua me deixava toda a roupa da semana para ela passar.  que ela se queixava de dores nos braos e Jacira preferia poup-la.
  Enquanto dobrava a roupa para coloc-la no cesto, pois sua me exigia que fizesse isso com cuidado, Jacira tentava combater sua revolta pensando que pelo menos, 
ela conseguira comprar a mquina de lavar roupas, que ainda estava pagando a mdicas prestaes, o que lhe poupava o trabalho de lavagem.
  Quando terminou tudo, a casa estava s escuras. Seus pais j haviam se recolhido.
Ela subiu para o quarto. Ao tirar a roupa, o carto que o homem lhe dera caiu do seu bolso. Ela apanhou-o e leu. Depois pensou:
  "Vou jogar isso fora. Ningum d nada de graa. Esse homem deve estar querendo alguma coisa. Talvez seja uma arapuca."
  Assim, colocou-o sobre a mesinha de cabeceira e suspirou resignada. Lavou-se e, finalmente, deitou-se. Estava to cansada que no conseguiu dormir de pronto.
  No dia seguinte, tudo se repetiria igual ou pior do que naquele dia. Ela estava destinada a viver essa vida ruim e sem alegria. Isso no valia a pena.
  Sua me a ensinara a rezar antes de dormir. Ela, porm, havia muito deixara de faz-lo. Para que rezar a um Deus que se esquecera dela?
  Sua vida estava traada e no havia jeito de mudar nada. Seu destino era ficar assim, sofrendo, de mal com a vida. Dia a dia a revolta que sentia no corao aumentava.
  O despertador tocou e Jacira ainda meio atordoada procurou o pino para faz-lo parar. Depois, lutou contra a vontade de dormir mais um pouco e levantou-se, indo 
direto para o chuveiro.
  Na noite anterior custara a dormir e, quando conseguiu, teve um sono povoado de sonhos desagradveis. De certa forma conhecidos.
  Quase sempre sonhava que estava em uma casa velha, havia algum ruim querendo entrar e ela fechava as portas e janelas, mas de repente se dava conta de que havia 
uma aberta e nunca conseguia fech-la.
  Acordava assustada, corpo dolorido, sentindo-se aliviada por estar em seu quarto habitual.
  Depois do banho, arrumou-se e desceu para o caf. Seu pai j estava na sala lendo o jornal, de pijama e chinelos.
  - Bom dia, papai.
  - Bom dia. Estava esperando por voc. Temos que conversar.
  - Estou em cima da hora.  melhor deixar para outro dia.
  - No posso. Tem de ser agora. Quando eu estava bem, no precisava de ningum. Sempre fui um homem trabalhador, dedicado  famlia.  triste ter agora que depender 
dos outros. Voc no sabe o que  isso. Sempre lhe demos tudo o que nos foi possvel!
  - Est bem, pai. Fale. Mas sem rodeios. No quero me atrasar.
  - Esta noite choveu e no meu quarto tem aquela goteira bem em cima da cama. Sua me colocou uma bacia, mas foi pior. Os pingos da gua nos torturaram durante horas. 
Temos que consertar o telhado.
  - No sei se vai dar. Ainda estou pagando as prestaes da mquina de lavar roupas.
  - Eu sabia! Voc preferiu comprar essa mquina em vez de consertar nosso telhado. Quis se poupar e no pensou em ns.
  - Voc est sendo injusto. Todo dinheiro que recebo gasto em casa. No posso fazer mais.
  Ele meneou a cabea negativamente dizendo com voz triste:
  - Eu me levanto todos os dias s seis horas, pego o jornal em busca de emprego, inscrevi-me em uma empresa de recolocao, mas no aparece nada. Sempre fui bom 
empregado. No sei por que acontece isso comigo.
  - Voc tem mais de cinquenta anos. Na sua idade no  fcil. O seu Jos da oficina mecnica lhe ofereceu um lugar de ajudante, por que no aceitou?
  Ele olhou-a admirado:
  - Um operrio qualificado como eu ser ajudante em uma oficina mecnica, sujar as mos de graxa, para ganhar o msero salrio que ele me ofereceu?
  - Seria um bico at encontrar coisa melhor. Pelo menos poderia consertar o telhado.
  - Eu trabalhava em uma montadora de carros. Uma empresa de nome.
  - Mas foi demitido. Pelo menos enquanto no sai sua aposentadoria, poderia fazer alguns bicos.
  - Voc fala como se eu fosse vagabundo, no quisesse trabalhar. Isso no  verdade. Sou um trabalhador.
  Jacira baixou a cabea desanimada.
  - Eu sei, pai. Quanto seu Joo pediu para consertar o telhado?
  - Trezentos reais. Mas o material  por nossa conta.
  Jacira suspirou.
  - Vamos ver o que posso fazer. Agora preciso ir. Foi para a cozinha, sentou-se para tomar caf.Geni apareceu em seguida dizendo:
  - Voc no deve falar assim com seu pai. Ele no merece.
  - Eu sei, me.
  Ela serviu-se de caf e pegou um pedao de po que j estava velho. Cortou-o em fatias, levantou-se, pegou a frigideira, colocou-a no fogo e o esquentou.
  - Estou atrasada. Voc podia pelo menos ter esquentado esse po.
  Geni olhou-a tentando segurar as lgrimas:
  - Voc fala como se eu fosse culpada por nossa situao. Ns tambm comemos desse po. A culpa  sua. Por que no se levantou mais cedo para ir  padaria?
  Jacira no respondeu. Tratou de engolir o po com margarina, alguns goles de caf e saiu apressada. Queria sumir, deixar aquela casa onde tudo era desagradvel 
e triste.
  No ponto, o nibus j estava chegando, e ela correu para subir, apesar de estar lotado e outras pessoas tentarem entrar tambm.
  Conseguiu pendurar-se segurando firme no balaustre. Um homem que estava atrs empurrou-a para que pudesse subir mais um pouco.
  Uma mulher gorda deu-lhe uma cotovelada no estmago e Jacira irritada retribuiu dando-lhe um piso no p.
  O nibus partiu e, apesar da situao, ela respirou aliviada. Preferia viajar desconfortvel do que aguentar a reprimenda do seu patro, um homem nervoso que no 
media as palavras.
  O que ela mais temia era perder esse emprego. Fazia mais de cinco anos que trabalhava na oficina de costura de Noel. Ganhava por produo, por essa razo, s levantava 
da mquina por necessidade.
  A cada parada do nibus as pessoas queriam subir e ela era empurrada. Ela esforava-se para no sair do lugar, porque precisaria descer antes do ponto final.
  Aos poucos foi tentando ficar prxima  porta. Quando precisou descer j havia chegado at ela.
  Chegou  oficina e olhou o relgio. Eram oito horas e o sinal logo soou. Imediatamente, foi para seu lugar, jogou a bolsa em uma gaveta e comeou a trabalhar.
  Noel aproximou-se, apanhou a pea que ela ia comear a costurar e examinou-a com olhos crticos. Era um homem baixinho, magro, louro, cujos cabelos eram finos 
e 
lisos, tinha testa larga, pele clara e fina, quase transparente, que se tornava vermelha quando se irritava.
  - Tome cuidado com essas peas - disse ele. -  uma encomenda importante e quero tudo muito bem feito.
  - Sim, senhor - respondeu ela.
  Ela sabia que ele queria era encontrar algum erro e como no havia, limitou-se a fazer sua exigncia.
  Ao meio-dia o sinal tocou e Jacira levantou-se. As costas doam e ela estava com fome. Costumava levar marmita, mas naquele dia, por estar atrasada e no haver 
sobrado nada do jantar, no havia levado.
  Apanhou a bolsa e foi at a padaria da esquina, comprou um sanduche de mortadela e um suco. Depois, voltou  oficina.
  As colegas conversavam alegres, mas ela no se misturava. Apesar de estarem trabalhando no mesmo luar, a vida delas parecia muito diferente.
  Falavam de namorados, do marido, dos filhos, dos passeios de fim de semana, enquanto ela no tinha nada para contar. Por tudo isso se isolava e elas com o tempo 
acabaram ignorando-a.
  Era como se ela no existisse. No o faziam por mal. Respeitavam apenas seu isolamento.
  Voltou para sua mquina enquanto ouvia os risos das colegas e suas brincadeiras.
  "Todo mundo  feliz", pensou, "menos eu. Isso no  justo. Eu me esforo, trabalho, cuido dos meus pais, por que a vida me castiga deste jeito? Por que no tenho 
sorte?"
  As lgrimas vieram-lhe aos olhos e ela tentou dissimular. Abriu a bolsa, apanhou o leno, assoou o nariz. Ento se lembrou do homem bonito, cheiroso que lhe emprestara 
aquele leno.
  Pelo menos ele a tratara como um ser humano, entendera sua tristeza. Por que as pessoas no eram como ele?
  Na vspera estava to cansada que se esquecera de lavar o leno para devolv-lo. Com o leno nas mos notou o quanto seu tecido era macio e acetinado.
  Se no tivesse esse leno nas mos, pensaria que aquele encontro houvera sido um sonho. Pela primeira vez em sua vida, algum havia tido considerao por ela.
  Quando chegasse em casa iria lav-lo, passar e depois iria devolv-lo agradecendo.
  O sinal tocou e ela imediatamente recomeou a trabalhar.
  Naquela noite, depois do jantar e de lavar a loua, que como sempre a esperava, apanhou o leno e lavou-o cuidadosamente.
  Geni aproximou-se:
  - O que est fazendo? O cesto de roupas est cheio. Seu pai amanh vai ver aquele amigo dele que lhe prometeu um emprego. Quer usar a camisa bege que est no cesto. 
No se esquea de pass-la.
  - A senhora bem que podia ter passado a camisa. Estou cansada.
  - Voc sabe que o calor do ferro me faz mal. Voc devia ser a primeira a querer que seu pai arranje o emprego. Mas ele no pode se apresentar mal-arrumado.
  - Eu sei. Pode deixar, eu passo.
  Ela estendeu o leno, passou a camisa e mais algumas peas. Por que sua me era to acomodada? Ficava em casa o dia inteiro. Por que no passava pelo menos a roupa? 
Por fim, acabou passando o leno e dobrando-o com capricho.
  - De quem  esse leno to cheiroso? - perguntou Geni.
  - De uma colega da oficina - mentiu ela.
  - Puxa, mesmo depois de lavado o perfume no saiu.
  - Pronto, passei um pouco da roupa. Agora a senhora guarda.
  Ela pegou o leno e foi para o quarto. O leno estava mido quando ela passou, talvez por essa razo o perfume houvesse se espalhado.
  Jacira tomou um banho e deitou-se. O leno estava em sua mesa de cabeceira. Apanhou-o e sentiu seu perfume. Deitada, comeou a imaginar como seria a vida daquele 
homem, to bem-vestido e cheiroso.
  Certamente residia em uma bela casa, cheia de objetos bonitos, tinha uma famlia alegre, bonita.
  Como ele dividiria seu tempo? Certamente frequentava lugares finos, ia a cinemas, teatros.
  Como seria bom se ela tambm tivesse uma vida assim. Comeou a imaginar o que faria se tivesse muito dinheiro. Se ganhasse na loteria, por exemplo, e ficasse muito 
rica.
  Diria adeus a Noel, compraria uma casa linda, vestiria roupas finas e trataria de gozar a vida. Mas na idade dela? Era tarde demais. Estava acabada, velha, feia.
  Apesar desses pensamentos desagradveis, gostaria que esse sonho se realizasse. Pelo menos, no teria de trabalhar e seus pais teriam conforto, no iriam mais 
se queixar de nada
  De repente, lembrou-se: como haveria de ganhar na loteria se nunca comprava um bilhete? No fim do ms, quando recebesse, compraria pelo menos um pedao dele.
  Depois mudou de ideia. Apostar na loteria era para os que tm sorte. Ela nunca tivera sorte na vida. Seu destino seria o de ser pobre a vida inteira.
  Pensando assim, virou-se para o lado, adormeceu e sonhou. Estava sentada em uma sala rodeada por vrias pessoas desconhecidas.
  Uma mulher levantou-se e aproximou-se dela dizendo:
  - Chegou a hora de voc ser julgada. Onde esto os talentos que a vida lhe deu? O que fez com eles?
  - A vida nunca me deu nada. Tudo para mim tem sido muito difcil.
  - Por que voc no quer ver? Temos provocado voc para ver se acorda, mas tem sido intil. Quando vai cuidar de voc?
  - O que deseja de mim? Tenho sido uma filha obediente, trabalhado sem parar. O que mais quer?
  - Voc nasceu para progredir, aprender mais, crescer. Em vez disso, acomodou-se na inrcia, no fez nada por si e s reclama, como se no fosse a responsvel pela 
situao em que vive.
  Jacira irritou-se e gritou:
  - Quem  voc que me acusa? A vida inteira me dediquei a minha famlia, tenho procurado conviver bem com os outros sem pensar em mim. No  isso que a religio 
manda fazer?
  - No falo de religio, falo da vida. Antes de cuidar dos outros,  preciso cuidar de si.  preciso ter para poder dar. E voc se esqueceu de suas necessidades 
pessoais, 
entrou em uma rotina destrutiva que s vai lev-la  doena e ao sofrimento.
  Jacira olhou em volta e notou que as pessoas a olhavam acusadoras. Teve medo:
  - Por que me trouxeram aqui? No sou uma criminosa para ser julgada. Sou uma pessoa direita, cumpridora dos meus deveres.
  - Voc est aqui porque no cumpriu seu dever maior: o de cuidar do prprio progresso.
  - Como posso ter progresso se nasci pobre, nunca tive chance de fazer nada por mim?
  - Voc nunca foi pobre. Tem um corpo saudvel, perfeito, que seria bonito se voc cultivasse a alegria, o prazer de viver, a ousadia de fazer o que seu esprito 
gosta. Voc  rica e sua riqueza no tem nada a ver com dinheiro. Ela est dentro de voc, e voc s precisa enxerg-la e deix-la sair.
  Jacira olhou-a admirada.
  Isso no  verdade. Sou feia, apagada, desagradvel, as pessoas no gostam de mim.
  -  assim que voc se v, mas se quisesse poderia mudar isso. Tornar-se bonita, agradvel, alegre, amada.
  - No acredito nisso. Depois, estou velha, no adianta mais.
  - Se deseja continuar pensando assim,  um direito seu. Estou dizendo a verdade. Voc est onde se pe.  a lei da vida. Se voc escolher se colocar em um lugar 
melhor, sua vida mudar e coisas boas comearo a acontecer. At agora tem escolhido mal o seu caminho e o resultado  o que voc tem. Mas ainda  tempo de mudar. 
De colocar para fora todo amor, alegria e luz que a vida lhe deu e voc apagou. A escolha est em suas mos!
  Jacira acordou ainda ouvindo as ltimas palavras da mulher e sentou-se na cama impressionada. A cena do sonho estava viva em sua lembrana. Parecia verdade. Levantou-se, 
acendeu a luz e parou diante do espelho.
  Seus cabelos eram sem brilho, sua camisola de algodo no deixava as formas do seu corpo aparecerem. Prestou ateno aos olhos. Eram grandes, porm tristes, e 
as 
olheiras deixavam sua fisionomia abatida. A boca era bem feita, e os dentes claros e bem distribudos. Sua pele, apesar de nunca a ter cuidado, era lisa e delicada.
  Sentou-se na cama pensativa. H muito no olhava para seu corpo com ateno. No gostava da sua aparncia e queria apag-la de sua mente.
  Abriu o guarda-roupas e apanhou alguns vestidos. Parecia-lhe estar vendo-os pela primeira vez. Eram feios, deselegantes, sem graa.
  Quando adolescente gostava de roupas da moda, porm sua me no aprovava e dizia que ela no tinha gosto, no sabia escolher. Ento, ela mesma escolhia o que Jacira 
deveria vestir.
  - Uma menina no pode sair por a vestida como uma vedete. Precisa ser discreta para arranjar um bom casamento e no ser chamada de sirigaita.
  Ela obedeceu, mas de que adiantou? Ningum nunca quis casar-se com ela. Enquanto as vizinhas, as primas, casavam-se, ela ia ficando para trs.
  Uma dvida surgiu em sua mente pela primeira vez:
  "Ser que se no tivesse dado ouvidos a sua me e se arrumado do jeito que queria, teria sido diferente? Teria aparecido algum que a amasse e se casasse com ela?"
  De repente, uma onda de raiva a acometeu. Estava cansada de ser a bem-comportada, a sempre disposta a fazer o que os outros queriam e engolir seus desejos ntimos.
  O que ganhara deixando-se conduzir pela me daquela forma, sacrificando sua juventude para atender aos desejos da famlia sem nunca fazer as coisas como gostaria?
  Pensativa, recostou-se na cama. A cena do sonho voltou-lhe  lembrana e as palavras daquela mulher reapareceram fortes.
  "- Voc est onde se pe.  a lei da vida. Se voc se colocar em um lugar melhor, sua vida mudar e coisas boas comearo a acontecer. A escolha est em suas mos!"
  Ah! Se ela pudesse realmente escolher... Comeou a imaginar o que faria se essas palavras fossem verdadeiras.
  Tirou a camisola grosseira e procurou vestir alguma coisa mais ajustada, porm no encontrou nada que lhe agradasse.
  Procurou na gaveta da cmoda o envelope onde guardava o dinheiro para suas despesas at receber o novo salrio. Restava pouco. A prestao da mquina de lavar 
roupas levava boa parte dele.
  Apesar disso, no dia seguinte, iria procurar alguma liquidao para comprar um vestido ou uma blusa nova. Olhando desanimada para as roupas sobre a cama, sentiu 
vontade de rasg-las e jog-las no lixo.
  Suspirou triste. Se fizesse isso, como iria trabalhar no dia seguinte?
  Mas se ela pudesse mesmo escolher, compraria aquele vestido azul que vira na revista. Levantou-se, apanhou a revista e comeou a folhe-la.
  No tinha condies de comprar nada do que havia nela. Apareceu o vestido azul e desta vez pareceu-lhe mais bonito do que antes. Com um vestido como aquele, qualquer 
mulher ficaria bonita. At ela.
  E os complementos? Quais combinariam com ele? Sapatos, bolsa, bijuterias...
  Ah! Se aquele sonho fosse verdade... Se ela pudesse mesmo escolher! Fechou os olhos e comeou a se imaginar vestindo aquele vestido, os colares, os brincos, tudo.
  Uma onda de prazer a acometeu. Abriu os olhos e olhou em volta e nunca seu pequeno quarto, sua moblia, seus objetos de uso pessoal lhe pareceram to feios.
  -A escolha est em suas mos!"
  Ento decidiu que no dia seguinte, iria comprar alguma coisa nova s para si. H quanto tempo no fazia isso?
  Faria isso mesmo que tivesse de ficar alguns dias sem almoar. Mas escolheria algo do seu gosto. Que lhe desse prazer.
  Fazer compras era para ela uma obrigao desagradvel. Quando recebia fazia a despesa do ms e sempre levava algum agrado para os pais.
  Como o dinheiro era pouco e precisava durar at o fim do ms, apesar da boa vontade, nem sempre conseguia comprar alguma coisa que eles realmente gostavam.
  No se esquecia do doce de leite para a me nem do pacote de cigarros para o pai. s vezes eles reclamavam da qualidade dos alimentos, o arroz era novo e empapava, 
o feijo era duro e no engrossava, a carne era dura, certamente o boi era velho...
  Jacira estava habituada com as queixas e procurava no responder. De que adiantaria? Eles sempre foram insatisfeitos. Talvez porque a vida no lhes houvesse dado 
a alegria que desejavam. Deitou-se e tentou dormir. Mas o sono custou a aparecer.
  Na manh seguinte, quando o despertador tocou, Jacira acordou assustada. Apesar do sono que sentia, correu para o chuveiro. Depois, ainda envolta na toalha, procurou 
uma roupa e no gostou de nada.
  Lembrou-se do sonho. Imaginar fora fcil, porm a dura realidade de sua vida era bem outra. Resignada, apanhou qualquer um dos vestidos e vestiu. Depois foi ao 
espelho. 
No gostou do que viu.
  O que estava acontecendo com ela? Aquele vestido sem graa a deixava mais velha. Sobrava pano na cintura e ela segurou o vestido com ambas as mos, ajustando-o.
  Certamente ficaria melhor mais justo. Mas o tecido era grosseiro e no tinha caimento.
  Geralmente, passava uma esponja de p nas faces, um batom claro e penteava os cabelos rapidamente. Naquela manh, porm, apanhou o pente e puxou os cabelos nas 
laterais, prendendo-os com um grampo.
  Olhou-se no espelho e notou que fazendo isso, seus olhos pareciam maiores. Decidida, apanhou o envelope com o dinheiro e colocou-o na bolsa.
  Assim que desceu para o caf, Geni olhou-a admirada:
  - O que voc fez com os cabelos?
  - Prendi um pouco.
  - Pois eu prefiro como voc sempre usou.
  Ela fingiu que no ouviu. Sentou-se, serviu-se de caf com leite, apanhou o po, passou margarina e comeou a comer.
  - Seu pai precisa de dinheiro para a conduo.
  Ele vai ver um emprego na Penha.
  - A semana passada j deixei dinheiro para ele. - Deixou, mas acabou. Ele precisou e gastou.
  -  bom ele no fazer isso porque s vou receber daqui a uma semana.
  Geni suspirou e tornou com voz queixosa:
  - No sei o que eu fiz para ser castigada dessa forma.  triste envelhecer, depois de toda uma vida dedicada ao trabalho e ter de depender dos filhos.
  - Estou fazendo o que eu posso.
  - s vezes penso que voc se acomodou. A filha da d. Olga trabalhava como voc em uma oficina de costura, mas procurou e encontrou um emprego melhor. Hoje eles 
esto 
bem. Ela compra tudo do bom e do melhor para a famlia.
  - Ela teve mais sorte do que eu. Seria melhor que ela fosse a filha de vocs. No eu.
  Geni levantou-se irritada:
  - No se pode falar nada que voc logo vem com uma resposta torta.
  Jacira levantou-se, apanhou a bolsa e saiu sem dizer nada. Uma vez na sala, deixou alguns trocados para o pai e se foi.
  Naquele dia, Jacira observou suas colegas de oficina e notou que algumas se vestiam com mais capricho. Eram roupas baratas, ela sabia, mas graciosas, elegantes.
  Na hora do almoo, elas caprichavam na maquiagem. Notou tambm que quando passavam na rua, atraam a ateno dos homens.
  Ah! Como ela gostaria de ser uma delas. De passar, sem olhar, fazendo pose e provocar comentrios, olhares de admirao.
  Ela nunca atrara a ateno masculina. Naquele momento pareceu-lhe ouvir a voz da me dizendo:
  -Uma mulher precisa ser discreta. No pode sair por a chamando a ateno dos homens para no ser confundida com uma prostituta".
  Suas colegas no estavam sendo confundidas com nenhuma prostituta. Ao contrrio. Estavam sendo admiradas, duas j tinham namorado firme.
  Pela primeira vez percebeu que sua me estava errada. Ela apagara sua beleza, fazendo-a passar despercebida de tal sorte que nunca ningum desejou namor-la.
  Uma raiva surda brotou no seu corao, contra a forma como fora educada. Perdera sua juventude e agora talvez fosse tarde demais para mudar.

  II
  O despertador tocou, Jacira abriu os olhos e olhou o relgio. Estava na hora de levantar-se. A cama estava gostosa e ela tinha vontade de dormir mais um pouco. 
Mas 
reagiu, levantou-se e foi lavar o rosto para combater o sono.
  Depois, abriu o guarda-roupas procurando o que vestir. No gostou de nada, mas apanhou um deles e vestiu. Olhou-se no espelho e teve vontade de tir-lo. Era deselegante, 
escuro e o tecido grosseiro no lhe caa bem. Depois, batia quase no tornozelo, nenhuma de suas colegas usava roupas to compridas.
  Abriu novamente o guarda-roupas tentando encontrar um vestido mais bonito, no viu nenhum. Conformou-se em ir trabalhar com aquele mesmo.
  Levantou um pouco o vestido e achou que ficaria melhor mais curto. Mas no tinha tempo para encurt-lo. Poderia tambm fazer algumas pensas ajustando-o na cintura. 
Mas como no havia tempo para isso, resignou-se e saiu assim mesmo.
  Escovou os cabelos e notou que eram ondulados e brilhosos. Talvez se comprasse uma fivela para prender nas laterais ficasse melhor. Passou um pouco de p no rosto 
e coloriu os lbios com batom, mas com um pedao de papel higinico tirou o excesso deixando quase nada.
  Sua me dizia que s as artistas ou prostitutas pintavam o rosto.
  Desceu para o caf. Geni colocou o bule sobre a mesa e olhando-a disse:
  - Voc no acha que est pintada demais?
  Jacira sentiu a raiva voltar, tentou controlar-se e no respondeu. Serviu-se de caf com leite. Apanhou o po e, mesmo notando que estava amanhecido, no reclamou. 
Passou margarina e molhou o po no caf com leite, comendo.
  - Voc no ouviu o que eu disse?  melhor lavar essa cara pintada. No pode ir trabalhar desse jeito.
  Foi a gota d'gua. Jacira olhou para a me e disse entre dentes:
  - Eu posso e vou trabalhar do jeito que eu quiser. Apanhada de surpresa, Geni no respondeu. Jacira continuou:
  - No adianta me olhar com esse ar inocente. Estou cansada de fazer s o que vocs querem. De hoje em diante s vou fazer o que eu quiser. E eu quero me pintar, 
usar roupas bonitas, como as minhas colegas de trabalho.
  - No acredito no que estou ouvindo! Por que est falando assim comigo? Eu sou sua me e toda a minha vida tenho sacrificado pela famlia.
  - Eu no pedi que fizesse isso por mim. Dispenso seu sacrifcio. Eu posso cuidar de mim.
  Geni rompeu em soluos gritando:
  - Que ingratido! Nunca esperei isso de voc. Aristides apareceu na porta:
  - O que est havendo aqui? Que barulho  esse? No posso nem ler meu jornal sossegado.
  Geni olhou o marido e respondeu chorosa:
  - S porque pedi a Jacira que tirasse a pintura do rosto, ela me respondeu mal, destratou-me. Nao posso suportar isso, depois de tudo o que tenho feito por 
ela!
  - Voc fez isso mesmo para sua me?
  - Eu vou sair do jeito que eu quero, no vou lavar o rosto.
  - Sua me fala para o seu bem. Uma boa filha deve obedecer.
  - Meu bem? O senhor acha que a vida que estou levando  um bem? Vestindo-me mal, vivendo como um burro de carga, trabalhando sem nunca fazer nada do que gosto?
  - A vida  ingrata mesmo. Veja meu caso. Depois de tantos anos de trabalho fiquei desempregado tendo de viver  custa dos filhos.
  - De mim, o senhor quer dizer, porque os outros dois foram mais espertos e saram de casa.
  - Est vendo, Tide? Nunca esperei que nossa filha fizesse isso!
  - ... De fato... O que deu em voc?
  - Eu me cansei, pai. Cansei-me, ouviu? De hoje em diante s vou fazer da minha vida o que eu quiser. No quero conselhos de ningum, muito menos de vocs dois.
  Olhando-o com raiva, Jacira apanhou a bolsa e saiu. Os dois ficaram se olhando assustados.
  - 0 que ser que deu nela? - perguntou Aristides.
  - Acho que  falta de casamento. Pelo menos se tivssemos arranjado um marido para ela, hoje ele ajudaria a sustentar a casa.
  - Pois eu acho que se ela tivesse marido, h muito teria nos abandonado. Foi melhor termos evitado que se casasse. Depois, quem se interessaria por ela? Jacira 
 
sem graa.
  - Mas nunca ps as manguinhas de fora como hoje. Estou assustada.
  - Bobagem. Isso passa. Logo estar de volta, arrependida como sempre. Jacira sempre foi uma filha obediente.
  - Voc acha mesmo?
  - Claro. Ela precisa de ns.  sozinha, no tem amigos nem nada. Isso vai passar.
  Jacira saiu de casa sentindo as pernas trmulas e a raiva tumultuando seus pensamentos.
  Quantos anos de sua vida perdera ouvindo os conselhos errados de seus pais? A vida toda, sempre que ela desejava arrumar-se melhor, ter um pouco de vaidade pessoal, 
eles a continham, alegando que nela no ficava bem, que ela no era bonita, que sendo pobre deveria conformar-se em ter uma vida dura, difcil e no esperar nada 
melhor.
  Por que acreditara neles? Por que deixara passar sua juventude se apagando sem nunca ter tido prazer nem amor?
  O que deveria fazer de sua vida agora? Deveria conformar-se e continuar como sempre fora?
  Talvez fosse tarde para tentar mudar. Sentia-se velha e ao mesmo tempo inexperiente. Mas dentro dela brotava uma energia que nunca havia sentido, um desejo de 
viver, 
de experimentar o gosto das coisas das quais sempre se privara.
  Mas como fazer isso? Como sair da mediocridade em que estava mergulhada e buscar coisas novas?
  Chegou  oficina, iniciou seu trabalho, mas mil pensamentos tumultuavam sua cabea. De uma coisa estava certa: como estava no poderia ficar.
  Quando o sinal tocou para o almoo, suas companheiras saram, porm ela ficou. Estava sem fome. Postou-se diante do espelho e comeou a pensar em modificar seu 
vestido. Decidiu no s ajust-lo como encurt-lo. Tirou-o, vestiu o jaleco e comeou a reform-lo.
  Pouco antes de suas colegas voltarem do almoo, ela j havia terminado. Vestiu-o novamente e voltou ao espelho.
  Gostou do resultado. Parecia mais alta e mais magra. Sua cintura era fina e ela pensou em comprar um cinto. Olhou o relgio e viu que tinha apenas dez minutos, 
no daria tempo.
  Sentiu fome, apanhou a carteira e foi  padaria da esquina comprar um po com manteiga. Algumas colegas suas estavam na porta da oficina e outras estavam chegando.
  Jacira notou que algumas a olharam admiradas e seu corao bateu mais forte. Entrou na padaria, um homem tomava caf no balco e comeou a olh-la fixamente.
  Ela sentiu as pernas bambas. Era a primeira vez que um homem a olhava daquela forma. Apesar de assustada, sentiu uma sensao agradvel. Fingiu que no viu. Comprou 
o po e saiu tentando dissimular a emoo.
  Entrou na oficina, sentou-se em um canto discreto e comeou a comer o po. Margarida aproximou-se:
  - Voc vai comer s isso?
  Jacira olhou-a surpreendida. Suas colegas nunca a procuravam para conversar.
  - Vou. Estou sem fome.
  - Quer um pouco de guaran?
  Antes que Jacira respondesse, ela apanhou um copo, despejou o guaran e deu-o a ela que, embora acanhada, segurou-o dizendo: 
  - Obrigada.
  Margarida sorriu contente. Era uma mulher de cerca de trinta anos, baixa estatura, olhos escuros, rosto quadrado, cabelos lisos e negros. Fazia mais de um ano 
que 
ela trabalhava na oficina, era de pouca conversa, geralmente andava sozinha.
  O relacionamento de Jacira com ela nunca fora alm do cumprimento formal. Margarida sentou-se ao lado dela e olhando-a disse:
  - Ainda bem que voc resolveu dar um jeito nesse seu vestido. Muitas vezes tive vontade de fazer isso. Antes de trabalhar aqui eu tinha uma casa de moda. Infelizmente, 
perdi tudo e no me restou alternativa, seno aceitar este emprego.
  - Eu no sou modista, mas estou cansada de minhas roupas.
  - Voc tem um corpo bonito, cintura fina, corpo bem feito. Se eu tivesse um corpo como o seu, andaria sempre com roupa bem justa.
  - Eu tambm no gosto dos meus vestidos, mas minha me no gosta que eu use vestido justo.
  Margarida olhou-a admirada:
  - Voc andava assim para no contrariar sua me?
  - . Ela  doente, meus dois irmos foram embora, fiquei s eu. Meu pai est desempregado e anda muito nervoso. Eu cuido deles.
  - Hum! Sei. Eu tenho um filho de seis anos para sustentar.
  - E o seu marido?
  - No sou casada. Tive um caso e quando ele soube que eu estava grvida, foi embora. Mas no liguei, no. Sou suficiente para cuidar do meu filho.
  - E sua me? No brigou com voc?
  - Ela e meu pai queriam que eu fizesse um aborto, mas eu no quis e assumi o filho, mandaram-me embora de casa. No me arrependo. O Marinho iluminou minha vida.
Jacira notou o brilho dos olhos dela ao dizer isso e sentiu uma ponta de inveja. Suspirou pensativa. Margarida perguntou:
  - E voc,  casada?
  - Eu? No.
  Nos olhos dela apareceu o brilho de uma lgrima. Teve vergonha de confessar que nunca havia tido sequer um namorado.
  O sinal soou, Jacira tomou o restante do guaran e entraram.
  Durante todo o expediente Jacira s pensou nos acontecimentos do dia. Alguma coisa havia mudado. Podia sentir. O homem na padaria e a aproximao de Margarida 
sinalizavam que ela estava diferente.
  Na hora da sada, Margarida aproximou-se novamente:
  Voc no leva a mal se eu lhe disser uma coisa?
  No. Pode falar, o que ?
  J que mudou o vestido, por que no faz um bom corte nos cabelos?
  - Eu gosto deles compridos.
  - Para seu formato de rosto, se eles fossem mais curtos, voc tiraria uns dez anos de cima. 
  - Voc acha?
  - Acho. Quando eu trabalhava com moda, sabia bem o que combinava com qu. Pode acreditar, sei o que estou dizendo.
  - , pode ser. Mas agora no tenho dinheiro para isso. Quando receber estou pensando em comprar um vestido.
  - Eu tenho um amigo que tem um salo e corta cabelo de muitas madames.  um profissional. Se quiser eu posso ir com voc e ele vai cobrar bem barato.
  - Est bem. Quando eu decidir, falo com voc.
  Elas foram caminhando at o ponto de nibus, mas cada uma ia para um lugar diferente, por essa razo se separaram.
  Depois das dificuldades de sempre, Jacira chegou em casa. Assim que entrou, ouviu uma exclamao assustada
  - Jacira! O que voc fez? 
  - Nada, me!
  - O que aconteceu com seu vestido? Encolheu?
  Jacira sentiu uma onda de rancor. Naquele instante todo seu sentimento de revolta aflorou com violncia e ela no conseguiu se dominar.
  Encarou Geni com raiva e respondeu com voz alterada:
  - No, me. Eu o apertei.
  - Que horror. Est parecendo uma prostituta.
  - Voc acha? Pois de agora em diante vai ser assim. Estou cansada de andar vestida como uma velha. Quero andar na moda, viver como todas as moas.
  - Pois voc j  uma velha. S faltava agora ser uma solteirona sirigaita. V j tirar esse vestido. 
  - No vou.
  - No ouse me contrariar. Sabe que no posso passar nervoso. Sou uma pessoa doente. Quer me matar?
  Aristides apareceu na sala dizendo irritado:
  - Ser que no se pode ler o jornal sossegado? Que barulho  esse?
  -  sua filha que est acabando comigo. 
  - O que voc fez, Jacira?
  - Nada demais. Acontece que cansei de andar vestida como uma velha. Decidi mudar minha maneira de ser. Vou andar na moda.
  - Veja. Ela acha que andar na moda  usar esse vestido apertado, curto, como essas mocinhas de agora, de cara pintada, que so faladas. Depois de velha quer nos 
envergonhar.
  Aristides mediu Jacira de alto a baixo e no achou nada de diferente. Geralmente ele no olhava muito para a filha. Mas no querendo contrariar Geni, tentou contemporizar:
  - Sua me fala para o seu bem. Melhor obedecer. - Desta vez no vou obedecer. Todas as colegas da oficina usam roupas assim e eu vou continuar usando. Vou reformar 
todos os meus vestidos.
  - Est vendo, Tide? Ela quer acabar comigo! Ai, estou me sentindo mal. Acho que vou desmaiar. 
  Aristides correu para ampar-la, certo de que Jacira iria ajud-lo, mas ela deu de ombros dizendo:
  - E melhor se acostumar. Vou tomar um banho. 
  E subiu para o quarto. Geni chorou um pouco nos braos do marido para no dar o brao a torcer.
  - O que aconteceu com ela? Sempre foi uma boa filha. So as ms companhias, com certeza.
  Aristides odiava as queixas da mulher e respondeu: 
  - Cuidado com o que voc fala. Jacira nem amigas tem.
  - Devem ser as colegas da oficina que enchem a cabea dela.
  - Esquea isso. No fale nem de brincadeira. Ela est revoltada. J pensou se resolve deixar o emprego? Do que vamos viver?
  - Voc  um velho imprestvel. No consegue nem arranjar trabalho.
  - No brigue comigo. No tenho culpa das bobagens de Jacira.
  - Bobagens? Chama isso de bobagens? Quero ver quando nossa filha ficar falada se voc no vai me dar razo.
  -  melhor se acalmar. Ela vai refletir e voltar atrs. Voc vai ver. Agora quero ler meu jornal.
  Ele foi para o quarto, fechou a porta e mergulhou prazerosamente na leitura.
  Jacira tomou um banho, vestiu o roupo e abriu o guarda-roupas para procurar o prximo vestido que iria reformar.
  Quanto mais olhava suas roupas, menos gostava delas. Parecia que as estava vendo pela primeira vez. Eram horrveis.
  Depois de muito procurar, sentou-se na cama desanimada. Se tivesse dinheiro, jogaria todos no lixo e compraria tudo novo. Mas isso era impossvel. Tinha de conformar-se 
em ir tentando melhor-los como podia.
  At seu emprego na oficina, que sempre considerara uma sorte ter conseguido, naquele momento pareceu-lhe pssimo, uma vez que trabalhava muito e no fim do ms 
no 
ganhava o suficiente nem para comprar algum vestido.
  Tambm, as despesas da casa estavam cada dia mais altas. Era s ela a trabalhar e todos a consumir. A cada dia estava mais difcil para seu pai arranjar emprego. 
E se ele nunca mais conseguisse trabalhar? Ela teria de sacrificar-se pelo resto da vida.
  No era justo. Ela devia ter ido embora de casa como os irmos fizeram. Eles foram espertos.
  Mas ao mesmo tempo sentia remorsos por estar pensando assim. Precisava arranjar um emprego melhor. Mas onde? No tinha uma profisso que lhe permitisse ganhar 
mais.
  Naquele momento arrependeu-se de no ter continuado estudando. Assim que terminara o ensino fundamental I, comeara a trabalhar para ajudar em casa. No fim do 
ms dava todo o salrio para a me, que lhe comprava as roupas e pagava a conduo.
  Nunca mais pensou em estudar. Quando seu pai perdeu o emprego comearam as dificuldades.
  Se ao menos ela houvesse encontrado um marido que a ajudasse a manter a famlia, no se importaria de ganhar pouco. Pelo menos teria um amor, filhos, que compensariam 
todos os sacrifcios.
  Mas triste, sem amor, s trabalhando, envelhecendo sozinha, no dava para aguentar. Estava no limite de sua resistncia.
  Quando assistia a um filme de amor, sentia arder dentro dela o desejo de experimentar essa emoo. Mas ningum sequer a olhava.
  Lembrou-se novamente do olhar do homem da padaria. Ele era alto, forte, no se lembrava bem do rosto dele. Tivera vergonha de encar-lo, s conseguia recordar 
o 
brilho dos olhos dele e o prazer de ser vista pela primeira vez como mulher.
  Ela precisava fazer alguma coisa. Se continuasse como estava iria ficar cada vez mais velha, mais feia e mais pobre. A esse pensamento resolveu reagir. Levantou-se 
e foi ao guarda-roupas, escolheu o vestido que lhe pareceu menos feio e quando o colocou sobre a cama, lembrou-se de que fora com aquele vestido que conhecera aquele 
homem perfumado, bem-vestido, que a amparara ao descer do nibus. Ele lhe oferecera ajuda. Teria condies de fazer alguma coisa?
  Procurou o carto na gaveta, encontrou-o e leu: Ernesto Vilares. Ficou pensativa.
  "Devia ir v-lo? E se fosse uma pessoa mal-intencionada? Ele mostrara-se respeitoso, educado. No lhe parecera um homem perigoso. Depois, o que ela tinha a perder? 
Pior do que estava sua vida no poderia ficar. Iria at l no dia seguinte a pretexto de lhe devolver o leno e, assim, poderia conhec-lo melhor."
  Ele era um homem fino, elegante, ela gostaria de apresentar-se melhor, olhou o vestido que colocar sobre a cama. Era escuro e sem graa. Mas os outros eram piores, 
conformou-se em tentar reformar aquele mesmo.
  Deitou-se, mas custou a adormecer. Mil pensamentos tumultuavam sua cabea. Ora pensava em ir embora de casa, ora sentia que se abandonasse os pais eles no teriam 
como se sustentar.
  Ela teria de ficar. Mas uma coisa era certa, no se submeteria a eles como antes. Estava determinada a decidir o que fazer de sua vida dali para a frente.
  Procurou encontrar um jeito de melhorar sua vida e, embora sabendo que seria difcil, decidiu no desistir. Do jeito que estava no podia continuar. Pensando nisso, 
finalmente conseguiu adormecer.

  Ww III
  Na manh seguinte, quando chegou  oficina de costura, Margarida a esperava com um sorriso:
  - Vamos entrar, tenho uma coisa para voc.
  Jacira, curiosa, acompanhou-a at o toalete.
  - Veja este vestido.  do tempo que eu trabalhava com moda. Foi o nico que restou. Infelizmente, no serve para mim, mas estou certa de que serve como uma luva 
em voc. O que acha?
  Ela segurou o vestido que tirara da sacola e os olhos de Jacira brilharam. Era de seda azul-escuro, muito bonito, e ela adorou.
  -  lindo! Nunca tive um vestido de seda! Mas deve ser caro. No tenho como compr-lo.
  - Eu no estou vendendo.  um presente. Guardei-o como recordao e esperava poder voltar a trabalhar no meu ramo.
  - Mas no posso aceitar! Voc pode vend-lo e conseguir um bom dinheiro por ele!
  - Ele no me custou nada. Ganhei o tecido e eu mesma fiz.  um presente. Experimente. Vamos ver como fica em voc.
  As mos de Jacira tremiam quando segurou o vestido colocando-o na frente do seu corpo.
  - Vamos, experimente. Logo vai tocar o sinal e teremos de entrar!
  Margarida ajudou-a a despir-se e a colocar o vestido. Ajeitou o fecho, os ombros, depois disse triunfante.
  - Eu no disse? Ficou lindo! Meu olho ainda  bom. Sei quando uma roupa vai cair bem.
  - Gostaria de ver como ficou, mas o espelho aqui  to pequeno!
  - No vai precisar fazer nada. Est perfeito. Pode lev-lo.  seu.
  Os olhos de Jacira encheram-se de lgrimas. Abraou a amiga dizendo:
  - Obrigada! Nunca esquecerei o que est fazendo por mim.
  - Eu adoro ver uma pessoa elegante, bem-vestida.
  - Voc  uma modista de classe. Por que continua trabalhando nesta oficina? Poderia costurar para fora.
  - Eu gostaria. Mas no tenho uma cabea boa para fazer contas. Acho que foi por essa razo que tudo deu errado.
  - Pois eu sou boa nas contas. Se no fosse, no poderia sustentar meus pais com o que ganho aqui.
  A campainha soou e Margarida ajudou-a a tirar o vestido e a colocar o outro. Depois, ambas se apressaram a ir para o salo de trabalho.
  Durante o dia inteiro Jacira trabalhou pensando no vestido que ganhara. No via gora de ir para casa e vesti-lo novamente, olhar no espelho para ver como ficara.
  O dia custou a passar e ela ate se esqueceu de reformar o vestido conforme havia planejado. Quando deu o sinal, apressou-se a sair, segurando a sacola com o vestido 
como se fosse um tesouro.
  Margarida aproximou-se dizendo:
  Vou sair com voc. O porteiro pode estranhar voc levar o vestido que eu trouxe.
  Ele deve saber que voc entrou, com essa sacola.
  Eu lhe mostrei, mas na sada  bom que ele saiba que eu lhe dei.
  Ao passar na portaria, Jacira abriu a bolsa e a sacola, como de praxe, e ambas puderam sair. Na rua, ela agradeceu mais uma vez a amiga e dirigiu-se  fila do 
nibus, como de costume.
  A espera pareceu-lhe mais longa do que de costume. Finalmente, conseguiu entrar no nibus e pegar um lugar no ltimo banco. Algumas pessoas preferiam ficar em 
p 
na frente, do que se sentar atrs, porque ficava mais difcil na hora de descer.
  Eia chegou em casa j havia anoitecido. Nem se importou com as recomendaes da me que, como sempre, havia deixado a cozinha para arrumar. Foi direto para o quarto, 
vestiu o vestido, abriu a porta do guarda-roupas onde havia um espelho grande e olhou.
  O vestido lhe assentara como uma luva. O modelo afinara sua cintura, o decote em V ressaltara seu busto e ela reconheceu que tinha um corpo bem feito.
  Emocionada, passava as mos pelo vestido sentindo a delicadeza da seda, virando-se de um lado a outro com os olhos no espelho. Seu corpo parecia de outra pessoa, 
contudo, no gostou dos seus cabelos. Seu penteado no combinava nada com aqueles trajes.
  Desanimada, sentou-se na cama pensando:
  "De que adianta ganhar este vestido to lindo se eu no tenho classe suficiente para us-lo? Depois, aonde irei com um vestido desses? Certamente no o usaria 
para 
trabalhar". E ela nunca saa para passear.
  Tirou o vestido, pendurou-o no cabide, guardou-o no armrio. Por que para ela as coisas no davam certo? Ganhara um vestido lindo, mas no tinha aonde ir, nem 
sapatos 
e bolsa que combinassem. Suspirou triste.
  Geni bateu na porta dizendo:
  - Jacira, o que est fazendo fechada no quarto? Seu pai quer falar com voc.
  - J vou.
  Em seguida, ela colocou um vestido, desceu, e foi at a sala onde Aristides folheava o jornal. 
  - Quer falar comigo, pai?
  - Sim. Eu preciso de dinheiro. O Joo me disse que em Jundia, na fbrica de tecidos, esto precisando de gente. Quero tomar um trem e ir at l.
  - Pai,  muito longe. No d para trabalhar todos os dias a essa distncia.
  - Eu preciso de emprego. Voc e sua me vivem dizendo que no arranjo trabalho porque me acostumei sem fazer nada. Eu quero trabalhar. Posso ir para l, sim.
  - Ser caro e cansativo.
  - Eu posso me mudar para l.
  - Isso no  possvel. Eu trabalho aqui. Se nos mudarmos perderei meu emprego.
  - Vocs ficam, eu posso morar l sozinho.
  - J pensou que teria que pagar penso ou aluguel e no fim do ms no teria nem dinheiro para pagar as contas?  melhor desistir dessa ideia.
  - Est vendo, Geni? Eu quero trabalhar, mas vocs me atrapalham.
  - Jacira tem razo. Voc no ganharia nem para as despesas. Depois, como sabe se eles o aceitariam? Voc j passou dos cinquenta.
  - Vocs querem me desanimar.
  - Nada disso, pai, em tudo  preciso ter bom senso. 
  - Quer dizer que voc no vai me dar o dinheiro? 
  - No vou. Vamos procurar um emprego aqui mesmo.
  - Se ao menos eu tivesse dinheiro para me inscrever em uma agncia...
  - No ano passado voc se inscreveu, pagou a taxa apenas para descobrir que j passou da idade em que as fbricas aceitam os operrios.
  - Do jeito que voc fala no vou arranjar emprego nunca.
  - Se voc fosse mais modesto e pegasse o que aparece estaria trabalhando. Mas no quer rebaixar o seu nvel salarial na carteira.
  -Isso eu no fao mesmo. Sou um operrio especializado. Trabalhei mais de vinte anos. No posso agora aceitar qualquer coisa para no morrer de fome.
  Jacira suspirou desanimada e respondeu:
  - Est bem, pai. Faa como quiser.
  - No adianta falar com ele - comentou Geni irritada -,  teimoso feito uma mula. Bem que ele poderia ter aceitado o lugar de vigia na oficina do Valdemar.
  Jacira afastou-se para no ouvir aquela discusso de sempre. Foi  cozinha, e, mesmo sem fome, apanhou o prato feito que estava no forno, olhou-o e colocou-o novamente 
no mesmo lugar.
  Estava cansada. Resignada, apressou-se a arrumar a cozinha, queria ir para o quarto dormir.
  Quando terminou tudo e estava subindo as escadas para o quarto, Geni gritou da sala:
  - No se esquea de acordar mais cedo amanh para buscar po. No temos nem po velho para o caf.
  Sem responder, Jacira entrou no quarto e fechou a porta. Estendeu-se na cama vestida sentindo pena de si mesma e da vida sem graa que levava.
  Ela sentia que estava no limite de suas foras e precisava esforar-se para no reagir e gritar toda sua raiva. Por que ela precisava pensar em tudo dentro de 
casa? Por que o pai, que ficava o dia inteiro sem fazer nada, no podia levantar cedo e ir buscar po? Por que sua me, que no tinha nenhuma doena, no lavava 
a loua do jantar e deixava tudo para ela?
  Revoltada, Jacira revirou-se na cama e desejou sumir, ir para longe, como fizeram os irmos. Apesar desse desejo acariciado havia tanto tempo, no fundo ela sabia 
que nunca teria coragem de abandonar os pais. O que seria deles se ela fosse embora? Morreriam de fome, com certeza.
  No. Ela no tinha sada. Teria de continuar suportando essa desgraa e encontrando foras para no perder a cabea.
  Lgrimas desceram pelo seu rosto e ela sequer as enxugou. Deixou-as correr livremente como a se lavar de todas aquelas coisas ruins das quais no conseguia livrar-se.
  At que, cansada, virou de lado e adormeceu. No dia seguinte, acordou cedo e sentiu o estmago vazio. Lembrou-se de que no havia comido nada desde o almoo, no 
dia anterior.
  Levantou-se admirada por perceber que havia dormido vestida, sem escovar os dentes. Sentiu um gosto amargo na boca, foi imediatamente escovar os dentes e tomar 
um 
banho.
  Vestiu o vestido que havia apertado e ensaiou mudar o penteado. Mas no gostou e acabou deixando os cabelos como sempre. Eram seis horas e ela tinha tempo para 
ir 
comprar po, conforme Geni queria.
  Apanhou a carteira, foi  cozinha, colocou gua no fogo para ferver e saiu. Ao chegar  padaria, havia uma pequena fila para comprar po.
  O cheiro gostoso de caf e do po quente a fez sentir mais fome. No balco havia muitas guloseimas apetitosas, mas Jacira desviou o olhar. No queria gastar, preferia 
economizar para melhorar seu guarda-roupa.
  Enquanto esperava na fila, notou que um rapaz magro, alto, olhava-a admirado. Jacira passou a mo pelo rosto. Teria passado muito p-de-arroz?
  Comprou po e foi saindo. O rapaz estava na porta e quando ela passou, abordou-a:
  - Como vai, Jacira?
  Ela respondeu
  - Bem - e foi saindo. Ele continuou: 
  - No se lembra de mim?
  Ela fixou-o e reconheceu:
  - Voc no  o Arlindo?
  - Isso mesmo. Pensei que no houvesse me reconhecido. Voc est diferente... para melhor. 
  Jacira no entendeu:
  - Como assim?
  - Mais elegante, mais bonita... O que voc fez? 
  Ento ela notou que ele a olhava com certo interesse. Seu corao disparou, suas pernas bambearam. Controlou-se, porm, e respondeu:
  - Nada. Sou a mesma de sempre. 
  - No  no.
  - Eu tenho que ir.
  Ela andou, mas ele a acompanhou: 
  - Vou para o mesmo lado que voc.
  - Estou com pressa, tenho que ir trabalhar.
  Ela apressou o passo, e ele continuou caminhando ao seu lado. Ao chegar em casa ela viu Geni na janela, olhando admirada.
  - Voc vai todos os dias comprar po a esta hora? 
  - No. Vou entrar. At outro dia.
  Apressada, Jacira abriu a porta e entrou. Geni a esperava irritada:
  - No se envergonha de sair com um vestido to curto e apertado? Est fazendo isso para chamar ateno dos homens?
  Jacira enrubesceu de raiva, mas procurou no responder. Sua me havia coado o caf; ela sentou-se, apanhou um po, passou margarina, serviu-se de caf, adoou 
e 
comeou a comer.
  - Voc no ouviu o que eu disse? Antes de sair v trocar o vestido.
  Jacira fulminou a me com o olhar e respondeu:
  - No vou trocar. Se quer saber, de ,hoje em diante vou me vestir assim todos os dias.  bom se acostumar.
  - Isso no pode ser verdade. Voc est querendo chamar a ateno dos homens.
  - Eu no quero nada disso. Todas as moas que eu conheo vestem-se assim e eu no sou diferente. Nunca mais vou usar aqueles vestidos sem graa, largos e escuros.
  Aristides entrou na cozinha e Geni gritou:
  - Est vendo, Tide, como essa menina est nos afrontando? Quer sair comesse vestido apertado, curto, chamando a ateno dos homens. Ela vinha da padaria acompanhada... 
pudera, vestindo-se desse jeito!
  - Era o Arlindo, filho da d. Elvira, sua amiga. No estava me acompanhando, ia para o mesmo lado que eu, cumprimentou-me e acompanhou-me.
  - Antes isso no acontecia...
  Aristides, que odiava discusses pela manh, tentou contemporizar:
  - Geni, ela j explicou, era o Arlindo. E voc, Jacira, precisa ter pacincia com sua me. Ela fala para seu bem.
  Jacira ignorou tanto um quanto outro, levantou-se e foi para o quarto apanhar a bolsa. De passagem, olhou-se no espelho e lembrou:
  "- Voc est diferente... para melhor. Mais elegante, mais bonita...".
  Sorriu. Era a primeira vez que um homem a elogiava. Embora fosse o Arlindo, que no tinha nada de bonito, era um homem e a admirara como mulher.
  Satisfeita, apanhou a bolsa e saiu. Passou rapidamente pela sala e ganhou a rua.
  Uma vez dentro do nibus foi pensando que quando recebesse o salrio, separaria algum dinheiro para comprar pano e fazer um vestido e talvez pudesse tambm ver 
um 
par de sapatos. Ela mesma costuraria, pediria para Margarida cortar e ela faria o resto.
  Quando chegou  oficina ainda era cedo e assim que encontrou Margarida, depois dos cumprimentos, disse:
  - Estou pensando em comprar um tecido para fazer um vestido. Voc me ajudaria? Eu sei costurar, mas tenho medo de cortar.
  - Claro. Em minha casa ainda tenho alguns cortes de tecido, se voc gostar posso vender bem barato e ainda ajudar voc a fazer.
  - Ser timo.
  - V no domingo a minha casa e vou lhe mostrar o que tenho. Se gostar, tiro as suas medidas e j comeamos a trabalhar.
  - Onde voc mora?
  - Na Penha. No  difcil de ir. Mas  preciso ir cedo para dar tempo de fazer tudo.
  - A que horas?
  L pela nove da manh. Voc almoa comigo.
  - No quero dar trabalho.
  - No  trabalho.  bom ter uma amiga para conversar.
  - Eu posso levar alguma coisa.
  - No  preciso. Comida simples, mas no falta nada.
  - Obrigada pelo convite. Serei pontual.
  O sinal tocou e imediatamente elas entraram para trabalhar. Jacira estava contente. Finalmente tinha uma amiga que se interessava pelo seu bem-estar.
  No horrio do almoo, ficaram juntas conversando com prazer.
  - Se eu soubesse fazer o que voc sabe, no estaria trabalhando nessa oficina. Estaria costurando para fora.
  - Eu tentei, mas no tive sorte.
  - No entendo por qu. H muitas mulheres que procuram uma boa costureira. Pelo que vi, voc conhece bem a profisso.
  - Disso no tenho medo. Sou boa mesmo. Mas eu no sei controlar o dinheiro. Sempre gasto mais do que posso e compro mais do que preciso.
  - Se eu fizesse isso, eu e meus pais passaramos fome. Voc no sabe como controlo cada centavo que ganho. Se eu fosse dar todo dinheiro que meu pai quer, ou 
comprar 
tudo que minha me pede, ficaria sem nada para comprar comida.
  - Eu a admiro. No sei como consegue fazer isso. Quando meu filho pede alguma coisa eu compro mesmo que fique devendo. No sei dizer no.
  Pouco tempo depois, o sinal tocou e elas recomearam a trabalhar.
  No domingo, Jacira se levantou cedo, comprou po, fez caf e o estava tomando quando Geni apareceu na cozinha:
  - Hoje  domingo. Voc no vai trabalhar, por que se levantou to cedo?
  - Preciso sair.
  - Sair? Para onde? Esqueceu que o cesto de roupas est cheio para passar e durante a semana voc diz que est cansada, que no tem tempo?
  - Hoje no farei nada.
  - Posso saber aonde voc vai?
  - Passar o dia na casa de uma amiga.
  - Amiga? Voc nunca teve nenhuma amiga.
  - Agora tenho. Ela me convidou para passar o dia em sua casa. Preciso estar l antes das nove.
  Geni meneou a cabea negativamente e respondeu:
  - Por que to cedo?
  - Porque temos muitas coisas para fazer.
  - Hum! J sei. Ela est querendo explorar voc, que  bem capaz de ir l fazer servio para ela em vez de cumprir suas obrigaes em casa.
  Jacira no respondeu. Tentou segurar a raiva. Teve vontade de gritar que era ela quem ia receber a ajuda da amiga, mas pensou melhor e achou que seria bom no 
dizer 
nada e provocar a curiosidade dela que sempre queria saber tudo, at seus pensamentos.
  Por esse motivo, fez um ar de mistrio e disse:
  - No  nada disso. Nosso assunto  outro, muito melhor. Agora vou me arrumar, preciso ir.
  - No vai dizer o que vo fazer l?
  - No.
  - Vai ver que se trata de alguma coisa errada... 
  - Pense o que quiser. J vou indo.
  - Eu preciso que voc me passe um vestido. Faz mais de uma semana que ele est no cesto e voc ainda no o passou.
  - No tenho tempo. A senhora pode pass-lo e at adiantar um pouco as roupas mais urgentes.
  Enquanto Geni resmungava protestando, Jacira foi ao quarto, vestiu um dos vestidos que havia ajustado, apanhou a bolsa e saiu.
  Ao fechar a porta ainda ouviu os protestos de Geni e sorriu contente por estar fazendo alguma coisa diferente do habitual e que lhe estava dando prazer.
  Queria chegar logo  casa de Margarida, tomou um nibus, que no estava cheio, sentou-se ao lado da janela e ficou olhando para a rua, observando os lugares pelos 
quais o veculo passava.
  Desceu no ponto final e caminhou conforme Margarida havia indicado, procurando a rua. Uma feira livre chamou sua ateno. Ela foi at l e perguntou a uma feirante 
onde ficava a rua que procurava. Ela explicou que ficava depois da ltima barraca, do lado direito.
  Jacira foi caminhando vagarosamente at l, observando as mercadorias e as chamadas dos feirantes oferecendo seus produtos.
  Havia uma oferta de uvas, mas o dinheiro no dava; ela preferiu comprar um pacote de balas para Marinho.
  Chegou pontualmente  casa da amiga e foi recebida com alegria. Era uma casa trrea, com pequeno jardim na frente e uma varanda onde ficava a porta de entrada.
  A casa era pequena, dois quartos, sala, cozinha, banheiro, mas tudo muito limpo e arrumado. Havia vasos com flores sobre a mesa da sala e toalhas de croch sobre 
os mveis.
  Jacira sorriu vendo a festa que Marinho fez com as balas. Apesar da pouca idade ele era bem-educado e antes de colocar uma bala na boca, ofereceu para as duas.
  - Como ele  educado! - comentou Jacira. 
  Margarida sorriu:
  - Fao questo que ele aprenda a dividir o que tem com os amigos. Mas venha, Jacira, vamos ao meu ateli.
  Jacira acompanhou-a ao quintal onde havia um quarto com duas mquinas de costura, um manequim, uma cmoda com gavetas, uma mesa grande e algumas cadeiras.
  - Que beleza! - exclamou Jacira. - Voc tem um salo de costura montado.
  - Tenho. Veja, tenho at mquina para forrar botes.
  Abriu uma das gavetas da cmoda e continuou:
  - Aqui tenho os moldes de todos os manequins. Nesta outra, tesouras, carretilhas, fitas mtricas, alfinetes, tudo. Nesta ltima, alguns cortes de tecido que no 
vendi. Vou confessar que, apesar de tudo, no tive coragem para me desfazer de todas estas coisas. Houve um tempo em que alimentei a esperana de voltar a trabalhar 
por conta prpria.
  - Pois eu acho que voc deveria mesmo fazer isso.
  - Tenho medo de me meter novamente em confuso. Custei para pagar tudo quanto fiquei devendo. Mas vamos olhar os tecidos. Se voc gostar, poderemos comear agora 
e no fim da tarde seu vestido estar pronto.
  - No sei se poderei pagar. Eu pretendia comprar um tecido bem barato.
  - Veja esses cortes. No so lindos?
  Jacira olhou e ficou encantada. Cada um era mais bonito do que o outro.
  - Eu gostaria muito, mas esses eu penso que so caros.
  - Qual nada. Eu os tenho h algum tempo. Comprei-os no atacado, ao preo que as lojas compram para revender. Vai sair o preo que voc pagaria por um tecido de 
m 
qualidade em qualquer loja.
  Os olhos de Jacira brilhavam cheios de interesse.
  - Quanto?
  - Vou fazer para voc o preo que eu paguei. Est marcado na etiqueta. Veja. 
  Jacira olhou e perguntou:
  - S isso?
  - E voc pode me pagar em duas ou trs vezes, quando puder. Estou fazendo isso porque quero v-ia bonita e feliz.
  - Nesse caso vou aceitar.
  Ela escolheu um, depois Margarida colocou alguns figurinos para escolherem o modelo. Por fim, tirou as medidas e comeou a trabalhar.
  Jacira olhava, seus olhos brilhavam como os de uma criana que ganha um brinquedo h tempos desejado. No queria perder nada do que Margarida fazia.
  Ela sentia que finalmente encontrara uma amiga verdadeira e que essa amizade se firmava a cada instante e seria para toda a vida.

  IV
  Margarida olhou Jacira diante do espelho e comentou
  - Veja como ficou bom! Caiu como uma luva! Jacira se virou algumas vezes, olhando-se de vrios ngulos, e tornou:
  - Essa nem parece eu! Voc faz maravilhas!
  - Claro que  voc! Se eu tivesse um corpo bem feito como o seu, iria me vestir sempre assim!
  - Eu pareo mais alta, a cintura mais fina, sou eu mesma?
  - Claro que . Sempre achei que voc no estava valorizando seu corpo. Por essa razo quis ajud-la a perceber isso. Sabe, eu tenho olho de costureira. Quando 
olho para uma mulher vejo logo o tipo que  e penso qual modelo iria lhe cair bem.
  Os olhos de Jacira brilhavam de prazer. Era a primeira vez que algum a elogiava daquela forma e ela notava que a amiga dizia a verdade. Estava gostando de ver 
sua 
figura no espelho.
  - Agora, tire o vestido. Vou acabar, mas no sei se vai dar tempo para o servio de mo.
  - Voc j fez demais. Eu levo para casa e fao o servio de mo.  o mnimo que posso fazer.
  - Est bem. Vou deixar para voc o mnimo possvel.
  Ela despiu o vestido, vestiu o outro e, apesar de hav-lo reformado, o tecido era pobre e o modelo sem graa. Suspirou conformada.
  - O que foi? No gostou de alguma coisa?
  - Depois de ter experimentado o novo, no poderia gostar de vestir este.
  - No se preocupe. Com o tempo daremos um jeito nisso.
  - Voc sabe o que faz. Gostaria de aprender a costurar como voc.
  - Se quiser posso ensin-la. Eu adoro fazer isso. Jacira no se conteve:
  - Voc  amiga mesmo. Obrigada por tudo!
  Elas continuaram conversando, Margarida ia lhe ensinando algumas coisas sobre confeco.
  Eram sete horas da noite quando Jacira, carregando uma sacola com o precioso vestido, despediu-se de Margarida.
  - Ficou faltando apenas uma parte do chuleado e a bainha. Faa tudo com capricho para no prejudicar o caimento do vestido.
  - Pode deixar. Farei tudo do seu jeito. Nem sei o que dizer depois do que voc fez. Gostaria que me dissesse quanto vai cobrar pelo seu trabalho.
  - Voc  minha amiga. S vai pagar o tecido.
  - No  justo. Voc trabalhou o dia inteiro, ainda me tratou como uma dama, com almoo, sobremesa, chocolates. No posso pagar o que vale de fato, mas acho que 
pelo 
menos alguma coisa...
  - Nada disso. Passamos um dia muito agradvel, conversamos, tive o prazer de costurar como nos velhos tempos.
  Jacira abraou-a comovida:
  -Nunca tive uma amiga como voc. Nunca esquecerei o que est fazendo por mim.
  - Eu gosto de voc. Nossa amizade vale mais do que qualquer dinheiro.
  Jacira no conseguiu articular palavra. Deu um sonoro beijo na face de Margarida, que viu sinceridade em seus olhos. Apertou sua mo dizendo:
  - Espero repetir muitos domingos como este. V com Deus.
  Jacira murmurou um "obrigada" e saiu. Durante o trajeto do nibus de volta para casa, sentia-se alegre, satisfeita. Seu rosto havia perdido aquele trao de amargura 
que lhe era peculiar.
  O prazer de saber que algum valorizava sua amizade, via alguma beleza em seu corpo, e desejava contribuir para que sua vida se tornasse melhor, dava-lhe uma agradvel 
sensao de descoberta. Sentia-se mais segura, mais motivada para continuar insistindo em modernizar-se, vestindo-se como as mulheres de sua idade, tornando-se uma 
pessoa mais viva.
  At ento, ela sempre se sentira um zero  esquerda. Ningum a notava, no tinha amigos, conformara-se em passar pela vida como se no fizesse parte dela, sendo 
uma figurante sem importncia. Mas, de repente, tudo comeara a modificar-se e ela estava gostando das mudanas.
  Foi com a fisionomia distendida que Jacira entrou em casa carregando a sacola com o vestido. Encontrou o pai na sala vendo televiso e a me, na cozinha.
  Vendo-a chegar, Geni apareceu dizendo:
  - Pode-se saber onde a senhora andou desde cedo at uma hora destas?
  Jacira, trazida  realidade pela frase dita em tom de desafio, suspirou tentando no entrar na discusso, que ela j pressentia atrs daquelas palavras.
  - Eu disse que ia passar o dia na casa de uma colega de trabalho.
  Geni voltou-se para o marido dizendo chorosa:
  - Est vendo? Eu no disse? Ela foi passar o dia fora sem pensar que ns ficaramos sozinhos o dia inteiro. A roupa que voc passa nos fins de semana ficou toda 
no cesto, a loua est empilhada na cozinha.
  - E eu fiquei sem a maionese que voc sempre faz aos domingos - queixou-se Tide.
  Jacira olhou-os como se os estivesse vendo pela primeira vez. O contraste deles com a paz que havia na casa de Margarida, a delicadeza dela no trato, f-la notar 
o quanto seus pais eram egostas, pendurando-se nela para tudo.
  No se conteve e respondeu:
  - Voc poderia pelo menos ter arrumado a cozinha. Assim, agora eu poderia cuidar da roupa.
  - Eu?! Est vendo, Tide? Uma mulher doente, ter de ouvir isso de uma filha depois da dedicao de toda uma vida,  cruel demais!
  Ao que ele, voltando-se para a filha, respondeu: 
  - Como pode dizer isso a ela? Est cansada de saber que ela est sempre mal.
  - Talvez seja por no fazer nada. Lavar uma loua no  pesado.
  Geni olhou-a ofendida, pegou uma toalha de papel, assoou o nariz ruidosamente e afastou-se.
  - Est vendo o que voc fez? Sua me saiu chorando.
  Jacira suspeitou que Geni estivesse fingindo e respondeu imperturbvel:
  - Eu vou passar a roupa, mas no lavarei a loua. Ela que volte  cozinha, coloque uma chaleira de gua para esquentar e lave a loua.
  Aristides ia retrucar, mas Jacira foi para a mesinha no cobertinho perto do tanque, ligou o ferro e comeou a separar a roupa para passar.
  Aristides foi procurar Geni, que estava no quarto deitada, e disse:
  - Jacira disse que vai passar a roupa, mas a loua ela no lava.  para voc colocar a chaleira de gua para esquentar e ir lavar a loua.
  Geni sentou-se na cama como se tivesse sido impulsionada por uma mola
  - Ela teve a coragem de dizer isso?
  - Teve. E falou decidida, foi ligar o ferro e preparar a roupa para passar.
  - Nossa filha nunca foi assim. Por essa razo no gosto que ela faa amizade com outras pessoas. Elas logo comeam a dar palpites em nossa vida. Foi s ela ir 
 casa da amiga que voltou desse jeito, pondo as manguinhas de fora. Mas eu no vou fazer o que ela disse.
  - Acho bom voc ir. A pia est uma baguna, cheia de pratos sujos, copos, nem a loua do caf voc lavou!
  - No lavei porque no estava me sentindo bem. - Mas estava disposta para ler aquela revista de novelas.
  - Agora voc tambm vai implicar comigo? Ser que no posso ter um momento de distrao?
  - Distrao voc tem muita quando fica horas assistindo  televiso e no deixa eu ver o programa esportivo.
  - J vai comear? O que foi que eu fiz para ter uma cruz como esta? No basta uma filha sem corao, voc tambm deu para implicar?
  Ele suspirou resignado e foi ver televiso na sala. H muito desconfiava do mal-estar da mulher. No gostava de ver a cozinha suja, as coisas fora do lugar, mas 
no dizia nada para evitar discusses.
  Por qualquer coisa, Geni era capaz de ficar atrs dele se lamentando por horas, at por dias seguidos, e ele preferia preservar sua paz.
  Eram quase dez horas quando Jacira terminou de passar a roupa, desligou o ferro e foi guardar as roupas. Ao passar pela cozinha notou irritada que sua me sequer 
havia colocado a gua no fogo.
  Inconformada, foi at o quarto onde Geni permanecia deitada, colocou a roupa passada sobre uma cadeira e disse:
  - Passei pela cozinha e voc nem colocou a gua no fogo. Desse jeito vai demorar muito para terminar a loua.
  - Eu no estou em condies de ir para a cozinha. No me sinto bem.
  - Quando cheguei voc estava muito bem. Chegou at a me repreender.
  - Mas logo depois me senti muito mal. Voc me chamou de preguiosa.
  Jacira suspirou tentando segurara vontade que sentia de dar vazo a sua indignao. Respondeu apenas:
  - Eu disse que no ia lavar a loua. Passei toda a roupa da semana e agora vou me deitar. Amanh tenho de levantar cedo para trabalhar.
  Geni sentou-se na cama nervosa:
  - O que custa voc fazer isso para mim? No v que estou doente?
  - Se eu no me cuidar quem vai ficar doente de verdade sou eu. Por esse motivo, vou dormir.
  - No acredito que vai fazer isso comigo. Como vamos tomar caf amanh com a cozinha daquele jeito?
  - Vai ser ruim mesmo. Ento,  melhor voc ir cuidar disso o quanto antes.
  Sem dizer mais nada, Jacira foi para o quarto e fechou a porta. Geni, ouvindo o rudo da porta do quarto dela se fechando, levantou-se e sem fazer barulho foi 
at o corredor.
  De fato, Jacira fora para o quarto e se preparava para dormir. Inconformada, desceu as escadas e foi ter com o marido que assistia  televiso.
  - Tide, voc precisa fazer alguma coisa, tomar uma providncia.
  - O que foi?
  - A Jacira me desobedeceu, no lavou a loua.
  - Ela combinou com voc que essa parte seria sua. Ela passou a roupa?
  - Passou, mas a cozinha continua suja.
  - Essa  a sua parte. Voc no combinou com ela?
  - Eu no combinei nada. Foi ela quem disse isso. Eu estou doente, pedi-lhe para fazer essa parte, mas sabe o que o que foi que ela disse?
  Tide meneou a cabea negativamente. Geni continuou:
  - Respondeu que no iria fazer, deu as costas e foi dormir. J pensou como vai ser amanh cedo?
  - J.  melhor voc ir lavar a loua.
  - Mas eu no estou bem e depois da maldade que Jacira fez comigo, senti-me pior.
  - Eu  que no posso fazer isso.  tarefa de mulher. - Voc no vai fazer nada? Vai deixar que Jacira me trate assim?
  - No vou me meter na briga de vocs. Onde est sua autoridade de me? Voc no vive dizendo que sabe como lidar com ela?
  Geni olhou para o marido com raiva. Depois foi para a cozinha e decidiu: colocou a chaleira de gua no fogo e comeou a separar a loua. Enquanto esperava a gua 
esquentar foi at o marido e lamentou:
  - Eu vou me sacrificar desta vez. Mas amanh cedo Jacira vai ouvir. No posso ser maltratada assim pela minha prpria filha.
  Aristides acenou com a cabea concordando, sem prestar ateno ao que ela dizia, olhos fixos no filme que assistia pela televiso.
  Geni no teve alternativa seno voltar  cozinha e, enquanto lavava a loua, ficar pensando na desforra que iria tirar da filha nos prximos dias.
  Na manh seguinte, Jacira se levantou cedo, arrumou-se e desceu para a cozinha. Sorriu ao ver que tudo estava limpo. Mas Geni no se levantara ainda.
  Fez o caf, colocou o po no forno para esquentar, arrumou a mesa e sentou-se esperando o po. No podia se esquecer de como ficara com o vestido novo. Sentiu 
vontade de vesti-lo, mas no achava bom ir trabalhar com ele.
  Enquanto tomava o caf e comia o po imaginava onde poderia usar o vestido. Nunca saa para passear.
  Aristides apareceu na cozinha e vendo-a disse:
  - Sua me est dormindo ainda. Tambm, ontem ficou arrumando a cozinha at tarde!
Jacira percebeu a censura na frase do pai e no se perturbou. Respondeu apenas:
  - A culpa  dela. Nem a loua do caf da manh ela tinha lavado. Deixou acumular tudo e, claro, teve mais trabalho na hora de lavar.
  - Voc sabe que ela  doente. No era muito tarde quando voc acabou de passar roupa. O que custava ter cuidado tambm da loua?
  Jacira olhou-o sria:
  - Todos ns moramos na casa, dormimos, comemos aqui,  justo que todos cooperemos para manter a ordem. Eu passo o dia todo trabalhando para pagar as despesas, 
enfrento o trnsito pendurada em um nibus lotado. Vocs passam o dia inteiro em casa, sem fazer nada, vendo televiso, conversando com os vizinhos, lendo jornal 
e revistas. E quando chego cansada ainda tenho de cuidar da loua que vocs sujaram o dia inteiro, sendo que eu nem almoo em casa. Acha que  justo?
  Aristides olhou-a surpreendido e de pronto no encontrou palavras para responder. Depois de alguns segundos disse:
  - Voc fala como se eu fosse culpado por no encontrar trabalho. - Suspirou triste e continuou: - Voc sabe que  difcil. Ningum emprega um homem depois dos 
cinquenta anos. Sua me  doente, cansada, no sente disposio para trabalhar. Voc est sendo injusta falando assim. Ns estamos velhos e merecemos respeito.
  Jacira olhou para ele. Era um homem forte, corado, fisicamente capaz de fazer muitas coisas. Mas era verdade que o emprego estava difcil at para os mais novos 
e as empresas no contratavam os mais velhos. seu pai estava com mais de sessenta anos.
  - O senhor no vai mesmo encontrar trabalho por causa da idade, mas por que no ajuda a fazer algum servio de casa?
  - O qu? Servio de casa  coisa de mulher Eu me sentiria o ltimo dos homens fazendo isso.
  - Isso  orgulho. Os melhores cozinheiros so homens e so muito respeitados. H homens em todas as profisses que fazem os mesmos servios que as mulheres So 
tintureiros, copeiros, garons, e no se envergonham.
  - De onde voc tirou essas ideias? Sua me tem razo. Desde que comeou a ter essa amiga, est de cabea virada.  melhor acabar logo com essa amizade. Voc se 
deixa 
influenciar muito depressa pelos pensamentos dos outros.
  Jacira levantou-se irritada, mas conteve-se. Lavou sua xcara, enxugou-a e guardou. Depois tornou:
  - Est na hora de eu ir. No quero me atrasar.
  Ela saiu satisfeita por poder ver-se livre dos comentrios dele. Durante o trajeto para a oficina, Jacira foi pensando onde poderia usar o vestido novo.
  Poucos minutos depois, Geni apareceu na cozinha e Aristides notou logo que ela no parecia bem. Caminhava apoiando-se nos mveis, rosto franzido, ar triste.
  - O que foi, voc no est bem?
  Geni fixou-o, suspirou, depois disse:
  - Como voc queria que eu estivesse depois do que Jacira me fez ontem? Nunca pensei em receber tanta ingratido.
  - Tambm no foi tanto assim. Afinal, Jacira levanta cedo, trabalha o dia inteiro, chega cansada e ainda tem que fazer tudo em casa.
  - At voc est contra mim? Que vida a minha. Ningum faz nada por mim.
  - No se lamente. No vai resolver mesmo. Afinal, somos pobres, estou desempregado e temos que nos sujeitar a ser sustentados por Jacira.
  - Voc tem sade, bem que podia ter aceitado aquele emprego.
  - Eu sou um operrio qualificado. Nunca vou sujeitar-me a ficar de porteiro naquele edifcio. 
  - Por que no?
  - Minha aposentadoria saiu e j cumpri minha parte trabalhando naquela fbrica desde os quatorze anos. E sabe o que Jacira teve coragem de me dizer?
  Geni havia se sentado diante da mesa e servia-se de caf com leite, passara margarina em uma generosa fatia de po e respondeu
  - No.
  Ele continuou:
  - Que eu deveria ajudar nos servios da casa. Que todos ns moramos aqui e temos o dever de cooperar para que tudo fique em ordem.
  - At que no seria ruim se voc lavasse uma loua, fizesse uma faxina na cozinha. Assim Jacira no precisaria trabalhar tanto.
  - A obrigao  de vocs duas. Eu no me presto a fazer servio de mulher. O que meus amigos iriam dizer se me encontrassem de avental lavando loua? Fico arrepiado 
s de pensar!
  - Isso  bobagem. Depois, eles no precisariam saber. Para comear voc poderia tirar a mesa, eu j terminei, e lavar do caf. 
  Aristides irritou-se:
  - No vou fazer isso e acho melhor voc no deixar juntando na pia para no ter de lavar tudo no fim da noite. Pelo tom que Jacira usou quando falou comigo, ela 
no vai querer lavar. Ela s lavou a xcara que ela usou, a minha ficou
  - Nesse caso, voc deveria ter lavado a sua. Assim eu no teria de lavar tudo.
  Ele olhou-a srio. Pelo tanto de caf com leite e po que ela havia engolido, e pelo tom de voz que estava usando, ele percebeu que ela no estava doente como 
dizia.
  Ele sabia que ela costumava exagerar para empurrar todo o servio da casa para Jacira. Ela gostava mesmo era de estender-se no sof da sala, colocar os ps no 
banquinho 
e ler as revistas de fotonovela.
  - Voc se lamenta por tudo. Enche a cabea com aquelas fotonovelas aucaradas e fica infeliz porque sua vida no  igual a das mocinhas das histrias. Voc, s 
vezes, parece que ainda no cresceu. Uma mulher velha como voc no deveria acreditar naquelas baboseiras.
  - Voc consegue sempre ser desagradvel. Como se fosse melhor do que eu. Fica lendo jornal o dia inteiro, a noite fica em frente  televiso e nunca quer ver os 
programas de que eu gosto.
  - Voc s quer ver peas de teatro, filmes. Eu sou um homem bem informado. Gosto da realidade. Prefiro assistir s notcias. Voc vai fazer o almoo?
  - Vou fazer o almoo e s. No vou arrumar a cozinha.
  Aristides deu de ombros:
  - Faa como quiser. O problema  seu.
  Apanhou o jornal, foi para a sala, sentou-se em uma poltrona e preparou-se para comear a ler. Naquela tarde, ele iria ao barbeiro aparar os cabelos e precisava 
estar bem informado para comentar com os amigos.

  V
  No sbado, Jacira chegou em casa passava das duas da tarde. Sara da oficina  uma hora e por sorte conseguira embarcar no primeiro nibus.
  Ao entrar em casa notou logo que Geni deixara amontoada na pia toda loua do caf da manh e do almoo.
  Fingindo no ver o ar desaprovador da filha, Geni disse calma:
  - Deixei seu prato no forno.
  - E a loua por minha conta.
  - Ontem eu lavei quase tudo. Mas hoje me senti mal, no consegui lavar. Voc  moa, tem mais sade do que eu.
  Jacira no respondeu. No queria discutir. Apanhou o prato de comida e notou que estava fria. Estava com fome e colocou na frigideira para esquentar.
  Depois, sentou-se e comeou a comer pensando o que iria fazer  tarde, alm de passar a roupa da semana. Ela gostaria de ter um lugar para ir para poder usar o 
vestido novo, mas no lhe ocorria nenhum.
  Se ao menos Margarida morasse mais perto, poderia ir a casa dela conversar um pouco. L o ambiente era calmo e agradvel. Jacira tinha vontade de sair, de passear, 
de conhecer pessoas e principalmente de usar aquele vestido.
  Inquieta, levantou-se e cuidou de lavar a loua, para evitar a conversa desagradvel da me e tambm para espantar o tdio.
  Sua vida era vazia e sem nada que a alegrasse. Estava cansada da rotina e no sabia o que fazer para mudar. Acabou de arrumar a cozinha, passou toda a roupa da 
semana, 
depois foi para o quarto. Olhou o relgio, eram cinco horas da tarde. No dia seguinte talvez fosse  casa de Margarida, mas o que fazer para o tempo passar? O pai 
disputava com a me os programas da televiso. Conversar com eles nunca fora possvel. Todas s vezes que ela tentava, seja qual fosse o assunto que puxasse, acabava 
sempre com as queixas dele por estar desempregado e dela por no ter mais sade para os servios domsticos.
  Suspirou resignada. Sentou-se na cama, abriu a gaveta da mesa de cabeceira para pegar a lixa de unhas e um carto caiu no cho. Ela apanhou-o e leu: Ernesto Vilares. 
Imediatamente lembrou-se do homem que a ajudara a no cair e do leno dele que ficara de devolver.
  Sorriu. Estrearia o vestido, j havia se esquecido de que comentara com Margarida que iria at o endereo dele para devolver-lhe o leno emprestado.
  Colocou o vestido novo e satisfeita olhou-se no espelho. Parecia outra pessoa. Caprichou no penteado, puxando os cabelos para trs e colocando uma fivela do lado. 
Depois, pegou seu sapato preto e olhou-o sem muito entusiasmo. O salto no era alto como os de suas colegas de trabalho, mas era o que tinha.
  Conformada, calou-o e como no tinha uma bolsa mais bonita, preferiu uma carteira pequena, mas nova. Pintou-se ligeiramente e saiu.
  Geni estava lendo revistas na sala e, vendo-a, levantou-se de um salto dizendo assustada:
  - Aonde voc vai vestida desse jeito e a esta hora? 
  - Vou sair um pouco, mas voltarei logo. 
  - Aonde voc vai?
  - Dar uma volta.
  - E precisava se pintar desse jeito? Onde arranjou esse vestido to agarrado? No tem vergonha?
  Jacira suspirou e no respondeu logo tentando conservar a calma. Parou diante de Gen e disse sria:
  - Estou com trinta e oito anos. Acho que sei cuidar de mim. No preciso de bab.
  - Viu isso, Tide? Voc no vai tomar nenhuma providncia? Vai deixar que sua filha saia desse jeito, como uma prostituta?
  Aristides, que estava assistindo a uma partida de futebol com muito interesse, no respondeu e Geni gritou:
  - Tide? Alm da filha, voc tambm no me d ateno. O que est acontecendo nesta famlia?
  Irritado por ter de desviar a ateno do jogo que estava no auge, ele respondeu:
  - Que loucura  esta? No se pode mais assistir a um jogo de futebol em paz? Arranjem-se as duas. No tenho nada com suas discusses. Deixem-me em paz.
  Jacira deu as costas e saiu. Geni, inconformada, ainda tentou chamar a ateno do marido, mas desta vez ele no teve pacincia para ouvir suas lamentaes e ela, 
vendo que ele no lhe dava nenhuma ateno, sentou-se, apanhou novamente a revista e continuou lendo.
  Jacira foi at o endereo indicado no carto, parando diante de uma casa antiga, grande, rodeada de jardins, muito bonita, no bairro da Aclimao. Pensou que no 
podia ser l e conferiu o endereo novamente. Estava certo.
  Ficou parada diante do porto de ferro, hesitante, sem coragem de tocar a campainha.
  Nesse instante, uma moa muito bem-vestida e um rapaz apareceram, abriram o porto e, vendo Jacira, a moa perguntou:
  - A senhora est esperando por algum? O curso acabou e todos j vo sair.
  Animada pelo tom amigo em que ela disse aquelas palavras, Jacira perguntou:
  - Aqui  a casa do sr. Ernesto Vilares?
  - Aqui  o lugar onde ele ministra seus cursos - respondeu o rapaz sorrindo.
  Nesse momento, diversas pessoas saram da casa e foram se aproximando do porto. Jacira perguntou ao rapaz:
  - Aqui  uma escola?
  - Para adultos. Ns somos alunos do dr Ernesto.
  Jacira olhou-os surpreendida. Ele a convidara para ir quele endereo. Sentiu curiosidade. As pessoas ali eram bem-vestidas, deviam ter estudado em boas escolas, 
que curso estariam fazendo?
  No teve coragem de perguntar. Esperou que todos sassem e um rapaz veio para fechar o porto. Vendo-a, indagou:
  - A senhora deseja alguma coisa?
  - Outro dia o sr. Ernesto emprestou-me um leno e eu vim devolv-lo. Pode fazer o favor de entregar a ele?
  - A senhora no deseja faz-lo pessoalmente? 
  - Posso?
  - Queira entrar, por favor.
  Jacira entrou, acompanhou o moo e foi conduzida a uma sala onde ela viu o homem que a socorrera naquele fim de dia.
  A princpio ele no a reconheceu, olhou-a querendo descobrir quem era. Jacira, intimidada pelo ambiente luxuoso em que estava, disse com suavidade:
  - Sou Jacira. Vim devolver-lhe o leno que me emprestou naquele fim de tarde quando me desequilibrei descendo do nibus.
  Ele sorriu, aproximou-se e estendeu a mo.
  - Agora me recordo! Voc est diferente. Como vai? 
  - Bem. Obrigada por tudo. No quero tomar o seu tempo.
  - Nada disso. Voc vai tomar um caf comigo. Esperei que viesse, mas demorou.
  - Desculpe.  que eu trabalho muito e fiquei sem tempo.
  - Venha comigo. Vamos na sala ao lado.
  Ele segurou o brao dela conduzindo-a  sala contgua. L era uma pequena copa, a mesa estava posta e ele puxou a cadeira para que Jacira se sentasse. Depois, 
colocou uma xcara na sua frente e perguntou:
  - Voc toma caf, leite ou prefere ch? 
  - Caf com leite.
  Jacira respondeu sem jeito. A loua era fina e tinha alguns petiscos sobre a mesa. Ernesto serviu-a e sentou-se dizendo:
  - Fique  vontade. Faa de conta que est em sua casa!
  O contraste era tanto que Jacira no se conteve. Seja por estar nervosa naquela ambiente ou por medo de no saber portar-se diante de um homem to fino, ela desabou 
a chorar, e ele imediatamente segurou a mo dela dizendo com voz suave:
  - Venha comigo. Vamos nos sentar naquele sof e conversar. Tomaremos nosso lanche depois.
  Jacira soluava. As lgrimas corriam pelo seu rosto e ela no conseguia parar de chorar. A beleza do lugar, as pessoas finas e bem-vestidas, o ambiente agradvel 
e acolhedor, as flores nos vasos e o jeito amigo com o qual foi recebida a fizeram notar o quanto sua vida era ruim, feia, sem graa. Ela chorava os anos perdidos 
em um ambiente triste de queixas e problemas sem beleza e sem alegria.
  Ernesto continuou segurando a mo dela e esperou calmamente que ela parasse de chorar. Quando ela se calou, olhou-o envergonhada e disse:
  - Desculpe. Toda vez que nos encontramos eu choro desse jeito. Eu no sou chorona. Nunca me lembro de ter chorado tanto como agora.

  Pg76
  - Voc est lavando a alma. Jogando fora momentos de frustrao e de amargura.
  - De fato. Minha vida tem sido pobre de beleza, de alegria, de amor e de dinheiro.
  - No entanto, voc  uma mulher bonita, moa, cheia de sade, e tem tudo para ser feliz.
  - Voc quer me animar. Sou feia, sem graa, pobre e muito infeliz.
  -  assim que voc se v, mas eu lhe garanto que est errada.
  Ela baixou a cabea e no respondeu. Ele era um homem bem-educado e estava sendo gentil. Mas Ernesto percebeu que ela no acreditou em suas palavras e continuou:
  - Alis, no estou dizendo isso para agrad-la porque sei que a verdade em qualquer caso  sempre o melhor caminho. Voc  uma pessoa maltratada, que no cuida 
da 
sua aparncia, que carrega o mundo nas costas, sempre faz tudo para os outros, mas no tem responsabilidade consigo mesma.
  Jacira admirada, levantou os olhos e seu rosto cobriu-se de vivo rubor quando disse:
  - Isso no  verdade. Sou muito responsvel. Eu trabalho todos os dias, viajo em p em um nibus cheio, chego em casa e ainda fao todo o servio domstico, pois 
meus pais so idosos e dependem de mim. No cuido da aparncia porque no tenho dinheiro para comprar boas roupas e vestir-me bem. At este vestido foi presente 
de uma amiga.
  - Voc cumpre seu horrio de trabalho, cuida de seus pais, mas no cuida de voc. Coloca-se em ltimo lugar e se julga inferior aos outros. No sabe que nossa 
primeira 
obrigao como pessoa  cuidar do nosso bem-estar. No precisa ter dinheiro para fazer isso. Basta prestar ateno ao que sente, valorizar suas necessidades em primeiro 
lugar. S assim vai ficar bem at para poder desempenhar melhor seus compromissos.
  - Eu no quero ser egosta. Quando chego cansada e reclamo por minha me ter deixado a loua do dia inteiro para eu lavar, ela diz que sou egosta. Sinto-me culpada 
e fao tudo o que ela quer. Eu quero que ela seja feliz.
  - Mesmo a custa da sua infelicidade? Voc no me parece uma pessoa feliz.
  - A vida tem sido cruel comigo. Meus dois irmos foram embora de casa h anos e no do notcias. Meu pai ficou desempregado e no arranjou mais emprego por causa 
da idade, o dinheiro que recebe da aposentadoria no d para nem para o aluguel da casa e todo o dinheiro que ganho na oficina mal d para pagar as despesas. Levando 
essa vida, como eu posso pensar em mim e ser feliz? s vezes tenho vontade de ir embora tambm, mas depois me arrependo. O que ser deles se eu tambm os deixar?
  - Voc  uma boa filha e no  errado dedicar-se ao bem-estar dos seus. Mas sinto que voc est fazendo isso de maneira errada.
  - Como assim?
  - Depois voc vai me contar como so seus pais, seus dias no emprego, e como se relaciona com eles. Ento voltaremos a conversar. Agora vamos tomar nosso caf, 
falar 
sobre outras coisas. Desejo mostrar-lhe nosso espao e explicar como  nosso trabalho com as pessoas.
  O rosto de Jacira animou-se:
  - Observei as pessoas saindo animadas, pensei que fosse uma festa.
  Ernesto sorriu e seus olhos brilharam. Falar do seu trabalho era o que ele mais gostava.
  - Aprender a viver melhor  sempre uma festa e eu gosto de ensinar como se faz isso. Essa  minha profisso.
  - No entendi. Voc  mdico?
  - De certa forma sim, mas eu cuido da alma.
  - Voc  um mdico da alma? No sei como  isso. Nunca ouvi falar.
  Ernesto sorriu e respondeu:
  - Voc no sabe que quando seu corpo adoece, ou quando se sente infeliz, a verdadeira causa est em como voc v a vida. Acredita que sua felicidade depende dos 
outros e por esse motivo faz tudo para que eles fiquem bem, sacrifica-se julgando que seja sua obrigao, porque  assim que nossa sociedade tem ensinado. No que 
prestar ajuda ou fazer algo bom para os outros seja um erro, o problema  que ao fazer isso voc os coloca em primeiro lugar e se esquece de cuidar de si. Como est 
se sacrificando pelos outros, espera que eles cuidem de voc.
  Ernesto falava devagar, olhando nos olhos de Jacira, fez ligeira pausa e, notando que ela estava prestando ateno, continuou:
  - Essa  uma grande iluso porque os outros no vo fazer o que voc gostaria. Alguns procuram tirar proveito, usando-a, outros se afastam porque no gostam que 
se intrometa em suas vidas.
  - Eu me sacrifico pelos meus pais e eles nunca me agradecem, s criticam. Minha me diz que eu sou feia, quando me arrumo um pouco melhor, que pareo uma prostituta. 
Eles so ingratos, no reconhecem meu esforo. Isso me entristece muito. s vezes tenho vontade de sumir, ir para longe. Mas falta coragem.
  - Se eles a tratam dessa forma, a culpa  sua, no deles.
  Jacira olhou-o admirada:
  - Minha? Eu fao tudo para eles e a culpa  minha?
  - Voc no sabe se colocar. Se faz tudo que eles querem como  que eles vo saber at onde podem ir? Voc no coloca limites e eles acham que podem abusar.
  Jacira ficou pensativa por alguns segundos depois disse:
  No outro dia fui .assar o domingo na casa de minha nica amiga e quando voltei no fim da tarde, minha me estava brava porque eu sa e no passei a roupa da semana 
e ainda deixou toda a loua do dia na pia para eu lavar. Eu no suportei. Ela diz que  doente, mas muitas vezes eu duvido. Tem muito apetite, l revistas o dia 
inteiro ou fica na televiso com muita disposio. S se sente mal na hora de fazer algum servio. Eu no aguentei. Disse que ia passar a roupa, mas a loua no 
ia lavar. Ela tentou convencer-me, disse que estava passando mal, porm fiquei firme. Cumpri a minha parte e fui dormir.
  - Na manh seguinte a cozinha estava arrumada.
  - Como sabe?
  - Por que voc fez do jeito certo. Colocou-se.
  - Na hora fiquei com remorso pensando que eu poderia ter arrumado a cozinha.
  - Se fizesse isso a estaria prejudicando mais ainda.
  - Voc est enganado. Eu jamais seria capaz de prejudicar algum. Gosto de ajudar.
  - Toda ajuda precisa ser inteligente para fazer com que a pessoa melhore. Voc est impedindo sua me de se ocupar tornando-a indolente e comodista.
  - Ela age assim porque quer. Est sempre insatisfeita, queixando-se da vida, de tudo.
  - A atividade fsica distrai, ocupa o pensamento e faz o corpo se mexer. Na natureza tudo  movimento. No fazer nada traz insatisfao, tdio. Sua me precisa 
voltar 
a interessar-se pela vida.
  Jacira olhou-o sria. Ernesto tinha razo. Geni perdera o gosto pela vida, vivia incapaz de apreciar qualquer coisa. Mergulhava nas histrias romnticas para esquecer 
a prpria infelicidade. Vivia de iluso.
  - De fato. Eu gostaria de fazer alguma coisa para que ela se sentisse mais feliz.
  - Eu sei. Mas antes voc precisa conquistar a sua prpria felicidade.
  Jacira suspirou e respondeu:
  - Eu j desisti. Felicidade no  para mim. 
  Ernesto olhou-a srio e pediu: 
  - Feche os olhos.
  Ela obedeceu e ele prosseguiu:
  - Imagine que voc est em um jardim cheio de flores. Sinta o perfume que elas emanam. O cu est
azul e sem nuvens, o ar  leve e agradvel. Os pssaros cantam alegres nas rvores e seu corao est em paz. Pense que voc no est s. Espritos iluminados, mensageiros 
da luz a envolvem com amor. Querem que oua o que tm a dizer.
  O corpo de Jacira estremeceu, fundo suspiro saiu do seu peito. Ernesto levantou-se, ligou o som e uma msica suave encheu o ar enquanto Jacira recostou-se no sof 
e relaxou.
  Ernesto sorriu, deixou-a l e calmamente foi tomar seu caf. Depois foi at ela que parecia adormecida. Sentou-se na poltrona ao lado e fechou os olhos em concentrao.
  O que viu deixou-o admirado. Quando algum estava muito envolvido com problemas emocionais, ele costumava utilizar exerccios de elevao espiritual, a fim de 
que 
a pessoa experimentasse o prazer de sentir vibraes sublimes e a partir dessa experincia comeasse a cultivar pensamentos mais elevados em busca de bem-estar.
  Mas com Jacira acontecera algo diferente. Ele estava vendo que o esprito dela, fora do corpo, estava mesmo sentado em um banco de um lindo jardim florido, enquanto 
uma mulher muito bonita, ao seu lado conversava. Uma calma muito grande reinava na cena.
  Ernesto esforou-se para ouvir o que diziam.
  - Voc tem reagido e tentado melhorar. Precisa fazer muito mais. Hoje a trouxemos aqui para que pudesse sentir o gosto de estar bem e quando acordar vai se recordar 
destes momentos. Isso vai ajud-la a sentir que voc pode conquistar uma vida melhor. Ns queremos ajud-la, mas s poderemos fazer isso se voc nos der a chance.
  - Eu quero ficar aqui com voc. No quero mais voltar para minha casa.
  - Isso no  possvel. L  seu lugar at aprender como vencer todas as dificuldades.
  No tenho como fazer isso!
  - No  verdade. Voc  forte e dentro de voc tem tudo o que precisa para tornar-se uma vencedora.
  - Voc vai me ajudar?
  - Primeiro voc precisa fazer a sua parte. Essa  a regra para podermos atuar. Est na hora de voc voltar. Meu nome  Marina.
  - Onde voc mora? Gostaria de procur-la.
  - Muito longe. Voc ainda no pode ir at l. Mas quando pensar em mim, entrarei em contato.
  Marina levantou as mos de onde saam feixes de luz azul brilhante e colocou-as sobre o corpo de Jacira. Depois de alguns segundos, desapareceu.
  Ernesto abriu os olhos e notou que Jacira estava acordando dizendo baixinho:
  - Eu quero ficar aqui.  muito bom. No quero voltar.
  Remexeu-se, abriu os olhos e fixando-os em Ernesto disse emocionada:
  - Que sonho maravilhoso! - Depois, percebendo onde estava continuou: - Desculpe, eu dormi. No sei como foi isso. Estava cansada...
  - Voc no dormiu. Voc saiu do corpo e foi encontrar-se com o esprito de uma mulher.
  Jacira olhou-o assustada:
  - Esprito? No. Era uma mulher muito bonita chamada Marina.
  - Eu sei. Eu vi onde vocs estavam.
  - Um lugar maravilhoso! Cheio de flores, tudo lindo! Acho que estive no cu! 
  Ernesto sorriu:
  - Voc se elevou e visitou uma dimenso astral mais elevada. Por esse motivo, sentiu-se to bem.
  - Ainda estou sentindo um bem-estar muito grande.
  - Voc conseguiu fazer contato com essa mulher que deseja ajud-la a melhorar sua vida.
  Jacira suspirou pensativa, depois respondeu:
  - Foi um sonho bom, mas no creio que se realize. Minha vida no tem como mudar. No posso abandonar meus pais, no tenho conhecimento nem uma profisso que me 
permita ganhar um salrio maior.
  Ernesto sorriu e considerou:
  - Voc est olhando os fatos do ponto de vista materialista. A vida vai muito alm da matria. Nosso esprito  eterno, nunca morre. Nosso corpo de carne acaba, 
mas ns continuaremos vivendo em outras dimenses do Universo.
  - Como pode ser isso?
  - Nosso esprito j vestiu outros corpos de carne neste mundo. Ns somos cidados do Universo, onde h milhares de moradas para toda a humanidade.
  - Como posso saber se isso  verdade?
  - Voc acabou de viajar para um desses lugares. 
  - Esse jardim no pertence a Terra? Quando eu estava l tudo era muito slido.
  - Era slido para seu esprito, mas invisvel para os olhos da carne. No  um lugar onde voc possa ir quando quiser, mas somente quando sai do corpo e vai com 
o corpo espiritual.
  - Ns temos mais de um corpo?
  -Temos vrios que esto todos juntos trabalhando para que estejamos aqui. Mas a experincia que voc viveu mostra que somos imortais, que a morte no  o fim e 
continuaremos vivos quando nosso corpo de carne morrer.
  Jacira abriu a boca e fechou-a novamente, depois de alguns instantes tornou:
  - No foi a primeira vez que eu sonhei como hoje. J estive em um lugar onde uma mulher falou comigo e eu nunca mais esqueci. Mas o sonho de hoje foi muito mais 
forte, claro, eu senti que estava muito contente, feliz como nunca me recordo de haver sido.
  - Sinto que o que aconteceu hoje pode mudar sua vida. Gostaria de ajud-la a conseguir isso.
  - Vai me oferecer um emprego melhor?
  - No. Mas meus cursos tm esse objetivo. Desejo que venha assistir s minhas aulas.
  Jacira hesitou:
  No sei...
  - No gostaria?
  Gostaria muito, mas talvez no possa pagar as aulas. 
  - Voc  minha convidada, no ter de pagar nada. Poder vir todos os sbados.
  - As pessoas so bem-vestidas, devem gostar de conviver com gente de classe.
  - Voc  to boa quanto elas. No se deixe levar pela vaidade. No tenha vergonha de sua posio social. Voc  uma pessoa, precisa aprendera se valorizar. Terei 
o maior prazer em v-la entre meus alunos.
  - Nesse caso farei o possvel para vir.
  - Venha tomar seu caf e depois quero mostrar-lhe todo nosso espao e explicar-lhe algumas coisas mais.
  Eles dirigiram-se para a mesa, Ernesto trocou o caf com leite que estava frio e serviu-se tambm.
  Depois, percorreram a casa e ele ia descrevendo como funcionavam os cursos. J tinha escurecido quando Jacira saiu depois de despedir-se.
  Durante o trajeto de volta, sentia-se animada e feliz. A vida tambm tinha um lado bom que ela um dia poderia desfrutar.
  Chegou em casa depois das nove horas. Entrou e encontrou os pais diante da televiso. Vendo-a entrar, Geni levantou-se da poltrona dizendo:
  - At que enfim chegou! Pode nos dizer onde andou at esta hora?
  Arrancada de seus pensamentos ntimos pelo tom desagradvel da voz de sua me, Jacira sentiu como se lhe tivessem atirado um balde de gua fria na cabea.
  A mudana foi tanta que a custo conseguiu segurar a irritao.
  - No  to tarde assim - respondeu tentando dominar a raiva.
  Geni colocou as mos na cintura e continuou em tom provocativo:
  -  sim! Est vendo, Tide? Ela pensa que mora em uma penso, que pode sair sem dizer aonde vai e chegar em casa tarde da noite como se fosse uma qualquer.
  Jacira olhou-a sria e preferiu no responder. Se falasse certamente iria brigar. Sem dizer nada, foi para o quarto. Sentou-se na cama tentando recuperar o bem-estar. 
No conseguiu.
  Comeou ento a rememorar tudo que acontecera naquela tarde. Cinco minutos depois, Aristides bateu na porta. Estava mal-humorado por ter que deixar seu programa 
esportivo predileto.
  - Abra a porta, Jacira. Sua me est passando mal e a culpa  sua.
  Uma onda de indignao envolveu Jacira. Levantou-se, abriu e ficou parada diante do pai. No queria brigar.
  Ele entrou e foi dizendo em tom contrariado:
  - O que est acontecendo com voc? Sempre foi uma boa filha. Por que agora deu para afrontar sua me? Sabe que ela  doente. Est passando mal, com dores no peito, 
falta de ar e chorando sem parar.
  Jacira suspirou resignada. Sua vida no tinha jeito mesmo. O que fazer com uma famlia como a sua? Se eles fossem como Ernesto, tudo seria diferente. Amargurada 
respondeu:
  - No fiz por mal, pai. Estou cansada e queria dormir.
  - Por que no disse aonde foi nem respondeu s suas perguntas? Ela se interessa pelo seu bem-estar. Preocupa-se com voc, lhe quer bem. Por esse motivo sofre quando 
voc no lhe d satisfaes.
  Ela teve vontade de dizer que tinha idade para cuidar de si mesma e que no precisava que a me ficasse tomando conta de todos os seus passos. Mas sabia que no 
adiantaria. Ele nunca entenderia.
  - Vou descer e conversar com ela.
  - Faa isso, filha. Diga-lhe onde foi e com quem. Assim ela ficar bem.
  Eles desceram. Geni estava estendida no sof, com as mos no rosto. Aristides aproximou-se:
  Est melhor, Geni?
  Ela meneou a cabea negativamente e no respondeu. Ela continuou:
  - Jacira no fez por mal,  que chegou cansada e queria dormir. Veja, ela est aqui para conversar com voc.
  Geni continuou cobrindo o rosto e seu corpo foi sacudido por alguns soluos. Jacira no acreditou muito naquele mal-estar, mas estava desanimada e resolveu ceder:
  - No precisa chorar, me. Eu fui na casa da minha colega da oficina. Ficamos conversando e o tempo foi passando.
  - Voc no me disse nada e eu fiquei esperando voc para jantar, seu prato est no forno.
  - Obrigada, mas estou sem fome.
  - Vai ver que jantou na casa dela. Voc no gosta mais da minha comida.
  - Voc est enganada. Tomamos um lanche e isso me tirou a fome. Estou cansada e quero ir dormir.
  - No vai lavar a loua do jantar?
  Jacira suspirou resignada:
  - Pode deixar, eu lavo.
  Ela foi para a cozinha e comeou a dispor tudo para lavar. Silenciosamente foi at a porta da sala espiar. Geni estava sentada em sua poltrona favorita assistindo 
 televiso. Ela no gostava do programa esportivo, mas se no deixasse o marido assisti-lo, ele por sua vez no a deixaria ver o que queria. Felizmente, o programa 
predileto dele estava no fim e logo ela poderia ver o que desejava.
  Jacira olhou o rosto da me e notou que ela estava muito bem, fisionomia relaxada e calma. No parecia ter chorado de verdade nem ter passado mal.
  Enquanto lavava a loua, lgrimas sentidas desciam pelas suas faces enquanto ela pensava:
  "A felicidade no  para mim. Sbado vou at Ernesto dizer que no ser possvel frequentar suas aulas.  melhor eu me resignar ao meu destino. Nada que eu faa 
poder mudar isso".

  VI
  Durante os primeiros dias da semana seguinte, Jacira sentiu-se triste, deprimida. Na quinta-feira sentou-se ao lado de Margarida na hora do almoo. Tinha levado 
lanche de casa, mas estava sem fome.
  Margarida olhou-a e perguntou: 
  - No vai comer?
  - Estou sem fome.
  Margarida abriu a marmita e ofereceu:
  - Eu trouxe macarro e frango. Est muito bom. Quer um pouco?
  - No. Obrigada.
  A outra a olhou sria e considerou:
  - Tenho notado que voc anda triste, sem vontade, no se arruma mais como antes. Ultimamente voc estava bem, esforava-se para melhorar, cuidava mais da aparncia. 
O que aconteceu para voc voltar a ser como antes?
  - Eu me cansei, Margarida. No vou lutar mais. De que adianta? Quem no tem sorte como eu, precisa aceitar as coisas como so.
  - No a estou reconhecendo. Voc disse que no sbado vestiria seu vestido novo e iria devolver aquele leno perfumado. Pelo visto voc no foi.
  Jacira tentou reter as lgrimas que teimavam em lhe descer pelas faces, como no conseguiu, apanhou um guardanapo de papel e enxugou o rosto com raiva:
  - Eu fui.
  - Encontrou o homem?
  - Sim.
  - Voc foi v-lo e ele a maltratou e a deixou magoada.
  - Ao contrrio. Ele me recebeu muito bem, mostrou-me toda a casa.  muito grande e bem-arrumada.
  - Ento no estou entendendo. Conte-me tudo.
  Os olhos de Jacira brilharam e seu rosto distendeu-se quando comeou a contar como fora a visita e o convite que Ernesto lhe fizera. Finalizou:
  - Eu sa de l no stimo cu, fazendo mil planos para mudar minha vida, mas ao chegar em casa ca na realidade. Minha me se fingindo de doente para no ter de 
fazer os servios domsticos, meu pai interessado na televiso, repreendendo-me por eu protestar por ela ter deixado todo servio para mim! Ento percebi que por 
mais 
que eu faa nunca me libertarei deles.
  - Mas eles sempre foram assim. No entendo por que voc estranhou tanto.
  -  que Ernesto me mostrou que para certas pessoas a vida pode ser muito diferente da que eu sempre vivi. Senti que a distncia entre eu e o povo que vai assistir 
s suas aulas  to grande que no vai adiantar eu ir.
  Margarida abraou a amiga dizendo:
  - Voc est errada. A vida est lhe dando a chance de aprender com uma pessoa boa, de classe, e voc est querendo jogar tudo fora. Eu, se pudesse, adoraria ir 
a essas aulas.
  - As pessoas estavam muito bem-vestidas.
  - Voc tambm estava. Aquele vestido azul lhe caiu muito bem. Alm disso, tem o novo.
  - Mas eu s tenho os dois. Teria de ir sempre com eles.
  - Isso no  problema. Eu resolvo para voc. Jacira olhou-a admirada: 
  - Como?
  - Vamos fazer novos vestidos.
  - No tenho como comprar os tecidos.
  - Deixe de ser teimosa. Eu tenho ainda alguns cortes. Para o prximo sbado voc j tem. Mas eu tenho um que sobrou da minha coleo da loja que poderei reformar 
para voc.
  - No precisa se incomodar. Eu resolvi no ir.
  - Voc precisa ir. No pode perder essa oportunidade. Eu tenho suas medidas e hoje a noite mesmo vou reform-lo para voc. Com pequenos ajustes ficar lindo.
  Jacira olhava hesitante e seus olhos brilharam motivados. O sinal tocou e elas precisavam entrar na oficina. Jacira abraou a amiga dizendo emocionada:
  - Voc  o anjo bom que Deus colocou na minha vida. Nem almoou por minha causa.
  - No se preocupe. Eu preciso perder alguns quilos.
  Elas voltaram ao trabalho e Jacira sentia-se muito melhor. Iria assistir  aula no sbado, ainda que depois no pudesse ir mais. Pelo menos estaria em um ambiente 
alegre, bonito e entre pessoas educadas.
  Na manh do dia seguinte quando Jacira chegou ao trabalho, Margarida fez-lhe sinal que havia lhe levado o vestido. Apesar de curiosa, ela no pode v-lo antes 
do 
almoo.
  Assim que o sinal tocou, as duas correram ao toalete e Margarida, satisfeita, abriu a sacola e tirou um vestido de seda verde-garrafa. Os olhos de Jacira brilharam:
  - Que lindo!
  - Vai ficar muito bem em sua pele morena. Experimente, vamos ver como fica.
  Rapidamente Jacira o vestiu e caiu-lhe muito bem. O vestido era justo, manga japonesa, decote V e a saia tinha recortes que se abriam embaixo. Um cinto com uma 
fivela dourada realava a cintura.
  - Voc est linda! Se eu ainda tivesse a loja, voc seria minha modelo. Tem um corpo muito bom.
  Jacira acariciava a seda da saia com prazer e comentou
  - Deve ser muito caro.
  -  uma seda muito fina. Estou certa de que voc com ele vai ser a mulher mais bonita de l. Eu gostaria que cuidasse melhor dos seus cabelos. Hoje, ao sairmos, 
vou lev-la ao salo do meu amigo Belo. Ele corta e penteia muito bem. E, pode ir sossegada, de voc ele nem vai cobrar. Agora, tire o vestido seno no dar tempo 
de almoar.
  Elas se apressaram e ainda tiveram tempo de comer antes que o sinal soasse. Jacira estava ansiosa e parecia que o tempo no passava. No via a hora que o sinal 
tocasse 
indicando o fim da jornada de trabalho. Finalmente ele soou e elas puderam deixar a oficina.
  Uma vez na rua, Jacira disse  amiga:
  - Seu amigo  um trabalhador como ns. No  justo que ele me atenda de graa. Se ele no cobrar muito, eu gostaria de pag-lo.
  - No seja orgulhosa. O Belo  gente boa. Ele foi pobre como ns, mas hoje tem um salo grande e clientes de classe. Mas apesar de estar bem de vida continua sendo 
amigo dos amigos. Eu o conheo h mais de cinco anos. Quando ele comeou, o pai no queria que ele fosse cabeleireiro e o colocou para fora de casa.
  - Por qu? Ele no era trabalhador?
  - Era. Mas voc sabe, ele no era igual aos outros rapazes e o pai queria que ele tivesse outra profisso.
  - Puro preconceito.  cruel colocar um filho para fora de casa.
  - Qual nada. Foi bom para ele. O pai no o entendia e estava atrapalhando sua vocao. Claro que no comeo foi difcil, e eu, muitas vezes, chamei-o para ficar 
em casa. Mas logo comeou a trabalhar de ajudante em um salo para pagar os cursos e quando se formou comeou a ganhar dinheiro. At que montou seu prprio salo. 
Voc vai gostar. Dele. Vamos tomar aquele nibus que est vindo.
  Elas correram e conseguiram subir no nibus. No estava to cheio como Jacira costumava ver.  que ele se dirigia para o centro da cidade.
  A certa altura, Margarida deu sinal e desceram. O bairro era bonito, as casas boas e as ruas cheias de rvores.
  - Venha - convidou Margarida. - Fica logo ali.
  Foram andando e pararam diante de um prdio muito bonito, o que fez Jacira observar:
  - Quando passo por um lugar como este, no tenho nem coragem de entrar.
  - Bobagem. Eu no ligo para isso.
  Margarida puxou Jacira pela mo e entraram no salo. Jacira encantou-se com os espelhos e os arranjos de flores.
  - A esta hora no tem muita gente. Mas aqui costuma estar sempre lotado.
  Havia apenas duas mulheres sendo atendidas. Margarida, segurando Jacira pela mo, caminhou para o fundo do salo, em direo a um rapaz que estava sentado de costas 
tomando um caf.
  - Como vai, Belo? - disse Margarida tocando levemente no ombro dele.
  Imediatamente ele se voltou e vendo-as levantou-se com um sorriso agradvel no rosto:
  - Margarida, minha linda! Que bom v-Ia!
  Abraou-a calorosamente beijando-a sonoramente na face.
  Jacira olhava-o admirada. Era um homem alto, lindo, moreno, traos perfeitos, grandes olhos verdes, cabelos castanhos com reflexos dourados, exibindo dentes alvos 
e bem distribudos.
  - Esta  minha amiga Jacira. J lhe falei dela.
  - Como vai, Jacira? Faz algum tempo que Margarida me falou de voc. Por que demorou tanto?
  - Vou bem... - balbuciou ela sem saber o que dizer. Margarida interveio:
  - Vou contar-lhe por que decidimos vir hoje aqui.
  Em poucas palavras Margarida falou do convite para as aulas e por que Jacira desejava desistir.
  Ele ouviu tudo com ateno, depois comentou:
  - No faa isso, minha filha! No mundo, se voc no se colocar l em cima, os outros passam por cima sem d nem piedade. Quem espera valorizao dos outros, fica 
sempre por baixo. E voc que tem de se valorizar.
  -  que eu nunca tive chance na vida. Sempre fui pobre, feia, e meus pais dependem de mim.
  Belo fixou-a srio, depois respondeu:
  - No meu conceito, no existe mulher feia. S as que acreditam na prpria feiura e no fazem nada para melhorar. Quanto  voc, d para notar que no se cuida 
mesmo. 
Est maltratada, rosto sem maquiagem, cabelos queimados de sol, sem brilho, e outras coisas mais.
  - Eu sei que sou assim. Eu nasci assim e no vejo como mudar.
  - Pois eu aposto com voc que posso transform-la em uma mulher elegante, de classe.
  Os olhos de Jacira brilharam por alguns segundos, depois uma onda de tristeza a acometeu:
  - Essas coisas custam caro. No tenho como pagar.
  - O mundo no se fez em um dia. Posso ensinar-lhe como cuidar de sua pele, dos seus cabelos, com recursos caseiros. Maquiagem no custa to caro. H produtos baratos 
que fazem o mesmo efeito. Mas h um problema...
  - Qual? - indagou Jacira.
  - Preciso saber se voc realmente quer se tornar uma mulher bonita, atraente.
  - Querer eu quero, mas no acredito que eu seja capaz de me tornar o que voc diz.
  - A postura  o mais importante. Se voc no perceber sua prpria beleza, se no acreditar que 
bonita, no poderei fazer nada. a confiana em si o brilho do olhar, o sorriso alegre, que criam as energias necessrias  mudana. Para que sua beleza venha para 
fora,  preciso que voc aprenda a enxerg-la dentro de voc e express-la.
  -  verdade - tornou Margarida sorrindo. - Quantas vezes vemos mulheres que achamos feias, ao lado de homens bonitos, chiques, que tudo fazem para agrad-las?
  - Entendeu o que eu disse? - tornou Belo com um sorriso maroto.
  - Ser que eu seria capaz disso?
  Belo deu de ombros e respondeu:
  - No sei. S sei que se desejar de fato, vai conseguir.
  Os olhos de Jacira brilharam, apesar de tudo, ela estava hesitante. Margarida interveio:
  - Ele sabe o que diz! Acredite. Voc j perdeu muito tempo em sua vida. O que est esperando? 
  Belo puxou uma cadeira em frente do espelho:
  - Sente-se aqui, Jacira. Vamos ver o que podemos fazer.
  Ela obedeceu. Olhando-se no espelho sentiu vontade de levantar-se e ir embora correndo. Ela era muito feia! Por mais que ele quisesse no conseguiria torn-la 
bonita.
  Belo examinou os cabelos dela com ateno, puxou-os para trs observando o efeito, depois os levantou dos lados, puxando uma onda do lado, virou novamente e depois 
disse:
  - Seu cabelo  de boa qualidade. Est maltratado. J sei como vou cort-lo e fazer uma boa hidratao. Quanto  sua pele  boa e sem manchas, mas tambm precisa 
de certos cuidados. Vou ensinar-lhe como fazer em casa.
  Colocou um avental nela, chamou uma mocinha e deu as instrues para lavar seus cabelos. Enquanto a garota levou Jacira para o lavatrio, ele ficou conversando 
com 
Margarida:
  - Voc a trouxe para que aprenda a cuidar-se. Quando  que tambm vai criar vergonha e se cuidar como j lhe ensinei?
  - Eu estou bem assim. No tenho pacincia para fazer o que voc quer.
  - Desde que trancou seu corao sente prazer em ficar feia para escapar dos homens. Est perdendo muito tempo. A vida passa e quando se arrepender, ser tarde.
  - Eu no tenho um corpo elegante. Sou baixinha e gordinha. Por mais que faa, no sairei disso.
  - Voc poderia ser uma gordinha linda se se cuidasse. J que no quer emagrecer, cuidar do corpo, pelo menos cuide dos cabelos, da pele, que j foi melhor do que 
agora.
  - Eu vim para ajudar Jacira. Desejo que ela encontre algum e possa ser feliz. Sabe que ela nunca teve um namorado? Tem mais de trinta anos.
  - Ela ainda no entendeu o que  ser mulher. No tem postura. No encontrou seu prprio brilho. Estou certo de poder faz-la perceber que pode mudar.
  Pouco depois, quando Jacira voltou, ele comeou a trabalhar. Virou a cadeira dela de costas para o espelho e mandou uma moa fazer suas unhas. Cortou os cabelos, 
depois os penteou e arrumou as sobrancelhas, fazendo uma maquiagem.
  Quando ela ficou pronta, Belo virou a cadeira de frente para o espelho e disse:
  - Conhece essa mulher?
  Jacira olhou e no se reconheceu. Os cabelos mais curtos, penteados para o lado, desciam at os ombros repicados e ligeiramente ondulados suavizavam os traos 
de 
seu rosto. Seus olhos pareciam maiores e seus lbios bem delineados tornaram-se mais bonitos.
  Jacira ficou muda. Aquela no podia ser ela. Quando conseguiu falar disse:
  - O que voc fez? Essa no se parece comigo.
  - Essa  voc. No gostou?
  -Estou mais jovem, mais bonita.
  - De agora em diante precisa conservar. Vou dar-lhe alguns produtos para que possa continuar se arrumando bem.
  Antes que ela falasse, ele continuou:
  - No vai lhe custar nada. O salo ganha dos fornecedores alguns produtos e posso do-los desde que me prometa que vai us-los.
  Jacira estava entusiasmada. Pela primeira vez via-se como uma mulher bonita. No conteve a admirao:
  - Ser que vou saber me arrumar assim?
  - No ser difcil. Da forma como cortei seus cabelos, ser fcil pente-los. Vou ensin-la. Quanto  maquiagem,  muito simples. Logo aprender.
  Na meia hora em que ficaram conversando, Belo deu-lhe alguns produtos e ensinou-a a us-los. Ao despedir-se, Jacira fez questo de agradecer e dizer que dali para 
a frente ela lhe seria grata e gostaria muito que a aceitasse como sua amiga. Belo sentiu-se feliz e satisfeito. Transformar as pessoas, torn-las belas, era o que 
ele mais gostava de fazer.
  Quando deixaram o salo, j havia escurecido, s ento Jacira pensou em seus pais. Certamente no aprovariam sua mudana.
  - Quando eu chegar em casa vou ter de brigar com minha me. Ela no vai gostar da minha aparncia.
  - No entendo por qu. Voc ficou muito mais bonita. Qualquer um gostaria de v-la mais arrumada.
  - No minha me. Ela  antiquada. No gosta de maquiagem. Vai ficar mais brava com a cor do esmalte em minhas unhas. Nunca deixou que eu usasse nem base.
  - No ligue para o que ela vai dizer. Quando souber que daqui para a frente voc vai se arrumar assim, acabar se acostumando.
  Jacira suspirou:
  - Espero que sim.
  - Voc gostou, no gostou? 
  - Adorei.
  - Ento pronto. Isso  o que conta.
  Elas pararam no ponto de nibus. Jacira despediu-se da amiga beijando-a na face, depois disse: 
  - Nunca esquecerei o que est fazendo por mim. Voc pode contar comigo para qualquer coisa.
  - Gosto de voc e desejo que seja feliz. 
  Abraaram-se e Jacira atravessou a rua para esperar o nibus e ir para casa. Apesar de j ter escurecido, ainda havia uma fila e ela posicionou-se no fim dela. 
Se tivesse sorte tomaria o primeiro nibus, ainda que fosse para viajar em p. No queria se atrasar ainda mais.
  Em seguida, chegaram mais dois homens e ficaram atrs dela. Eles conversavam animadamente e Jacira nem prestou ateno. Estava preocupada com a reao de sua me.
  Naquele momento, alguma coisa caiu sobre seu p esquerdo e ela estremeceu assustada. Olhou para ver o que era e um isqueiro estava entre seus ps. O homem, que 
estava atrs dela, abaixou-se para apanh-lo e Jacira afastou-se um pouco para que ele o fizesse.
  Depois, ele levantou o rosto e olhou-a sorrindo 
  - Desculpe. Machucou?
  Era um homem bonito, olhos grandes que a olhavam fixamente. Ela, um pouco acanhada, respondeu:
  - No.
  - Sinto t-la assustado. Mas esse pequeno incidente me trouxe a oportunidade de conhec-la.
  Jacira no conseguiu responder. Ele a olhava com admirao e ela ficou sem jeito.
-   Se voc no fala com desconhecidos, eu me apresento: meu nome  Nelson Martins. E o seu?
  Ela, ento, respondeu com voz que procurou tornar firme:
  - Jacira.
  - Muito prazer.
  Ele estendeu a mo e ela a apertou. Vendo que ele queria continuar conversando, Jacira ficou aliviada quando o nibus chegou e as pessoas comearam a subir.
  No momento em que ela ia subir, ele rapidamente a ajudou, o que a fez mais acanhada. Nunca nenhum homem a tinha olhado daquele jeito e ela sentia-se um pouco assustada.
  Parecia-lhe ouvir sua me dizendo: "Vai j lavar essa cara e tirar essa maquiagem. Voc parece uma prostituta".
  Sentiu vontade de sair correndo e procurou sentar se ao lado de uma senhora para evitar que ele se sentasse ao seu lado. Ele sentou-se do outro lado, um pouco 
atrs e ela sentia o olhar dele pousado nela. Apesar do medo e das palavras de sua me que a incomodavam, ela refletiu que algum a olhara com interesse.
  Ainda que fosse com inteno ruim, pelo menos algum se interessara por ela.
  Quando chegou ao ponto, ela deu o sinal, desceu, e nervosa notou que Nelson desceu tambm. Comeou a caminhar depressa, mas ele a alcanou com facilidade segurando 
seu brao:
  - Espere. Quero falar com voc.
  Ela parou olhando-o nos olhos. Se ele lhe dissesse algo indecente, estava disposta a mostrar-lhe que no era uma prostituta. Ele sorriu e continuou: 
  -  sempre assim?
  - Assim como? - respondeu ela de m vontade.
  Difcil. Eu j me apresentei, podemos conversar? Simpatizei com voc, desejo conhec-la. Voc  casada ou comprometida?
  - No. Mas no costumo conversar com estranhos. 
  - J nos apresentamos, no somos mais estranhos.
  Os olhos dele eram amistosos e o rosto de Jacira desanuviou-se.
  -  que estou com pressa. Atrasei-me, no avisei minha me e ela deve estar preocupada.
  - Foi por uma boa razo. Vi quando saiu daquele salo.
  - Viu?
  - Sim, e a segui at o ponto de nibus. No queria perder a chance de conversar com voc.
  Vendo que ela no respondeu, ele pediu:
  - Vamos nos sentar em um banco da praa para conversar um pouco?
  Jacira estava sem saber o que dizer. Seu rosto estava corado e parecia-lhe estar fazendo alguma coisa errada. Por outro lado sentia vontade de ir.
  -  tarde. No posso demorar.
  - Apenas alguns minutos no far diferena, voc j est atrasada mesmo.
  Ela concordou com a cabea e ambos foram caminhando at a praa; no caminho ele segurou delicadamente o brao dela para atravessarem a rua. Sentaram-se no primeiro 
banco. Ela no sabia o que dizer. Para deix-la mais  vontade, ele perguntou se ela trabalhava e, percebendo que ele a tratava com respeito, aos poucos Jacira foi 
falando sobre seu trabalho na oficina. Por fim, perguntou:
  - E voc, trabalha em qu?
  - Em um escritrio de contabilidade. 
  - Voc gosta?
  - Nem tanto. Mas foi o que pude encontrar.
  - Eu tambm no gosto da oficina. Mas preciso do emprego. Meus pais dependem de mim. E por falar neles, tenho de ir.
  Jacira levantou-se, ele tambm, segurou a mo dela dizendo:
  - Vou acompanh-la at sua casa. 
  - No  preciso.
  - Fao questo.
  Jacira teve medo de que sua me a visse e a maltratasse diante dele.
  - Voc vai apenas at a esquina.
  - Mas voc vai me mostrar a sua casa.
  Eles foram caminhando e quando chegaram na esquina da casa dela, pararam. Jacira disse: 
  - Vamos nos despedir aqui.
  - Qual  a casa que voc mora?
  - No vale a pena lhe dizer.  uma casa velha e feia.
  - No importa.
  Hesitante, Jacira apontou:
  -  aquela cinza, no meio do quarteiro.
  Ele tirou um carto do bolso e deu-o a ela dizendo: 
  - Como voc no tem telefone, aqui tem o meu nmero. Ligue-me nos prximos dias, poderemos sair, ir ao cinema, ou fazer o que voc desejar.
  Vendo que ela estava indecisa ele continuou: 
  - Prometa que vai me ligar. 
  - Est bem. Agora tenho de ir.
  Ela estendeu a mo que ele segurou e beijou-a na face. Jacira sentiu as pernas tremerem.
  - Boa noite - disse ele sorrindo. - No deixe de me ligar.
  - Boa noite - respondeu ela, afastando-se depressa.
  Seu corao batia descompassado. Parecia-lhe ter cometido um crime. Seu rosto maquiado, corado pela emoo, o atraso para chegar em casa, tudo isso faria com que 
a me notasse que algo diferente havia acontecido.
  Abriu o pequeno porto de ferro do jardim, caminhou at a porta e esperou um pouco para entrar. Mas estava difcil de se acalmar. Olhou o relgio, passava das 
nove. 
Nunca tinha chegado em casa to tarde. Respirou fundo, abriu a porta e entrou.
  Seus pais estavam na sala vendo televiso na obscuridade e ela passou rpido, foi logo para o quarto. Ouviu a voz da me gritar:
  -  voc, Jacira? Por que voltou to tarde e foi para o quarto? O que aconteceu?
  - Nada. Est tudo bem.
  - Desa para jantar e lavar a loua.
  Apesar de estar com fome, ela respondeu:
  - No quero jantar. Estou cansada e vou dormir.
  Ela fechou a porta do quarto e olhou-se no espelho. Seu rosto corado, maquiado, os cabelos brilhantes e arrumados, fizeram-na sorrir com prazer. Parecia outra 
mulher, 
mas era ela.
  Lembrou-se de Nelson, ele aparentava uns quarenta anos, era alto moreno, grandes olhos castanhos, sorriso bonito, elegante, bem-vestido. Difcil acreditar que 
ele tivesse gostado dela.
  Mas era verdade. O carto dele ainda estava na sua mo.
  Algum mexeu na maaneta da porta e Geni gritou irritada:
  - Jacira! Por que trancou a porta? Abra, eu quero falar com voc.
  Ela no tinha coragem de abrir. A me bateu com insistncia pedindo que ela abrisse. Jacira irritou-se, guardou o carto na gaveta e depois abriu a porta dizendo:
  - O que quer? Eu estava arrumando minhas coisas para amanh cedo.
  Ela entrou e colocou a mo na boca dizendo assustada:
  - Jacira! O que voc fez, ficou louca? Est parecendo uma...
  Jacira a interrompeu:
  - No termine. Eu sei muito bem o que estou fazendo. No quero sua opinio. Eu tenho idade para saber o que quero.
  - No acredito que esteja me desafiando desta forma. Ai... Estou me sentindo mal... Tide, venha depressa ver o que Jacira fez. Essa filha ainda me mata!
  O programa de televiso estava interessante e Aristides fingiu que no ouviu. Jacira controlou a raiva e com voz firme respondeu:
  - Voc ter de se acostumar. De hoje em diante vou me arrumar assim.
  Os olhos de Geni brilharam raivosos. Ela gritou:
  - Tide! Venha aqui, j. Jacira est me afrontando. Eu que sempre me sacrifiquei por ela. Tiiide! Estou passando mal, socorro!
  Jacira suspirou procurando conter-se. Naquele momento ficou claro que ela estava fingindo. Agia assim para manipular a famlia.
  Nervoso por ter de atend-la, Aristides subiu as escadas quase correndo e viu Geni amparada na porta do quarto.
  - O que aconteceu? - indagou.
  - Olhe para Jacira. Veja com seus prprios olhos o que ela fez.
  Aristides olhou, viu e admirou-se:
  - Jacira! Como voc est bonita! Parece outra pessoa.
  - Bonita?!  isso o que voc diz? Ela est vulgar pintada desse jeito. Est me afrontando dizendo que vai pintar-se assim todos os dias.
  - , pai. Daqui para a frente vou me arrumar como as outras mulheres.
  Aristides estava boquiaberto. No  que Jacira estava at bonita? Voltando-se para Geni disse:
  - Voc est exagerando. No  tanto como voc diz.
  Geni comeou a soluar dizendo:
  - Voc tambm est contra mim? Como pai deveria obrig-la a lavar essa cara e arrumar o cabelo como antes. Filha minha no pode sair por a como uma qualquer. 
At as unhas ela pintou de vermelho. Onde j se viu?
  - Jacira, voc deve respeitar sua me e fazer o que ela pede - disse Aristides sem muita convico.
  - Pai, sou uma mulher de trinta e oito anos. Posso decidir me arrumar como gosto. Fazendo isso no estou faltando com o respeito a voc e a ela. Eu no gosto da 
maneira como mame se arruma, mas nunca disse nada. Ela tem o direito de se vestir como quer.
  - Est vendo? Agora ela me ataca dizendo que no sei me vestir. Ai, estou com falta de ar... Acho que vou cair...
  Aristides segurou-a pelo brao:
  -  melhor se deitar. Vou lev-la para o quarto.
  Com muito custo ela deixou-se levar soluando at o quarto. Jacira fechou a porta, abriu a gaveta e segurou o carto que Nelson lhe dera. Ele era o primeiro resultado 
de sua mudana.
  Sentiu uma onda de alegria. Abriu o guarda-roupas e pensou que precisava fazer outro vestido. Estava ansiosa para ir  aula de sbado e descobrir o que Ernesto 
diria de sua nova aparncia.
  No dia seguinte veria com Margarida como fazer isso.
  Geni, assim que Aristides fechou a porta do quarto, parou de soluar:
  - Voc ficou do lado dela e contra mim.
  - Mas ela est mais bonita.
  - E isso que voc quer que ela sinta? J pensou que se isso continuar todo nosso esforo em educ-la para nos amparar na velhice ter sido intil? Que logo vai 
aparecer um sujeito qualquer e lev-la embora? O que faremos se isso acontecer? Voc no arranja mais emprego. No temos renda. Sua aposentadoria no  suficiente 
para nos sustentar.
  Aristides, pensativo, coou a cabea. De certa forma Geni tinha razo. O que fariam os dois sozinhos? Geni no aguentaria fazer todo servio da casa. Ele teria 
que ajudar. Adeus leitura de jornais, os papos com os amigos na padaria e os programas de televiso. No. Isso no poderia acontecer.
  - Voc est certa. Eu errei. Vou ficar do seu lado. Agora  tarde. Descanse. Amanh falarei com ela. Jacira ter de nos obedecer como sempre fez.
  - Isso mesmo. Ns precisamos dela e no podemos facilitar.
  Aps essa resoluo, Aristides deixou Geni no quarto e prazerosamente voltou a sentar-se diante da televiso.
  No sbado, diante do guarda-roupas, Jacira olhava preocupada para os vestidos pendurados. Ela queria muito ir  casa de Ernesto assistir s aulas. Depois da ida 
ao cabeleireiro, ficara motivada. Ainda bem que tinha o outro vestido que Margarida reformara. Resolveu coloc-lo.
  Nos ltimos dias,  noite, fechada em seu quarto, ela treinara maquiar-se, e estava contente com o resultado.
  Arrumou-se com cuidado, fez uma maquiagem leve, penteou os cabelos, olhou-se no espelho minuciosamente. Sorriu satisfeita. A sensao de estar elegante, de sentir-se 
mais bonita, era nova, mas muito agradvel. Sentia vontade de cantar, rir, voar.
  Apanhou a bolsa e saiu. Ao passar pela sala onde Aristides assistia ao programa esportivo, e Geni lia uma de suas revistas favoritas, estremeceu quando a voz estridente 
de sua me gritou:
  - Aonde vai a esta hora da tarde vestida desse jeito?
  - Vou passear.
  - Tide! Voc no fala nada? Ela pintou a cara de novo e vestiu essa roupa apertada.
  Aristides olhou contrariado e, sem prestar muita ateno, resmungou:
  - O que est acontecendo aqui? Um homem velho, cansado no pode assistir ao seu programa favorito porque vocs duas no se entendem? Jacira, trate de obedecer 
sua me.
  Jacira sequer respondeu, virou as costas e saiu antes que Geni comeasse a cena de sempre. Na rua, tratou de distanciar-se rapidamente, com medo de que sua me 
sasse na rua para repreend-la, como j fizera algumas vezes.
  Felizmente o nibus estava chegando e ela conseguiu embarcar. Chegou  casa de Ernesto dez minutos antes do horrio que ele havia marcado. O porteiro a reconheceu 
e abriu o porto para que ela entrasse.
  Vrias pessoas conversando, rindo, entraram tambm. Estavam bem-vestidas e Jacira sentiu receio de no estar vestida de acordo, um aperto no peito a incomodou.
  Pensou em ir embora, mas nesse momento Ernesto estava no hall conversando com algumas pessoas e, vendo-a, aproximou-se sorrindo:
  - Que bom v-la! Eu estava aqui na entrada pensando se voc viria.
  - Como vai? - indagou ela apertando a mo que ele lhe estendia.
  - Bem, e voc est cada dia melhor. Esse penteado fica-lhe muito bem.
  Jacira sentiu a opresso desaparecer: 
  - Obrigada.
  - Veio assistir a aula de hoje? Estamos iniciando uma turma nova.
  Ela hesitou um pouco, depois disse:
  - No sei. Antes preciso perguntar-lhe... - calou-se embaraada.
  Ele consultou o relgio e respondeu.
  - Temos alguns minutos. Vamos a minha sala. 
  Uma vez sentados um diante do outro, Ernesto disse:
  - Pode falar. Quais so suas dvidas?
  - Aqui  um ambiente fino, de pessoas bem-vestidas, no sou desse meio. S tenho este vestido e assim mesmo porque Margarida me deu de presente.
  Ele fixou seus olhos e perguntou:
  - Voc sente vontade de assistir s aulas?
  - Sinto. Conversar com voc me fez muito bem. Deu-me coragem para enfrentar minha famlia e mudar as coisas que me deprimiam.
  - Nesse caso deve fazer o curso. Estou certo de que vai aproveitar muito. Voc est no ponto certo para conseguir transformar sua vida, conquistando o que deseja.
  - As pessoas podem no gostar de me ver aqui.
  - Se voc no deixar o orgulho de lado e lutar pelo que deseja, no poderei fazer nada por voc.
  - No  por orgulho.
  -  sim. Voc se julga menos do que essas pessoas e receia enfrentar uma convivncia temendo cometer erros e ser criticada. Entretanto, voc no  menos nem mais 
do que ningum.
  - Eu sei o meu lugar. Sou uma operria pobre e sem instruo.
  - As pessoas valem pelas qualidades que tm e no pela classe social em que se colocaram.
  - Eu nasci assim, se pudesse escolher seria diferente.
  - Voc pode escolher.  livre para decidir o que deseja ser e transformar sua vida.
  Jacira meneou a cabea negativamente:
  - No creio. Quem nasce pobre no tem escolha.  trabalhar no que puder e resignar-se com o que tem.
  Ernesto sorriu e respondeu:
  - Vejo que est iludida. Est na hora da aula. No temos mais tempo. Vamos. Depois conversaremos.
  Um pouco hesitante, Jacira o acompanhou. Ao entrarem na sala lotada, o burburinho cessou e Ernesto colocou mais uma cadeira ao lado da primeira fileira, pedindo 
a Jacira que se sentasse.
  Depois, apanhou o microfone, deu as boas-vindas a todos e comeou a falar:
  - Todos desejamos conquistar a felicidade, mas a maioria tem dificuldade de encontrar o caminho. Depois de anos de estudos sobre o comportamento humano, fazendo 
vivncias com pessoas, descobri que a vida  muito mais do que parece e que nossa importncia como pessoa  muito maior do que eu pensava.
  Ele fez ligeira pausa passando os olhos pelas pessoas que o ouviam com ateno e continuou:
  - Tornei-me espiritualista. Descobri que nosso esprito j viveu outras vidas aqui na Terra. Ao renascer, ele recebe um novo corpo para continuar a aprendizagem 
que visa o amadurecimento do seu esprito. Quando esse corpo morre, o esprito volta para seu lugar de origem, em outras dimenses do Universo. Em nosso inconsciente, 
guardamos todas as experincias de todas as nossas vidas na Terra. Quando estamos aqui, no nos lembramos delas para ficarmos livres do passado, embora ele discretamente 
continue nos influenciando.
  Os olhos de Ernesto brilhavam e sua voz agradvel tinha a firmeza da sua crena. Fez breve silncio, depois continuou:
  - No meu conceito, a vida existe de forma plena e verdadeira em nosso esprito, o condutor absoluto da nossa vida. Vocs vieram para um curso de autoajuda, e eu 
estou me colocando, porquanto quem deseja melhorar seu mundo interior no pode ignorar essa base. Se tem algum aqui que no concorda, pode retirar-se e apanhar 
seu dinheiro de volta.
  Ele esperou alguns minutos e como ningum fez meno de sair, ele continuou:
  - Muito bem, podemos ento comear nossa aula.
  Jacira ouvira tudo com ateno, envolvida pelo olhar de Ernesto e apesar de nunca ter pensado nesses assuntos, sentiu que tudo fazia sentido em seu corao.
  Durante uma hora, Ernesto discorreu sobre problemas psicolgicos determinantes de resultados negativos e falta de reconhecimento das pessoas na apreciao e utilizao 
de suas qualidades como causa da infelicidade.
  Por fim disse:
  - Ao finalizar, peo-lhes que analisem todos os fatos da vida sob a tica espiritual.
  Algumas pessoas levantaram a mo desejando fazer perguntas, mas Ernesto disse:
  - Na prxima aula lhes direi como fazer isso. At a prxima semana.
  Sob os aplausos entusiasmados dos alunos, Ernesto deixou a sala. Jacira estava encantada. O tempo passara rpido e ela notara que muitas crenas que ele disse 
serem erradas, ela tinha cultivado a vida inteira.
  Deixou a sala e no corredor viu Ernesto rodeado por algumas pessoas conversando. Queria agradecer e despedir-se, mas no querendo interromp-los foi passando discretamente, 
porm ele a chamou:
  - Jacira, espere.
  Ela parou. Ele continuou:
  - Desejo apresentar-lhe algumas pessoas. Ela aproximou-se e ele as apresentou:
  - Jacira, esta  Marina, Jos, Marcos e Snia.
  - Muito prazer, Jacira - respondeu ela um pouco tmida. Mas eles um a um abraaram-na, dando-lhe um beijinho na face.
  Jacira sentiu uma onda de prazer invadir seu corao. Eles a cumprimentaram com carinho e alegria. 
  - Jacira est comeando hoje - esclareceu Ernesto. 
  - Ns j estamos estudando aqui h dois anos - disse Marina.
  - Eu mudei minha vida depois que vim para c - afirmou Jos. - Vivia deprimido, triste, de mal com a vida. Agora sou outra pessoa.
  - Aconteceu com todos ns - garantiu Snia sorrindo.
  Conversaram alguns minutos mais, depois se despediram. Vendo-se a ss com Jacira, Ernesto disse:
  - Venha tomar um caf comigo. Vamos conversar. Quero saber o que voc achou.
  Ela acompanhou-o at a sala e sentaram-se  mesa onde j havia caf, leite, biscoitos e algumas xcaras.
  Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse e sentou-se em seguida. Serviu-os de caf com leite e depois disse:
  - E ento? O que sentiu durante a aula?
  Jacira pensou um pouco, depois respondeu:
  - Eu me senti muito bem. Principalmente quando disse que  espiritualista. Sempre acreditei que a vida continua aps a morte do corpo fsico, mas no conheo essa 
religio.
  - No  uma religio. A crena na vida aps a morte e na reencarnao so naturais, fazem parte da vida.
  - Se fossem naturais as pessoas no teriam tanto medo de morrer.
  - A maioria se recusa a estudar o assunto por preconceito. De tanto dramatizar a morte, evitam tudo o que se relaciona a ela.  iluso, uma vez que todos morreremos 
um dia.
  - S em falar nisso fico toda arrepiada!
  Ernesto riu gostosamente e continuou:
  - Se voc soubesse o que acontece depois no diria isso. Lembra-se da outra vez que esteve aqui?
  - Eu dormi e tive um sonho lindo. Nunca mais me esqueci.
  - Eu lhe falei que no foi sonho. Voc foi realmente a um lugar fora deste mundo.
  - Voc me disse que ns podemos nascer aqui vrias vezes. Ainda no entendi bem como pode ser isso. 
  - Mais tarde compreender melhor. Naquela tarde quando voc dormiu, seu esprito saiu do corpo e foi visitar outra dimenso do Universo.  para l que vamos depois 
da morte.
  - Se isso for verdade, quero morrer agora!
  - Calma. S vai viver l se tiver vivido aqui uma vida produtiva e estiver bem.
  - Minha vida  muito ruim. Nesse caso penso que nunca irei para l.
  - Voc est enganada. O que conta no  sua condio social, mas a elevao do seu esprito. Para conquistar isso basta procurar se tornar uma pessoa melhor, mais 
lcida, mais feliz.
  - Isso  tentador, eu me sentiria muito feliz se pudesse viver l.
  - Voc tem tempo para conquistar essa condio. Tem muitos anos para viver aqui e aprender.
  -  isso que voc vai me ensinar?
  - Podemos trocar ideias sobre espiritualidade porque, como eu disse, sem essa base fica mais difcil conquistar o equilbrio. Tentarei passar para voc o que sei 
sobre o assunto, principalmente por saber que voc tem sensibilidade e vai entender. Mas nas aulas falo mais sobre o lado psicolgico.
  - Por que voc disse hoje que as pessoas que no concordassem poderiam sair?
  - Por que as pessoas so livres e eu no estou pregando nenhuma religio, mais minhas palavras refletem as pesquisas que tenho feito ao longo dos anos e comprovam 
essa realidade. Acho que estou falando muito e no desejo impor minhas ideias. E que me
entusiasmo quando falo do meu trabalho.
  - Eu ficaria o dia inteiro ouvindo o que voc diz. Sinto que est me fazendo bem. Penso que sou eu que estou abusando. As pessoas foram embora, e eu, alm de lanchar, 
ainda estou recebendo ensinamentos extras. No sei como lhe agradecer.
  - No precisa.  que voc foi to chorona que senti vontade de dizer-lhe que no precisa sofrer e pode modificar sua vida.
  - S o tempo em que passei aqui j me deixou muito melhor.
  Jacira levantou-se e continuou:
  - Obrigada pelo lanche e pelas boas palavras.
  - Espero que volte no prximo sbado e no fique fazendo luxo.
  Jacira corou:
  - No vou perder a prxima aula de jeito nenhum. Virei ainda que seja com o mesmo vestido. 
  - timo.
  Ela despediu-se e saiu. Sentia-se alegre, valorizada e leve. Conhecera pessoas agradveis, aprendera coisas novas. As palavras de Ernesto no lhe saam do pensamento.
  Ser que apenas mudando o modo de pensar, ficando mais otimista, sua vida mudaria?
  Essa ideia lhe parecia um tanto fantasiosa, mas por outro lado, lembrou-se da me, que reclamava e criticava tudo de que ela gostava. Isso sempre lhe parecera 
injusto e exagerado. Apesar de dizer-se doente, Geni alimentava-se muito bem, tinha cores saudveis.
  Pela primeira vez perguntou-se: Por que ela fazia isso? Apesar das dificuldades financeiras, no lhe faltava o essencial, dava at para ela comprar as revistas 
de que tanto gostava.
  J o pai no aceitava o fato de no ser mais o operrio especializado, mestre na fbrica, e preferia ficar desempregado, insatisfeito e infeliz a deixar o orgulho 
de lado e trabalhar no que lhe era possvel.
  Se eles mudassem o modo de pensar, talvez a famlia pudesse desfrutar de mais conforto e paz e ela no precisaria fazer tanto esforo para pagar as contas. Teria 
mais dinheiro para cuidar de sua aparncia e ser mais feliz.
  Agora que provara o prazer de ver-se mais bonita e arrumada, despertando admirao, desejava continuar se cuidando.
  Quando desceu do nibus foi caminhando e, ao chegar na esquina de sua casa, viu Nelson parado a sua espera. Vendo-a, ele aproximou-se dizendo:
  - Estava me perguntando se voc estava em casa ou no. Eu ia tocar a campainha para perguntar.
  Jacira assustou-se:
  - No faa isso! Minha me iria ficar muito zangada. - Por qu? Eu me apresentaria e pronto.
  Jacira respirou fundo e, olhando o rosto dele, esclareceu:
  - Meus pais so  moda antiga. No permitem que eu tenha amizade com rapazes.
  Foi a vez de ele se admirar:
  - Como assim? Voc no me parece menor de idade.
  - No sou mesmo. Mas fui criada dessa forma. Nunca tive um namorado.
  - No acredito! Est brincando comigo?
  - No. Foi por esse motivo que no outro dia no o deixei me acompanhar at em casa. Por que veio at aqui?
  - Tive vontade de v-la. Hoje  sbado e pensei que podamos sair, ir jantar, ao cinema, fazer o que desejasse.
  - No vou poder. Por ter sado esta tarde, minha me j vai brigar comigo. No vou nem falar em sair. Depois, eu no costumo sair  noite, ainda mais com homens.
  - Por qu? Sou um homem bem-intencionado. Se no fosse no viria at sua casa. Estou interessado em voc de verdade. Gostei do seu jeito. Voc no gostou de ter 
me conhecido?
  Apanhada de surpresa, Jacira no soube o que dizer. Ele era um homem bonito, elegante, ela se sentira muito contente por seu interesse. Mas tinha vergonha de dizer 
a verdade. Ele podia pensar que ela era uma moa fcil.
  - No se trata disso. E que hoje eu fiquei fora toda a tarde. J escureceu e eu tenho de ir para casa. Minha me no tem sade e eu a ajudo nas tarefas domsticas.
  - Voc no se interessou por mim como eu por voc. Se tivesse gostado de mim, faria tudo para sair comigo, ainda que fosse para darmos uma volta. No vou insistir.
  Jacira sentiu-se angustiada. Era-lhe difcil reconhecer que sentia vontade de ir e ao mesmo tempo medo de que ele, quando a conhecesse melhor, reconhecesse que 
ela no merecia seu interesse.
  Indecisa, ela sorriu tentando desfazer a impresso que causara e disse:
  - No  bem assim. Voc no sabe os problemas que tenho em casa. Mas se quiser, podemos dar uma volta agora, conversar um pouco e sair outro dia.
  Seus olhos brilharam e ele sorriu mostrando dentes alvos e bem distribudos.
  - Ainda bem que mudou de ideia.
  Foram andando lentamente, lado a lado at a praa, sentaram-se em um banco. Nelson segurou a mo dela e comentou:
  - Est fria.
  -  a primeira vez que saio com um homem.
  - Nos dias de hoje,  difcil de acreditar.
  - Vamos falar de outra coisa. Falei de minha famlia, mas voc ainda no falou da sua.
  - No tenho muito para contar. Meus pais moram em Minas, tenho uma irm casada que vive l tambm. Quanto a mim...
  Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras para dizer, depois decidiu-se:
  - Eu sou separado e tenho uma filha de quinze anos. Jacira sobressaltou-se:
  - Quer dizer que voc  casado?
  - Fui casado. Mas h cinco anos nos separamos. No deu certo. Jacira levantou-se:
  - Preciso ir. Est na hora.
  Ele segurou-a pelo brao e pediu: 
  - Sente-se, por favor.
  Jacira obedeceu. Ele continuou:
  - Quer ir embora porque sou separado e tenho uma filha?
  - No... No tenho nada a ver com sua vida.
  - Eu gostaria que voc soubesse mais a meu respeito.
  - No  por esse motivo... E que preciso ir mesmo. Est tarde, minha me deve estar preocupada.
  Ela levantou-se de novo e desta vez ele fez o mesmo. Jacira estendeu a mo dizendo: 
  - Boa noite.
  Ele olhou-a, passou o brao pela cintura dela, apertou-a de encontro ao peito e beijou-a demoradamente nos lbios.
  Jacira sentiu as pernas tremerem e seu corao disparou. Quando ele a soltou no soube o que dizer:
  - Desde o nosso primeiro encontro senti vontade de fazer isso. Sei que no vai me telefonar, mas amanh  tarde passarei aqui para v-la.
  Jacira sentia as pernas bambas, estava chocada. Pela primeira vez ela fora beijada! Ainda sentia os braos dele em sua cintura e o calor do seu corpo junto ao 
seu.
  - Voc precisa ir mesmo?
  Essa pergunta teve o dom de traz-la  realidade: 
  - Sim.
  Ela deu as costas e comeou a andar. Nelson a seguiu:
  - Vou acompanh-la at sua casa. 
  - At a esquina.
  Foram andando em silncio, de mos dadas. Na esquina da casa dela, pararam. Ele levou a mo dela aos lbios, depois disse:
  - Foi muito bom conhec-la. 
  - Boa noite!
  Foi o que ela conseguiu dizer, afastando-se quase correndo, sem olhar para trs.

  VII
  Jacira entrou em casa e, sem dar ateno s palavras de Geni e ao protesto do pai que queria ver televiso em silncio, correu a fechar-se no quarto. Sentou-se 
na cama tomando flego.
  Ela fora beijada pela primeira vez! O inesperado despertara emoes desencontradas, que no conseguia definir. Em seus devaneios da juventude muitas vezes imaginara 
como seria seu primeiro beijo de amor. Mas agora que havia acontecido, no entendia suas emoes, muito diferentes das que imaginara.
  Sentia-se atrada por Nelson, mas no podia dizer que era amor. Em sua imaginao o amor deveria despertar uma sensao inebriante, o que no aconteceu. O medo 
foi mais forte do que qualquer sentimento.
  Nelson parecia estar gostando dela. Como ele poderia gostar de uma mulher feia, pobre, inexperiente?
  Era difcil de acreditar. Geni batia insistentemente na porta do quarto gritando irritada:
  - Jacira, abra esta porta! Quero saber onde esteve o dia inteiro.
  Ela no tinha nenhuma vontade de abrir. No estava disposta a ouvir as queixas e reclamaes da me. Precisava pensar melhor sobre o que estava lhe acontecendo. 
Nelson queria namor-la, deixou esse ponto bem claro, mas ela no sabia como seria isso.
  Em dado momento, pareceu-lhe ouvir a voz da me dizendo:
  - Vai lavar essa cara. Voc parece uma prostituta!
  O que diria ela se soubesse que ela estava saindo com um homem casado? Mesmo separado, na cabea de Geni e de Aristides ele continuava casado.
  Revendo os momentos que tivera com Nelson desde que o conhecera, sentia que ele no a julgara uma mulher de vida fcil, a havia tratado com respeito. Alm disso, 
era um homem bonito, elegante.
  Revendo a figura de Nelson, Jacira sorriu satisfeita. Ningum mais poderia cham-la de solteirona, principalmente os pais que tinham prazer em lembrar que ela 
nunca encontrara algum que a amasse.
  Por que em vez de incentiv-la a cuidar da aparncia eles faziam tudo para deix-la sentindo-se incapaz e feia? Os pais devem amar os filhos, mas os seus no desejavam 
sua felicidade.
  Geni no desistia de bater, e Jacira resolveu enfrent-la. Abriu a porta, a me olhou-a, examinando-a de cima a baixo.
  - Pintada desse jeito e com esse vestido apertado, curto, voc no parece uma moa de famlia.
  Jacira olhou-a friamente procurando controlar a irritao:
  - Essa  a sua opinio. Mas os outros no pensam assim.
  - Eu logo vi que voc andava saindo com pessoas que querem destruir nossa famlia! Onde j se viu fazer isso comigo, que no fao outra coisa seno ser uma me 
dedicada?
  Me, estou cansada no quero discutir. Vou dormir.
  - No passou a roupa da semana nem lavou a loua do jantar. Eu tive de lavar a do almoo.
  - Voc deveria ter lavado tambm a do jantar. Por que fica o dia todo em casa lendo revistas e larga tudo para eu fazer?
  Geni colocou a mo na testa e recuou um passo como se tivesse sido ferida por uma bala. Seus olhos brilhavam rancorosos e ela esforava-se para derramar algumas 
lgrimas.
  Jacira percebeu claramente que ela estava fingindo.
  - Tide! Venha depressa! Sua filha est me maltratando. Estou me sentindo mal, acho que vou cair.
  Jacira a olhava sem se comover. Nunca aquela atitude lhe parecera to falsa.
  - Deixe o papai em paz. Agora, vou fechar a porta. Estou cansada e quero dormir.
  Geni cambaleou, mas Jacira fechou a porta, passou a chave. Geni soluava alto e Aristides foi at ela contrariado. Por que ela tinha de armar aquela cena no pedao 
mais emocionante do filme?
  Interessado em resolver logo o assunto e voltar para a sala, ele segurou Geni, que teimava em fingir que estava perdendo os sentidos.
  - Viu o que ela fez comigo? Fechou a porta na minha cara. Filha cruel, malvada, no merece os sacrifcios que fazemos por ela.
  - Chega, Geni. Vamos descer. Jacira no est bem. Ela quer dormir, deixe-a descansar.
  - E eu? Terei de arrumar a cozinha toda? E a roupa para passar vai ficar. Logo, no teremos nenhuma pea para trocar.
  Sem fazer caso de suas palavras, Aristides foi quase a arrastando para a sala.
  - Sente-se e relaxe. Amanh  domingo e ela ter o dia inteiro para dar uma ordem na casa.
  - Voc agora est do lado dela. Ela me afronta e voc nem liga.
  Aristides perdeu a costumeira pacincia:
  - Voc est ficando muito implicante. Trate de se calar que eu quero ver o filme.
  Sem dar importncia aos soluos da mulher, ele sentou-se e disps-se prazerosamente a continuar vendo o filme.
  Em seu quarto, Jacira remexia-se na cama, nervosa, procurando analisar o que sentia, confusa e emocionada. Havia momentos que lhe parecia estar mais bonita, sendo 
admirada, querida, mas havia outros que lhe parecia estar ouvindo a voz da me depreciando suas atitudes.
  Depois de tantos anos ouvindo-a repetir as mesmas coisas, era-lhe difcil acreditar que pudesse encontrar algum que a amasse de verdade. Quem poderia amar uma 
mulher feia, pobre e inexperiente como ela?
  Nesse conflito ela quase no dormiu naquela noite. Mas, apesar disso, na manh seguinte se levantou cedo, seus pensamentos tumultuados no a deixavam relaxar.
  Eram sete horas e seus pais ainda dormiam. Foi  padaria, comprou po, fez caf, tomou uma xcara com leite, o que a fez recordar-se do encontro com Ernesto e 
de suas palavras animadoras.
  Ele tinha cultura, era um professor, deveria saber o que estava dizendo. Afirmara que ela era bonita, tratava-a com respeito e ateno, confiava nela. Pensando 
bem, Ernesto tinha muito mais sabedoria e conhecimento do que seus pais, pessoas simples e sem cultura. Se ele afirmava que ela tinha condies de conquistar uma 
vida melhor, deveria acreditar.
  Esse pensamento a deixou mais alegre, renovou sua disposio. Teve vontade de ir  casa de Margarida para contar-lhe a novidade e trocar ideias.
  Olhando a pia cheia de louas, suspirou. Antes precisava resolver as coisas em casa. Colocou uma chaleira com gua no fogo e comeou a dispor a loua.
  Pensando em acabar logo e ir  casa de Margarida, logo tudo estava em ordem. Foi para o quartinho passar roupa da semana.
  Geni acordou disposta a no deixar passar as ofensas da noite anterior, mas quando entrou na cozinha e viu tudo limpo, po fresco na mesa e caf pronto, procurou 
por Jacira, vendo-a passando roupa, mudou de ideia.
  Decidiu mostrar abatimento, mas sem brigar. Afinal, ela estava fazendo o servio.
  Passava do meio-dia quando Jacira terminou o servio, foi para o quarto e arrumou-se para sair. Quando ela passou pela sala, Geni no se conteve:
  - Vai sair de novo?
  Sem se perturbar Jacira respondeu: 
  - Vou visitar uma amiga.
  - Que amiga? Desde que voc arrumou amigas ficou impossvel. No vai almoar? 
  - Vai ficar tarde.
  - E a loua?
- Fica por sua conta. J fiz a minha parte por hoje.
  E antes que ela respondesse, Jacira saiu e em poucos segundos estava na parada de nibus.
  Ao tocara campainha da casa de Margarida, Marinho correu para abrir o porto, abraando-a com alegria. 
  Jacira sorriu e entregou-lhe o saco de balas que comprara no caminho. Atrs dele, Margarida sorrindo, tornou: 
  - Estava pensando em voc! Que bom que veio! Como voc est bonita!
  - No diga isso que eu posso comear a acreditar.
  Conversando animadas, as duas entraram.
  - Hoje eu fiz para o almoo um frango recheado com farofa, como minha me fazia. Acabei de tirar do forno, ficou uma beleza! Marinho estava com vontade e eu at 
pensei: devia ter chamado Jacira para almoar.
  - Desculpe ter vindo na hora do almoo, mas aconteceu uma coisa e eu estava impaciente para lhe contar.
  - Voc sabe que na minha casa no precisa de cerimnia. Voc  minha melhor amiga. Fico feliz quando vem aqui.
  A mesa estava posta e Margarida acrescentou mais um prato. Marinho estava em volta ansioso para comer o frango e, conforme Jacira lhe pedira, deixara para chupar 
as balas depois do almoo.
  Margarida colocou as travessas na mesa, sentaram-se, ela serviu o filho, depois perguntou:
  - Fale, o que voc tem para me contar? Seus olhos brilham quando fala nisso. Estou ansiosa para saber.
  - Vamos comer. Depois conversaremos.  um assunto muito pessoal.
  Margarida segurou a curiosidade. Quando terminaram de comer, Marinho foi brincar e Jacira contou tudo que lhe acontecera.
  Margarida vibrava de alegria. Quando ela terminou, disse entusiasmada:
  - Eu sabia que voc logo iria encontrar algum. Como  ele? Bonito?
  -  alto, forte, moreno, bonito mesmo.
  - Alm de tudo sabe o que quer! Deu-lhe um beijo logo no primeiro dia!
  -  isso que me incomoda. Acha que est certo? Ele no vai pensar que sou uma mulher fcil? 
  Margarida sacudiu a cabea negativamente:
  - Nada disso. Os homens gostam de mulher mais ardente.
  - Eu no sou nada disso. Fiquei morrendo de medo. Margarida riu gostosamente. 
  - Voc comeou tarde. Precisa tirar o atraso.
  - No brinque, Margarida. Para mim o assunto  muito srio.
  - No leve as coisas to a srio. Foi sua primeira experincia. Que tal, gostou?
  Jacira hesitou:
  - Ainda no sei. Foi uma surpresa, minhas pernas tremeram, o corao disparou, foi difcil segurar o susto. 
  - Logo voc vai perder o medo e gostar. 
  - Eu esperava que fosse diferente, no sei... 
  - Diferente como?
  - Pensava que um beijo fosse me deixar enlevada, nas alturas, apaixonada, mas naquele momento eu s queria fugir, desaparecer, ir para casa.
  Margarida olhou-a sria, passou a mo delicadamente acariciando os cabelos da amiga e respondeu:
  - Voc  ingnua como uma criana. Um beijo bem dado pode provocar vrias sensaes no corpo. Mas um beijo de amor  muito diferente. Emociona, no d para explicar 
em palavras. Voc mal conhece Nelson. Est curiosa de saber como  o namoro, mas ainda no est apaixonada por ele.
  - Ser? Ele  um homem bonito, amvel, educado. Eu gosto dele, mas penso: ele no pode estar sendo sincero. No sou uma mulher atraente, no sei nem como se namora. 
O mais provvel  que ele no tenha boas intenes.
  - Pensando assim voc pode deixar passar o amor de sua vida. Voc  uma boa moa, cheia de qualidades, bonita, trabalhadora. Voc merece tudo. No sei se esse 
Nelson  digno de voc. Para mim, voc vale mais do que ele.
  - Voc  minha amiga e diz isso para me animar.
  Elas continuaram conversando animadas e Margarida tentava persuadi-la a ver-se de maneira melhor. Estava sendo sincera.
  Depois de darem uma ordem na cozinha, Margarida levou-a para a sala de costura e l abriu um ba onde tinha alguns cortes de tecido.
  Jacira comentou:
  - Que lindos. Voc tem bom gosto,  muito boa costureira. No sei por que seu negcio no deu certo.
  - Como j lhe disse, no sou boa em contas. Atrapalho-me. Precisei trabalhar muito cedo e fui  escola s at o terceiro ano.
  - Eu consegui tirar o diploma. Mas no tenho a capacidade que voc tem de costurar.
  - Lamento ter precisado fechar meu ateli de costura. Sabe, Jacira, trabalhar por conta prpria  muito melhor. Na verdade, trabalha-se mais, porm fazemos do 
nosso jeito, sem ter ningum nos controlando.
  Jacira suspirou:
  - Quem me dera poder viver assim! Se eu tivesse uma profisso como a sua, deixaria o emprego e iria trabalhar por minha conta.
  Os olhos de Margarida brilharam e ela colocou as mos nos ombros de Jacira, olhando-a firme:
  - Se voc viesse trabalhar comigo, eu me animaria a voltar a costurar para fora.
  - Eu?!... No sei costurar.
  - Sabe sim. Fazer os moldes, cortar, montar as roupas, eu sei muito bem. No tenho medo. E voc  tima ajudante, capricha nos arremates e, alm disso,  boa nas 
contas. Tenho notado como voc controla seus gastos e os de sua famlia.
  - Trabalhar com voc seria maravilhoso! Mas, ser que poderamos deixar nossos empregos? Ns temos despesas. Daria para sustentar duas famlias?
  - Como no temos capital, no comeo poderemos trabalhar s nos fins de semana. Estou certa de que quando disser para minhas antigas freguesas que vou voltar a 
costurar, elas viro nos procurar.
  - Temos de ter dinheiro para comprar material, tecidos, aviamentos etc. No teremos como fazer isso.
  - Muitas freguesas trazem os tecidos, mas se ns pudssemos fornecer-lhes, o lucro seria muito maior. Ganharamos o dobro.
  - Infelizmente no temos esse dinheiro. Mas se elas trouxerem os tecidos, poderemos comear dessa forma.
  - Que nada. Sou conhecida nas lojas porque comprava bastante e s vezes faltava parte do dinheiro, mas eu sempre pagava tudo direitinho. Estou certa de que tenho 
crdito pelo menos para o incio.
  - Est falando srio?
  - Claro que estou. Seremos scias. Com voc controlando nosso dinheiro, sei que dar certo. No ser difcil ganharmos mais do que na oficina. Que tal, aceita?
  - Ainda no sei. E bom demais para ser verdade. Mas preciso pensar.
  - Pense com carinho. Vamos nos sentar e voc j vai fazer algumas contas. Desta vez quero planejar tudo direito. Vamos fazer uma lista do que teremos que comprar 
para reabrir o ateli, quanto vamos gastar, o preo que vamos cobrar e quanto vamos lucrar.
  Margarida pegou um caderno, um lpis e deu-o a Jacira. Sentaram-se e comearam a trabalhar.
  Estavam to entusiasmadas que nem viram o tempo passar. Anoiteceu e Jacira se surpreendeu:
  -  tarde! Que horas so?
  - Sete e meia.
  - Preciso ir.
  - Vou esquentar o jantar, depois voc vai.
  - No estou com fome.  melhor eu ir.
  - Est certo. Voc pensa e amanh ou depois me d sua resposta.
  - Preciso me acostumar com a ideia. Terei de vir para c todos os fins de semana. Tenho as aulas do dr. Ernesto aos sbados.
  - No se preocupe. Podemos comear apenas aos domingos. Quando a clientela aumentar pensaremos no que fazer.
  Jacira despediu-se; durante o trajeto de volta no conseguia pensar em outra coisa. Tinha medo de deixar o emprego e o projeto no dar certo. Margarida era boa 
profissional, mas ser que ganhariam o suficiente para sustentar as duas famlias?
  Eram oito e meia quando desceu do nibus perto de sua casa. Quando chegou na esquina percebeu que Nelson estava l, parado, esperando-a. Assim que a viu foi a 
seu encontro:
  - Faz tempo que a estou esperando. Eu lhe disse que viria no fim da tarde, esqueceu?
  - Desculpe... eu precisei ir a casa de uma amiga. 
  - No queria encontrar-se comigo?
  - No  isso...  que ns estamos planejando trabalhar juntas.
  - Eu estou gostando de voc, mas no sei se sou correspondido.
  - Ns ainda nos conhecemos to pouco!
  - Seja sincera. No quero sofrer uma decepo. 
  -  que eu nunca sa com ningum. No sei como me comportar. Sinto-me confusa.
  Nelson olhou-a admirado. Ela j era mulher feita. Era-lhe difcil acreditar que fosse verdade.
  -  a segunda vez que voc me diz isso. S pode estar brincando comigo.
  Ela meneou a cabea:
  - No! Esse assunto  para mim muito srio. J lhe disse isso. Meus pais no me deixavam sair com amigas e minha me sempre diz que os homens s querem nos usar. 
De modo que eu at bem pouco tempo atrs s ia para o trabalho e no saa de casa.
  - No pensei que fosse assim.
  - Pois foi. Mas cansei dessa vida e comecei a mudar. Voc  o primeiro homem com quem eu sa e...
  Ela parou e baixou os olhos. Nelson levantou o queixo dela e perguntou:
  - Eu fui o primeiro homem que a beijou? 
  - Foi.
  Ele apertou a mo dela e levou-a aos lbios. Depois disse:
  - Eu senti que voc era uma mulher muito especial. Ainda acredita que todos os homens so aproveitadores?
  - No sei... Estou confusa, um pouco descontrolada, sentindo emoes que no tinha sentido antes.
  - Vamos nos sentar no banco da praa. Temos muito que conversar.
  -  tarde. No sei se posso...
  - Voc pode. No  mais criana e se est tentando assumir sua vida, no pode depender de ningum, deve tomar suas prprias decises. O que importa  saber se 
voc quer conversar mais comigo agora.
  Jacira levantou a cabea com certa altivez e respondeu:
  - Eu quero, mas estou insegura.
  - Ns nos conhecemos h pouco tempo. Para voc confiarem mim, tem de conhecer-me melhor. Saber como penso, como tem sido a minha vida. Voc me contou como tem 
sido a sua, desejo fazer a mesma coisa.
  - Est bem. Vamos.
  Foram caminhando at a praa de mos dadas e sentaram-se em um banco mais discreto. Jacira sentia-se mais calma. Pelo jeito Nelson no pensava mal dela. Sua me 
estava errada.
  - Tenho quarenta anos, comeou ele, casei-me aos vinte e cinco. Foi um casamento errado. Eu nasci em Presidente Prudente, interior de So Paulo. Aos vinte anos, 
formei-me em contabilidade, queria progredir. Deixei minha famlia, meus pais e uma irm e vim para c.
  "Nunca tinha sado de casa, nos primeiros tempos estranhei muito. Cheguei a passar dificuldades porque estava difcil conseguir um emprego. Eu no tinha prtica 
na profisso, ento tive de comear como entregador em um escritrio.
  "Mas trabalhei com coragem e fui melhorando no trabalho. Conheci Aurora, senti-me atrado por ela, casamo-nos um ano depois. Eu tinha vinte e cinco e ela dezoito 
anos."
  Nelson fez uma pausa, dava para perceber que ao recordar essa poca de sua vida, ele se entristecia. Seu rosto se contrara penosamente e Jacira, apesar da curiosidade 
que sentia, disse penalizada:
  - Se voc se sente triste quando fala nisso,  melhor falarmos de outra coisa.
  - No. Eu quero lhe contar mesmo.
  - Est bem, continue...
  - Ela me disse que era rf de pai e sua me morava no Rio de Janeiro. Ela era filha nica. Achei estranho que ela no morasse com a me, e estivesse sozinha em 
So Paulo. Mas ela disse que tinha vindo trabalhar e como o emprego no tinha dado certo, estava  procura de outro.
    "No comeo nos demos bem, eu notava que ela era um pouco distrada, no cuidava bem da casa, que era pequena, no sabia controlar os gastos e eu fui forado 
a cuidar das nossas despesas para que o salrio fosse suficiente.
  "Quando nossa filha nasceu, ela ficou pior, ento comearam nossas discusses. Ela reclamava muito por ter de cuidar da menina, ento pediu para a me vir ajud-la 
por algum tempo. Eu no a conhecia, ela no viera ao nosso casamento. Dona Rosa era uma mulher vistosa, arrumava-se de maneira a chamar a ateno e no gostei do 
jeito dela desde o primeiro dia.
  "Mas como se afeioou logo  menina e cuidava dela com capricho, acabei por aceit-la. Para encurtar a histria, descobri que Aurora deixava a filha com a me 
e saa quase todas as tardes. Ela estava muito diferente comigo. Tornara-se desagradvel, esquivava-se de meus carinhos, isso tudo despertou minha desconfiana. 
Num dia, depois do almoo, fingi que ia trabalhar e fiquei vigiando-a. Nem meia hora depois, ela saiu, muito bem-arrumada, e eu a segui. Ela tomou um txi e eu fiz 
o mesmo. Ela desceu pouco depois e entrou em um prdio de apartamentos. Entrei atrs, conversei com o porteiro e por algum dinheiro ele me contou aonde ela ia e 
com quem, com a condio de eu ficar calmo e no brigar com o homem:
  "- Sabe como , se ele descobre que fui eu quem contou, vou perder o emprego. Tenho mulher e filhos e no posso ficar desempregado. Espere ela sair e v brigar 
com ela quando deixar o prdio. Eu sabia que ela era casada e isso me incomoda muito. Prometa que no far nada a ele. Afinal, no tem culpa, ela  que fica atrs 
dele.
  "Eu prometi e fiquei sabendo que fazia mais de trs meses que ela ia l duas vezes por semana. Fiquei cego de raiva. Fingi que sa, mas quando o porteiro entrou 
na outra sala, entrei rapidamente e fui at o apartamento. No bati na porta, fiquei a esperando sair. Eu juro que se eu tivesse uma arma naquele momento, teria 
matado os dois."
  Ele passou a mo nos cabelos respirou fundo e continuou:
  - No sei quanto tempo esperei at que a porta se abrisse. Escondi-me atrs de um canto da parede e fiquei olhando. Ela saiu abraada a um homem forte, moreno, 
vi quando se beijaram e nesse momento no me contive. Avancei e a esbofeteei no sei quantas vezes, no me lembro bem. Quando penso nisso me d um branco. O homem 
era covarde, assim que apareci, ele entrou e fechou a porta com a chave.
  - Ela deve ter ficado com muito medo! - comentou Jacira assustada.
  - Qual nada. Ela reagiu, afrontou-me e alguns moradores at abriram a porta para ver o que estava acontecendo. O porteiro ficou nervoso e pediu que sassemos. 
S sei que ela saiu correndo e eu ainda fiquei sem saber bem o que fazer. Sentia vontade de desaparecer, sumir.
  "Deixei o prdio e no sei por quanto tempo caminhei sem rumo. Eu no podia voltar para casa, mas ao mesmo tempo pensava em minha filha, a quem eu adorava."
  Jacira, comovida, acariciou o brao dele querendo confort-lo.
  Olhos fixos em um ponto indefinido, rosto contrado, preso s lembranas, Nelson continuou falando:
  - Era tarde da noite quando fui para casa. Entrei e no encontrei ningum. No quarto, os armrios abertos e vazios: Aurora tinha fugido levando minha filha.
  "Fiquei desesperado. Se de um lado senti alvio por no ter de v-la novamente, por outro fiquei profundamente preocupado. Eu queria minha filha. No podia concordar 
que ela ficasse com a menina depois da cena que presenciei. Para onde teriam ido?
  "Apesar do adiantado da hora apanhei o telefone e liguei para d. Rosa. Ela atendeu logo, dizendo que Aurora estava em sua casa com Clia. Respirei aliviado. Prometi 
a ela que no iria fazer nada contra Aurora, mas que no desejava v-la nunca mais."
  Nelson suspirou e ficou calado por alguns instantes, depois continuou:
  - Dona Rosa aconselhou-me que esfriasse a cabea, descansasse e conversaria comigo no dia seguinte. Bem, fiz o que ela me pediu, mesmo porque sentia dores pelo 
corpo, estava modo. Parecia que um trem havia passado sobre mim. No dia seguinte, procurei um advogado para pedir a separao e a guarda de Clia. Consegui provar 
a traio e, alm do desquite, obtive a guarda da menina. Meus pais e minha irm moram em Presidente Prudente e minha filha est morando com eles.
  - Sua filha se acostumou com a mudana de vida?
  - Melhor do que eu pensava. Aqui ela vivia mais com a av do que com a me. Meus pais so amorosos, minha irm  alegre e est sempre de bem com a vida. Ao lado 
deles, Clia melhorou muito. Ficou mais falante, mais alegre. Vou v-la uma vez por ms. Quando chego l, ela sempre tem muitas coisas para contar. Adora a escola, 
tem amigas, enfim, a melhor coisa em tudo isso foi que ela est muito bem.
  - E Aurora, ainda mora em So Paulo?
  - No sei. Depois de formalizarmos o desquite, nunca mais a vi.
  Jacira estava comovida. Sentia que aquela confisso derretera a barreira que existia entre eles. Com prazer, enfiou o brao no dele que, sentindo-se compreendido, 
segurou a mo dela levando-a aos lbios.
  Jacira sentia que estavam se conhecendo, que Nelson era um homem sensvel, bom, querendo esquecer o passado e reconstruir sua vida.
  A partir dessa noite a vida de Jacira mudou radicalmente. Durante o dia trabalhava na oficina com Margarida, nos fins de semana ia para a casa dela costurar, e, 
dia sim, dia no, encontrava-se com Nelson, s vezes indo ao cinema, outras dando algumas voltas pelas redondezas e sentando-se na praa para conversar.
  Fazia dois meses que ela no ia s aulas de Ernesto Vilares, por causa do trabalho na casa de Margarida. Sentia falta daqueles encontros agradveis, das coisas 
que aprendia todas s vezes que ia l. Mas a cada dia mais freguesas apareciam e elas, entusiasmadas, aceitavam mais encargos.
  Em um sbado, quando Jacira chegou na casa da amiga para trabalhar, ela disse-lhe contente:
  - Estou pensando em deixar a oficina. A cada dia estamos tendo mais encomendas. Continuando na oficina, estamos deixando de ganhar muito mais. Se eu trabalhar 
aqui o dia inteiro, ser mais lucrativo, sem falar do prazer que sinto em ter novamente um negcio prprio. No quer fazer o mesmo?
  Jacira assustou-se:
  - Deixar o emprego?
  - Ns duas iremos longe. Voc me ajuda nas contas e na costura como at agora.
  Jacira ficou pensativa. Nada iria lhe dar mais prazer do que deixar aquela oficina. Mas se o fizesse, ganharia o suficiente para sustentar a famlia?
  - Voc acha que seria vantagem?
  - Penso que sim. Mas voc, que  boa nas contas, vai calcular tudo e saberemos.
  Jacira sentou-se com o caderno onde desde o incio anotava cada roupa confeccionada, as despesas e o tempo gasto e comeou a calcular o quanto ganharam naqueles 
meses. Como o dinheiro entrava picado, Margarida dava-lhe uma parte do lucro. Como era um dinheiro extra, com ele Jacira comprara coisas pessoais.
  Somando o quanto tinha recebido nesse perodo, surpreendeu-se. Mesmo trabalhando apenas nos fins de semana, elas tinham tirado mais do que recebiam na oficina. 
Quanto ganhariam trabalhando todos os dias?
  Jacira pensou durante alguns minutos, depois decidiu
  - Hoje no fim da tarde vamos juntas at a casa do dr. Ernesto.  uma pessoa em quem eu confio muito. Antes de tomar essa deciso, vamos ouvir o que ele tem a nos 
dizer.
  - No podemos atrasar o servio. Temos o vestido da d. Alice para entregar daqui a trs dias.
  - No faz mal. Eu fico at mais tarde.
  - Est bem. Eu tambm gostaria de conhecer esse seu amigo famoso.
  Elas deixaram Marinho com uma vizinha e saram. Alguns minutos antes das dezessete horas, entraram na casa de Ernesto, exatamente quando as pessoas estavam saindo 
da sala de cursos.
  Algumas pararam para cumprimentar Jacira e Margarida adorou ser apresentada quelas pessoas simpticas e alegres. Ernesto estava conversando com alguns alunos 
e Jacira esperou que ele terminasse e viesse ao seu encontro:
  - Como vai, Jacira? Sentimos sua falta, hoje eu pensei muito em voc.
  - Eu tambm senti falta das aulas. Esta  minha amiga Margarida.
  Ernesto estendeu a mo sorrindo:
  - Como vai? Jacira fala muito em voc.
  - E no senhor tambm. Suas aulas muito a tm ajudado.
  - Ns estamos aqui porque precisamos tomar uma deciso importante e gostaramos de ouvir a sua opinio - tornou Jacira.
  - Nesse caso, vamos tomar um caf e conversar.
  Elas, satisfeitas, acompanharam-no e depois de ele explicar para Margarida em breves palavras seus objetivos naquele espao, finalizou:
  - Agora, podem falar. No que lhes posso ser til?
  Jacira falou dos seus projetos, de como o volume de trabalho estava crescendo, e finalizou:
  - Ns pensamos que est na hora de deixarmos o emprego na oficina e nos dedicarmos exclusivamente ao nosso negcio.
  Margarida interveio:
  - Devo esclarecer que eu j tive um ateli antes, mas fracassei porque no sou boa nas contas. Freguesas nunca faltaram, mas eu no avaliava bem o trabalho, tinha 
vergonha de cobrar e fazia tudo barato.
  - Se voc pretende abrir novamente seu negcio, o primeiro passo  valorizar seu trabalho. Quando voc no valoriza adequadamente o que faz, acaba cortando seu 
sucesso. Para progredir ter de colocar um preo justo, onde voc possa ter dinheiro suficiente para manter uma vida confortvel, com tudo o que tem direito.
  As duas olharam admiradas, e Margarida argumentou
  - Eu sinto que fracassei por no saber lidar com dinheiro. Meu pai, quando eu era criana, dizia que o dinheiro  perigoso porque abre a porta de todas as tentaes. 
Eu tinha medo de que as clientes me julgassem uma mercenria. Queria provar que eu era uma boa pessoa e no ligava para dinheiro.
  - O dinheiro no  culpado pelo mau uso que alguns fazem dele. Quando bem utilizado pode proporcionar coisas muito boas.  o caso das grandes fortunas que se interessam 
em contribuir para a melhora da sociedade, auxiliando nas pesquisas que aliviam o sofrimento humano, dando oportunidade de emprego para as pessoas, possibilitando 
as grandes conquistas de progresso.
  - Olhando dessa forma... - tornou Margarida admirada.
  - A vida nos d tudo o que precisamos para desfrutar uma existncia til, rica e feliz. Sade, inteligncia, oportunidades para nosso desenvolvimento em todas 
as reas, mas os resultados dependem do uso que fazemos, e sero bons se escolhermos o melhor.
  - Eu queria melhorar, fiz o meu melhor, mas ainda assim no tive sorte.
  - Voc fez o que pensou ser o melhor. Mas enganou-se na avaliao.  comum acontecer isso. Mas no  uma questo de sorte.
  - Como no? - questionou Margarida. - Sou uma pessoa honesta, trabalhadora, no exploro ningum, tenho certeza de que sou boa profissional. As pessoas gostam do 
meu trabalho. O que me falta?
  Ernesto sorriu, pensou um pouco, e respondeu:
  - Voc tem tudo para conseguir sucesso profissional. O que lhe falta  apenas conhecer como a vida funciona.
  - Como assim?
  - A maneira como vemos as coisas, nossa forma de pensar,  que determinam nossas atitudes e elas  que movem os fatos em nossa vida.
  Margarida meneou a cabea negativamente franzindo o cenho e considerou:
  - No estou entendendo.
  -  simples - respondeu Ernesto. - Para que as coisas aconteam do jeito que voc quer, ter de aprender como lidar com as energias de maneira adequada. Voc no 
vai conseguir ter sucesso em seus negcios tendo vergonha de cobrar pelo seu trabalho. Voc est oferecendo um trabalho bom, que custou seu esforo e merece obter 
alguma coisa em troca. Isso no quer dizer que voc esteja sendo mercenria. A troca  muito justa.
  -  verdade, Margarida - interveio Jacira. - As pessoas gostam do que voc faz e esto sempre querendo mais.
  - O que eu no entendo  como esse fato pode fazer com que meu ateli tenha fracassado.
  - O pensamento no qual acreditamos tem muita fora. Se ele  verdadeiro, positivo, leva-nos ao sucesso, se negativo, empurra-nos para o fracasso. Ns somos responsveis 
por tudo quanto nos acontece nesta vida.
  - Neste caso, alm de ter boa contabilidade, teremos de aprender a pensar do jeito certo - tornou Margarida.
  - Isso mesmo. Depois que assisti a algumas aulas aqui, minha vida mudou muito - considerou Jacira.
  - Vocs podem continuar vindo as aulas aos sbados como minhas convidadas. Eu gostaria de trocar ideias com vocs e contribuir de alguma forma com seus projetos. 
Podem contar comigo. Agora eu gostaria de saber como pretendem iniciar o empreendimento.
  Margarida explicou o que estavam fazendo, os resultados positivos que alcanaram e a vontade de deixar o emprego e trabalhar por conta prpria.
  Depois, Jacira perguntou:
  - Devemos deixar a oficina ou continuamos mais algum tempo como estamos?
  - Vocs fizeram as contas e no h dvida de que  melhor comear j.
  Jacira olhou para Margarida e seus olhos brilhavam: 
  - Ento, vamos deixar a oficina? 
  - Vamos! Desta vez tudo vai dar certo.
  Ernesto aconselhou-as a procurar um escritrio de contabilidade para abrir uma empresa, colocando-se  disposio para auxili-las em tudo e acompanhar o desenrolar 
das atividades.
  Depois de combinarem todos os detalhes, as duas, radiantes, deixaram a casa de Ernesto e voltaram para a casa de Margarida bem animadas.
  Para adiantar o servio, Jacira ficou trabalhando at mais tarde. Eram mais de onze e meia quando ela entrou em casa.
  As luzes estavam apagadas e ela ficou aliviada. Seus pais deveriam estar dormindo e assim no teria de suportar as costumeiras reclamaes da me que no se conformava 
com suas novas atitudes.
  Sentiu sede e foi  cozinha. Quando tomava gua, Geni apareceu, de camisola, dizendo nervosa:
  - Finalmente chegou! Onde esteve at esta hora? J  meia-noite! Uma moa de famlia no anda na rua at esta hora!
  Jacira no se incomodou, acabou de tomar a gua, colocou o copo sobre a pia e respondeu
  - Os tempos mudaram, mame. Tinha muita gente na rua.
  - No me conformo em ver como voc tem se comportado. Nem parece a mesma pessoa que eu eduquei com tanto carinho. Esquece que tem pais idosos que precisam de ateno 
e de ajuda?
  Jacira deu de ombros:
  - Pelo que sei vocs gozam de boa sade, no so invlidos e podem cuidar de si mesmos. No lhes falta comida, remdios, eu continuo cooperando com os servios 
da casa.
  - Mas hoje  sbado, dia de passar a roupa da semana e voc desapareceu desde cedo e o cesto est cheio.
  - Sei disso. Amanh cedo eu passo tudo, mas  tarde vou sair.
  - De novo? Vai nos deixar sozinhos?
  Jacira olhou nos olhos dela e disse com voz firme: 
  - Minha vida est mudando e vai mudar muito mais. Vou trabalhar muito e voc vai precisar cooperar mais.
  - Eu? Como assim? Estou cansada, trabalhei a vida inteira e mereo descansar.
  - Voc vai ter de cuidar mais de vocs. Eu no terei tempo para fazer muitas coisas em casa.
  - No estou entendendo. Que eu saiba voc continua na oficina e sai s cinco e meia da tarde todos os dias. D muito bem para fazer o servio da casa.
  - Vou sair da oficina e trabalhar por conta prpria. No terei horrio.
  - Voc enlouqueceu? Vai deixar um emprego fixo, com carteira assinada para fazer o qu? Voc no sabe fazer nada, no tem profisso.
  - Sei o que estou fazendo. Eu e minha amiga Margarida vamos costurar para fora. Est tudo combinado.
  - No  possvel que voc seja to descabeada. Onde j se viu? Vamos todos morrer de fome.
  Jacira olhou-a com raiva e respondeu:
  Durante toda minha vida voc me colocou para baixo. No acredita que eu possa ser inteligente, capaz e tenha qualidades. Por qu? Fez-me acreditar que eu era muito 
feia, insignificante, incapaz, e me fez perder os melhores anos da minha juventude. Mas agora chega! Voc no vai mais me impedir de seguir em frente, de fazer o 
que tenho vontade. Vou progredir, ganhar dinheiro, ter uma vida melhor! Eu mereo viver sem precisar contar os centavos para comprar o essencial. Voc tem uma cabea 
pobre e por esse motivo ns sempre temos vivido na misria! No importa o quanto eu tenha trabalhado, o dinheiro nunca nos favoreceu. Voc, com suas ideias negativas, 
impediu-nos de prosperar. Agora que eu estou conseguindo sair dessa condio em que nos colocou, voc ainda tenta me segurar?
  - O que est dizendo? Eu sou culpada por seu pai ser apenas um operrio, estar desempregado e voc no saber fazer nada para ter um emprego melhor? Eu? Uma pobre 
mulher que no teve chance nesta vida, que se casou mal, foi abandonada pelos filhos e nunca teve sorte?
  Geni chorava inconformada com o que ouvira, Jacira olhava-a sria sem comover-se com suas lgrimas e respondeu:
  - Voc se coloca na posio de vtima, o que certamente no . Reage muito forte sempre que se sente ameaada. Mas  bom saber que de hoje em diante vou cuidar 
da minha vida do jeito que acho certo. Se no concordar, posso me mudar, ir embora de casa.
  Geni parou de chorar e olhou-a assustada. Alguma coisa no tom de Jacira a fez perceber que ela estava falando srio. Decidiu no facilitar. Enxugou as lgrimas 
e disse lamentosa:
  Nunca pensei que voc fosse capaz de nos abandonar. Pensava que fosse diferente de seus irmos que nos deixaram. Mas vejo que estava enganada. Voc  capaz de 
fazer o mesmo. O que ser de ns, velhos, pobres, abandonados? S nos restar ir para um asilo, viver da caridade alheia. Isso depois de ter criado trs filhos e 
feito tudo por eles.
  Pare de se lamentar. Mesmo que um dia eu saia de casa, no deixarei que lhes falte nada. Pode parar de querer me impressionar. Voc sabe que no sou egosta, sempre 
gastei com vocs todo dinheiro que ganho na oficina.
  Mas voc mudou! Quem me garante que amanh tambm no nos abandonar?
  - Chega, me. Estou cansada e vou dormir.
  Jacira afastou-se, foi para o quarto. Gen abriu o armrio, apanhou a lata onde guardava as bolachas, pegou duas e comeou a com-las com prazer. Depois, tomou 
gua e subiu para dormir.
  Entrou no quarto onde Aristides, deitado de costas, roncava. Estendeu-se ao lado dele, empurrando-o com o p, como sempre fazia, para que ele se virasse e parasse 
de roncar.
  Ele resmungou algo que ela no entendeu, virou-se e o ronco cessou, ela acomodou-se pensando no que Jacira lhe dissera. No dia seguinte conversaria com Aristides, 
exigindo dele uma atitude mais autoritria com a filha. Afinal, esse era o papel do pai. Depois, virou de lado e logo adormeceu.
  Na manh seguinte, Geni acordou cedo, levantou-se e prestou ateno nos rudos que vinham da cozinha. Deduziu que Jacira estava tomando caf e deitou-se novamente. 
No desejava encontrar-se com ela. Queria que ela pensasse que ainda estava na cama, triste, sem nimo, por causa da conversa da noite anterior.
  Ela dissera que iria deixar o emprego. Seria a maior loucura. Precisava fazer alguma coisa para impedi-la. Sem emprego, o que seria deles?
  Talvez ela estivesse pensando mesmo em deix-los, como seus irmos fizeram. Tinha que evitar isso a todo custo. Aristides, ao seu lado, ressonava tranquilo. Irritada, 
sacudiu-o chamando:
  - Acorda, Tide. Vamos. O teto est caindo sobre nossa cabea e voc continua placidamente dormindo.
  - Ah! Ah! - resmungou ele sem abrir os olhos.
  - Acorda, homem. Voc precisa fazer alguma coisa. Vamos!
  Ele abriu os olhos fixando-a ainda sem entender o que estava acontecendo.
  Ela continuou sacudindo-o: 
  - Acorda, vamos...
  - O que foi, mulher? Aconteceu alguma coisa?
  - No aconteceu ainda, mas vai acontecer uma desgraa. Voc tem de evitar que Jacira acabe com a nossa vida!
  - Jacira? Como assim? Voc deve estar sonhando. Deixe-me dormir.
  - Nada disso. Voc precisa fazer alguma coisa. Sabe o que ela disse ontem  noite? - Sem dar-lhe tempo de responder continuou: - Vai pedir demisso do emprego. 
J imaginou o que vai nos acontecer?
  Aristides franziu o cenho, sentou-se na cama dizendo:
  - De onde voc tirou essa ideia? Ela no  louca de fazer uma coisa dessas.
  - Foi o que ela disse que vai fazer. Como eu fui contra ameaou at ir embora de casa.
  Aristides passou a mo nos cabelos meneando a cabea negativamente:
  - No acredito que faa isso. Voc vive cutucando ela com vara curta, exigindo isso ou aquilo. Vai ver ela perdeu a pacincia. Foi isso. Falou s para assust-la.
  - Nada disso. Eu no briguei com ela. S perguntei onde tinha estado at aquela hora. Passava da meia-noite. Ento ela respondeu que eu precisava me acostumar 
em fazer o servio da casa porque daqui para a frente, s vai fazer o que tem vontade. Vai deixar a oficina e trabalhar por conta prpria.
  - Foi isso? Vai ver que arrumou um emprego melhor.
  - No. Ela vai encontrar-se com aquela amiga. Sempre fui contra essa amizade. Essa colega est enchendo a cabea dela de besteiras. Voc tem de falar com ela j.
  Aristides deitou-se de novo dizendo:
  - Mais tarde eu falo. Quero descansar.
  - J  tarde. Ela disse que ia passar a roupa e sair em seguida.
  Aristides bufou nervoso. Para ele no havia coisa pior do que ter de levantar-se em um domingo para discutir com a filha. Geni sempre o obrigava a fazer isso. 
Ele obedecia mesmo sem vontade, apenas para que ela o deixasse em paz.
  No sabia o que era pior, ter de brigar com a filha contra sua vontade ou ouvir as reclamaes de Gen obrigando-o a fazer coisas desagradveis.
  Fechou os olhos, tentou dormir, mas Geni levantou-se abriu a janela. O sol entrou forte e ele protestou. Ela tomou decidida:
  -Vamos, homem,  melhor agir agora do que chorar depois.
  Aristides levantou-se nervoso, sabia que ela no o deixaria mais dormir. Foi ao banheiro, lavou-se lentamente querendo de alguma forma provoc-la, mas quando voltou 
ao quarto, Geni, j vestida, esperava-o decidida.
  Ele no teve alternativa seno fazer-lhe a vontade. Quando os dois desceram as escadas, Jacira estava passando a ltima pea de roupa.
  Geni aproximou-se, mos na cintura esperando desafiadora que Aristides falasse.
Jacira continuava passando uma toalha calmamente.
  - Filha - comeou ele srio -, sua me me disse que voc vai pedir demisso do emprego. Claro que no acreditei que fosse fazer essa loucura. Mas ela insiste que 
 verdade. O que me diz?
  -  verdade, sim. Amanh vou pedir demisso da oficina.
  - Eu no disse? - declarou Geni triunfante.
  - E como  que vamos viver sem o seu salrio? - Vou montar um ateli de costura com uma colega. No se preocupe. Nada vai lhes faltar. Ao contrrio. Vou ganhar 
muito mais.
  Aristides meneou a cabea negativamente e respondeu:
  - No entre nessa iluso. Voc no tem profisso. Deveria dar graas a Deus por ter sido aceita naquela oficina.
  - Estou decidida. Vocs no vo me convencer do contrrio. Sei o que estou fazendo.
  - Voc no pode deixar que ela faa isso. O que vai ser da nossa vida? Morreremos de fome.
  Jacira olhou-os admirada. Apesar de saber que reagiriam contra no imaginou que fossem to veementes.
  No se interessaram em saber de seus projetos, no perguntaram que tipo de negcio ela iria fazer, apegavam-se ao pequeno salrio que recebia, condenando-se a 
viver a vida inteira naquela penria.
  Os dois lhe pareceram parados no tempo, sem nenhuma motivao de progresso, acomodados em uma vida pobre onde viviam contando as moedas.
  Jacira dobrou a toalha, desligou o ferro, e disse calmamente:
  - Pronto, me. J passei tudo. Fica a seu cargo guardar.
  Foi saindo e Geni interceptou-lhe os passos.
  - Aonde vai? Certamente para a casa daquela amiga que anda enchendo sua cabea com todas essas bobagens.
  Sem se perturbar Jacira respondeu:
  - O nome dela  Margarida. Uma mulher maravilhosa, que trabalha muito e como eu deseja melhorar de vida. Vocs deveriam agradec-la pela oportunidade que est 
me oferecendo de conquistar uma vida melhor.
  Jacira afastou-se, apanhou a bolsa e ia sair quando Geni colocou-se na frente da porta dizendo:
  - Pelo visto voc est de cabea feita. Mas saiba que se fizer o que deseja vai destruir nossa vida.
  Jacira segurou o brao dela afastando-a, abriu a porta e saiu sem dizer mais nada.
  Geni, revoltada, olhou o marido:
  - Voc no faz nada? Deixa que ela nos desrespeite dessa forma?  o fim. Onde foi que eu errei? Por que Deus nos castiga desse jeito? Filhos malvados e um marido 
que no lhes d uma lio?
  Aristides, no auge da irritao, tornou:
  - No jogue a culpa de tudo em cima de mim. Seus filhos foram embora porque voc vivia se indispondo com eles. Se no tomar cuidado, Jacira vai acabar fazendo 
o mesmo. Ela quer melhorar de vida e tem o direito de experimentar.
  - Vai me dizer que ela est certa? J pensou no que pode nos acontecer?
  - Se precisar vou aceitar qualquer emprego, mesmo que seja para baixar o salrio na carteira.  melhor voc parar de se lamentar. Vou tomar um caf e voc trate 
logo de cuidar do almoo.
  - Agora  voc que me culpa de tudo. Que falta de sorte a minha!
  - Poupe-me de suas lamrias. No quero ouvir mais nada. Depois do caf quero ler meu jornal em paz.
  Ele foi  cozinha, tomou uma xcara de caf, apanhou o jornal e prazerosamente acomodou-se em sua poltrona favorita. Estava cansado dos problemas domsticos. Naquele 
momento no queria pensar no futuro.

  VIII
  A segunda-feira amanheceu chuvosa e Jacira apressou-se. O nibus estava cheio, ela viajou em p, o cheiro mido em razo da chuva, que cara durante toda a noite, 
e da falta de higiene, era desagradvel. Mas Jacira no se importou. Nem a fisionomia fechada das pessoas foi capaz de deix-la para baixo.
  No via hora de chegar  oficina e pedir a conta. Na vspera, ela e Margarida tinham refeito as contas e tomado a deciso definitiva. Aquele seria o ltimo dia 
em que trabalhariam naquela oficina.
  O servio acumulado que tinham pegado nos fins de semana, garantia-lhes mais do que o minguado salrio que ambas recebiam no emprego durante o ms inteiro.
  Na noite anterior, Nelson tinha ido busc-la na casa de Margarida. Por causa do trabalho, ela no fora encontrar-se com ele no sbado, como de costume. Apesar 
de explicar-lhe suas razes, Nelson no se deu por satisfeito.
  No entendia como Jacira podia trocar um encontro com ele para trabalhar.
  - No gostei de passar esse fim de semana sozinho. No fui na casa de mame ver minha filha s para sair com voc. Estou gostando de voc de verdade. Gostaria 
que me dissesse com sinceridade. Est querendo me dar o fora?
  Jacira olhou-o surpreendida. Ela gostava de sair com ele. Sentia-se mais mulher. Era uma experincia nova, excitante, agradvel. Como ele podia pensar uma coisa 
dessas?
  - Voc no est entendendo. Eu nunca tive uma oportunidade como estou tendo agora. Estou mudando minha vida, montando um negcio prprio. Para que d certo, tenho 
que me dedicar. Amanh vou pedir demisso da oficina.
  Nelson meneou a cabea pensativo:
  - Pensou bem? Voc, na sua idade, nunca trabalhou por conta prpria. Em minha profisso tenho visto muitas pessoas que fazem isso e acabam sem emprego e sem dinheiro. 
No seria melhor continuar na oficina? Pelo menos tem a garantia do salrio no fim do ms.
  Jacira olhou-o como se o estivesse vendo pela primeira vez. Nunca Nelson lhe parecera to insignificante. Tentou dissimular a decepo. Respondeu apenas:
  - Estou disposta a tentar. Garanto que vou me dedicar ao mximo, trabalhar muito, fazer o meu melhor.  bom voc saber que talvez daqui para a frente, pelo menos 
no incio, no terei muito tempo livre.
  - No est querendo se livrar de mim?
  Jacira parou, olhou-o nos olhos e respondeu:
  - Se eu no quisesse mais sair com voc, pode estar certo de que lhe diria. Estou sendo sincera.
  Durante o trajeto, pensou nas palavras de Nelson. Ela tinha imaginado que ele fosse louvar sua ousadia, desejar-lhe sucesso. As palavras dele a fizeram lembrar-se 
de Geni.
  Por um momento sentiu uma ponta de medo. Mas depois se lembrou das palavras de Ernesto, do entusiasmo com que ele as auxiliara a estudar o projeto.
  "Tenho de acreditar que eu posso! Ernesto  um homem instrudo, sabe o que diz. No me estimularia se ns no tivssemos condies de sermos bem-sucedidas."
  Deu de ombros e decidiu:
  "No vou dar ouvidos aos que me querem pr para baixo".
  O nibus estava chegando ao ponto e ela desceu sentindo o entusiasmo voltar. Margarida a esperava na porta da oficina.
  - E ento? Decidida?
  - Decidida. Vamos falar com seu Noel agora mesmo.
  Elas entraram e foram  pequena sala onde o patro estava sentado atrs de uma velha escrivaninha, em meio a alguns papis. Vendo-as entrar, ele levantou os olhos.
  Elas disseram um bom-dia, que ele nem se dignou a responder. Disse apenas:
  - O que vocs querem?
  - Ns viemos aqui para pedir demisso - disse Margarida.
  Ele levantou-se, olhando-as admirado:
  - Aconteceu alguma coisa?
  - No. Ns decidimos deixar a oficina. Temos outro negcio - informou Margarida.
  - J sei. O Michel lhes ofereceu um salrio maior! No se iludam com ele. L vocs no vo ter as regalias que tm aqui. Ele faz as moas pagarem todas as peas 
que esto com defeito.
  - No se trata disso. Ns queremos sair para trabalhar em um negcio nosso.
  - Voc vai se meter de novo a ser modista? No est satisfeita com o prejuzo que teve naquele negcio e ainda vai arrastar sua colega?
  - Desta vez no vai ser igual. Eu sou uma boa profissional.
  - Vamos fazer assim, vou dar-lhes uma semana para refletir. Estou certo de que o bom senso vai faz-las mudar de ideia. - E, fixando Jacira, ele continuou: - Sua 
me sabe que voc vai deixar o emprego?
  - Sabe sim. Estamos decididas, seu Noel. Hoje  nosso ltimo dia de trabalho.
  Ele olhou-as irritado e tornou:
  - Est certo, ento vou fazer as contas. Podem ir. Mas fiquem sabendo que de hoje em diante esta porta est fechada para vocs duas. Quando tudo der errado, no 
vai adiantar virem implorar o emprego de volta.
  As duas, caladas, deixaram a sala. O sinal ainda no tinha tocado e elas sentaram-se  espera. Jacira comentou
  - Por que ser que as pessoas s pensam no mal? S sabem valorizar o fracasso? Ns vamos vencer, Margarida. Voc vai ver!
  - Isso mesmo. O que ele queria  que ns ficssemos a vida inteira trabalhando para ele. Ns somos boas funcionrias e ele no quer nos perder.
  - . Voc  quem faz mais peas de roupas por dia, e no entrega nada com defeito!
  - E voc  como eu. Ele ficou at vermelho de raiva porque vamos embora.
  O sinal tocou e as duas acomodaram-se para trabalhar.
  No fim do expediente, foram chamadas na sala do patro, acertaram tudo e saram.
  - Estou sentindo um friozinho no peito, mas tambm o prazer da liberdade - comentou Jacira sorrindo.
  - Eu tambm. Esse  um momento muito importante em nossa vida.
  - Apesar de tudo, foi um dia difcil. Minha me quis impedir a todo custo que eu sasse da oficina. Sabe que ontem at o Nelson me aconselhou a continuar no emprego 
e desistir do nosso negcio?
  -  mesmo? Que seu Noel desejasse nosso fracasso eu at posso entender, mas sua me, o Nelson! Eles deveriam nos animar.
  - Eu fiquei com muita raiva. Mas eles me deram motivos para trabalhar muito mais. Ns vamos mostrar a eles que somos capazes e vencer.!
  - Isso mesmo, Jacira!  por essa razo que eu gosto de voc! Juntas, seremos fortes e ningum nem nada vai nos derrubar.
  - Isso mesmo. Amanh bem cedo estarei em sua casa, vamos entrar firme no trabalho. A primeira coisa a fazer  abrirmos a empresa. Eu tinha pensado que o Nelson 
poderia nos ajudar nisso. Ele  contador formado. Mas depois do que ele me disse ontem, acho que devemos procurar outra pessoa.
  - Por qu?
  - Ele tambm no acredita em ns. O dr Ernesto vai nos ajudar. Nele podemos confiar.
  - Est certo. Combinado. Amanh cedo espero por voc.
  De volta do trabalho, no comeo da noite, quando Jacira entrou em casa, encontrou Geni na sala, lendo uma fotonovela, como de costume. Vendo-a entrar, levantou-se 
e acompanhou-a at a cozinha.
  A loua empilhada na pia, as panelas sobre o fogo. Sem dizer nada, Jacira comeou a esquentar a comida.
  Ela sabia que Geni estava com vontade de saber se ela tinha mesmo se demitido, mas continuou calada. Colocou a comida no prato: arroz, feijo e verdura.
  Estava com fome, apanhou a frigideira, fritou um ovo enquanto Geni comentou:
  - A carne acabou. Seu pai comeu o ltimo pedao. Amanh  dia de ir ao mercadinho fazer a despesa da semana.
  - No faz mal - respondeu Jacira resignada.
  Sentou-se para comer e Geni sentou-se do outro lado da mesa. Como Jacira comia em silncio, ela no se conteve e comentou:
  - Naturalmente voc estava brincando quando disse que ia se demitir da oficina. Queria s me assustar...
  Jacira depositou o garfo no prato e respondeu calmamente:
  - Eu disse a verdade. Hoje foi o meu ltimo dia de trabalho l.
  Geni levantou-se nervosa:
  - Ento voc se demitiu mesmo? No pode ser! O que ser de ns? Amanh mesmo voc vai voltar l e dizer ao seu Noel que se arrependeu.
  - Amanh vou comear a trabalhar em outro lugar.  melhor voc se acostumar. Ficarei trabalhando at mais tarde.  bom voc no deixar mais a loua do dia sem 
lavar.
  - Isso no  justo! Eu sou uma pessoa doente, no posso fazer muito esforo. Como vai deixar todo o servio por minha conta? J  difcil fazer a comida toda!
  Jacira levantou-se, colocou o prato na pia, e respondeu:
  - Voc se habituou a deixar o servio da casa para mim. Mas isso no vai mais continuar assim. Daqui em diante, como j lhe disse, vou trabalhar por conta prpria. 
No terei horrio e se tiver servio  do meu interesse ficar at mais tarde. Portanto, no conte comigo para o servio da casa.
  - Isso no  direito. Voc  nova e eu tive muito trabalho para criar os filhos.  justo que agora eu desfrute de mais conforto. Quer que alm de cozinhar para 
voc ainda limpe seu quarto, cuide de sua roupa? Voc no  mais criana.
  - No mesmo. No precisa fazer nada para mim. Eu vou limpar meu quarto e cuidar de minhas roupas. Mas voc tem um marido para cuidar e sade suficiente para prover 
a necessidade de ambos. Se um dia eu puder, pagarei uma pessoa para ajud-la. Mas, por enquanto, tero de cooperar fazendo a sua parte. Hoje ainda vou lavar a loua 
e deixar no escorredor para voc guardar. Mas amanh nem sei se virei para jantar. Portanto, no me espere.
  Notando que Jacira estava determinada, Geni foi ter com Aristides, que assistia ao ao noticirio na televiso. Aproximou-se triste, sentou-se ao seu lado, e comeou 
a chorar.
  Surpreendido, ele perguntou:
  - O que foi, mulher, aconteceu alguma coisa?
  - Jacira est desempregada! O que faremos agora?
  O assunto era srio e Aristides olhou-a preocupado.
  - Ela teve coragem?
  - Teve. Pediu demisso da oficina. Voc precisa fazer alguma coisa! Eu tentei, mas ela disse que no vai voltar atrs. Est de cabea virada. Acha que vai ganhar 
muito dinheiro. Est iludida. Prometeu at que um dia vai pagar algum para ajudar no servio da casa.
  Aristides levantou-se. Precisava saber a verdade. Foi  cozinha e encontrou Jacira lavando a loua. Aproximou-se:
  - Jacira, sua me me disse que voc est desempregada.
  Sem parar o que estava fazendo ela respondeu: - Deixei a oficina, mas no estou desempregada. S no tenho patro.
  Ele meneou a cabea preocupado:
  - Como assim? No estou entendendo.
  -  simples, pai. Vou abrir um negcio prprio com uma amiga.
  - Ento  verdade? Voc deixou um emprego com carteira assinada e todas as garantias para ir atrs da conversa de uma amiga?
  - Sei o que estou fazendo, pai. Ns comeamos esse negcio faz alguns meses. Trabalhando juntas vamos ganhar muito mais do que ganhvamos na oficina. J fizemos 
todas as contas. Vamos abrir uma empresa.
  Aristides, assustado, passou a mo nos cabelos e argumentou:
  - At agora voc s trabalhou com a orientao do patro. No tem profisso liberal. No acha que est iludida? Voc tem muita chance de fracassar. Eu tive dois 
colegas da fbrica que ao se aposentarem decidiram abrir um comrcio e foi um horror. Perderam tudo! Ficaram at sem ter o que comer. No fosse a ajuda dos parentes 
eles teriam morrido de fome.
  Jacira respirou fundo e respondeu:
  - Ns no somos eles, pai. Margarida tem profisso,  uma boa profissional, eu estou aprendendo com ela. Vamos ganhar dinheiro, sim. Temos boas clientes que pagam 
pelo nosso trabalho. Est na hora de melhorarmos nossa vida.
  - Mesmo a custa do sacrifcio de sua me? Voc vai deixar todo servio da casa para ela. Acha que vale a pena?
  Jacira sentiu brotar dentro de si uma onda de indignao. Olhou firme nos olhos dele e disse com voz firme:
  - A cada dia que passa mame est ficando cada vez mais preguiosa. Antes era mais disposta. Agora se cansa por qualquer coisa. A culpa  nossa, minha e sua que 
sempre fizemos tudo para poup-la. Se continuarmos assim, ela vai acabar entrevada em uma cama, sem foras para nada.  isso o que quer?
  Ele ia responder, mas Jacira no lhe deu tempo:
  - Limpar uma casa, lavar uma roupa, uma loua, faz movimentar o corpo e melhora a cabea. Enquanto a indolncia amolece o corpo, debilita a sade, favorece a depresso. 
Para dizer a verdade, no sei como voc aguenta viver sem trabalhar, ficar sem fazer nada. No  s pelo dinheiro, mas o trabalho, qualquer que seja, d dignidade, 
faz com que a pessoa se sinta viva e til.
  Aristides baixou os olhos impressionado com as palavras dela. Jacira nunca fora to firme, embora surpreendido ele reconhecia que ela estava falando a verdade.
  Recordou-se de como se sentia orgulhoso quando trabalhava na fbrica. Naquele tempo sentia-se mais alegre, mais feliz. Recordou-se tambm, que antes Geni era mais 
caprichosa, arrumava-se melhor, era at mais cheirosa. Nos ltimos tempos, tornara-se mais lamuriosa, menos asseada. Seus cabelos tinham perdido o brilho, e seus 
olhos se tornado apagados.
  Todos esses pensamentos passaram rapidamente pela sua mente e ele tentou justificar-se:
  -Eu no estou desempregado porque quero. No sou preguioso. Voc sabe muito bem o que aconteceu.
  - No o estou criticando. Mas sinto que se nos no mudarmos, nossa vida vai ficando cada vez pior.
  Jacira enxugou a mo e colocou-a no brao do pai dizendo:
  - Pai, venha, sente-se, vamos conversar.
  Ele obedeceu e ela continuou:
  - Eu tenho quase trinta e nove anos e minha vida tem sido s trabalhar e viver contando as moedas. Um dia conheci um professor que me convidou para assistir suas 
aulas. Sabendo que no poderia pagar, ele me deu uma bolsa. Recebeu-me no meio de pessoas muito finas, de classe, que so seus alunos. Foi ele quem me fez entender 
que todos temos dentro de ns condies de mudar nossa vida para melhor. Mas para isso temos que acreditar que somos capazes.
  - Foi isso que fez voc mudar! Parece que ficou mais nova, mais bonita!
  - Ele me ensinou que quando no estamos felizes, temos que perceber que tipo de crenas temos. Como nos vemos. Ele diz que conforme pensamos, fazemos as escolhas 
e, de acordo com elas, colhemos os resultados. Quem acredita que no tem capacidade, que nunca vai ter chance de melhorar, s pensa no mal, s vai atrair o mal.
  - Ser? Nesse caso sua me nunca conseguir nada!
  - Enquanto ela continuar assim. Mas se ela mudar sua maneira de enxergar, acreditar que merece ser mais feliz, comear a atrair coisas boas.
  Aristides meneou a cabea negativamente dizendo:
  -  to fcil assim? No pode ser. Tudo de bom nesta vida s se consegue com muita luta e sacrifcio. Nada vem de graa neste mundo.
  - Nada vem de graa mesmo. Cada um ter de fazer a sua parte, esforar-se para melhorar seus pensamentos, acreditar no bem. Esse  o preo que a vida exige e teremos 
de pagar para conquistar progresso. E eu, pai, acredito nisso. Vou progredir, ganhar mais, ter uma vida melhor. Estou me esforando para melhorar nossa vida. Entende?
  Os olhos de Aristides brilharam emocionados quando respondeu:
  - Voc est certa. Amanh mesmo vou procurar o seu Jos da oficina e ver se ele ainda precisa de um ajudante. Tambm quero fazer alguma coisa para melhorar nossa 
vida.
  Jacira levantou-se e deu um beijo no rosto do pai:
  - Faa isso, pai. Obrigada por ter me apoiado. Estou certa de que vamos conseguir.
  Geni ficara escondida atrs da porta escutando a conversa. Sentia-se assustada. Jacira teria alguma chance de conseguir uma vida melhor? Ela falava com tanta segurana!
  Naquele momento pareceu-lhe ouvir uma voz que indagava:
  - E se ela estiver errada? Como uma mulher sem profisso, sem muita instruo, pode se tornar uma empresria?
  Torceu as mos angustiada. Os tempos tinham mudado. O mundo estava cheio de perigos e armadilhas. Jacira estava sendo ingnua, ignorante, iludindo-se.
  Algumas lgrimas apareceram. Ela tinha horror de ficar na misria. Sua vida sempre fora difcil. Mesmo quando era mais jovem. Aristides ganhava bem, mas a famlia 
era grande e ele no pensou em economizar para o futuro.
  A aposentadoria dele era insuficiente para sustentar as despesas. Geni sempre se preocupara com a velhice, temia ficar doente. A qualquer indisposio ia para 
a cama assustada.
  O salrio de Jacira era uma garantia de que no lhe faltaria o necessrio. Por esse motivo, desde que ela era pequena evitara que tivesse amigas. Desde a adolescncia 
dela, exigira que se vestisse, se comportasse de maneira a no chamar a ateno dos rapazes. 
  Quando tudo parecia estar do jeito que ela queria, eis que Jacira se juntara com essa colega, ficara vaidosa, passara a usar vestidos mais curtos e agarrados, 
ate usava pintura e mudara o corte dos cabelos.
  Geni enxugou os olhos e pensou:
  "Preciso reagir. Jacira tem que mudar de ideia. Amanh cedo no vou me levantar. Ficarei na cama para mostrar que estou doente. Ela vai se arrepender de me desobedecer."
  Vendo que o marido tinha encerrado a conversa com Jacira, correu e sentou-se no sof da sala. Aristides chegou segundos depois e acomodou-se ao lado dela.
  - Voc viu que desgraa? - comeou ela com voz triste.
  - Pare com isso, Geni. Jacira no  criana. Ela quer melhorar nossa vida. Vamos torcer para que d certo.
  - Voc acredita nisso? Acha que uma moa pobre e sem experincia de vida como ela pode se tornar uma empresria? Onde est com a cabea?
  Aristides fixou-a irritado e respondeu:
  - Pare com isso, mulher! Voc s sabe acreditar em desgraas. Pois eu senti que ela sabe o que quer e tem muita chance de conseguir.
  - De onde voc tirou isso? Est na cara que no vai dar certo.
  - Guarde sua opinio para si. Voc s pensa no mal. Estou comeando a notar que essa sua maneira de pensar  que tem atrapalhado nossa vida. Eu vou apoiar Jacira 
e quero tambm fazer alguma coisa para melhorar.
  - Ela disse que de amanh em diante no vai mais fazer o servio da casa. Vai deixar tudo para mim. Se voc quer mesmo fazer alguma coisa, ento assuma o trabalho 
da casa. Eu estou cansada, doente, e com mais este golpe posso ficar pior.
  Ele olhou-a admirado, depois respondeu:
  - Nada disso. Essa ser a sua parte. Se o seu Jos ainda precisar de um ajudante, vou aceitar. Seno, vou sair em busca de algo para fazer. Chega de ficar o dia 
todo parado, sem fazer nada. 
  Geni levantou-se nervosa:
  - Voc agora ficou do lado dela, contra mim. Nunca pensei que depois de tantos anos juntos, de criar trs filhos com dedicao e carinho, fosse acabar minha vida 
sozinha, abandonada, tendo que arcar com o peso de todo servio desta casa. Vocs tambm moram aqui. Precisam ajudar. No podem tirar o corpo e sair por a.
  Aristides olhou-a srio. Franziu o cenho e respondeu:
  - Voc faria melhor se cooperasse. No est to velha, nem doente e pode cuidar da casa, sim. Estamos todos juntos aqui, mas tanto eu quanto Jacira, vamos arranjar 
dinheiro para dar mais conforto para voc tambm. E chega de reclamar. Vou assistir  televiso em paz e no quero ouvir nem mais um piu.
  Geni percebeu que ele estava falando srio. H muito tempo ele no assumia essa atitude de comando. Sentiu que o melhor seria no insistir. Iria deitar-se e pensar 
em um jeito de reverter a situao.
  Na manh seguinte, Jacira levantou-se cedo, vestiu-se, arrumou o quarto, foi  cozinha, fez caf, esquentou o po, tomou caf, lavou a xcara, enxugou e guardou. 
Apanhou a bolsa e saiu.
  Eram sete horas e seus pais ainda dormiam. O dia estava bonito e ela sentiu-se alegre, feliz. Ia iniciar uma vida nova. Sentiu-se livre, mais dona de si, disposta 
a dar o mximo na realizao do novo trabalho.
  Era gratificante sentir-se dona do prprio destino, decidir como queria viver dali para a frente. Em seus olhos havia um brilho novo, um entusiasmo que nunca sentira 
antes.
  Tomou o nibus sem se importar de viajar em p, apertada entre uma senhora gorda carregada de pacotes e um jovem de ombros largos que tomava todo espao fazendo 
com que ela se apertasse entre os dois.
  No centro da cidade todos desceram e ela respirou aliviada. Encaminhou-se para o ponto do nibus que a levaria at a casa de Margarida. No tinha fila.
  Logo o nibus chegou, lotado, mas todos desceram e ela subiu e acomodou-se satisfeita.
  Algumas pessoas subiram e uma mulher morena pediu licena e sentou-se ao lado dela. Estava bem vestida e um delicado perfume vinha dela.
  O nibus partiu e depois de alguns minutos de viagem, a mulher disse de repente:
  - Continue assim que voc vai conseguir tudo o que deseja.
  Surpreendida, Jacira no entendeu bem: - O que disse?
  - Voc est mudando sua vida. Pode ir em frente que vai dar certo, apesar daqueles que no desejam seu sucesso.
  - Como  que a senhora sabe?
  Em vez de responder a pergunta ela disse: 
  - Meu nome  Ldia Martini e o seu?
  - Jacira da Silva. Estou mesmo mudando de vida. Como a senhora sabe?
  Ldia sorriu e respondeu:
  - s vezes eu sei o que as pessoas esto pensando. Senti que voc deixou o emprego e est comeando a trabalhar por conta prpria.
  -  verdade. E o que mais a senhora sabe?
  - Na verdade, desde criana vejo espritos e converso com eles, que me orientam.
  Jacira sentiu um arrepio e tornou: 
  - A senhora no tem medo?
  Ldia sorriu, seus olhos brilharam quando respondeu:
  - No. Eles trouxeram luz a minha vida. Com eles tenho aprendido a lidar com minhas emoes e encontrado respostas para minhas dvidas. Perdi o medo da morte porque 
eles me mostraram que s existe vida e que nosso esprito  eterno.
  - A senhora fala como um amigo meu que muito tem me ajudado.
  - No me chame de senhora. Faz-me sentir velha.
  - No tive a inteno...
  - Eu sei. Mas sinto que podemos ser amigas.
  - Ela tirou um carto da bolsa, entregou-o a Jacira e continuou: Vou descer daqui a pouco. V a minha casa qualquer dia destes. Algum est me dizendo que sua 
vida vai mudar no s no aspecto profissional, mas tambm no afetivo. Vai conhecer uma pessoa que far a diferena.
  - Eu j conheci. Tenho um namorado.
  Ldia abanou a cabea negativamente:
  - No se trata dele. Voc vai conhecer quando estiver pronta.
  - Como vou saber?
  - Voc saber.  s o que posso dizer por agora. Mas v a minha casa e conversaremos. Vou descer no prximo ponto. Foi um prazer conhec-la. Sucesso para voc.
  - Obrigada. Eu irei sim.
  Ldia desceu e Jacira, intrigada, seguiu-a com os olhos at perd-la de vista. Cinco minutos depois, chegou sua vez de descer, mas a conversa que tivera no lhe 
saa da cabea.
  Foi a primeira coisa que disse para Margarida assim que chegou:
  - Hoje me aconteceu uma coisa estranha.
  Contou tudo quanto tinham conversado e ao terminar Margarida tornou:
  - Ela  mdium. Igual ao seu Norberto que tinha um Centro Esprita e recebia o pai Jos. Quando precisava, minha me ia conversar com ele, pedir conselhos e sempre 
teve bons resultados. Ele ajudou muito nossa famlia.
  - Ela no me pareceu uma pessoa religiosa. Era uma mulher muito elegante, bem-vestida, fina, amvel. Gostei dela.
  - Ela deve mesmo receber espritos. Como ia saber tudo sobre voc?
  - Ela disse que tinha amigos espirituais que lhe contavam as coisas.
  - Igual seu Norberto, que tinha o pai Jos. Ele tambm era um esprito.
  - Seja como for, assim que tiver um tempinho vou fazer uma visita a ela.
  - Eu vou com voc. No vou perder essa. Ultimamente tenho me preocupado muito com o futuro do Marinho. No sei se fiz bem em no querer que o pai dele soubesse 
que tivemos um filho.
  - Voc nunca falou sobre isso.
  -  uma coisa que eu no gosto nem de lembrar. Mas eu era muito nova, apaixonei-me.
  - Quando voc engravidou ele foi embora?
  Margarida hesitou um pouco, depois disse:
  - Eu lhe disse isso, mas no foi bem assim. Ns nunca moramos juntos. Ele era casado, tinha dois filhos. Eu no quis prejudicar a famlia dele. Quando fiquei grvida, 
entendi que deveria assumir sozinha as consequncias dos meus atos. Eles moravam perto da minha casa, eu no queria que ningum soubesse que ele era o pai do meu 
filho.
  - Voc foi corajosa.
  - Minha me brigou muito comigo. Exigia que eu dissesse o nome do responsvel. Mas eu nunca disse. Meu pai ficou furioso, mandou-me embora de casa.Arrasada, mas 
digna, fui morar em um pensionato das freiras no bairro do Ipiranga. L eles recolhiam as mes solteiras, at o nascimento do beb, e caso elas no pudessem ou no 
quisessem assumir a criana, arranjavam pais para fazer a adoo da criana.
  - Voc sofreu muito!
  - As freiras foram muito boas comigo. Logo de incio eu lhes disse que assumiria o beb. Minha famlia nunca me procurou e eu fui levando. Ajudava as freiras fazendo 
o que podia e foi l que aprendi corte e costura. Arranjei emprego em uma casa de famlia e deixava Marinho na creche com as freiras para trabalhar. Sou muito grata 
a elas pelo que fizeram por mim. Economizei, comprei uma mquina de costura, comecei a costurar, e o resto voc j sabe.
  - A cada dia eu admiro mais. Qualquer outra iria atrs do pai do menino, pedir dinheiro, brigar na justia. Voc foi muito digna.
  - E no me arrependo. Acho at que o Hlio gostava muito de mim. Soube que me procurou muito. Eu custei a esquecer o amor que sentia por ele. Mas de que me adiantaria 
lhe contar a verdade? Ele estava casado, tinha dois filhos. No acho que iria separar-se da famlia por minha causa. Mas se ele quisesse fazer isso, eu ia me sentir 
muito mal por ter sido a causa da dissoluo de uma famlia. Afinal, eu me apaixonei, vivi momentos de muito amor e no me arrependo. Tenho um filho que  tudo para 
mim. Foi melhor assim. Ele que seja feliz com os seus. Eu vou procurar viver minha vida em paz.
  - Qualquer hora voc vai encontrar algum e refazer sua vida.
  - No sei se quero. Estou vivendo em paz, sem ningum para mandar em mim e depois, eu no suportaria colocar em casa um homem que viesse a mandar em meu filho. 
 por esse motivo que desejo muito que nosso ateli d certo. Quero ganhar dinheiro, fazer meu filho estudar, ter uma carreira, ser bem encaminhado na vida.
  - Vai dar certo. Vamos trabalhar muito, ganhar bastante dinheiro. Quero provar para minha me que eu posso, que sou capaz, e inclusive dar a nossa famlia uma 
vida melhor.
  - Isso mesmo. Vamos ao trabalho.
  - Assim  que se fala.
  As duas foram para a sala de costura e dedicaram-se ao trabalho com entusiasmo. Lidar com coisas bonitas, moda, tecidos coloridos, era muito agradvel e elas adoravam.
  A partir daquele dia, Jacira entrou na rotina. Levantava muito cedo e fazia tudo como no primeiro dia. S no tinha horrio para voltar. No decorrer dos dias, 
o servio foi aumentando, novas clientes apareceram, ela ia chegando em casa cada dia mais tarde. Tomava o ltimo nibus.
  Em casa, Geni fizera de tudo para impression-la. Nos primeiros dias deixara loua para lavar, roupas amontoadas, casa sem limpar, mas como Jacira fazia tudo conforme 
prometido, e ignorava o resto, ela fora forada a ir cuidando da casa. Fingia-se de doente, mas, como a filha nunca estava, ela no tinha plateia.
  Aristides tinha ido falar com Jos da oficina mecnica para dizer que aceitava o emprego, mas ele j havia arranjado outra pessoa.
  Como estava mesmo decidido a encontrar trabalho, todos os dias depois do caf saa procurando. Depois de quase um ms finalmente chegou em casa muito alegre. Tinha 
conseguido um emprego. Reencontrara um ex-colega de fbrica que ao aposentar-se, com o dinheiro que recebera da empresa, alugara uma casa e montara um bar.
  Ele andara o dia inteiro na sua busca, entrara no bar para tomar um refrigerante e viu no caixa seu amigo Euzbio. Abraaram-se contentes e ao saber que Aristides 
desejava trabalhar disse-lhe:
  - Estou precisando de um garom. Tenho apenas um menino, que na hora do movimento no d conta.  trabalho duro,  salrio mnimo, mas tem as gorjetas. Outra coisa, 
sem carteira assinada. No tenho dinheiro para isso.
  - Eu aceito. Quando posso comear?
  - Amanh mesmo. Eu abro s dez da manh, mas se tem movimento vou at as onze da noite. O movimento maior  nos fins de semana.
  - Eu estarei aqui amanh s dez. Quando contou para Geni ela no gostou:
  - Um bar? No meio de pinguos e de mulheres da vida? Voc vai ficar viciado depois de velho?
  - Voc faria melhor em no ser to maldosa. Vou vida. E  isso que voc me diz? 
  Geni desatou a chorar:
  - Todos me abandonaram! O que ser de mim agora? O que foi que eu fiz para ser assim to castigada?
  - Voc no faz outra coisa a no ser se queixar.  voc quem atrai para esta casa a misria em que se transformou nossa vida. De hoje em diante no quero ouvir 
nem mais uma frase de queixa. Se quiser ficar na maldade, fique sozinha. Eu tenho sessenta e trs anos, mas me sinto forte, capaz e quero ter uma velhice melhor. 
Vou trabalhar, economizar, coisa que nunca fiz. Se tivesse feito, hoje seria um comerciante como Euzbio. Mas no, entreguei-me  preguia, ao desnimo, achando 
que o mundo tinha acabado para mim. Mas Jacira fez-me ver que eu ainda posso mudar, fazer alguma coisa, ser til, sentir-me vivo.
  - S eu vou ficar sofrendo!
  - Porque quer. Porque tem uma cabea viciada na preguia, na incapacidade. Vive de iluso essas revistinhas de fotonovela, sonhando com as mocinhas e com o prncipe 
encantado, como se a vida fosse s isso. Abra os olhos, mulher, antes que seja tarde. Cuide de si, da casa, de sua vida. Deixe de se queixar e fingir que est doente. 
Se no mudar, qualquer dia destes vai acabar ficando doente de verdade.
  Geni soluava desesperada. Nunca Aristides tinha sido to duro com ela. Ele sempre a tratava com suavidade, desde o namoro, como se ela fosse uma boneca delicada. 
Por que estava sendo to duro? Ela chorava de medo. Alm dos filhos, corria o risco de perder tambm o marido? E se ele, desgostoso com ela, fosse embora de vez? 
O que seria dela?
  Sem dizer mais nada, correu para o quarto, deitou-se e continuou chorando. Sentia que ele estava cansado de suas artimanhas para se poupar e obrigar os outros 
a fazer tudo do jeito que ela queria.
  Mas no dia seguinte, assim que o marido e a filha saram para o trabalho, ela, olhando a pia cheia de louas e a mesa posta, achou melhor arrumar tudo. Sentia-se 
solitria, abandonada.
  Quando terminou, foi para o quarto pensando em deitar-se mais um pouco. Mas ao passar pelo corredor, sentiu um cheiro desagradvel vindo do banheiro.
  Aristides tomara banho antes de sair e deixara toalhas espalhadas pelo cho. Irritada foi coloc-las no cesto de roupas sujas. Ele estava cheio. Lgrimas vieram-lhe 
aos olhos e ela no sabia se eram de raiva ou de repugnncia por precisar fazer aquele servio.
  Jacira costumava cuidar de tudo antes de ir trabalhar. Lembrou-se de que fazia alguns dias que ela no mexia no cesto. O cheiro de mofo vinha dele. Deixando as 
lgrimas correrem livremente, sustendo a respirao, Geni tirou toda a roupa e levou-a para o tanque. Resignada, colocou-as de molho em gua e sabo enquanto a mquina 
de lavar enchia. Depois as colocou para lavar, foi para sala, apanhou uma revista,foi para o quarto e estendeu-se na cama mergulhando prazerosamente na leitura.
  Mais tarde, sentiu fome. Desde que comeara a trabalhar, Aristides comia no emprego.
  - Ns servimos refeies aqui. No tem cabimento voc ir almoar em casa - dissera Euzbio desde o primeiro dia.
  A princpio Geni achara bom no ter de fazer almoo. Comia qualquer coisa, po, banana, ovo frito,  o que tivesse na hora. Mas depois de alguns dias comeou a 
sentir vontade de comer um bom prato de arroz com feijo, um bife acebolado do qual ela gostava tanto.
  Levantou-se e foi para a cozinha. Decidiu fazer um almoo de verdade. Colocou feijo na panela de presso, refogou o arroz e aspirou o cheiro do tempero com prazer.
  Enquanto cozinhava ela pensava:
  " Todos foram embora. Ningum liga para mim. Eles querem me ver acabada, chorando, implorando que me ajudem. Mas eu no vou lhes dar esse gosto. Vou me tratar 
bem. Fazer do jeito que eu gosto. Colocar aquela pimenta vermelha que eu adoro e o Tide no gosta."
  Fez tudo no capricho e em vez de estender o pano de prato para comer, como de costume, foi buscar uma toalha, arrumou a mesa, com copo, guardanapo de papel e tudo. 
Depois se sentou satisfeita e almoou, saboreando a comida que havia preparado, que nunca lhe pareceu to gostosa.
  Fazia muito tempo que no se sentia to bem. Tanto que no deixou a loua para lavar. Arrumou tudo. Depois foi estender a roupa para aproveitar o sol. Quando acabou, 
apanhou uma revista e sentou-se na poltrona da sala para ler.
  Naquela noite, Jacira trabalhou at muito tarde. Elas desejavam entregar dois vestidos para uma cliente que iria viajar para o exterior na noite seguinte e ela 
s se deu por satisfeita quando os viu prontos.
  -  melhor voc ir logo para no perder o nibus. Pode deixar que eu guardo tudo.
  Jacira concordou, apanhou a bolsa e saiu apressada. Ao chegar no porto encontrou com Nelson e disse:
  - Eu no sabia que estava aqui!
  - Esqueceu? Voc me prometeu que iria sair mais cedo. Estou esperando desde s nove e j so quase meia-noite.
  - Eu sinto muito. Mas ns tnhamos de acabar dois vestidos para entregar amanh.
  - Vamos andando, seno perderemos o nibus.
  Durante todo o trajeto de volta, Nelson ficou calado. Jacira notou que ele estava irritado e sentiu-se culpada por ter combinado de sair mais cedo. Tentou conversar, 
mas ele respondia por monosslabos e ela tambm ficou calada.
  Ao chegarem perto da casa dela, pararam e ele disse srio:
  - Ns precisamos conversar. Esta situao no pode continuar.
  - Eu no devia ter marcado to cedo. Estava to empenhada em acabar o servio que s me dei conta do horrio quando Margarida me alertou que eu iria perder o nibus.
  - Vamos nos sentar na praa e conversar. 
  -  tarde. Deixa para outro dia? 
  - No. Tem de ser hoje.
  - Est bem. Mas no vamos demorar.
  Andaram at a praa, sentaram-se e Nelson segurou a mo dela dizendo em tom conciliador:
  - Jacira, eu gosto muito de voc. Depois de tudo que passei nesta vida, tinha jurado no amar mais nenhuma mulher. Quando a conheci, gostei porque sendo mais amadurecida, 
nosso relacionamento seria mais confivel.
  Fez ligeira pausa e, notando que ela o ouvia com ateno, continuou:
  - Quando voc trabalhava na oficina, tinha horrio, tudo ia muito bem. Mas depois que resolveu trabalhar com Margarida, nosso namoro tem sido prejudicado.
  Ela retirou a mo e fez meno de responder, mas ele pediu:
  - Estou abrindo meu corao e peo-lhe para ouvir tudo quanto tenho a dizer, sem me interromper.
  Vendo que ela concordou, ele prosseguiu:
  - Voc no tem hora para estar comigo. Todas as noites trabalha at muito tarde e nos fins de semana, sempre tem mais alguma coisa para fazer na casa de Margarida. 
Eu me sinto rejeitado. Sinto que voc no gosta tanto de mim como eu pensava. Nunca me liga durante o dia, no se esfora para estar comigo. Para voc o trabalho 
vem antes de mim. Eu fico sempre em segundo lugar. Isso no  amor.
  Ele se calou triste e ela tentou esclarecer:
  - Voc est enganado. Voc  meu primeiro namorado. Eu prezo muito sua amizade. Mas, entenda, eu estou tentando melhorar de vida. Meu trabalho  muito importante 
e eu quero vencer. At aqui minha vida tem sido muito difcil. Pela primeira vez estou tendo uma chance de conseguir coisa melhor. Nosso negcio est indo bem. Estou 
ganhando mais do que antes. E estou certa de que vai melhorar muito mais.
  - Voc j me disse tudo isso. Mas eu tenho uma proposta para lhe fazer. Estou me sentindo muito sozinho. Quero que venha morar comigo. Tenho uma casa boa, ganho 
o suficiente para lhe oferecer uma vida confortvel e voc no vai mais precisar trabalhar. Se tudo der certo, mais tarde poderemos nos casar.
  Jacira sentiu como se ele tivesse lhe jogado um balde de gua fria. Teve vontade de responder que no. Mas ele segurou a mo dela novamente:
  - No responda nada agora. Quero que pense no assunto.  uma forma de demonstrar se gosta mesmo de mim e se confia no meu amor.
  Jacira respirou fundo e respondeu:
  - Est bem. Prometo que vou pensar. Mas agora preciso ir.  muito tarde. Amanh preciso me levantar cedo.
  Ela levantou-se, ele abraou-a com fora e beijou-a nos lbios longamente. Depois disse:
  - Pense bem. Eu quero muito voc. No vejo a hora de podermos estar juntos para sempre.
  Jacira sentiu uma sensao desagradvel, uma inquietao e vontade de ir embora.
  Na porta de casa, despediu-se rapidamente e entrou sentindo-se aliviada.
  A casa estava s escuras e ela foi direto para o quarto. Havia jantado muito cedo com Margarida, mas apesar do adiantado da hora estava sem fome. Aquela conversa 
com Nelson a irritara muito. Tomou um banho e estendeu-se na cama recordando suas palavras.
  Para ela, o trabalho significava sua libertao. A figura de Geni apareceu em sua mente. A proposta dele iria transformar sua vida e torn-la uma cpia de sua 
me. Agora que estava tendo a chance de tornar-se independente, no permitiria que ningum a impedisse.
  Tendo decidido recusar a proposta dele, deitou-se e, sem pensar em mais nada, adormeceu.

   IX
  Na manh seguinte, na casa de Margarida, Jacira desabafou:
  - Vou acabar meu namoro com Nelson.
  Margarida olhou-a surpreendida:
  - Por que, aconteceu alguma coisa?
  - Ele est irritado porque no tenho tido tempo para sair. Quer que eu deixe de trabalhar e v morar com ele. Veio com uma conversa de que ele pode me sustentar, 
dar-me conforto, mas eu quero muito mais. Eu quero ser independente e ele quer me pr na coleira, mandar em mim.
  - Por esse motivo  que eu no quis me casar de novo. Mas eu j experimentei o amor, tenho meu filho e me sinto bem assim. Mas voc est comeando sua vida amorosa. 
Se acabar o namoro, no vai se arrepender?
  - Sabe que no? Tem dia que me sinto bem em conversar com ele, mas h outros que quando estamos juntos no vejo a hora de ir embora.
  - Nesse caso,  melhor terminar mesmo. Voc no o ama.
  - Pode ser. Mas eu estou descobrindo que posso ter uma vida melhor. Pela primeira vez sinto prazer em trabalhar, adoro ouvir nossas freguesas elogiarem nossos 
vestidos. Sinto-me til, realizada. Gosto de manusear esses tecidos to lindos, aprender a olhar a moda, sentir que estou viva.
  Margarida sorriu e respondeu:
  -  o que eu sinto tambm. Que bom que voc me entende! O prazer de fazer, de criar coisas bonitas me fascina. Voc est certa de que  isso mesmo que quer?
  Jacira suspirou pensativa:
  - S no sei como dizer a ele. Parece que o estou rejeitando, sendo ingrata, cruel. Ele foi o primeiro homem que gostou de mim. Eu tenho me esforado para gostar 
dele. Mas ontem, quando ele me beijou, eu queria sair correndo.
  Margarida colocou a mo sobre o brao da amiga e tornou
  - No amor no h como fingir. Quando voc ama, quer ficar junto. Se em vez disso, no tolera a intimidade, o melhor mesmo  sair fora. Dizer que no est preparada. 
Ele vai sofrer, mas respeitar sua atitude. Seria cruel fingir um amor que no sente.
  - Voc est certa.
  - Aquela mulher que voc conheceu no nibus, acertou.
  - Como assim?
  - Ela disse que sua vida ia mudar at no lado afetivo. Isso significa que voc vai gostar de outro.
  - Ser? Duvido. Nelson foi o nico que me viu como mulher.
  - Isso foi no tempo em que voc era triste, deprimida. Hoje voc est muito diferente. Vai aparecer outro, sim.
  Jacira sorriu, pegou a bolsa, apanhou o carto da mulher que conhecera no nibus e leu:
  - Ldia Martini. Ela disse que mora perto daqui e convidou-me para ir a sua casa a fim de conversarmos. Estou com vontade de ir at l. O que voc acha? 
  Se voc for, eu vou junto para ver o que ela pode dizer sobre minha vida. Se ela for como seu Norberto, pode nos ajudar e aconselhar.
  Margarida olhou o carto e continuou:
  - Essa rua fica aqui perto, podemos ir a p. Seria bom irmos antes de o Marinho voltar da escola.
  - E o vestido de d. Odete? Ela ficou de vir experimentar amanh.
  - Est bem adiantado. Estou morrendo de curiosidade.
  - Est bem. Vamos.
  As duas saram e em dez minutos estavam tocando a campainha da casa. Enquanto esperavam no pequeno porto de ferro, contemplavam encantadas o jardim onde um belo 
p de primavera, cheio de flores, subia ao lado da varanda.
  Uma mocinha abriu a porta e vendo-as aproximou-se:
  - Meu nome  Jacira, e esta  minha amiga Margarida. Gostaramos de conversar com d. Ldia. Ela est? 
  - Est sim. Um momento, vou avis-la.
  Ela entrou novamente na casa e alguns segundos depois, voltou acompanhada por Ldia que, vendo-as, sorriu, abriu o porto e convidou-as a entrar.
  - Eu sabia que viria.
  - Esta  minha scia, Margarida.
  Ldia olhou-a firme nos olhos dela e disse: 
  -  um prazer receb-las em minha casa.
  - Adorei seu jardim. O que faz para que as flores sejam tantas e to bonitas? - perguntou Margarida.
  - Elas gostam de ficar aqui porque sabem que so muito amadas. Eu adoro este jardim e elas retribuem. 
  Entraram na sala e Ldia, aproximando-se da mocinha que as recebera, disse:
  - Esta  minha filha Estela.  ela quem cuida do nosso jardim.
  - Est muito bonito. - Disse Margarida, continuando: - Desculpe termos vindo fora de hora,  que mais tarde meu filho chega da escola e eu no poderia mais sair. 
Eu desejava muito conhec-la.
  - Fizeram bem. Sentem-se, vamos conversar.
  Depois de v-las acomodadas no sof, Ldia, voltando-se para Jacira, tornou:
  - Voc veio porque as coisas que eu disse comearam a acontecer.
  - . De fato. H algum tempo minha vida vem mudando. Tenho tomado decises. Algumas, eu sei que foram acertadas, mas...
  - H uma que voc sabe que deve tomar, mas fica dividida pelo receio de decepcionar uma pessoa para a qual  muito grata.
  - Isso mesmo. Meu namorado quer que eu v morar com ele e deixe de trabalhar. Isso eu no vou fazer.
  - Vocs esto trabalhando por conta prpria e adoram o que esto fazendo. Eu sinto que tero mais sucesso do que esperavam.
  Ldia fechou os olhos durante alguns segundos, depois disse:
  - A amizade de vocs vem de outras vidas, quando pertenceram a mesma famlia. Tm grande afinidade espiritual. Voc, Margarida, sempre lutou para conseguir melhorar 
de vida, mas nada dava certo. Teve algumas decepes que a fizeram sofrer, mas nunca se entregou  depresso. Sempre lutou com coragem e alegria. Ao reencontrar 
Jacira, que tambm no era feliz, voc sentiu vontade de ajud-la. Unidas, encontraram motivao para mudar e progredir.
  A voz de Ldia estava um pouco modificada e ela falava com firmeza e doura. As duas ouviam comovidas, percebendo que havia alguma coisa diferente no ar. Parecia-lhes 
que de repente o ar se tornara mais leve e um sentimento de alegria as envolvia.
  Depois de alguns segundos em silncio, Ldia perguntou:
  - Quem  Hlio?
  Margarida estremeceu, mas no respondeu, Ldia continuou:
  -  um homem alto, moreno, rosto cheio, cabelos lisos penteados para trs, veste uma camisa azul, est me mostrando um anel de ouro, de formatura com uma pedra 
vermelha.
  - Meu Deus,  o pai do Marinho!
  -  esse mesmo. Ele pede para eu lhe dizer que est muito arrependido do que fez, deseja que o perdoe. 
  Margarida, trmula, no conseguia conter as lgrimas:
  - Eu no tenho raiva dele. Tambm tive culpa pelo que aconteceu.
  - Diz que voc deveria ter lhe contado sobre Marinho. Ele os teria amparado e voc no teria sofrido tanto. Nunca se conformou com seu desaparecimento e s agora, 
depois que ele morreu, foi que descobriu tudo.
  Margarida chorava, enquanto Jacira segurava a mo dela tentando dar-lhe coragem.
  - No sabia que ele tinha morrido! Como foi isso? 
  - Foi de repente, do corao. Faz mais de um ano. 
  - Eu nunca soube! - murmurou Margarida enquanto as lgrimas continuavam a banhar-lhe o rosto emocionado.
  - Ele precisa ir embora, melhorar. Quando puder, voltar para proteg-la e ao menino. Admira sua coragem e a mulher que voc . Entendeu que voc desapareceu da 
vida dele para no criar problemas com sua esposa e seus outros filhos. Lamenta no t-la ajudado quando mais precisava.
  Ldia calou-se. Respirou profundamente, abriu os olhos e disse:
  - Vamos mentalizar uma luz azul-clara e envolv-lo com amor, desejando que ele se recupere logo.
  Ela fez uma orao que as duas acompanharam em pensamento. Depois, abriu os olhos, levantou-se e voltou em seguida trazendo uma bandeja com copos e uma jarra de 
gua, colocando-a sobre a mesa. Encheu os copos e deu-os s duas, servindo-se tambm.
  Tomaram a gua. Quando se sentiu mais calma, Margarida quebrou o silncio comentando:
  - Estou triste, no sabia da morte dele.
  - A morte faz parte da vida. Todos ns teremos que passar por essa viagem. Mas como vocs viram,. Ela no  o fim de tudo.  apenas uma mudana de estado e de 
lugar, ns continuaremos vivendo em outras dimenses.
  - Eu tenho um amigo que muito me ajudou, chama-se Ernesto Vilares. Trata-se de um homem muito instrudo, que estuda fenmenos da vida e tem me falado sobre essas 
coisas.
  - J tive oportunidade de fazer alguns cursos com ele e considero-o um mestre no assunto. Fico feliz que vocs o conheam. Se puderem, freqentem o Instituto dele 
- respondeu Ldia com alegria.
  - Eu j assisti a algumas aulas. Ele deu-me uma bolsa e eu aproveitei. Suas palavras mudaram a minha vida.
  Jacira contou como o conhecera e as experincias que tivera quando dormira e conhecera uma mulher chamada Marina, que disse ser sua protetora,e finalizou:
  - Eu estava me sentindo to bem, to feliz, que quando acordei reclamei. Preferia continuar dormindo.
  - Eu a conheo. No dia em que se sentou ao meu lado naquele nibus, eu a vi perto de voc. Foi ela quem pediu que lhe desse meu endereo.
  -  incrvel - comentou Margarida.- Sempre ouvi falar de espritos, algumas vezes cheguei a ir a um Centro Esprita, mas tive medo de voltar l. Minha me dizia 
que  lugar perigoso.
  - As pessoas tm medo do que no conhecem e no podem controlar. Mas os espritos so pessoas comuns, que viveram aqui e continuam como eram do outro lado da vida, 
tendo qualidades e pontos fracos. De um modo geral,no podem nos fazer mal. S conseguem nos envolver de forma negativa quando no valorizamos a vida, depreciamo-nos, 
ficamos no mal. So nossas fraquezas que lhes abre a porta da nossa intimidade. Quando estamos no mal no atramos s espritos perturbados, mas tambm pessoas que 
podem nos prejudicar.
  - O que aconteceu hoje abriu minha cabea. Desde que Jacira falou de voc, senti muita vontade de conhec-la. Mas pensei que fosse para saber se nosso negcio 
ia dar certo. O que aconteceu aqui foi uma prova muito grande de que a vida continua depois da morte. E isso, para mim,  mais importante que tudo.
  - De fato. A prova de que somos eternos nos comove e amplia nossos horizontes. Saber dessa realidade  uma beno que devemos agradecer  bondade divina - comentou 
Ldia com os olhos brilhantes de alegria.
  - Gostaria de saber mais sobre esse assunto - tornou Margarida.
  - Voltem aqui sempre que desejarem. Terei prazer em conversar com vocs. Tenho muitos livros de pessoas que estudaram o assunto e posso emprestar-lhes. So pesquisas 
que comprovam que a vida continua.
  Jacira interveio:
  - Voc falou que estou sem coragem de tomar uma deciso. Devo acabar com esse namoro?
  - Essa resposta est dentro do seu corao. S voc pode decidir. Pense no assunto, analise seus sentimentos e decida de acordo com sua verdade. Seja qual for 
sua deciso, seja sincera. No tenha receio de ser verdadeira.
  - Eu j pensei e sei o que fazer.
  Ldia foi at a estante de livros, apanhou alguns, e mostrou-os para elas dizendo:
  - Dois destes so romances espiritualistas ditados por espritos aos mdiuns. So mais simples e fceis de entender. Os outros so estudos feitos por cientistas 
sobre os fenmenos da mediunidade. Eu gosto muito deste - continuou Ldia apanhando um deles: - Chama-se Fatos espritas e foi escrito por Sir William Crocks, um 
cientista ingls. Trata-se de um caso de materializao que ele pesquisou. Ele provou que a vida continua depois da morte do corpo fsico. Tem fotos do esprito 
materializado.
  - Como foi isso? - indagou Jacira admirada.
  -  melhor voc levar e ler.  muito interessante - disse Ldia.
  Jacira segurou o livro, folheou-o, e disse admirada
  -  incrvel! Todas as pessoas deveriam ler isso! 
  - Nem todos esto preparados para essa realidade. Cada coisa acontece no tempo certo.
  - Agora  o meu tempo. Pode me emprestar? -indagou Jacira.
  - Sim.
  - Eu adoro romances - disse Margarida.
  Ldia indicou um deles. Ao se despedirem, Margarida agradeceu muito a ateno e abraando-a disse:
  - Sinto que encontrei uma amiga. Gostaria de convid-la para ir conhecer minha casa. Leve sua filha. Terei o maior prazer em mostrar-lhe nosso trabalho.
  - Domingo de manh tenho um compromisso, mas  tarde passarei l.
  - Nesse caso, eu tambm estarei a sua espera.
  Elas despediram-se e durante o trajeto de volta, comentaram com emoo o encontro.
  Recordando que Ldia dissera que seriam bem sucedidas no trabalho, elas retomaram as atividades com entusiasmo.
  Naquela noite, para compensar, Jacira deixou a casa da amiga uma hora mais tarde do que o habitual. Apesar disso, estava satisfeita, porquanto tinham adiantado 
bem a tarefa.
  Assim que fechou o pequeno porto do jardim e ganhou a rua, viu Nelson na esquina se aproximando.
  Pela sua fisionomia percebeu logo que ele no estava bem
  - Faz mais de uma hora que a estou esperando. Tive vontade de tocar a campainha da casa para cham-la.
  - Voc sabe que eu no gosto que faa isso.
  - No  possvel que vocs tenham tanto trabalho assim. Acho mais  que vocs ficam conversando. Parece que o fato de saber que eu a estou esperando no importa.
  Jacira parou de caminhar, olhou bem nos olhos dele e respondeu
  - Tanto importa que tomei uma deciso.
  - Voc vai deixar o trabalho e se mudar para minha casa?
  - No. Eu no gosto de pensar que voc est me esperando. Eu decidi que no quero ir morar com voc.
  - No estou entendendo. Nesse caso...
  - Nesse caso o melhor  acabar com o nosso namoro. Eu no estou preparada para fazer o que voc quer. Eu quero melhorar minha vida, dedicar-me de corpo e alma 
ao trabalho. Esse  meu objetivo agora. Por esse motivo,  melhor no nos vermos mais.
  Ele olhou-a admirado e respondeu nervoso:
  - Depois de tudo que eu fiz por voc, no esperava que me dispensasse como se eu nunca tivesse sido nada em sua vida.
  A atitude dele indignou Jacira que colocou as mos na cintura e retrucou irritada:
  - O que voc fez por mim, alm de reclamar porque sou uma mulher que trabalha e luta por uma vida melhor?
  - Voc est iludida. Acreditou nas bobagens daquele professor. Mas vai cair do cavalo. A realidade  bem outra. Voc no fica rica s porque quer. Quem nasce pobre, 
morre pobre.
  - Voc  um conformado, sem ambies. H anos curte esse emprego, fazendo tudo sempre igual. Eu no quero isso para mim. Vou aprender coisas, melhorar de vida, 
dar conforto a minha famlia.
  - Sua famlia tem vivido pendurada em voc e vai continuar assim. Estou arrependido pelo tempo que perdi com voc!
  - Pois v com Deus e me deixe em paz. Nunca mais quero v-lo.
  Jacira saiu pisando duro, apertando o livro que segurava e a ala da bolsa. Caminhou rapidamente tentando se acalmar. Chegou no ponto do nibus que j estava encostando 
e subiu apressadamente. Sentou-se ao lado da janela e quando o nibus saiu, ela ainda viu Nelson olhando com raiva para ela.
  Aos poucos, Jacira foi se acalmando e alguns minutos depois, recordando-se da cena de momentos antes, comeou a rir. Como pudera pensar que gostava do Nelson? 
Ela que tivera receio de mago-lo, agora percebia que ele no era nada do que imaginara. Era um homem possessivo, autoritrio, que desejava manipul-la e impedir 
que ela continuasse progredindo. Se aceitasse o que ele queria, iria se transformar em uma mulher apagada, infeliz e derrotada.
  Ela descobrira o prazer de tomar decises que tinham transformado sua vida para melhor. No queria de forma alguma voltar atrs. Sentia-se mais dona de si, mais 
forte. Esse caminho no tinha volta. Ao contrrio, ela s aceitaria ir para a frente.
  As palavras de Ldia confirmaram o que ela sentia. Lembrou-se do esprito de Marina. Ela colocara Ldia em seu caminho. Sentia que podia confiar na amizade dela.
  Era prazeroso fazer amigos. Encontrara pessoas que valorizavam sua amizade.
  Lembrou-se das palavras de Geni:
  "- No existe amizade sincera. As pessoas so interesseiras e s fazem o que lhes convm. Eu no tenho amigas. No confio nelas."
  Ela nunca tivera amigas por que sua me pensava dessa maneira. Acreditara em suas palavras. Reconhecia agora o quanto estava equivocada.
  Havia pessoas boas, capazes de cultivar uma amizade. Margarida era uma prova disso. Sentia que Ldia tambm era confivel e iria se tornar uma boa amiga.
  Ela sabia que a me pensava daquela forma. Acreditara em tudo que ela lhe dissera. Ficar s e triste. No se lembrava de v-la recebendo algum em casa.
  J o pai tinha vrios amigos fora de casa, mas nunca os convidava para visit-los. Certamente porque Geni no gostava.
  Ela no queria ser igual a sua me. Gostaria de ter amigos para conversar, compartilhar suas alegrias e tristezas.
  Arrependia-se de ter se deixado influenciar pelas ideias de Geni. Por ela pensar dessa forma nunca convidara Margarida para ir a sua casa. Era sempre ela quem 
ia  casa da amiga, mesmo nos dias em que no tinham de trabalhar.
  Talvez fosse o momento de mudar isso. Ela no desejava passar o resto da vida em uma casa onde no pudesse receber seus amigos. O que Geni faria se ela levasse 
Margarida em sua casa?
  Jacira desejava mudar, sentia prazer em desfrutar da amizade de pessoas das quais gostava. Era muito agradvel trocar ideias com Margarida e agora com Ldia.
  Lembrou-se das pessoas que conhecera no espao do dr Ernesto. Eram amveis, inteligentes, educadas, falavam coisas boas. Quando ia s aulas, vrias delas se aproximavam 
para conversar. Contudo, ela se afastara com medo de no ser apreciada.
  "- Quem nasce pobre no tem chance na vida. D graas a Deus por encontrar o emprego na oficina. Seno, estaramos morrendo de fome."
  De novo as palavras de Geni vinham-lhe  mente. Ou ento:
  "- No adianta querer ser o que no . No adianta querer se pintar para aparecer. Voc nunca ser bonita. Seja discreta. No deve sair por a como se fosse uma 
prostituta".
  Essa era a maneira de pensar de sua me. Ela j no pensava mais assim. Sabia que havia um bom lugar na vida e percebia que poderia ocup-lo se quisesse.
  Sentia-se com coragem para lutar em busca de uma vida melhor, e o primeiro passo seria livrar-se das crenas que durante a vida inteira ouvira da me, e as quais 
j no acreditava mais.
  Ela conseguira mudar de vida, estava trabalhando por conta prpria, sendo capaz de sustentar melhor sua famlia. Um homem havia se interessado por ela, beijara-a, 
quisera viver com ela, sustent-la. Ela o havia recusado porque no o amava o suficiente, mas esse acontecimento provara que como mulher tinha condies de encontrar 
algum que a amasse de verdade e com o qual construiria sua famlia.
  Sentia-se livre, capaz, feliz e forte. Tinha toda uma vida pela frente para construir sua felicidade.
  Chegou em casa e encontrou Geni sentada na sala lendo uma de suas revistas. Vendo-a entrar comentou:
  - A cada dia voc chega mais tarde. Onde ficou at esta hora?
  Apesar do tom malicioso, Jacira no se incomodou e respondeu:
  - Trabalhando. Temos tido muito servio. Amanh vou receber e no sbado voc vai comigo ao supermercado fazer as compras do ms.
  - Eu?! No tenho sade para essas andanas.
  - Voc nunca sai de casa. Est na hora de dar uma volta, respirar um ar.
  - Eu sou doente, canso-me com facilidade. No vou aguentar.
  - Vai sim. Andar faz bem  sade. No vai precisar carregar nada. Eu vou mandar entregar. Depois, estou pensando em lhe comprar algumas peas de roupa. 
  Geni arregalou os olhos: 
  - Para mim?
  - Sim. Ganhei um pouco mais e quero que escolha alguma coisa no bazar.
  Os olhos de Geni brilharam quando ela respondeu:
  - Vamos ver se consigo ir.
  - Jacira sorriu e Geni continuou:
  - Deixei comida no forno.
  - Comi com Margarida, vou s tomar um caf com leite.
  Jacira foi  cozinha e notou que no havia nenhuma loua suja. Geni limpara tudo. Sentiu-se feliz. Tomou seu caf com leite e bolachas, depois foi para o quarto. 
Sentia-se calma e com sono. Lavou-se, vestiu a camisola, deitou-se e em poucos minutos adormeceu.

  X
  No sbado, Jacira levantou-se muito cedo e foi  casa de Margarida. Fazia dois meses que elas estavam trabalhando por conta prpria, queriam fazer contas e avaliar 
o progresso do negcio.
  O volume de freguesas tinha aumentado e no estavam dando conta de todo o trabalho. Pensavam em contratar uma pessoa para ajud-las. Jacira queria verificar o 
montante de despesas que lhes traria, se tinham condies.
  Antes de sair de casa, surpreendeu-se vendo Geni aparecer na cozinha to cedo, ela adorava dormir at mais tarde.
  - O que foi, me, por que se levantou to cedo? 
  - Voc vai trabalhar hoje? 
  - Vou.
  - Ento no vamos sair para fazer compras?
  - Vamos sim. No fim da tarde estarei de volta e iremos ao supermercado. No quer ir comigo? 
  Geni hesitou um pouco, depois respondeu:
  - Acho que vai dar. Hoje acordei um pouco melhor. Jacira disfarou o sorriso e perguntou: 
  - Papai est dormindo?
  - Est. Ontem ele chegou em casa depois das onze. Hoje s vai para o bar depois do almoo, mas vai ficar l at a madrugada. Isso no  vida! Ele  aposentado, 
no deveria ter de continuar trabalhando. Depois, um bar no  ambiente para ele. Enquanto isso, eu fico em casa sozinha. Voc vem cada dia mais tarde. O que farei 
se me sentir mal?
  - Ele no se queixa. Ao contrrio. Est gostando muito de trabalhar para o Euzbio.
  - s vezes ele chega em casa com as pernas doendo e vai fazer um escalda-ps. Est velho e no consegue mais ficar correndo de um lado a outro servindo mesas.
  - O trabalho faz bem  sade. Ele sente-se til. Fica feliz em trazer dinheiro para casa. Em vez de reclamar, voc deveria apoiar e agradecer o esforo dele.
  - No gosto de ficar sozinha o tempo todo. Nos fins de semana ainda  pior. No sbado ele trabalha mais. No tem descanso!
  - Mas eu percebo que ele gosta muito de ir para o trabalho. Est mais alegre, disposto. No parece to cansado como voc diz.
  - Ele no reclama, mas eu sei que est cansado. Voc diz que est ganhando melhor, nesse caso deveria dizer a ele que no precisa mais trabalhar. Ele est se sacrificando 
por ns.
  - Eu no penso assim. Ele est mais alegre, disposto, ontem estava at cantando no banheiro. Agora preciso ir.
  - Vou ficar a esperando para irmos as compras. 
  - Pode esperar.
  Durante o trajeto para a casa de Margarida, Jacira foi pensando na conversa com a me. No era verdade o que ela dissera. Por que Geni sempre torcia as coisas? 
Seu pai estava adorando trabalhar no bar do amigo.
  Aprendera rpido a servir as mesas era respeitoso, gentil com os fregueses, e, alm de ganhar boas gorjetas, fizera novos amigos.
  Ele antes era muito srio, mas depois que comeara a trabalhar naquele bar, mudara muito. Jacira se divertia vendo-o imitar alguns fregueses, brincando com os 
fatos que presenciava durante o trabalho.
  A vida deles comeara a melhorar. S Geni ainda continuava insatisfeita e infeliz. Precisava fazer alguma coisa para que ela olhasse a vida de forma mais otimista.
  Quando chegou na casa de Margarida encontrou-a mais alegre. Recebeu-a com olhos brilhantes, o que fez Jacira indagar:
  - Voc est diferente, aconteceu alguma coisa?
  Margarida abraou-a e respondeu:
  - Aconteceu. Dona Ester ligou dizendo que estaria aqui dentro de meia hora. Deseja nos fazer uma proposta muito boa.
  - Ela  nossa melhor freguesa. O que ser que ela quer?
  - No sei. Mas falava com entusiasmo. Pedi para adiantar o assunto, mas ela disse que s falaria pessoalmente.
  - Vai ver que tem alguma encomenda grande. Vamos ter de procurar uma ajudante o mais depressa possvel.
  - Outro dia na feira, conversei com algumas amigas e j tenho duas mocinhas interessadas em trabalhar aqui. As duas moram perto, o que vai facilitar tudo.
  - Vamos fazer as contas para ver quanto poderemos pagar.
  - Vamos contrat-las como aprendizes.
  - No vai dar mais trabalho?
  -  melhor. Dessa forma posso prepar-las para fazer tudo do nosso jeito. Gosto de ensinar e no me custa nada.
  As duas sentaram-se, Jacira apanhou o caderno em que registrava tudo e comeou a fazer as contas. No fim, sorriu satisfeita. Tinham ganhado mais do que no ms 
anterior.
  - Vou separar um dinheiro para as despesas do prximo ms, deixar alguma reserva. O restante vamos dividir entre ns duas.
  - Tenho vontade de comprar uma geladeira. A que eu tenho ganhei de d. Itlia quando ela comprou outra. Mas est muito velha e a porta no fecha direito. E voc?
  - Vou comprar roupas para mame. Quero ver se ela se anima. Est sempre reclamando de tudo. Tambm, fica em casa o dia inteiro sem fazer nada. Em casa faz o menos 
possvel.
  - Isso no  bom. O trabalho faz bem  mente.
  A campainha tocou e Margarida apressou-se em ir atender. Pouco depois, voltou acompanhada de uma mulher de uns quarenta anos, alta, loura, elegante.
  Depois dos cumprimentos, Margarida serviu um caf e sentaram-se para conversar.
  - Voc est muito bem, parece que remoou! - comentou Margarida sorrindo.
  - De fato. Voc me conhece h muito tempo.
  - Desde quando eu tinha o antigo ateli.
  - Sabe tudo da minha vida. Quando meu marido foi embora com outra, foi com voc que eu me desabafei. Eu a considero minha melhor amiga. Quando eu estava casada, 
vivia rodeada por amigas que desapareceram assim que descobriram que eu tinha perdido aquele marido rico e me mudara daquela manso para um pequeno apartamento.
  - Voc no perdeu nada. Elas eram interesseiras.
  - Eu sei. Mas voc fez o que pde para me ajudar. Animou-me a procurar trabalho e seu apoio foi muito importante. Agora minha vida vai mudar e eu desejo que voc 
seja a primeira a saber.
  - Esse brilho de felicidade em seus olhos revela que essa mudana ser para melhor.
  - Eu estou muito feliz. O diretor da empresa onde trabalho se declarou. Quer casar comigo. Estamos tratando dos papis do divrcio. Sabe que o
  Joo ficou furioso com isso? Procurou-me e disse que queria reatar. E eu tive o prazer de dizer no. Se ele est infeliz com a outra,  problema dele. Eu estou 
apaixonada pelo Renato. Um homem bonito, elegante, gentil, que sabe valorizar uma mulher.
  -  o dr. Renato Dermazolli?
  - Esse mesmo.
  - Ele  um homem bonito e rico. O que acontecer se o Joo se recusar a assinar o divrcio?
  - Renato disse que vai procur-lo e convenc-lo a evitar um processo litigioso. Pelo que eu sei, a empresa dele no tem interesse em enfrentar um processo onde 
ele seria investigado.
  Margarida levantou-se dizendo:
  - Uma notcia dessas merece uma comemorao. Vou abrir um vinho para brindarmos.
  - Antes vou dizer-lhes o que estou querendo. Vocs duas so pessoas muito corretas, esforadas, trabalhadoras, as quais admiro muito. Vocs merecem ter sucesso. 
Eu havia prometido a mim mesma que se algum dia tivesse condies iria ajud-las. Renato quer que eu me mude para a casa dele mesmo antes de o divrcio sair. No 
quer esperar. Eu aceitei. Ele mora em uma casa linda nos jardins e quer que eu o ajude a mudar a decorao. Ontem fui at l com ele. Pensei em vocs. A rua onde 
vou morar seria ideal para vocs montarem um ateli.
  - Bem que eu gostaria, mas no sei se estaramos em condies de dar um passo desses. No temos capital e o aluguel l deve ser muito alto! - tornou Margarida.
  - Seria maravilhoso - aduziu Jacira. - Mas ns ainda no temos meios para tanto.
  Ester sorriu e seus olhos brilharam alegres quando respondeu:
  - Renato possui uma casa muito boa ao lado da que ele mora. Est vazia no momento. Ele no estava querendo alug-la de novo porque os ltimos inquilinos, alm 
de no pagarem o aluguel direito, depredaram tudo. Ento, falei em vocs. E ele disse que vocs podem se mudar para l. D para morar e montar o ateli. Estou certa 
de que com a capacidade que tm, podero ganhar muito dinheiro.
  Margarida olhou para Jacira que estava to assustada quanto ela.
  -  um passo muito grande para ns! - comentou Margarida.
  - Ele disse quanto vai querer de aluguel? - indagou Jacira emocionada.
  - No vai lhes cobrar nada.
  - No  justo - tornou Margarida. - No  direito.
  - Por enquanto ele no vai lhes cobrar nada. Vocs podem cuidar da casa, pagar o imposto predial e s. Penso que podero arcar com essas despesas. No comeo, se 
precisarem, eu posso ajud-las. Acreditem,  um excelente negcio para Renato. Ele no vai ter despesas com a casa, vocs vo cuidar bem dela, que eu sei, e quando 
ganharem muito dinheiro podero propor um aluguel a ele. E ento? Aceitem. Quero t-las como vizinhas.
  As duas entreolharam-se indecisas. Era uma mudana grande.
  - Jacira, lembra-se do que Ldia nos disse?
  - Sim. Ela nos disse que nossa vida iria mudar. 
  - E que teramos sucesso em nossos negcios. 
  - Foi mesmo.
  - De quem esto falando?
  Jacira falou-lhe sobre Ldia e da visita na casa dela.
  - Nesse caso no h por que duvidar. A vida est lhes dando essa oportunidade e no podem perder. 
  As duas entreolharam-se, olhos brilhantes de emoo, e Jacira respondeu animada:
  - Estou tentada e pensar... Vamos fazer as contas para saber se teremos como fazer frente s despesas.
  - A casa  grande e vocs podero morar l tambm. Economizaro o aluguel.
  - Margarida poder, mas eu no.
  - O ideal seria que voc tambm fosse. L h espao para voc tambm.
  - Meus pais no concordariam.
  - Voc no tem mais irmos?
  - Tenho dois, que h anos foram embora e sumiram no mundo. Meus pais esto sozinhos e eu os ajudo como posso.
  - O pai dela  aposentado, ganha pouco e Jacira  quem paga a maioria das despesas. Bem que eu gostaria que ela fosse morar comigo!.
  - Para mim seria um prmio! Ficar longe das reclamaes de mame, no precisar mais ficar pendurada em um nibus lotado e, alm do mais, estar em companhia de 
Margarida, do Marinho.
  - Foi pensando nisso que eu sugeri que morassem juntas. Pense em voc, Jacira, no seu bem estar. Seu trabalho renderia muito mais e voc estaria mais bem-disposta.
  - De fato, eu adoraria. Mas no sei... mame ficar sozinha!
  - Ela tem seu pai, depois voc poder ir v-la sempre que quiser e ajud-la como sempre fez.
  - Meu pai comeou a trabalhar no bar de um amigo dele. Ela reclama que fica muito s.
  - De qualquer forma, voc tambm trabalha e no pode fazer-lhe companhia. Mas estou certa de que sua situao financeira vai melhorar e ento poder contratar 
uma pessoa para ajud-la nos trabalhos domsticos e fazer-lhe companhia - sugeriu Ester.
  - Que ideia boa! - exclamou Margarida.
  Jacira estava hesitante, mas seus olhos brilhavam emocionados. No sabia o que dizer.
  - Vamos combinar o seguinte: durante esta semana estarei muito ocupada com a mudana, a decorao da casa de Renato e tudo o mais. Mas daqui a quinze dias, virei 
busc-las para que conheam Renato e a casa. Enquanto isso, vocs pensem, faam as contas, imaginem o sucesso que faro.
  - Tem certeza de que o dr Renato vai nos ceder a casa e ns s vamos pagar o imposto predial? - indagou Jacira.
  - Sim. Quando voltar aqui lhes direi qual o valor do imposto. Mas j adianto que se vocs no comeo no puderem dispor do dinheiro, eu vou ajud-las.
  - E se ns no tivermos sucesso? - perguntou Margarida.
  - Tenho certeza de que vocs vo pagar esse imposto, todas as despesas e ganhar muito dinheiro. Eu mesma vou mandar-lhes muitas clientes. Tero tanto trabalho 
que logo precisaro contratar funcionrias.
  - Isso j est acontecendo - informou Jacira. - Temos at uma moa em vista.
  - Eu no disse? - exclamou Ester satisfeita. -
   isso mesmo! Agora preciso ir. Ainda tenho muitas coisas para fazer hoje.
  As duas a acompanharam at a porta, despediram-se, e Ester afirmou:
  - Daqui a quinze dias virei busc-las rumo  nova vida!
  Depois que ela se foi, as duas entraram comentando a novidade. Margarida estava entusiasmada com a ideia de levar Jacira para morar com ela na nova casa.
  - No sei se poderei deixar meus pais...
  - Voc no vai abandon-los. Ao contrrio. Poder dar-lhes uma vida melhor.
  - Sabe o que estou pensando? 
  - No.
  - Se eu morasse no local do trabalho, teria um tempo livre para fazer aquele curso de modelagem industrial.
  - Seria o mximo. Voc iria se atualizar e, quem sabe, mais tarde poderamos montar uma confeco.
  - Vamos fazer nossas contas, saber se temos alguma possibilidade de aceitar a oferta de Ester.
  Passava das quatro da tarde quando Jacira voltou para casa e encontrou Geni mal-humorada:
  - Voc disse que viria para irmos ao mercado, fiquei esperando desde o meio-dia.
  - Eu disse no fim da tarde. Podemos ir agora.
  - Voc sabe que eu no gosto de ficar na rua depois do escurecer.  perigoso!
  - Vai dar tempo para tudo. Depois, para acontecer uma coisa ruim no depende da hora.
  Jacira notou que Geni tinha se arrumado, vestira uma saia preta guardada para ocasies especiais, que nunca usava e j estava fora de moda, e uma blusa um tanto 
apertada na altura da barriga.
  Elas saram e Geni perguntou: 
  - Vamos s ao mercado?
  - No. Primeiro vamos a uma loja que eu conheo. Voc est precisando de roupas.
  - Esta blusa est um pouco apertada, mas a saia est boa.
  - Est fora de moda. Vamos comprar alguma coisa mais moderna.
  Geni olhou-a admirada:
  - No  melhor guardar o dinheiro para pagar as contas?
  - No. Vou gastar s o que posso.
  Caminharam um pouco e Jacira notou que Geni tinha dificuldade para andar. Andaram trs quadras e ela reclamou:
  - Vamos devagar. Eu no deveria ter sado de casa. Estou com falta de ar.
  - Era de se esperar. Voc vive sentada, deitada, no anda! Se continuar assim vai acabar ficando invlida!
  - Voc est agourando! No vou ficar invlida, no! 
  - Ento, trate de andar, no reclame. Estamos perto.
  Chegaram  rua comercial do bairro e Jacira parou diante de uma loja de roupas.
  -  aqui. Vamos entrar.
  Elas entraram e Geni procurou logo uma cadeira e se sentou. Jacira conversou com a balconista e ela trouxe alguns vestidos tamanhos especiais. Geni tinha engordado.
  Depois de olhar os preos, Jacira separou dois para Geni provar. Ela nunca se lembrava de ter ido a uma loja com a me para fazer compras.
  Geni observava tudo sem se levantar. Jacira separou duas saias e duas blusas e levou tudo para o provador chamando Geni.
  Ao entrar e ver as roupas que Jacira tinha separado, ela disse baixinho:
  - Tem certeza de que tem dinheiro para tudo isso?
  - Ns no vamos comprar tudo. Voc vai vestir e escolher o que lhe agradar mais.
  Quando Geni tirou a blusa, Jacira notou que suas roupas ntimas estavam em pssimo estado. Ela precisaria de um guarda-roupa completo. Infelizmente, no tinha 
dinheiro para tanto.
  Os olhos de Geni brilharam quando ela vestiu uma saia marrom e uma blusa verde. A saia era elegante e a blusa caiu-lhe muito bem. Depois, experimentou um vestido 
azul, que fez Jacira comentar:
  -Esse ficou lindo?
  Geni passou a mos nos cabelos, revirando-se diante do espelho.
  - Estou velha - comentou. - O tempo passou e eu nem percebi.
  - Est na hora de cuidar mais de voc.
  - Bem que eu gostaria. Mas somos pobres. No temos como.
  - No diga isso. Voc s fala em pobreza. Temos que falar em riqueza.
  - No vou me iludir. Quem nasce pobre, morre pobre.
  - Pois de hoje em diante, voc est proibida de dizer isso.  at um pecado. Voc est viva, lcida, e por mais que se diga doente, tem uma sade de ferro. O que 
voc precisa  olhar as coisas boas que tm na vida e agradecer a Deus. Vamos ver o que vai dar para levar.
  Jacira levou o vestido, a saia e a blusa que tinham separado e foi conversar com a balconista. Ela no queria fazer credirio. Conversou e conseguiu comprar tudo 
com o dinheiro que tinha reservado. 
  Geni estava assustada. H muitos anos ela no entrava em uma loja e comprava coisas para si.
  - Agora vamos ao suo supermercado.
  Uma vez l. Jacira pegou um carrinho e comeou a escolher os alimentos. Geni sentia-se atordoada preocupada, tentando fazer as contas do que estavam gastando. 
Mas se confundia. Ao chegarem  padaria do mercado um cheiro gostoso de po fresco as envolveu.
  Jacira escolheu alguns pes e tambm uma rosca doce, coberta com acar cristal e uva-passa, cujo aroma estava delicioso. Geni no aguentou:
  -  melhor fazer as contas. Voc tem dinheiro para tudo isso?
  H muito tempo Geni no saa para fazer compras. Jacira comprava o essencial e Aristides pagava as contas de luz, gua. Quando faltava alguma coisa ela ia ao mercadinho 
do Rubens, ao lado de sua casa, e comprava na caderneta, sempre com medo de que no fim do ms no tivessem dinheiro para pagar.
  - Tenho, me.
  -  melhor verificar.
  Jacira sorriu e respondeu:
  - Eu j lhe disse que estou ganhando mais e nosso negcio est prosperando. Pode acreditar.
  Pegado ao mercado havia uma drogaria, Jacira entrou, comprou alguns produtos simples de higiene e maquiagem. Ao conferir o dinheiro, comprou tambm uma gua de 
colnia de rosas.
  - Esta  para voc. Veja como  cheirosa!
  Ela estava se divertindo com a cara assustada que Geni fazia, mas ao mesmo tempo percebeu o quanto elas tinham estado  margem, sem poderem cuidar-se.
  Estava anoitecendo quando chegaram em casa, carregadas de pacotes. Ajudando a me a colocar as compras no lugar, ela se sentiu satisfeita e intimamente prometeu 
a si mesma trabalhar muito para terem uma vida melhor.


  XI
  Conforme combinado, Ester voltou a procur-las. Estava muito elegante, olhos brilhantes irradiando alegria. Depois dos cumprimentos, Margarida brincou:
  - Voc remoou! O amor est lhe fazendo bem!
  - Voc nem imagina quanto! J me mudei para a casa de Renato. Estamos muito felizes!
  - D para notar! Parabns! - tornou Jacira sorrindo.
  - Vim lev-las para conhecerem Renato e a casa de que lhes falei. Estou com o carro na porta e ansiosa para decidirmos tudo.
  As duas entreolharam-se indecisas e Ester no lhes deu tempo para responder:
  - Vamos logo. Renato est nos esperando. No vamos demorar.
  - Est bem. Vamos? - indagou Margarida olhando para a amiga.
  - Vamos.
  As duas se arrumaram rapidamente e acompanharam Ester:
  - Este  Jorge, nosso motorista
  As duas olharam o carro elegante, o motorista bem-arrumado e sentiram-se acanhadas. Ester no lhes deu tempo de dizer nada. F-las entrar no carro e sentou-se 
tambm.
  - Pode ir, Jorge.
  Jacira sentia-se emocionada. O carro macio e o perfume gostoso que vinha de Ester f-la lembrar-se das palavras da me:
  "- Quem nasce pobre, morre pobre. No adianta fazer nada".
  Isso era mentira. O mundo estava cheio de pessoas que pensavam diferente, esforaram-se, acreditavam que mereciam uma vida melhor e conseguiram. L estava ela, 
em um carro de luxo, ao lado de uma grande amiga e de uma mulher que estava interessada em ajud-las. Mesmo que aquele negcio no desse certo, dava para acreditar 
que quando voc faz o seu melhor, tudo pode mudar.
  Lembrou-se das aulas que assistira do dr. Ernesto onde ele ensinara tudo isso e afirmava categrico:
  "- Alm de fazer a sua parte melhorando seus conhecimentos para crescer e progredir, voc precisa cultivar a generosidade, a honestidade. As bnos que a vida 
d a algum devem ser compartilhadas. A ganncia, a mesquinhez, o egosmo limitam a conquista da felicidade vai acompanh-los".
  Ester conversava animadamente com Margarida, Jacira seguia em silncio pensando que se a vida lhe desse a oportunidade de melhorar, saberia aproveitar, ajudar 
sua famlia e quem mais aparecesse em seu caminho.
  Ela sempre vira a me como uma mulher preguiosa, implicante, mal-humorada, ignorante. Mas aquela tarde que fora s compras com ela, percebeu o quanto ela se colocara 
 margem da vida. Mergulhada na desesperana, cultivando pensamentos depressivos, Geni perdera o gosto pela vida. Suas reclamaes constantes era uma forma ainda 
que inconsciente de pedir socorro, de dizer o quanto estava triste. Pela primeira vez, Jacira entendeu por que ela se apegara tanto s fotonovelas. Foi a forma que 
Geni encontrou de sentir alguma emoo, de viver as histrias dos outros e esquecer a prpria vida.
  O carro parou e Ester disse alegre:
  - A conversa estava to boa que nem vi o tempo passar. Chegamos!
  O carro tinha passado pelo grande porto, circulado pelo belo jardim e todos se encontravam na entrada da casa. O motorista abriu as portas e elas desceram. A 
casa era antiga, mas muito bem cuidada conservando toda sua beleza.
  As duas estavam um tanto acanhadas, e Ester brincou:
  - Vamos entrar! Fale alguma coisa, Jacira! Ns falamos tanto e voc veio to calada!
  - Estava admirando a beleza do lugar!
  -  uma casa maravilhosa! - comentou Margarida.
  - Eu tambm acho. Mas quem mora dentro dela, vale mais do que tudo isso. Eu casaria com ele mesmo que no tivesse nada. Ele  meu tesouro!
  - Ela est apaixonada! - tornou Margarida sorrindo.
  - Estou mesmo. Venham, vamos entrar.
  Subiram os degraus da varanda e entraram. Ester levou-as at a sala e antes que se acomodassem, um homem de estatura mediana, rosto claro, cabelos castanhos, muito 
elegante, aproximou-se, abraou Ester beijando-a na face. Depois, fixou seus olhos penetrantes e vivos nas duas visitantes.
  - Ento estas so suas melhores amigas! - exclamou ele. Sua voz era agradvel, mas firme.
  Depois das apresentaes, elas se sentaram e ele disse srio:
  - Ester disse que vocs so empreendedoras. Tm um negcio prprio.
  -  verdade - respondeu Margarida. - Por enquanto ainda  pequeno. Mas pensamos que temos tudo para crescer e prosperar.
  -  um ateli de costura. Margarida  muito boa profissional, eu estou aprendendo, mas estamos nos esforando para melhorar.
  - H quanto tempo esto trabalhando?
  - H cerca de seis meses. Tempos atrs eu montei um ateli, mas apesar de ter muitas clientes, fracassei. 
  - A que voc atribui o fracasso?
  - Bem, eu no valorizava o trabalho. Tinha vergonha de cobrar. No queria parecer gananciosa.
  - Pensando desse jeito jamais iria prosperar. O trabalho bem feito merece o preo justo. Nem mais nem menos.
  -  o que eu penso - interveio Jacira.
  Renato falava olhando dentro dos olhos delas e as duas sentiam-se fascinadas porque ele conversava com naturalidade, fazendo-as sentir-se  vontade, apesar de 
elas no estarem habituadas quele ambiente. Parecia-lhes conhec-lo h muito tempo.
  As duas contaram como se conheceram e Jacira relatou suas experincias com as aulas do dr. Ernesto.
  - Eu o conheo muito e admiro. Alm de um profissional gabaritado,  um homem excepcional. Vocs ainda esto indo s suas aulas?
  - Margarida nunca foi e eu por enquanto parei por conta do trabalho. Mas adoro ir l e algum dia ainda voltarei para aprender mais. Foi depois de conhec-lo que 
comecei a olhar a vida de maneira diferente.
  Renato ficou pensativo por alguns instantes e Jacira notou nos olhos dele um brilho de tristeza. Foi apenas um segundo, porm ela sentiu que ele devia ter vivido 
alguma experincia muito dolorosa em alguma poca de sua vida.
  Os olhos dele voltaram a brilhar com alegria e Jacira ficou em dvida se o que ela 
tinha sentido era verdadeiro.
  Continuaram conversando at que Renato tocou no assunto que as interessava. Falou da casa vazia, das dificuldades que tivera com inquilinos, e que fora conselhado 
pelos advogados a vend-la e aplicar o dinheiro em um negcio mais rentvel. Ele explicou:
  - Eu no quis. E uma casa que pessoas muito queridas da minha famlia construram, moraram e foram muito felizes. Na verdade, sou um sentimental. Ester sugeriu 
que a emprestasse a vocs e eu achei a ideia muito boa.
  As duas iam responder, mas ele pediu:
  - No digam nada agora. Vamos at l e depois conversaremos.
  A casa era antiga, mas estava bem conservada.
  - Eu mandei restaurar h pouco tempo e deixei-a igual a quando foi construda. Depois de verem tudo, Ester perguntou:
  - E ento? No  linda?
  ... - respondeu Margarida. - Mas  muito grande... Nosso negcio  pequeno... No vai dar...
  - Bem que eu gostaria - aduziu Jacira -, mas no temos capital para comear. Este  um bairro de luxo. Ns estamos instaladas em uma casa simples, em um bairro 
pobre.
  - Mas apesar disso, vocs conseguiram ter uma clientela de nvel elevado. J encontrei l mulheres de muita classe - opinou Ester.
  - Para nos instalarmos aqui, teramos de fazer um ateli melhor, de acordo com o lugar. Precisaramos de dinheiro. Depois que deixamos a oficina para trabalharmos 
por conta prpria, nossa situao financeira melhorou, mas ainda no deu para formarmos um capital.
  - Voc fez algum curso de administrao empresarial? - indagou Renato.
  - No. Eu fiz o ensino fundamental I. No foi possvel cursar uma faculdade.
  - Sua forma de pensar prova que voc sabe o que  preciso para iniciar um negcio. Quer dizer que se vocs tivessem capital para instalar-se aqui, aceitariam nossa 
proposta?
  Os olhos de Jacira brilharam quando ela respondeu:
  - Seria maravilhoso! Mas no momento no temos como dar esse passo.
  - No tenha pressa. Vocs tm todo tempo para estudar o assunto, pensar. No vou mesmo alugar a casa para ningum. - Ele fez ligeira pausa, depois perguntou: - 
Vamos imaginar que vocs tivessem esse dinheiro. Como montariam um ateli aqui?
  As duas se entusiasmaram e comearam a planejar onde montariam cada seo. Os dois observavam admirados. Apesar das duas serem pessoas simples revelaram bom gosto 
e certo conhecimento.
  Margarida tivera clientes abastadas e fora atend-las em casa e com isso adquirira certo refinamento. J Jacira, o nico lugar de classe que tinha conhecido, fora 
o espao de Ernesto e l percebera a beleza de um lugar harmonioso, cheio de coisas bonitas.
  Ester lembrou que seria bom elas morarem na casa. Porquanto, alm de ser muito prtico e econmico, faria o trabalho render mais.
  - Isso para mim seria maravilhoso - considerou Jacira -, mas no posso deixar meus pais. Eles dependem de mim.
  - Eles so doentes? - indagou Renato.
  - No. Meu pai passou dos sessenta e minha me est quase l.
  - Ele trabalhava em qu?
  - Foi operrio qualificado em uma fbrica durante mais de vinte anos. Despedido quando passou dos cinquenta anos, ele nunca se conformou. Quis trabalhar, mas no 
conseguiu trabalho. Durante anos vivemos s com o dinheiro que eu recebia na oficina e sua aposentadoria. Quando deixei a oficina eles ficaram com medo que eu no 
conseguisse ganhar o suficiente.
  - Voc foi corajosa - comentou Renato.
  - Eu estava cansada da misria em que vivia e resolvi virar a mesa. Margarida me incentivou e props sociedade. S deixamos a oficina quando percebemos que estvamos 
ganhando mais do que o salrio. Foi a melhor coisa que fizemos.
  Jacira sorriu e continuou:
  - Sabem o que aconteceu? Papai encontrou um ex-colega de trabalho, que foi mais previdente do que ele. Quando foi demitido, com a indenizao, montou um bar onde 
ele e a esposa trabalham. Eles precisavam de um garom e o contrataram.
  - Deve ter sido timo para ele! O trabalho faz bem ao esprito. Eu no gostaria de ficar em casa sem fazer nada. Seria horrvel! - declarou Renato.
  - De fato. Ele remoou, s vezes chega cansado, mas muito feliz. Fez novos amigos, est mais falante, conta coisas que acontecem no bar.
  - Sua me deve estar feliz! - tornou Renato.
  - Ela no est. Reclama o tempo todo que est sozinha, abandonada. Eu saio muito cedo e chego bem tarde. Ela no se conforma de ter de cuidar da casa sozinha. 
Estou pensando em pagar algum para ajud-la no trabalho domstico. Mas por enquanto ainda no posso.
  Eles conversaram durante mais algum tempo, j havia escurecido e Jacira levantou-se dizendo:
  - J  noite! Acho que estamos abusando de sua pacincia. O senhor  um homem ocupado.
  - Eu reservei todo tempo de hoje ao nosso encontro. Vamos voltar para casa e vocs jantam conosco.
  Elas protestaram, mas Ester insistiu e, apesar de acanhadas, elas ficaram. No momento de se despedir, Renato disse.
  - Eu gostaria de conhecer o ateli de vocs. Ester adora ir l.
  - Teremos muito gosto em receb-lo doutor.
  Elas se despediram e Renato mandou o motorista lev-las em casa. Primeiro ele deixou Margarida, depois foi levar Jacira. Ela disse que no precisava, mas ele insistiu. 
Era uma ordem do patro e ele tinha de obedecer.
  Passava das nove quando Jacira desceu do carro diante de sua casa. Ela observou que uma vizinha saiu na porta para olhar. Mas no se incomodou, disse um boa-noite 
e entrou.
  Geni a tinha visto chegar e esperava nervosa:
  - O que voc anda fazendo at uma hora dessas? De quem  esse carro que a trouxe?
  -  de uma das nossas clientes. Ela mandou o motorista me trazer.
  - Que luxo! A troco de qu?
  - De gentileza, me. As pessoas de classe so gentis e amveis.
  - O que os outros vo pensar vendo voc chegar uma hora dessas em um carro de luxo?
  - No tenho tempo para me incomodar com a maldade dos outros. Seria muito bom se voc tambm no se preocupasse.
  Jacira estava emocionada pelo encontro, pela possibilidade de aumentar seu negcio e ansiosa para contar tudo aos pais. Mas olhando o ar crtico de Geni achou 
melhor ficar calada. Ela certamente faria objees, encontraria dificuldades.
  - Deixei comida no forno, mas lave sua loua. Trabalhei o dia inteiro, estou exausta e hoje no quero lavar mais nada.
  - No se preocupe. Eu j jantei.
  Ela subiu para o quarto e Geni foi atrs:
  - Esse carro no parece ser de uma cliente. No creio que vocs tenham clientes desse nvel. Por que no fala a verdade? Arranjou outro namorado?
  Jacira parou na porta do quarto, olhou-a sria e respondeu
  - Acredite no que quiser. No direi mais nada. Eu tambm estou cansada. Boa noite.
  Entrou rapidamente no quarto e fechou a porta, no dando tempo para que sua me dissesse algo. Respirou fundo tentando conter a irritao. Precisava conservar 
a calma para analisar a proposta de Renato.
  Tomou um banho procurando refazer as energias, depois se estendeu na cama, pensando no que fazer. Reconhecia que era uma oportunidade excelente. Mas antes de dar 
esse passo, precisaria melhorar seus conhecimentos na rea administrativa.
  Desde que deixara a oficina e se juntara a Margarida, ela sentia a necessidade de aprender mais sobre como cuidar melhor da parte financeira.
  Margarida no gostava dessa parte, no tinha facilidade de fazer contas e deixava tudo sob a responsabilidade de Jacira. Ela agia com cuidado, procurando fazer 
o melhor, mas quando tinha alguma dvida, no sabia como se informar.
  Pensando na proposta que receberam, ela achava que ainda no estavam preparadas para crescer tanto. Depois de muito pensar, decidiu no aceitar a proposta de Renato, 
mas procurar algum curso onde pudesse melhorar seus conhecimentos e sentir-se mais segura para dar esse passo.
  Por sua mente passavam muitas ideias, planos e indagaes. Custou a adormecer.
  No dia seguinte, quando chegou  casa de Margarida encontrou-a tambm preocupada com a proposta que tinham recebido.
  - Quase no dormi esta noite - disse Margarida -, aquela casa deu voltas em minha cabea. Fiquei imaginando como faria o ateli, a sala onde as freguesas seriam 
recebidas, o lugar das provas, a oficina de costura! Desde ontem no consigo pensar em outra coisa.
  - Eu tambm.
  - Tive algumas ideias muito boas. Voc reparou que no andar superior h trs sutes e que se ns duas mudssemos para l, eu ficaria em uma, voc em outra e Marinho 
na menor. H ainda duas salas, voc ficaria com uma, eu com outra. Iramos morar com muito conforto e ainda teramos espao no trreo para um ateli completo e muito 
chique.
  - Sonhar  bom, mas ainda  cedo para darmos esse passo. No temos estrutura nem dinheiro. Depois, eu no posso deixar minha famlia.
  Margarida suspirou, pensou um pouco, depois disse:

  Pg. 202
 - Eu pensei tudo isso, mas sei que no temos como "aceitar" essa oferta. Ester disse que temos tempo para pensar no assunto. Mas voc est certa. No quero meter 
os ps pelas mos e de novo ficar cheia de dvidas.
  - Ainda bem que voc entende. Mas isso no quer dizer que estamos desistindo. Estou pensando em arranjar tempo para fazer um curso prtico de administrao, enquanto 
isso vamos economizar o quanto pudermos. Quando estivermos em condies, se essa casa ainda estiver disponvel, poderemos seguir adiante.
  - Isso vai demorar e o dr Renato no vai deixar a casa vazia para sempre.
  - Se ela no estiver vaga, encontraremos outra. O importante  nos prepararmos bem para fazer nosso negcio crescer de maneira segura.
  - Isso mesmo. Vamos trabalhar. Temos muito servio para entregar.
  Apesar de terem decidido no aceitar, elas continuaram imaginando como seria se montassem o ateli. Margarida insistia com Jacira:
  - No tem cabimento voc ter de ir todos os dias de sua casa at o ateli. Alm de ser longe, voc perderia muito tempo. Ester tem razo. Voc teria de ir morar 
junto.
  - Voc sabe que isso no seria possvel. No posso deixar meus pais.
  - Por qu? Eles se habituariam. Depois, no estou dizendo para voc abandon-los. At l, estaramos ganhando muito dinheiro. Voc daria mais assistncia, arranjaria 
uma pessoa para fazer os servios da casa.
  - , no custa sonhar. Seria maravilhoso. Alm de o servio render, eu no teria mais de ficar na fila do nibus nem viajar em p, espremida.
  - Nossa vida seria muito boa. Poderamos sair, ir ao cinema, j pensou?
  -  tentador. Ainda ficaria livre das queixas de mame. Ela adora jogar a gente para baixo.

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 Margarida ficou calada durante alguns segundos, depois disse:
  - Ela v a vida de uma maneira trgica, sente-se infeliz.
  -  verdade. Concordo que a nossa vida tem sido difcil. Mas, por outro lado, ela no reage, no faz nada para melhorar. Tenta se conformar com as dificuldades, 
mas por dentro fica revoltada. O problema  que ela ainda no percebeu que a queixa, alm de no ajudar em nada, ainda a deixa pior. O ambiente em nossa casa  triste, 
sombrio.
  - Seu pai tambm  assim?
  - No. Antes meu pai era alegre, conversador. Eu me recordo que quando eu era criana, algumas vezes ele levava amigos em casa, mas mame no gostava. Ficava de 
cara fechada e quando eles iam embora ela reclamava de tudo. Do trabalho por ter de fazer um caf, da despesa porque ele gostava de servir alguma coisa mais. Ele 
acabou desistindo. Quando se aposentou, ela ficou mais queixosa e ele tornou-se mais desgostoso.
  - Sua me  daquelas pessoas que s vai valorizar a famlia que tem, quando for tarde demais. Infelizmente  assim.
  - Faz tempo que voc no visita sua famlia?
  - Faz. Desde que eles descobriram que eu estava esperando um filho de um homem casado. Disseram que eu s continuaria morando com eles se abortasse. Ento arrumei 
as minhas coisas, deixei minha cidade e vim para So Paulo. Nunca mais estive com eles.
  - Eles no conhecem Marinho?
  - No. Mas, depois que vim para c, encontrei duas pessoas da minha cidade, que frequentavam a casa deles. Isso faz trs anos. Elas estavam aqui de passagem. Estou 
certa de que ao chegarem l, foram lhes contar tudo.
  - Mas eles nunca a procuraram?
  - Nunca. Meus pais so muito rgidos. Eu tenho uma irm trs anos mais nova e eles disseram que com meu comportamento depravado no poderia mais conviver com ela.
  - Deve ter sido duro para voc.
  - Foi. Mas j passou. Eu enfrentei as dificuldades, e o amor de meu filho me tornou forte. No me arrependo de nada. No tenho medo da vida. Aprendi uma profisso, 
trabalho, sustento meu filho honestamente. Sei que errei, mas assumi as consequncias, enfrentei os desafios e me tornei uma pessoa forte, determinada.
   - Apesar do que voc passou,  uma pessoa alegre, amvel, no se revoltou.
  - No mesmo. Eu gosto de viver e de ser dona do meu nariz.
  - Talvez algum dia voc encontre algum que a ame como merece.
  - No sei se eu quero. Estou to bem assim!
  - Sei o que voc est dizendo. Eu queria muito ter um namorado. Tive. Mas fiquei aliviada quando terminamos.
  A conversa foi longe enquanto elas trabalhavam trocando confidncias. Jacira no se abria com a me e Margarida estava separada de sua famlia. Elas se apoiavam 
mutuamente enquanto se esforavam para construir uma vida melhor.
  O dia estava clareando quando Jacira se levantou e arrumou-se para ir trabalhar. Foi at a cozinha, estava coando o caf quando Geni apareceu:
    - Voc se levantou cedo!
  - Estamos com muito servio.
  - Por qu? Vocs contrataram as auxiliares, elas no ajudam? Vai ver esto gastando dinheiro  toa. Elas no esto servindo para nada. A cada dia voc trabalha 
mais!
  - Elas esto fazendo o que podem.  que nossa clientela est aumentando a cada dia. Ns temos um casamento neste fim de semana, precisamos entregar tudo at depois 
de amanh.
  - Quando voc estava na oficina no precisava trabalhar tanto.
  - Mas tambm no ganhava o que estou ganhando agora.
  Geni alisou o penhoar cor-de-rosa que vestia e concordou

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  -  verdade. Mas agora voc gasta muito mais. No guarda nada.
  - Ainda no d. Ns estvamos precisando de tudo. Pelo menos agora podemos nos olhar no espelho com prazer.
  - Eu ainda acho que voc deveria usar vestidos mais compridos e no to agarrados no corpo. Jacira deu de ombros:
  -  assim que eu gosto e vou continuar usando. Vai me dizer que no gostou daquele conjunto que lhe dei na semana passada?
  - Gostei, mas ele no  to curto. Depois, eu nunca saio de casa, no tenho como usar.
  - Por que no convida papai para sair, ir ao cinema?
  - Ele no se importa comigo. No sai daquele bar.
  - Ele tem uma noite de folga. Decerto pensa que voc prefere ficar em casa. Vive dizendo que est cansada, no gosta de nada...
  - Mas eu sou gente. Gostaria muito de sair, passear.
  - Nesse caso, trate de mudar. Ningum convida uma pessoa que est cansada para sair.
  Jacira, que tinha terminado o caf, levantou-se:
  - Preciso ir. Estou com pressa. Se ns no terminarmos todo trabalho hoje e ficar muito tarde, vou dormir na casa de Margarida. Assim ganharei tempo.
  - De novo? Parece at que voc no gosta de vir para casa. Enche a boca para dizer que vai dormir l.
  - Voc sabe que no  isso. Ela tem vindo aqui, voc disse que gosta dela, mas est sempre reclamando. Eu no vou passear. Estou trabalhando! Voltarei se terminar 
cedo. No me espere.
  Jacira apanhou a bolsa e saiu. Fazia seis meses que elas tinham recusado a proposta de Ester para montar o ateli na casa de Renato. Mas Ester continuava insistindo, 
dizendo que a casa continuava vazia, o que era uma pena.
  Durante esse perodo, elas tinham progredido. O nmero de clientes aumentara e as duas mocinhas que contrataram faziam todo trabalho de acabamento nas roupas.
  As duas estreitaram a amizade com Ldia e a filha. Ela lhes indicara um professor seu amigo para dar aulas a Jacira. Fazia quatro meses que Dorival ia todos os 
sbados  casa de Margarida, ensinar Jacira, orient-la nos negcios, tirar suas dvidas.
  Dorival era formado em administrao de empresas, ministrava aulas em uma faculdade. Tinha quarenta e seis anos, vivo, uma filha de doze anos, Marta. Sua esposa, 
quando adoeceu, procurou Ldia para pedir-lhe ajuda espiritual. Ela os apoiou, auxiliando-os a atravessar essa fase difcil. Depois que ela morreu, Marta apegou-se 
a Estela e tornaram-se inseparveis.
  Quando Jacira lhe disse que queria ter aulas de finanas, Ldia lembrou-se de Dorival e apresentou-o a Jacira. Conversaram. Ele prontificou-se a ajud-la. Ficou 
contente por poder atender a um pedido de Ldia e fazer alguma coisa em favor de Jacira e Margarida. No quis lhes cobrar nada pelas aulas.
  Todos os sbados, Dorival conferia todas as contas, ensinava-as a organizar os pagamentos etc. Tirava todas as dvidas, enquanto Marta se divertia contando histrias 
a Marinho.
  Dorival e a filha adoravam esses encontros. Margarida sempre fazia algum bolo ou salgadinho para servir com caf.
  Quando Jacira chegou na casa de Margarida, ela j estava trabalhando.
  - Voc comeou cedo! Ainda no so oito horas! - Eu estava preocupada com um detalhe do vestido da noiva. Achei que ia faltar renda. Mas deu tudo certo! 
  - Ainda bem.
  Arlete e Joana chegaram e logo se entregaram ao trabalho. As horas passaram rapidamente. No fim da tarde, elas tinham adiantado bastante o servio e estavam tomando 
caf quando a campainha tocou.
  Arlete foi abrir e voltou em seguida acompanhada de Ester e Renato. Depois dos cumprimentos, Renato tornou
  - Viemos aqui conversar com vocs, em particular.
  - Nesse caso, vamos at a sala.
  Uma vez acomodados, Ester foi a primeira a falar:
  - Renato tem uma proposta a lhes fazer.
  As duas olharam para ele esperando, em silncio.
  - Na verdade, sou um grande admirador de vocs duas. Meses atrs, quando Ester me falou de vocs, concordei em oferecer-lhes aquela casa, s para ter algum que 
cuidasse bem dela. Como sabem, tenho amor  propriedade, onde esto todas as boas lembranas de minha famlia. Mas o tempo foi passando, e eu comecei a conhec-las 
melhor. Apesar da pouca experincia, agiram com bom senso, de maneira correta, procurando se aprimorar, tiveram a humildade de estudar, dedicar-se e esto obtendo 
sucesso.
  Ele fez ligeira pausa e, vendo que elas o ouviam atentamente, continuou:
  - Vocs no precisam de ajuda. Estou certo de que esse negcio vai crescer muito. Mas observando o entusiasmo de Ester, o bom gosto e o prazer que ela sente em 
estar com vocs, tive uma ideia: vocs aceitariam Ester como scia para montar uma confeco de roupas femininas?
  As duas, coradas de emoo, no conseguiam dizer nada. Por fim, Margarida tornou:
  - Seria maravilhoso! Esse sempre foi o meu sonho!
  - De fato, sonhamos com isso, mas por enquanto  s um sonho! - aduziu Jacira.
- Estou disposto a investir nesse negcio. Acho que vocs esto prontas para esse desafio.
  - No sei, dr. Renato... - considerou Margarida pensativa - Ns progredimos, mas ainda no temos capital. 
  - Vocs tm o mais difcil, que  o senso profissional, a tica no trato do negcio, a vontade de progredir. Quanto ao capital, estou disposto a bancar. Ento, 
o que acham? Aceitam?
  - Precisamos pensar... - tornou Margarida.
  -  um passo muito grande! Ser que daremos conta do recado? - perguntou Jacira.
  - Eu tenho experincia, sei que vocs esto prontas. Claro que com o tempo podero deslanchar mais. Estou certo disso.
  Ester interveio:
  - Eu sempre gostei de trabalhar. Depois que nos casamos, queramos viajar, deixei o emprego. Mas Renato  muito ocupado e eu tenho todo tempo livre. Vou adorar 
me dedicar ao nosso negcio. Isto , se vocs me aceitarem como scia.
  Margarida levantou-se e abraou-a com carinho:
  - Ser uma honra trabalharmos juntas. Sempre admirei seu bom gosto, sua classe!
  Jacira juntou-se a elas:
  - Vai ser um sucesso. Eu estou aprendendo a conhecer o mundo da moda. Voc tem muito a nos ensinar!
  - Isso quer dizer que aceitam! - tornou Renato sorrindo. - Vamos combinar tudo. Temos muito trabalho pela frente. Vocs precisam escolher o nome da empresa e eu 
farei o contrato social. J tenho uma ideia do quanto vou investir de capital.
  - Ns precisamos saber o prazo que teremos para pagar seu investimento, os juros que vai cobrar e a participao dos lucros de cada uma - pediu Jacira.
  - No se preocupe, serei razovel. Estou torcendo para que vocs tenham sucesso. Os lucros sero divididos em trs partes iguais - esclareceu Renato.
  - O senhor est nos dando um presente! - disse Margarida.
  - No penso assim. Sou um homem de negcios. No colocaria meu dinheiro em um negcio no qual no confiasse. Estou certo de que tambm vou ter lucro.
  Elas sentaram-se ao redor da mesa, Margarida apanhou dois blocos e comearam a fazer planos. Passava das nove quando Ester e o marido se despediram, ficando de 
voltarem na noite seguinte para continuarem o assunto.
  Depois que eles se foram, Margarida abraou Jacira dizendo emocionada:
  - Agora no temos como voltar atrs!
  - D um friozinho nas costas s em pensar em tudo!
  - Gostaria de conversar com Ldia, mas hoje no d. Se sairmos o servio ficar parado - lembrou Margarida.
  - No podemos deixar a noiva na mo. Vamos voltar ao trabalho. J avisei mame que vou dormir aqui. Estou disposta a recuperar o atraso.
  - timo. Eu tambm. Vou ver um lanche rpido para ns e voltaremos ao trabalho.
  Apesar de estarem atentas ao trabalho, as duas no conseguiam esquecer a proposta de Renato. De vez em quando uma lembrava algum detalhe e a conversa girava em 
torno dos novos projetos.
  Passava das trs horas da madrugada quando finalmente reconheceram que estavam cansadas e foram dormir.
  Marinho cedia sua cama para Jacira e ficava feliz porque adorava dormir com a me.
  Ela lavou-se rapidamente, e, apesar de cansada, lembrou-se da proposta recebida e agradeceu a Deus, porm pensou no esprito de Marina e pediu sua proteo para 
os novos projetos.
  Adormeceu em seguida. Pouco depois, viu-se em um jardim florido, cujo perfume delicado a fez recordar-se de que j havia estado naquele lugar.
  Olhou em volta e viu Marina se aproximando. No conteve a emoo. Abraou-a dizendo:
  - Que bom v-la! Adoro estar com voc neste lugar maravilhoso. Gostaria de poder ficar aqui para sempre!
  Ainda no  hora de voltar. Venha, temos de conversar.
  Sentaram-se em um banco, Jacira aspirava o ar com prazer, desejando no perder nem um segundo desse encontro, esperou que Marina falasse.
  - Sua vida vai mudar. Novos acontecimentos, novas pessoas vo fazer parte de sua vida. Voc ter toda chance de conseguir realizar o que foi buscar nessa sua encarnao, 
mas tudo vai depender de como voc vai agir nessa nova fase.
  - Estou disposta a fazer tudo o que for possvel para conseguir. Sinto que preciso vencer alguma coisa importante, mas no sei o que .
  - Voc esqueceu o passado. Foi preciso para que pudesse suportar os desafios do caminho. Mas eu pedi aos nossos superiores que me permitissem auxili-la nessa 
trajetria.
  - Que bom! H momentos em que me sinto insegura, no sei o que fazer...
  - No deveria. Apesar dos desafios que tm tido em sua vida, voc j possui conquistas que lhe permitem ser mais consciente sobre as verdades da vida espiritual.
  - Recebemos a proposta do dr Renato para um negcio e no sei se fizemos bem a aceitando.
  -  voc quem deve decidir o rumo que deseja dar a sua vida. A responsabilidade  s sua. Vou auxili-la, mas no vou dizer o que deve fazer.  voc quem escolhe.
  - Eu esperava que me mostrasse o que fazer. Mas ento, como pode me ajudar?
  - Inspirando-lhe pensamentos bons, oferecendo energias de paz, bem-estar, e na medida em que voc for se esforando em ser uma pessoa verdadeira, ficar no bem, 
procurar fazer o seu melhor, eu terei abertura para esclarecer alguma dvida, inspirar algumas ideias construtivas.  s o que eu posso fazer.
  - Entendo. J  muito. s vezes me sinto cansada, principalmente quando minha me faz tudo para me deixar para baixo.
  - Geni  um esprito sofrido que, para esquecer a dor, bloqueou os prprios sentimentos.
  - Talvez ela seja assim por causa dos meus irmos que sumiram no mundo.
  - Antes de nascer, eles prometeram ajud-la, mas quando chegou a hora se acovardaram.
  - Ns nunca mais tivemos notcias deles. Cheguei a pensar que tivessem morrido.
  - Mesmo assim voc pode ajud-los.
  - Como? Eles se foram h tantos anos! Nem sei onde esto.
  - Quando pensar neles, faa uma prece, pea a Deus por eles. Ser de grande ajuda.
  - Essa  a causa do sofrimento de mame?
  - Ela aceitou nascer com vocs, porque todos prometeram ajud-la a refazer seu caminho. A mgoa dela vem de outra vida, mas quando eles se foram ela se desanimou. 
Perdeu a pouca esperana que tinha de conquistar uma vida melhor.
  - Eu no sabia disso. Por esse motivo ela vive reclamando de tudo. S enxerga o lado pior.
  - A depresso  uma doena que a alma carrega e que nem sempre se resolve apenas em uma encarnao. O esprito precisa abrir o entendimento, aprender a olhar a 
vida pelo lado melhor, reagir, recuperar a prpria fora que jogou fora. Isso pode levar tempo.
  - Minha me no vai mudar nesta encarnao.
  - Procure no julgar. Voc no sabe o que vai dentro do corao dela. Quando chegar a hora, a vida tem seus prprios meios de ensin-la. O que no pode  perder 
a esperana e jogar sobre ela sua falta de f.
  - Eu no faria isso!
  -  o que est fazendo quando diz que ela vai demorar para mudar.
  - Eu gostaria muito que ela melhorasse. Tenho tentado despertar seu interesse pela vida. Mas est difcil.
  - Ao contrrio. Voc est no caminho certo. Ela est comeando a ver-se como mulher, embora esteja viciada a olhar sempre o lado negativo. Vamos dar uma volta 
para refazer suas energias. Quando acordar vai sentir-se muito bem. 
  Marina levantou-se, passou o brao pelo de Jacira e ambas foram deslizando pelo jardim florido e perfumado. Jacira respirava sentindo imenso prazer. Quando atingiram 
a cidade o dia estava clareando e os primeiros raios de sol se derramavam sobre a Terra.
  Em poucos minutos entraram no quarto onde o corpo de Jacira estava adormecido e ela sentiu que no queria separar-se de Marina.
  - Tenho que ir. Mas lembre-se de que uma famlia, mesmo separada por desentendimentos, faz parte de um plano divino que lhes oferece a chance de solucionar problemas 
mal resolvidos do passado. Eles so causa de muitas lutas, provocam dor, mas fugir de enfrent-los apenas os transfere para mais adiante, at que seus membros se 
decidam a optar pelo perdo e entendimento. Seus irmos fugiram, mas um dia a vida vai reuni-los novamente para uma nova tentativa. S o perdo consegue trazer a 
libertao. Lembre-se disso. Deus a abenoe.
  Marina segurou a mo de Jacira e acomodou-a no corpo adormecido, enquanto ela se virava para o lado. Marina acariciou sua testa e saiu.
  Jacira remexeu-se na cama, abriu os olhos, em seus ouvidos ainda soavam as ltimas palavras de Marina:
  "- S o perdo consegue trazer a libertao".
  Jacira olhou o relgio, eram seis horas. Levantou-se. Apesar de ter dormido poucas horas, sentia-se descansada e bem-disposta. Sentou-se na cama tentando recordar-se 
de tudo quanto Marina lhe dissera.
  O bloco que usara na reunio estava sobre a mesa de cabeceira. Apanhou o lpis e rapidamente anotou o que se lembrava da conversa que tivera com Marina. Ela sabia 
que se no o fizesse, mais tarde no se lembraria de nada.
  Depois de lavar-se, foi  cozinha. Vendo que Margarida ainda no tinha se levantado, fez o caf, ps a mesa e sentou-se pensando em tudo quanto lhe acontecera.
  Ela nunca sentira saudades dos irmos. Neto era dois anos mais velho do que ela e no parava muito em casa. S falava com ela para pedir alguma coisa, nunca se 
detivera para conversar. Ele tinha vinte e seis anos quando um dia disse que estava cansado da vida de pobre e ia tentar a vida no Rio de Janeiro. Juntou suas coisas 
e foi se embora. Escrevera algumas vezes para a me, dizendo que trabalhava em um hotel. Fazia alguns anos que no dava notcias.
  O outro, Jair, era dois anos mais novo do que ela e muito diferente do irmo. Irritava-se com as ideias do pai que impunha o que queria e se recusava a ouvir o 
que eles pensavam. Criticava Jacira por ela ser sempre burro de carga do resto da famlia, dizia que ela precisava se revoltar, brigar, exigir que os demais a respeitassem.
  Mas era com a me que ele mais implicava. No gostava da comida que ela fazia, dos conselhos que ela dava, das frases que costumava dizer sempre olhando a vida 
pelo lado pior, e dizia
  "- Vocs esto conformados com essa vida miservel. Eu, no. Um dia vou ser rico, muito rico. Vocs vo ver."
  Geni protestava, brigava. Em casa ele era criticado, mas fora tinha muitos amigos, estava sempre rodeado de dois ou trs. A me implicava com todos. Se estavam 
estudando, ela dizia que era perda de tempo porque tinha muitas pessoas estudadas levando vida de pobre. Se jogavam bola na rua, ou se divertiam com alguma brincadeira, 
ela os repreendia dizendo que estavam perdendo tempo com coisas sem importncia.
  O pai tentara empreg-lo na fbrica, mas Jair no quis. Aristides lhe arranjava emprego e o obrigava a ir. Mas tornava-se violento quando ele se recusava. Para 
evitar brigas, ele cedia, mas como no se interessava pelo servio, logo era demitido.
  Isso provocava uma briga maior. Ele tinha de ouvir o pai falar dos anos que ele estava trabalhando na mesma empresa e que ele era vagabundo.
  Os melhores amigos de Jair eram de famlias mais abastadas e Geni ficava irritada dizendo que o filho queria ser mais do que era e que nunca teria nada na vida.
  Jacira no achava que Jair fosse vagabundo. Ele gostava muito de ler, estudava alm do que a escola pedia. Sabia conversar com as pessoas e, apesar de usar roupas 
simples e at sem graa, elas estavam sempre impecveis e ele bem-arrumado.
  Aos dezesseis anos arranjou emprego em um escritrio, conseguindo comprar roupas melhores. Ele, porm, recusava-se a dar seu salrio ao pai, o que provocava vrias 
brigas.
  Jacira sabia que ele estava juntando dinheiro para conseguir continuar estudando. Sonhava ir para a universidade. Mas os pais achavam que ele no seria capaz.
  Quando Neto saiu de casa, Jair estava com vinte e dois anos e pouco depois ele tambm resolveu tentar a vida, escolheu o Rio Grande do Sul. Teve uma oferta de 
um emprego melhor na cidade de Porto Alegre e foi embora.
  Os pais brigaram, dizendo que ele era um ingrato, que no amava a famlia, mas ele argumentou que no ia perder essa chance. Arrumou as coisas e foi embora.
  Nos primeiros anos, mandou algumas notcias. Mas como os pais no responderam suas cartas, no escreveu mais.
  Ao recordar o passado, Jacira comeou a se perguntar por que ela deixara o tempo passar e nunca tentara saber dos irmos. Teve de admitir que antes ela vivia fora 
da realidade, insatisfeita, triste, acreditando nas ideias erradas que seus pais puseram em sua cabea.
  Onde estariam seus irmos? Marina dissera que um dia a vida os colocaria frente a frente para um entendimento. Talvez isso no acontecesse nesta vida, mas se um 
dia eles voltassem a se encontrar, ela agiria diferente. Procuraria conhec-los melhor, tentaria recuperar o tempo perdido.
  Pensando assim, sentiu uma grande sensao de bem-estar.
  Margarida apareceu na cozinha e elas voltaram a conversar sobre trabalho. Depois do caf, apressaram-se para recomear as tarefas do dia.
  Jacira chegou em casa carregando vrias sacolas que colocou sobre o sof da sala. Estava bem-vestida e arrumada, muito diferente do que fora no passado. 
  Geni aproximou-se curiosa e disse admirada:
  - Quanta coisa! Fez compras e no me chamou para ir junto?
  - Eu estava com pressa. O dia da inaugurao est chegando e ainda no est tudo pronto.
  - No vai abrir os pacotes?
  - No. Vamos levar estas coisas para o ateli. Ester vai passar aqui para me buscar.
  A curiosidade de Geni aumentou e ela no se conteve:
  - Ainda no estou acreditando que voc vai ser scia de uma empresa de luxo! Parece um milagre! S acredito vendo!
  Jacira fixou-a sria e respondeu: 
  - Pode acreditar.
  A campainha tocou e Jacira exclamou:
  - Deve ser ela.
  Correu a abrir. Ester entrou espargindo um delicioso perfume pelo ar. Era a primeira vez que ia  casa de Jacira. Geni no sabia se deveria ficar ou esconder-se. 
Lanou o olhar sobre a recm-vinda, entre curiosa e admirada.
  Ester aproximou-se e estendeu a mo dizendo:
  - A senhora deve ser d. Geni.
  - Sou a me de Jacira - respondeu ela apertando a mo estendida.
  - Muito prazer. Eu sempre tive vontade de conhec-la. A senhora deve orgulhar-se da filha que tem. 
  - ... De fato...
  Voltando-se para Jacira, Ester perguntou: 
  - Seu pai no est?
  - No. Deve estar no bar.
  - Gostaria de conhec-lo tambm. Mas no faltar ocasio.
  - A senhora aceita um caf, uma gua? - perguntou Geni, parecendo ter superado o constrangimento. 
  - Uma gua.
  Geni saiu enquanto Ester piscou maliciosa para Jacira dizendo baixinho:
  - Ela est surpresa e ainda no viu nada! Quero estar junto quando ela entrar em nosso ateli!
  Jacira suspirou e respondeu:
  - Eu tambm! Sabe que s vezes at eu duvido que tudo isso esteja acontecendo? 
  Ester abraou-a:
  - Est ficando lindo! Vocs tm alma de artista. 
  - Mas voc  quem d a palavra final. Eu e Margarida estamos aprendendo.
  Geni voltou com um copo de gua em um pratinho e ofereceu-o a Ester, que agradeceu. Depois que ela tomou a gua Jacira disse:
  - Vamos levar tudo para o carro. Margarida est esperando.
  - Conseguiu comprar tudo?
  - Quase tudo. Consegui o principal. Vamos embora.
  Ester despediu-se de Geni que as acompanhou at a porta. Jacira nunca vira a me to amvel e sorridente.
  Elas saram e Geni esperou com impacincia que Aristides chegasse. Precisava contar a algum sobre aquela visita.
  Ela no costumava esperar o marido voltar do bar. Quando ele demorava um pouco mais, encontrava-a dormindo.
  Passava das onze quando finalmente Aristides entrou em casa. Vendo-a na sala, a sua espera, perguntou:
  - Voc ainda acordada? Aconteceu alguma coisa?
  - Aconteceu, sim. Voc vai ficar to surpreso quanto eu. O que Jacira nos disse  verdade. A tal da d. Ester esteve aqui para busc-la. Voc precisava ver o carro 
dela!
  - Ela entrou?
  - Entrou, sim. Mulher linda, de classe, cheirosa! Muito simptica e educada. Cumprimentou-me. Nessa hora fiquei com vergonha da nossa casa. Uma mulher to rica 
e fina, nosso sof est descorado, a casa  velha, eu nem sabia o que dizer!
  - Bobagem. Ela sabe que somos pobres. Pelo menos voc tinha limpado a casa?
  - Ainda bem que sim. Seno, teria morrido de vergonha.
  - Jacira nos contou que eles so muito ricos. Era de se esperar que um dia ela viesse aqui. Afinal, Jacira  scia dela.
  - Voc acredita mesmo nisso?
  - Claro. Eu pedi a Jacira para ver o contrato social da empresa. Est tudo certo. So trs scias, Margarida, Jacira e Ester. O marido dela emprestou o capital 
e vo dividir os lucros em partes iguais. Nossa filha agora  uma empresria e, do jeito que vai, pode mesmo ganhar muito dinheiro.
  - Estou boba! Nunca podia imaginar que ela conseguisse! Parece que tirou a sorte grande!
  - Ela tem se esforado muito. Trabalhado com disposio. Merece cada tosto que est ganhando!
  - ... Eu gostaria de conhecer esse ateli.
  - Ela nos convidou para a inaugurao, mas no sei se devemos ir...
  - Por que no?
  - S vo pessoas finas, de classe,  um lugar de luxo. O que vamos fazer l? No sabemos como nos portar no meio daquelas coisas finas. Vai ter um buf, salgadinhos 
e tal. Coisas delicadas de gente de classe. Ns vamos fazer feio.
  - Mas se ela nos convidou, eu gostaria de ir, nem que fosse para ficar em um canto sem fazer nada. Nunca vi uma festa dessas.
  - Isso no  para ns!  melhor no se iludir. E tem mais...
  Ele fez ligeira pausa, enquanto Geni baixou a cabea triste. Aristides tinha razo. Eles iriam destoar.
  - Pode esperar - continuou ele -, Jacira vai ganhar dinheiro e no vai querer mais morar aqui, nesta casa pobre, neste bairro distante. Ela vai acabar nos deixando, 
mulher...
  Naquela noite, Geni custou a dormir. Ficava imaginando como seria esse lugar, essa festa, de que forma Jacira ficaria no meio dessa gente, como agiria. O que faria 
se Jacira os abandonasse? Esse pensamento a assustava, mas por outro lado sentia que se ela fosse mesmo embora no deixaria que eles passassem necessidade. Ainda 
mais se tivesse dinheiro!
  Naquela noite, Jacira no voltou para casa. Dormiu na casa de Margarida. Na hora do almoo chegou em casa e perguntou:
  - Papai j foi para o bar?
  - Acabou de sair. Por qu?
  - Ontem eu me esqueci de avisar que hoje eu queria sair com vocs dois para comprar roupas.
  Geni remexeu-se inquieta e repetiu:
  - Comprar roupas?
  - Sim. Vocs precisam se arrumar para a inaugurao.
  - Ns no vamos. Seu pai acha que iramos destoar no meio daquela gente fina.
  - Pois eu quero ver os dois l. E o meu dia de vitria! Estou conseguindo subir na vida. Quero festejar com minha famlia.
  Os olhos de Geni encheram-se de lgrimas e ela tentou disfarar. Jacira abraou-a dizendo:
  - Somos pobres, ruas somos gente. No somos mais do que ningum, mas tambm no somos menos. Temos trabalhado honestamente, merecemos melhorar de vida. No temos 
nada para nos envergonhar. Vocs vo comigo, sim. Quero nossa famlia reunida nesse momento to importante de minha vida! V se arrumar e ns vamos sair j para 
comprar tudo que for preciso. Tem mais. J marquei hora no cabeleireiro com meu amigo Belo para cuidar dos seus cabelos e fazer um tratamento de beleza. Quero meus 
pais muito elegantes!
  Geni no suportou a emoo, caiu em pranto, sem poder controlar-se. Jacira deixou que ela extravasasse toda a emoo, depois, vendo-a mais calma e um pouco envergonhada 
pediu:
  - V lavar o rosto e se arrumar. No temos muito tempo. Ainda quero passar no bar, falar com papai.
  Geni apressou-se a ir arrumar-se enquanto Jacira fazia uma lista do que achava que deveria comprar para que eles ficassem apresentveis.
  Elas saram e Geni se esforava para controlar a emoo. Estava atordoada, hesitante. Durante toda sua vida fora ela quem determinara o que a filha deveria fazer. 
Sentia-se segura em suas crenas, no se detinha para pensar em nada diferente do que aprendera com seus pais.
  Jacira se rebelara, agia completamente diferente do que ela achava certo. Tinha certeza de que a filha iria fracassar. Mas para sua surpresa, as coisas estavam 
dando certo. Ela estava derrotando a misria em que tinham vivido, revelando capacidade, provando que sabia o que estava fazendo.
  As coisas nas quais Geni acreditava comearam a ruir. A falsa segurana em que se refugiara desaparecia a cada dia, e ela, no podendo mais se apoiar nelas, sentia-se 
insegura, no confiava mais em suas prprias opinies. Julgava-se ignorante, incapaz.
  Jacira estava certa e ela errada. Um sentimento de culpa comeou a atorment-la. Considerava-se intil, no sabia mais o que era certo ou errado.
  Seus filhos tinham ido embora por causa dela que no soubera educ-los. Sua forma de pensar prejudicara o progresso da famlia. Enquanto Jacira obedecera o que 
ela dizia, no tinha conseguido melhorar de vida.
  Saiu com Jacira para fazer compras, mas estava sem capacidade para escolher. Deixou que a filha decidisse.
  Jacira notou que ela no estava bem, fez o que pde para que ela se entusiasmasse. Mas Geni estava area e ela fez o melhor. O tempo era curto e no lhe permitia 
esperar.
  Comprou o que achou adequado e depois foram at o bar. Jacira convenceu o pai a comparecer  inaugurao. Combinaram que na manh seguinte iriam comprar as roupas 
dele.
  Quando Jacira foi  casa de Margarida, conforme combinara, encontrou Ldia e a filha. Ldia disse logo:
  - Sinto que voc est preocupada. O que aconteceu?
  - Voc notou? Levei minha me para fazer compras, pensei que ela se entusiasmaria com as coisas bonitas que compramos. Mas no, pareceu-me deprimida, atordoada, 
sem capacidade de dar opinio. Eu precisei escolher tudo. Logo ela que sempre foi forte, teve opinio. Ser que est doente?
  Ldia pensou um pouco, depois disse:
  - No. O problema  que as coisas mudaram, e ela ainda no assimilou. 
  - Como assim? Ns estamos mudando para melhor! Achei que ela fosse ficar feliz!
  - Mas ela est pagando um preo alto pelas crenas erradas que cultivou durante tanto tempo. Est se culpando, julgando-se errada, sem capacidade.
  Jacira sentou-se fixando Ldia admirada:
  - Por essa eu no esperava. Ela nem queria ir  inaugurao.
  Ldia sorriu levemente ao responder:
  - O que est acontecendo  natural. Durante a vida inteira ela imps suas ideias  famlia e achava que estava fazendo o melhor. Fez o que pde para manter voc 
sob a orientao dela, na qual acreditava. Ela pensava estar "salvando" a todos, prevenindo o mal e acabou de descobrir que estava fazendo tudo errado. Por esse 
motivo no confia mais em seu arbtrio, est sem rumo, no sabe como agir.
  - Deve ser isso mesmo. Hoje ela me parecia uma barata tonta. Fiquei com medo que ela estivesse perdendo a lucidez. Afinal, j est com quase sessenta anos.
  - O estado de lucidez no depende da idade, mas de como a pessoa lida com os fatos da vida. Quanto mais ela desenvolver o senso de realidade, mais lcida ficar. 
Por outro lado, se der mais importncia s aparncias, reprimindo o que sente, querendo entrar nos papis sociais, perder a lucidez.
  -  um castigo? - indagou Margarida atenta ao assunto.
  - Absolutamente. Deus no castiga ningum. Foi a prpria Geni quem escolheu esse caminho. Se ela acordar para a realidade poder dar um passo  frente. Nunca  
tarde para melhorar.
  - Entendo - comentou Jacira. - No vou deixar que minha me mergulhe na alienao. Farei o que puder para ajud-la.
  - Seria bom aconselhar-se com o dr. Ernesto. Ele  timo nesses assuntos - tornou Ldia. - Eu mesma gostaria muito de fazer mais alguns cursos com ele. De tempos 
em tempos eu volto l para reciclar as ideias.
  - Vou levar mame a essas aulas.
  - Se ela aceitar  meio caminho andado. Ela tem alguma f religiosa? - indagou Ldia.
  - Diz que  catlica, mas nunca vai a igreja.
  - Nesse caso seria bom conversar com ela sobre a vida espiritual. A crena de que somos eternos, que a vida continua depois da morte fsica, fortalece nosso esprito. 
Quando voc tem certeza de que Deus est dentro de voc, inspirando, protegendo, distribuindo benos, os desafios necessrios ao nosso crescimento ficam mais leves. 
Voc j conversou com ela sobre suas experincias com os espritos?
  Jacira meneou a cabea negativamente:
  - No. No sei se ela entenderia.
  - A verdade tem muita fora. Voc sabe disso. Experimente conversar com ela sobre o assunto. Comece aos poucos e conforme ela reagir v falando. Voc pode se surpreender.
  Jacira sorriu e respondeu:
  - Pode ser. Vou experimentar. Assim como me fez tanto bem, poder ajud-la tambm.
  Estela e Marinho avisaram que o carro de Ester tinha chegado para lev-las ao novo ateli. Elas se apressaram, porquanto havia ainda muitas coisas para fazer.
  O tempo passou rpido e no dia da inaugurao, tudo ficou pronto. Na noite da vspera, as trs fizeram um exame geral para que nada faltasse.
  Estava tudo uma beleza. Olhando ao redor, Jacira sentia-se emocionada recordando-se da ajuda que recebera das pessoas. De Ernesto, que despertara nela a vontade 
de lutar para progredir; de Margarida, que com bondade dividira com ela seus conhecimentos e seus sonhos; de Ester, que tornara possvel a realizao dos projetos; 
e finalmente do esprito de Marina, cujo carinho e amor a acordara para a espiritualidade, modificando sua forma de olhar a vida.
  Fitando o rosto emocionado e alegre de Margarida e de Ester, Jacira sugeriu.
  - Antes e irmos embora, vamos fazer uma prece de agradecimento a Deus que nos tem abenoado com sua proteo e auxlio.
  - tima ideia.  hora de agradecer - aduziu Margarida.
  - Concordo. O amor chegou com Renato e este projeto veio completar minha realizao.
  Elas deram as mos fazendo um crculo e Jacira sentiu que uma energia suave e agradvel a envolvia e comeou a falar:
  - A gratido  um sentimento de amor que eleva o esprito e nos une a Deus.  o reconhecimento do imenso amor com que Ele nos cerca e a certeza de que tudo  possvel 
quando sob sua proteo, esforamo-nos para fazer a parte que nos cabe na realizao dos nossos sonhos de progresso. Desejamos seguir em frente, fazendo nosso melhor, 
contribuindo para que as pessoas que procurem nossos servios sejam abraadas com respeito, alegria e carinho.
  "Pedimos a Deus que nos inspire para que possamos aprender mais a cada dia, e de nossa parte vamos nos esforar para fazer desta casa um lugar onde a beleza, o 
trabalho, a dedicao sejam constantes. Desta forma, desejamos corresponder a tudo que recebemos trabalhando com prazer, alegria e honestidade. Aqui  um lugar de 
harmonia e paz. Assim ser. Que Deus nos abenoe."
  Jacira calou-se e elas abriram os olhos sentindo-se leves. O cansao dos ltimos dias tinha desaparecido.
  - Estou flutuando! - comentou Ester.
  - Que coisa boa! Voc fez uma prece linda! Nunca vou esquecer este momento.
  - Falei o que estava sentindo. Mas tambm, senti que Marina estava aqui, inspirando-me.
  - Com essa proteo, estou certa de que amanh tudo vai ser um sucesso! - comentou Ester.
  Margarida no se conteve:
  - S pode! Est tudo to lindo!
  - Vamos embora. Precisamos descansar - lembrou Jacira. - Amanh precisamos estar dispostas.
  - No sei se vou conseguir dormir. A emoo  demais. Mas  bom irmos embora logo, Jacira. Ester mora do lado, mas ns moramos longe.
  - Meu motorista vai lev-las em casa.
  - No  preciso - disse Jacira. - Passa das dez e neste horrio os nibus no esto lotados.
  - Eu insisto. Ele j est na porta as esperando. Quando elas saram, o carro as estava esperando. Passava das onze quando Jacira chegou em casa. Ao entrar, encontrou 
Geni a aguardando na sala.
  - Me, pensei que estivesse dormindo.
  - Estou sem sono. Pensando como vai ser amanh. - Vai ser uma beleza. Est tudo muito bem-arrumado. Ester tem muito bom gosto e nos ajudou.
  - Meu corao est apertado.
  - Por qu? No se sente feliz em melhorar de vida? Ela no respondeu logo. Ficou pensativa por alguns segundos e, vendo que Jacira a olhava atentamente, continuou:
  - Estou com medo de fazer feio. No quero envergonh-la.
  Jacira aproximou-se e colocou a mo no brao dela dizendo:
  - Com aquela roupa linda que ns compramos, aqueles sapatos elegantes?
  - Eu estou me sentindo feia, velha. No sei conversar direito.
  Jacira sorriu e respondeu:
  - Alm do mais, iremos ao salo do Belo para arrumar os cabelos e fazer uma maquiagem. Voc vai ficar muito elegante.
  - Seu pai est todo orgulhoso. Disse que vai ao barbeiro logo cedo. No bar j contou a todos sobre a inaugurao. S fala de voc o tempo todo.
  - Ele est feliz, mame. Venha, sente-se aqui a meu lado no sof.
  Ela obedeceu e Jacira, lembrando-se da conversa com Ldia, segurou a mo dela dizendo:
  - Voc no precisa ter medo de nada. Eu me esforcei e Deus nos deu uma chance de melhorar. Ns precisamos agradecer a Ele o que recebemos e fazer o melhor para 
seguir em frente e aproveitar. Vamos rezar.
  - Rezar? Voc nunca foi religiosa.
  - Eu no sou. Mas nada acontece sem que Deus permita.
  - Isso minha me sempre dizia.
  - Pois . Ento vamos agradecer e rezar.
  Jacira continuou segurando a mo dela e fez uma prece de agradecimento, pedindo inspirao para fazer o que fosse preciso a fim de que tudo sasse bem. 
  Quando terminou, abriu os olhos e notou que os olhos de Geni estavam marejados.
  -  bom rezar. Faz bem. Eu tinha me esquecido disso.
  - Quando a gente est no bem e com Deus no corao, tudo d certo. Agora, vamos dormir. Amanh ser um dia cheio.
  Elas subiram, e Jacira notou que o rosto de Geni estava mais sereno. Tudo estava bem e ela, apesar do evento do dia seguinte, sentia-se em paz.

  XII
  Seis meses depois, Jacira, segurando algumas sacolas, entrou no ateli. Subiu para o andar superior e deixou as sacolas sobre a mesa da sala.
  Uma semana depois da inaugurao, Margarida havia se mudado para l, e tanto ela quanto Ester fizeram questo que Jacira ficasse com uma das sutes e uma sala, 
embora continuasse morando com os pais.
  Assim, quando ela desejasse poderia dormir l e tambm teria um lugar s seu. A parte de cima da casa estava parcialmente mobiliada. Eram mveis antigos, elegantes, 
que haviam pertencido  famlia de Renato e que ele conservava com carinho. Havia objetos de arte, quadros, e Renato fez questo de cuidar de todos os aposentos, 
restaurando e completando a decorao, procurando dentro do possvel respeitar o gosto dos novos moradores.
  As duas ficaram encantadas com tudo que ele fez, e no se cansavam de olhar para todas aquelas coisas bonitas com respeito e prazer, admirando cada detalhe.
  Ester, descobrindo que tanto Jacira como Margarida gostavam de arte, levou-as para visitar alguns museus, ensinando-as a apreciar a beleza de cada pea.
  As duas sentiram-se dentro de um palcio. Tanto Ester como Renato adoravam observar o progresso delas, cada uma desenvolvendo bom gosto e se sentindo cada dia 
melhor.
  Margarida estava cuidando da oficina e Jacira foi procur-la.
  - Ainda bem que chegou - disse ela com alegria. - Coloquei em sua mesa algumas contas que chegaram e o contrato com aquele fornecedor para voc analisar.
  - Est bem. Vou ler.
  - Lembra-se daquele cliente importante que Ester foi visitar na semana passada e levar nosso mostrurio? 
  - Sim.
  - Adorou os vestidos da nova coleo e fez um bom pedido. S que tem pressa e eu no sei se vamos conseguir entregar no prazo.
  - Cumprir o prazo  muito importante. Traz credibilidade. Vamos calcular direitinho. Se precisar, compraremos mais uma mquina e contrataremos mais duas pessoas.
  - Esse negcio de contas  com voc.
  - Pode deixar. Vou ver isso agora mesmo. Onde est o pedido?
  - Ester deixou na sua mesa.
  Jacira foi at o escritrio, acomodou-se diante da sua mesa de trabalho, apanhou o pedido e comeou a estud-lo. O prazo era apertado, mas com algumas horas extras, 
daria para cumpri-lo perfeitamente.
  Olhou em volta satisfeita. Sobre sua mesa havia uma foto dos pais tirada no dia da inaugurao. Geni estava sorrindo e Aristides, embora srio, tinha nos olhos 
um brilho emocionado.
  Lembrou-se do acanhamento de Geni quando a levou ao cabeleireiro. Ela nunca tinha ido a um lugar to elegante como aquele. Para cortar os cabelos, o que fazia 
raramente, ia  casa de uma conhecida que, por no ser formada na profisso, cobrava quase nada.
  Belo adorava ter uma cliente como ela para poder transform-la como fizera com Jacira quando a conhecera. Fez o que sabia para deix-la mais bonita. Tingiu seus 
cabelos e lavou-os utilizando produtos de qualidade, hidratou-os, cortou-os e finalmente, penteou-os. Depois de maqui-la, apanhou o espelho para que ela visse o 
resultado.
  Jacira, que tambm estava se preparando para a festa de logo mais, observava tudo com curiosidade e prazer. Sentia-se feliz por poder proporcionar a sua me aqueles 
momentos.
  Geni olhou-se no espelho, enquanto Jacira e Belo observavam a sua reao, e no se conteve:
  - Meu Deus! Essa no sou eu!
  Os dois riram alegres com a admirao dela e Belo afirmou:
  - Dona Geni, a senhora precisa cuidar-se mais. Seus cabelos so saudveis e lindos. Sua pele est um pouco maltratada, mas  boa e reagiu bem ao creme que passei.
  - O senhor acha mesmo?
  - Eu tambm acho - observou Jacira. - De hoje em diante voc vai se cuidar mais.
  - No sei se temos dinheiro para tanto - comentou ela.
  - No se preocupe com isso - tornou Belo sorrindo. - Eu tenho timos produtos de amostra que os vendedores me do para experimentar e recomendar. Vou fazer um 
kit para a senhora. Mas tem de me prometer que vai fazer tudo direito do jeito que eu mandar.
  Ao chegarem em casa, Aristides as esperava ansioso. Estava pronto e impaciente. Quando viu as duas chegarem, olhou Geni admirado. De fato, ela estava bem diferente, 
mais jovem, mais bonita. Mais parecida com a moa pela qual se apaixonara e casara.
  O que ele mais apreciava nela eram os grandes olhos amendoados e castanhos, cheios de alegria, prazer e ao mesmo tempo tmidos.
  - Geni, como voc est bonita!
  Ela corou de prazer, no s pelas palavras dele, mas pela admirao que notara em seu olhar.
  Jacira lembrou-se emocionada de que quando chegaram ao ateli para a festa eles entraram tmidos, silenciosos, admirados com a beleza e o luxo do lugar.
  Os convidados no haviam chegado, mas tudo estava pronto. Jacira apresentou os pais a Renato e Ester, que os receberam com ateno e carinho, e a Margarida, que 
os abraou dizendo:
  - Como esto elegantes! Dona Geni, esse vestido ficou-lhe muito bem!
  Tanto as duas funcionrias que j trabalhavam no antigo ateli, como as novas contratadas, fizeram questo de cumpriment-los.
  Jacira recordou-se que logo a timidez dos dois foi acabando e depois de algum tempo, ela, entre um convidado e outro, pde observar seu pai conversando animadamente 
com algum e Geni tambm.
  A festa foi um sucesso, o desfile de modas tambm. Elas apresentaram aos convidados, a maioria deles donos de lojas, alguns modelos da nova confeco. O interesse 
deles foi o ponto alto da inaugurao.
  Depois desse dia, Geni comeou a mudar. A princpio, pedia a Jacira que a ensinasse a usar os produtos que Belo lhe dera, mas aos poucos passou a us-los com prazer, 
a prestar ateno nas coisas da moda tanto nas revistas como na TV.
  J no reclamava tanto de fazer o trabalho domstico. Vendo que a cada dia mais Jacira se ocupava com o crescimento do movimento na confeco e no dispunha de 
tempo para os servios da casa, acabara percebendo que se fizesse logo o servio sem deix-lo acumular, tudo ficava mais fcil.
  Em muitas noites, Jacira nem voltava para casa, dormia no ateli. Geni reclamava, com medo que ela acabasse se mudando definitivamente para l, mas foi se acostumando, 
uma vez que Jacira continuava a cuidar deles como sempre fizera.
  As trs scias haviam decidido que teriam uma modesta retirada mensal, que poderia ser aumentada conforme o negcio prosperasse. Ester no queria retirar nada, 
mas as outras duas no aceitaram, fizeram questo de que ela tambm recebesse o que lhe era devido.
  A ideia delas era dividir o lucro que sobrasse para o pagamento do emprstimo e para formar um capital prprio que lhes permitisse tocar o negcio.
  Renato observava-as satisfeito por notar o quanto elas tinham bom senso para negociar.
  A retirada delas havia sido aumentada e Jacira arranjara uma faxineira para trabalhar na casa dos pais, trs vezes por semana. Ela j poderia colocar uma empregada 
que cuidasse de tudo, mas temia que Geni voltasse a ser preguiosa como antes.
  A moa faria o servio mais pesado, cuidaria da roupa e Geni continuaria fazendo o restante.
  Geni ficou contente por receber ajuda no trabalho, mas no foi fcil encontrar uma pessoa que se adaptasse.
  Ter uma pessoa contratada para o servio da casa fez Geni sentir-se importante. Ela agora era a patroa. No ia permitir intimidades e iria exigir que ela fizesse 
o servio direito. Tornou-se exigente em excesso, implicante e controladora.
  Ficava em volta dela observando, fazia o prato de comida, no permitindo que ela mesma se servisse. Quando ela terminava a limpeza, passava o dedo sobre os mveis 
verificando de estava bem limpo.
  Em menos de dois meses passaram por l trs pessoas que no quiseram ficar mais no emprego. Todas se queixando de Geni, uma delas at discutiu forte com ela, e 
foi embora sem acabar o servio. Logo ficou claro para Jacira por que estava difcil encontrar algum para trabalhar l.
  Vrias vezes conversou com Geni procurando faz-la mudar de atitude. Mas ela no aceitava seus argumentos, dizendo que no tinha tido sorte ao contrat-las, porquanto 
eram preguiosas, gastonas, comiam tudo o que havia na geladeira, sem respeito pelas coisas.
  Quando a terceira se despediu, Jacira no se conteve e prometeu
  - Eu contratei uma faxineira esperando que voc fosse se dar bem com ela e ficasse feliz. Vou procurar mais uma. Se voc no se der bem eu desisto. Voc ter de 
fazer todo o servio sozinha.
  Essa conversa foi o bastante para Geni ter uma forte recada. Chorou, disse que estava se sentindo mal, reclamou dizendo que de nada adiantava tanto esforo para 
melhorar de vida, se as pessoas se aproveitavam explorando os patres em vez de trabalhar.
  Uma funcionria aproximou-se e Jacira deixou de lado a preocupao com a me e perguntou:
  - O que foi, Arlete?
  - Tem uma moa procurando a senhora. Disse que  a respeito de um emprego. 
  - Mande-a entrar.
  Pouco depois, uma garota entrou e Jacira olhou-a tentando avaliar se ela serviria para trabalhar em sua casa. Tratava-se de uma jovem de quinze ou dezesseis anos. 
Pareceu-lhe muito nova e sem experincia para lidar com Geni.
  As que ela contratara, duas eram casadas e passavam dos trinta anos e a ltima, a que brigara feio com Geni, devia ter mais de quarenta.
  A jovem esperava parada na entrada da sala. Jacira no ia aceit-la, mas no queria ser indelicada. Ela sabia como era difcil procurar emprego e ser maltratada.
  - Venha, sente-se, por favor.
  A jovem aproximou-se:
  - Com licena. Boa tarde.
  Sentou-se na cadeira diante da mesa de Jacira. Era morena, cabelos crespos soltos pelos ombros, olhos vivos, rosto corado, boca bem feita, corpo delicado.
  - Como  seu nome?
  Maria Lcia. Quem me mandou aqui foi d. Ldia.
  Ela tirou do bolso um envelope e entregou a Jacira, que abriu e leu:
  "Querida amiga. Estou enviando ao seu corao generoso uma menina que acabou perder a me e ficou s no mundo. No tem onde ficar. Trata-se de uma jovem muito 
boa, corajosa e esforada. Pensei que talvez ela pudesse ir trabalhar em sua casa. Um abrao agradecido da amiga Ldia".
  Jacira olhou novamente o rosto jovem a sua frente e se comoveu.
  - Quantos anos voc tem? 
  - Dezesseis.
  Jacira pensou um pouco sem saber o que fazer. Ela parecia um tanto frgil, delicada para trabalhar. Alm do mais, no estava em seus planos ter algum em tempo 
integral. Se a contratasse, ela teria de morar em sua casa.
  Por outro lado, a situao da jovem a comovia e o pedido de Ldia, a quem considerava muito, inclinava-a a aceitar.
  - Vamos conversar um pouco. Ldia me informou que voc est s no mundo e no tem onde ficar. To jovem, como chegou a essa situao?
  - Eu nasci no Rio de Janeiro. No conheci meu pai porque ele morreu antes de eu nascer. Minha me, grvida, veio para So Paulo ficar em um pensionato de freiras. 
Uma senhora no Rio de Janeiro, amiga de uma das freiras, penalizada com a situao dela, uma vez que meu pai no lhe deixara nada e ela no estava em condies de 
procurar emprego, recomendou-a. L ela foi bem recebida, trabalhou durante todos estes anos, at que adoeceu e veio a falecer na semana passada.
  Ouvindo-a, Jacira comoveu-se muito.
  - Deve ter sido difcil para voc. Faz to pouco tempo!
  Os olhos dela marejaram, mas ela levantou a cabea e respondeu:
  - A dor da perda  muito forte! Mas estou certa de que Deus no vai me desamparar. No quero que minha me, l onde se encontra, preocupe-se comigo. Ela agora 
precisa se recuperar e seguir em frente. Eu preciso aceitar. Deus faz tudo certo. Se a levou foi porque era o melhor que poderia nos acontecer.
  Jacira sentiu os olhos midos e fez o possvel para conter a comoo. No esperava encontrar tanta f e sabedoria em uma pessoa to jovem.
  - Voc disse bem.  jovem, tem toda a vida pela frente. Precisa ser forte e seguir adiante. Ldia conversou com voc sobre o trabalho que eu posso lhe oferecer?
  - No. Ela disse que a senhora  uma pessoa muito boa, que ela admira muito e que cuidaria muito bem de mim.
  - Nesse caso vou explicar-lhe a situao.
  Em poucas palavras Jacira falou-lhe sobre sua famlia, como tinha melhorado na vida, e sua vontade de ajudar sua me, colocando algum em casa que a aliviasse 
nos servios domsticos. E finalizou:
  - Se voc aceitar, vai morar conosco.  uma casa simples, modesta. Meu pai  aposentado, trabalha como garom no bar de um amigo. O que me diz?
  - Eu aceito e fico-lhe muito grata por me acolher em sua casa. Espero retribuir a confiana.
  - Antes preciso falar um pouco a respeito de minha me. Ela sempre foi muito negativa, com medo de tudo, sem confiana na vida, perdeu o prazer de viver. Passava 
todo tempo sem querer enfrentar os desafios do dia-a-dia e foi muito difcil para mim porquanto pensando em me proteger, limitava-me. Mas apesar disso eu consegui 
melhorar, vencer e hoje fao o que posso para que ela mude sua forma de pensar. Ela est um pouco melhor, mas entra fcil na negatividade.
  - Esse  um hbito difcil e perigoso. Acaba sempre em doenas e sofrimento.
  Jacira olhou-a sria. Por momentos se esqueceu de que estava conversando com uma menina ainda muito jovem respondeu:
  - O que eu mais gostaria nesta vida  que ela conseguisse reagir, que vivesse mais feliz.
  - Os primeiros passos j foram dados. A recada  natural. Ela aparece para que a pessoa possa eliminar os blocos de energias ruins que acumulou.
  Jacira ficou calada durante alguns segundos e pensou: "Entendo agora porque Lidia a mandou e pediu que a levasse para casa".
  - Voc disse que aceita ir morar conosco. No poderei pagar muito ainda, mas o que ns tivermos ser tambm seu. Quando voc pode comear?
  - Ainda estou morando no pensionato. Dona Ldia conversou com a madre. Ela pediu para eu vir ver e se eu gostasse poderia aceitar. Quer que a senhora v conversar 
com ela. Eu posso comear quando quiser.
  - Terei o maior prazer em falar com ela. Amanh mesmo irei at l e se ela estiver de acordo vou lev-la para nossa casa.
  Maria Lcia levantou-se e estendeu a mo:
  - Combinado obrigada, d. Jacira. Estou certa de que nos daremos muito bem.
  Jacira apertou a mo que ela lhe estendia e acompanhou-a at a porta. De volta a sua mesa de trabalho, ficou pensando na singularidade daquele encontro. A princpio 
Maria Lucia lhe pareceu frgil e delicada, mas quando se expressou mostrou firmeza e discernimento, muito alm do que seria normal em mocinhas de sua idade.
  Naquela noite quando chegou em casa conversou com Geni que, apesar de gostar de ter algum a sua disposio para todo o servio, objetou:
  - Morar aqui? Vai ser mais uma boca para sustentar. Pensou nisso? Depois,  menor de idade e pode dar muito trabalho. Essas meninas de hoje no tem juzo.
  - Vamos experimentar. Ela pareceu-me ajuizada e bem educada. Foi criada pelas freiras. Parece disposta a trabalhar. Alm disso, far companhia para voc.
  - No sei, no... No gosto de ter uma pessoa estranha morando aqui em casa.
  Jacira fez de conta que no ouviu e continuou:
  - Amanh vou ao convento conversar com a madre superiora. Ela  legalmente responsvel pela menina. Se tudo der certo vir comigo amanh mesmo. 
  - J? Onde ela vai dormir?
  - No quarto que era dos meus irmos. Voc o deixou trancado desde que Jair foi embora.
  - L no. E se eles voltarem? Onde vo ficar?
  - Me, acorda! Faz mais de dez anos que nenhum deles d notcias. No vo voltar mais.
  - Eu no perco a esperana. Eles ainda vo aparecer.
  - Se apareceram daremos um jeito. O que no pode  aquele quarto ficar inutilizado. Vamos arrum-lo e Maria Lcia vai dormir nele.
  - Isso no vai dar certo!
  - Vamos ver. Se no der, ela volta para o convento e arranjaremos outra.
  Jacira deu o assunto por terminado e conversou sobre outras coisas. Se o ateli fosse bem como esperava, pensava em alugar uma casa maior, mais confortvel e mais 
perto do seu trabalho. Daria mais conforto aos pais e no precisaria passar tanto tempo dentro do nibus.
  Depois que comeara a trabalhar no novo ateli, desenvolvera seu senso esttico, passando a enxergar a beleza, tanto na simplicidade de uma flor como na sofisticao 
dos quadros e objetos de arte que vira nos museus.
  Sentia-se bem, rodeada de coisas belas, e sonhava poder ensinar aos pais a perceber a beleza onde quer que estivessem. Apreciar o belo proporcionava-lhe um grande 
prazer. Desejava que os pais usufrussem esse sentimento.
  Na manh seguinte, Jacira foi conversar com a madre, que a recebeu muito bem. Confirmou o que Maria Lcia lhe havia dito sobre sua origem, e finalizou: 
  - Maria Lcia  muito querida por todos aqui.
Poderia continuar conosco at os dezoito anos, que  a idade mxima permitida, j que no tem vocao religiosa. Mas faz algum tempo que ela insiste em comear a 
ganhar a vida. Para ser franca, eu gostaria que ela esperasse um pouco mais. Ela vive aqui desde que nasceu. No conhece as maldades do mundo.
  - Eu entendo. A senhora gosta muito dela.
  - Ela  a filha que eu gostaria de ter tido. Mas Ldia, que nos falou da senhora,  uma pessoa da nossa confiana. Tem trabalhado aqui como voluntria, auxiliando-nos 
a aliviar o sofrimento dos que batem a nossa porta, garantiu que em sua casa ela estar muito bem.
  - Obrigada pela confiana. Espero que ela se acostume em nossa casa.
  Acertaram os detalhes, a madre chamou Maria Lcia e combinaram que Jacira passaria no dia seguinte, no fim da tarde, para busc-la.
  Jacira deixou o convento satisfeita, pensando que no dia seguinte iria olhar e arrumar o quarto para instal-la.
  Ao chegar ao ateli, encontrou Ldia e Estela que acabavam de chegar. Abraou-as com prazer e disse alegre:
  - Estou vindo do convento. Falei com a madre e amanh  tarde irei buscar Maria Lcia. Espero que ela se acostume l em casa.
  - Vocs vo se dar bem. Estou certa disso.
  - O que me preocupa um pouco  minha me. Tem um gnio danado.  manipuladora. Se Maria Lcia fizer tudo o que ela quer, vai abusar. Caso contrrio, vai implicar.
  - Maria Lcia  firme. No vai deixar Geni abusar. Mas  jeitosa, sabe se portar. Ela vai saber lidar, voc vai ver.
  - Espero que seja assim. Vamos at a oficina, Margarida vai gostar de v-las e mostrar-lhes alguns modelos novos. Ela adora quando vocs vm.
  As trs foram ao encontro de Margarida que, vendo-as chegar, abraou as visitantes com alegria e logo as quatro foram juntas tomar um caf e conversar.
  Na tarde do dia seguinte, quando Jacira foi buscar Maria Lcia, ela j estava pronta. Havia se despedido de todos e esperava sentada no saguo, ao lado da pequena 
sacola onde guardara seus pertences.
  Antes de elas sarem, Jacira foi avisada de que a madre superiora a esperava em sua sala. Maria Lcia sentou-se novamente enquanto Jacira acompanhava a freira.
  Entrou na sala da madre que, depois dos cumprimentos, pediu-lhe que se sentasse:
  - Ontem, quando conversamos, eu estava em dvida se deveria coloc-la a par de alguns detalhes sobre os pais de Maria Lcia. Orei pedindo a Deus inspirao e senti 
que seria melhor falar.
  Jacira concordou e ela prosseguiu:
  - Na verdade, o pai de Maria Lcia no morreu. Quando Rosalina chegou aqui, grvida de seis meses, estava desesperada, sem ter para onde ir. Havia passado por 
momentos difceis no Rio de Janeiro, precisando de tratamento mdico e ajuda emocional. Sua famlia morava no interior de Minas Gerais e era muito pobre. Ela decidiu 
ir para o Rio de Janeiro na esperana de arranjar um emprego, melhorar de vida. Comeou a trabalhar em casa de famlia, e, depois de algum tempo, foi trabalhar em 
um hotel como camareira ganhando um pouco mais.
  A madre fez uma pausa e, notando o interesse de Jacira, continuou:
  - Foi l que conheceu um garom e se apaixonou. Ele se interessou por ela e o namoro comeou. A cada dia estavam mais apaixonados, at que foram morar juntos. 
Tudo ia bem at que no hotel hospedou-se uma moa que se interessou por ele, que correspondeu. Ela era bonita, classe mdia alta, alegre, falava bem e teve o bom 
senso de no se entregar a ele. Ela queria se casar. Ele acabou fazendo o pedido aos pais dela e ficaram noivos. Rosalina, chocada com a situao, foi procur-la, 
contou-lhe que esperava um filho dele. A moa respondeu-lhe que os dois se amavam e ela deveria conformar-se porque logo eles estariam casados.
  "O resultado foi que Vicente, muito irritado, foi embora de casa. Diante do desespero dela, prometeu dar-lhe algum dinheiro quando a criana nascesse. Pouco depois, 
Vicente aceitou um emprego que o pai de Guilhermina ofereceu e viajou para o Sul, onde a famlia dela morava.
  "'Sem condies de sustentar a despesa do pequeno apartamento, no sabia o que fazer da vida, at que uma vizinha, de quem se tornara amiga, vendo seu sofrimento, 
aconselhou-a que procurasse o nosso pensionato. Foi essa senhora que lhe deu dinheiro para a passagem e o endereo para que chegasse aqui, e uma carta para mim contando 
o caso dela. Rosalina era uma moa boa, prestativa, logo se deu bem com todos. Apesar do seu estado, esforava-se para ajudar onde pudesse. Depois que Maria Lcia 
nasceu, oferecemos-lhe um emprego e ela ficou. Sentimos muito sua morte.
  - Deve ter sido difcil para Maria Lcia. Rosalina nunca quis voltar para a sua famlia?
  - Ela procurou notcias deles, descobriu que tinham se mudado sem deixar endereo. Quando ela morreu, por causa de Maria Lcia, ns tambm tentamos por meio da 
parquia da cidade dela, mas no descobrimos nada.
  A madre fez ligeira pausa, depois prosseguiu:
  - Rosalina nunca contou a verdade para a filha. Ela soube que Vicente se casou, e no quis que ela tivesse uma imagem ruim do prprio pai. Maria Lcia pensa que 
o pai morreu.
  - Rosalina avisou ao pai que ela nasceu?
  - Vrias vezes sugeri a ela que o fizesse. Mas ela foi irredutvel. Nunca o perdoou por t-las abandonado. Costumava dizer: Ele nos desprezou, no merece conhec-la".
  - A senhora no acha que ele poderia cuidar dela agora que est sozinha no mundo?
  - Talvez. Mas no d para confiar em um homem capaz de abandonar uma moa grvida.
  - Mas ela veio para c e no o avisou. Ele pode t-la procurado sem encontrar.
  - Tambm pensei nisso. Tenho orado muito pedindo a Deus que me inspire. Tive receio de procur-lo. Ele poderia lev-la para sua casa e no sei se seria bom. Afinal, 
essa mulher no se comoveu com a situao quando Rosalina a procurou. No seria uma boa madrasta para Maria Lcia. Achei melhor arranjar uma pessoa boa que a acolhesse.
  - Talvez tenha razo. Espero que ela goste de ficar em nossa casa.
  - Eu tambm espero. A vida tem muitos caminhos, se algum dia, por alguma razo, a senhora achar que deve contar-lhe tudo, pode faz-lo. Algo me diz que devo confiar 
no seu bom senso.
  Jacira agradeceu, despediu-se. Procurou Maria Lcia e foram para casa.
  Durante o trajeto, Jacira foi conversando sobre sua famlia. Explicando a rotina da casa, os hbitos do pai, o que a me gostava. Ao chegarem na porta de casa, 
antes de entrar Jacira tornou:
  - Hoje comea para voc uma vida nova. A princpio talvez no seja fcil ficar em uma casa estranha, no meio de pessoas que no conhece.
  Vendo que Maria Lcia a olhava sria, fixou os olhos dela, e disse com voz firme:
  - Eu quero muito que voc goste de ns e seja muito feliz aqui. Desejo ser sua amiga e espero que confie em mim. Quando se sentir triste, ou tiver algum problema, 
lembre-se de que eu estarei ao seu lado para ajud-la, acontea o que acontecer.
  Os olhos de Maria Lcia marejaram e ela simplesmente aproximou-se e deu um beijo na face de Jacira, que sentiu forte emoo. Depois de alguns segundos, elas entraram.
  Geni estava na sala e vendo-as aproximou-se curiosa. Maria Lcia encarou-a com naturalidade dizendo:
  - Boa tarde, senhora.
  - Boa tarde. - Respondeu Geni, voltando-se para Jacira: - Voc demorou!
  - Fiquei conversando com a madre. Ela queria fazer suas recomendaes.
  - E o que ela recomendou?
  - Votos de felicidades para todos ns. Vamos subir e mostrar o quarto para Maria Lcia.
  Ao entrar no quarto, Jacira abriu a janela dizendo:
  - Este quarto era dos meus dois irmos. Voc vai instalar-se aqui. Ficou fechado e sem uso desde que eles foram embora. No est muito bonito, mas pretendo arrum-lo 
melhor. A roupa das camas est limpa, e o banheiro fica ao lado. As roupas que eles deixaram ainda esto dentro do armrio.
  Voltando-se para Geni, que observava parada na porta, ela prosseguiu:
  - Precisamos dar um jeito nessas roupas.
  Geni aproximou-se nervosa:
  O que voc quer fazer com elas?
  - Doar. As que esto melhores ainda podero ser aproveitadas por quem precisa. As outras jogamos fora.
  - Voc no pode fazer isso. So as lembranas que nos restam deles. Precisam estar aqui quando eles voltarem.
  - Eles nos esqueceram. No vo voltar mais. Mas mesmo se voltarem, no vo quer-las de volta. Vou buscar uma caixa, separ-las, e resolver logo.
  Jacira saiu e Geni acompanhou-a, rosto contrado, aflita.
  - Me, tente entender, temos que tocar nossa vida para a frente. Essas roupas no tm utilidade para ns e podem servir para algum que esteja precisando.
  - Quando precisamos ningum veio nos dar nada. Por que ns temos de fazer isso para os outros?
  - Porque na vida tudo circula e se movimenta. As coisas inteis que juntamos ocupam lugar e impedem que as coisas novas entrem. Se voc deseja prosperar, deve 
entender isso.
  Jacira apanhou uma caixa e voltou ao quarto, abriu o guarda-roupas e comeou a tirar as roupas, separando-as em duas pilhas. Geni assistia com olhos marejados.
  A cada pea, ela se lembrava dos meninos, e pedia para si, mas Jacira estava decidida e no atendia aos seus pedidos. Vendo que Geni sentara-se em uma das camas 
e olhava com tristeza, ela perguntou:
  - Voc j fez o jantar?
  - Eu? No estou com disposio para isso. Essa menina sabe cozinhar?
  - Fazer a comida, por enquanto no vai ser tarefa dela. Vamos dividir o servio. Hoje voc no precisa cozinhar. Vamos fazer um lanche. Eu trouxe aquele queijo 
fresco que voc gosta e mais algumas coisas.
  - Posso ajudar? - indagou Maria Lcia.
  - Pode. Dobre as roupas desta pilha e coloque-as na caixa.
  Geni observou-as em silncio durante alguns minutos, depois se levantou:
  - Vou descer e preparar o lanche. Quando estiver pronto eu as chamo.
  Ela desceu e Jacira sorriu satisfeita. Sabia que ela no resistira  curiosidade. Antes de sair para fazer compras, Jacira sempre lhe perguntava o que desejava 
comer. Geni nunca lhe dizia. Ento, escolhia a seu gosto. Mas ela tinha expectativa e sempre reclamava quando as compras no eram o que esperava.
  Jacira tentava ensin-la a se colocar e dizer o que pensava. Mas Geni, apesar de ter melhorado em algumas atitudes, no confiava mais em si mesma. Sua vaidade 
no lhe permitia errar e por esse motivo nunca dizia o que queria.
  Quando Geni chamou para o lanche, Jacira j havia esvaziado e feito uma faxina no guarda-roupas, deixando suas portas abertas para que o ar circulasse.
  Elas desceram e Jacira notou que Geni arrumara a mesa com o cuidado que fazia nos almoos de domingo. Convidou Maria Lcia a sentar-se e servir-se. Geni observava 
calada.
  - Sente-se, me. Est sem fome?
  - As lembranas daqueles ingratos me tiraram o apetite.
  Jacira preparou seu lanche com prazer e respondeu:
  - Pois eu estou faminta. Esse po deve estar uma delcia. Ainda hoje vamos nos sentar e combinar como ser a rotina da casa daqui para a frente. Vamos definir 
as tarefas de cada uma.
  - No  preciso. Aqui tudo  muito simples - objetou Geni.
.  - Precisa sim. A organizao  a base de todo trabalho. Como eu no disponho de tempo para o servio de casa, vocs duas tero de cuidar de tudo.
  - O que depender de mim, estou disposta a fazer o que for preciso.
  - timo, Maria Lcia. O que voc fazia no pensionato?
   - Quando eu era menor s estudava, mas sempre que deixavam eu ajudava no que podia. Mas a madre preferia que alm da escola eu fizesse os cursos que havia l.
  - Que cursos voc fez?
  - De primeiros socorros, ajudante de enfermagem, digitao. Alm disso, como eu ficava l o tempo todo, onde precisasse, eu ia como ajudante. Eu adorava ajudar 
no berrio e contar histrias para as crianas do pr.
  Geni interveio:
  - Voc aprendeu muitas coisas, mas no aprendeu a cuidar de uma casa.
  - Aprendi, sim. Sei fazer uma boa faxina, lavar e passar roupas. E no tenho medo de trabalho. Com boa vontade sei que posso aprender a fazer tudo.
  Mais tarde, quando Aristides chegou do trabalho, passava das 23 horas e Geni esperava-o sentada na sala.
  - Estava sem sono?
  - Temos de conversar.
  - Estou cansado. Deixe para amanh.
  - No. Jacira trouxe a mocinha para morar aqui. Estou preocupada.
  - Por qu? Ela foi bem recomendada e criada em um pensionato de freiras. Deixe de histrias.
  - No so histrias. Ela  muito nova, no sabe fazer nada. Alm disso, por causa dela Jacira recolheu toda roupa dos meninos e vai doar.
  - Ela est certa. Para que guardar o que no nos serve para nada?
  - Voc tambm? Elas so tudo quanto nos resta dos nossos filhos. Como pode ser to frio?
  - Por mim j as teria doado faz tempo. Esperar para qu? Eles nos esqueceram.
  Geni disse com voz lamentosa:
  - Eu sou me, amo meus filhos! Sinto saudades! Aristides fixou-a srio:
  - Quando eles estavam aqui voc vivia se lamentando, dizendo que eles no sabiam fazer nada. Principalmente o Jair. s vezes penso que eles foram embora para ficarem 
livres de suas lamentaes.
  - Voc est sendo injusto. Eles no foram embora por minha causa. Jair estava iludido, achava que um dia ficaria rico. A esta altura j deve ter percebido que 
pobre no tem vez.
  - E se aconteceu o contrrio e ele estiver bem de vida?
  - Se ele estivesse bem, teria voltado para nos provar que tinha razo.
  Aristides meneou a cabea negativamente:
  - Voc continua sempre julgando as pessoas. Eles esto seguindo sua vida e no pensam mais em ns. Chega de conversa. Estou com sono e quero descansar.
  O marido subiu e Geni foi atrs. Ele se preparou para dormir e deitou-se em seguida. Geni sentou-se na beira da cama:
- Essa histria dessa menina morar aqui no vai dar certo. Daqui a pouco ela vai comear a pr as manguinhas de fora, fazer amizades, querer trazer pessoas aqui. 
Pode at arranjar namorado.
- Deixe de ser maldosa. Apague logo essa luz, eu quero dormir.
Ela foi apagar a luz, mas ainda disse:
- Depois no diga que no avisei!
  Aristides virou-se para o lado e logo adormeceu. Geni deitou-se tambm, mas seus pensamentos tumultuados no a deixavam em paz.
  No dia seguinte, Jacira acordou cedo, desceu e j encontrou Maria Lcia na cozinha. Ela  havia arrumado a mesa para o caf.
  - A senhora quer que eu esquente o po que sobrou de ontem  tarde ou prefere que eu v comprar outro?
  - Vamos esquentar estes mesmo.
  - Posso passar o caf?
  - Pode.
  Depois de colocar na mesa a garrafa trmica com o caf, ela ficou parada esperando.
- Sente-se, Maria Lcia, vamos ver como est esse caf.
  Enquanto elas se serviam, Jacira perguntou:
  - Voc dormiu bem?
  Maria Lcia no respondeu logo. 
  - Pode falar. Estranhou a cama?
  - No. Essa cama  melhor do que a que eu dormia no pensionato. Acontece que...
  Ela parou e Jacira perguntou: 
  - O que foi? Fale, Maria Lcia.
  -  que eu tive um pesadelo e acordei assustada. 
  - Voc ficou nervosa com a mudana.  normal. Quero que sejamos amigas e no haja segredos entre ns. Voc no precisa ter medo. Desejo que seja muito feliz em 
nossa casa. Se alguma coisa a estiver preocupando, eu quero saber.
  - Foi s um pesadelo. Acontece de vez em quando. 
  - Conte como foi.
  - Eu sonhei que estava em um lugar escuro e um homem que eu no vi o rosto queria me pegar. Eu me escondia e ele me achava. Ento, acordei e no quis dormir mais 
para no encontr-lo.
  - Voc reza antes de dormir?
  - Sempre. Minha me me ensinou.
  - Vou pedir a Ldia para nos orientar.
  - Ela nos ajudou muito. Quando minha me estava doente, ela nos visitava, mandava-me sair e ficavam conversando. Depois que ela saa, mame ficava mais calma, 
melhor.
  Aristides apareceu na cozinha e Geni o acompanhava mais atrs.
  - Bom dia! O cheirinho do caf me fez levantar. 
  - Bom dia. Sente-se, papai. Esta  a Maria Lcia. Ela levantou-se. Ele olhou-a respondeu:
  - Seja bem-vinda, minha filha. Sente-se, continue tomando seu caf.
  Ela obedeceu enquanto Geni j havia se acomodado e estava se servindo.
  - Por que se levantou to cedo? - indagou Jacira. - Acordei, senti o cheiro do caf e tive fome. Assim que comer, voltarei para a cama. Hoje s vou para o bar 
ao meio-dia.
  Eles terminaram de comer, Aristides subiu novamente e, depois que Maria Lcia tirou a mesa, Jacira apanhou um bloco e pediu que as duas se sentassem novamente.
  - Agora ns vamos organizar o trabalho da casa. Primeiro, vamos anotar de maneira geral o que dever ser feito para que tudo fique em ordem. Depois, vamos repartir 
as tarefas entre as duas.
  - Nada disso  preciso. O servio da casa  sempre o mesmo.
  - Sim. Mas eu quero discutir com cada uma quem faz o qu, para facilitar e tambm para que no haja nenhuma dvida. Eu tenho meia hora para fazer isso. H muito 
trabalho me esperando no ateli.
  Jacira anotou detalhadamente todo o servio domstico, depois que todas estavam de acordo, dividiu as tarefas. Ficou para Geni cozinhar e lavar toda roupa da casa. 
Geni protestou.
  - Eu quero s cozinhar. Lavar roupa  muito cansativo. Eu sou uma pessoa doente!
  - Separar as roupas e coloc-las na mquina no  servio pesado, voc pode muito bem fazer. Ou ser que em vez de lavar voc prefere passar?
  - No. Odeio passar roupas! Eu lavo!
  - Combinado. O restante fica para Maria Lcia. No  muita coisa para voc?
  - No. Do jeito que a senhora dividiu as tarefas, ficou fcil. Vou dar conta.
  - Ento est combinado. Eu quero que copie as duas relaes. A que fiz ficar com mame e a outra com voc. Assim no vo confundir e cada uma saber o que compete 
a outra.
  - Isto aqui parece um quartel - resmungou Geni. 
  - O que disse, me?
  - Nada. Agora as coisas aqui em casa se inverteram. Em vez de a me administrar tudo,  a filha que faz isso.
  - Estou fazendo isso para facilitar. Procure cumprir o que prometeu e descobrir como a organizao favorece o trabalho.
  Maria Lcia olhou para Geni e tornou:
  - Eu estou acostumada. No pensionato  tudo muito organizado. Elas dizem que  preciso fazer tudo bem feito para se ganhar tempo. Ao fazermos de qualquer jeito, 
sem capricho, acabamos tendo de fazer de novo e trabalhamos mais.
  Jacira sorriu satisfeita:
  - Agora preciso ir. Vou deixar algum dinheiro. Se precisar de alguma coisa, Maria Lcia poder comprar no mercadinho.
  Jacira apanhou a bolsa e saiu. Ela sabia que assim que virasse as costas, Geni ia tentar sabotar o que combinaram e torcia para que Maria Lcia se mantivesse firme.
  Na vspera, ela havia lhe pedido para que no cedesse s artimanhas de Geni. No queria que ela voltasse  vida sedentria.
  Sentia-se satisfeita por poder contar com Maria Lcia, aliviando a me do peso dos trabalhos domsticos e, ao mesmo tempo, abrigar uma rf por quem j sentia 
um carinho especial.

  XIII
  Jacira acordou cedo e levantou-se apressada. Quando desceu j encontrou Maria Lcia na sala, no meio de caixas de papelo empacotando a loua. 
  - Levantou cedo. J tomou caf? 
  - J. Est tudo pronto na cozinha. 
  - Falta muito?
  - No. Alm dessa loua, s algumas panelas.
  - O caminho vai chegar dentro de uma hora.  melhor ir acordar mame.
  Enquanto Maria Lcia dirigiu-se ao quarto de Geni, Jacira tomou caf e voltou  sala. Fazia quase um ano que Maria Lcia estava na casa. Durante esse tempo muitas 
coisas haviam acontecido.
  Nos primeiros tempos, Geni tentou de todas as formas fazer com que ela a ajudasse a cumprir as tarefas que lhe cabiam. Mas ela desviava o assunto, justificando 
que ainda no havia terminado a sua parte.
  Quando Geni comeava a reclamar de alguma coisa, Maria Lcia sempre mencionava alguma coisa positiva. Como ela tinha por hbito fazer tudo com capricho, chamando 
sua ateno para as coisas bonitas da natureza, demonstrando prazer de passar muito bem as roupas, arrumando-as no guarda-roupas com carinho, Geni comeou tambm 
a cuidar mais da aparncia e do trabalho que fazia.
  Maria Lcia a elogiava quando as roupas brancas ficavam mais alvas, quando a comida estava mais saborosa, quando ela se cuidava um pouco mais.
  Aos poucos, Geni foi aprendendo a apreciar a beleza de uma casa bem-arrumada, acolhedora, com tudo no lugar certo. Ao fazer alguma coisa com capricho, habituara-se 
a pedir a opinio dela.
  Jacira percebeu que Geni entretinha-se tanto ao lado de Maria Lcia e a cada dia mais se afeioava a ela. Quase j no lia mais as fotonovelas.
  Jacira conversara com Ldia sobre os pesadelos de Maria Lcia que lhe explicou:
  - Ela tem muita sensibilidade e via os espritos que estavam com as pessoas. Eles percebiam e a assediavam desejando lhe transmitir recados, pedir ajuda. Maria 
Lcia no sabia o que fazer e ficava com medo. Muitas vezes Rosalina me pediu ajuda. Meu guia espiritual auxiliou, as vises espaaram, mas ele informou que quando 
ela deixasse o pensionato deveria estudar o assunto e aprender a lidar com a mediunidade. Conversei com a madre superiora sobre isso.
  - Falou em espritos a ela?
  - Sim. Ela precisava saber para me avisar sempre que voltasse a acontecer. A madre tem a cabea aberta, sabe que eles esto a nossa volta. Agora  aconselhvel 
ela se preparar e aprender a lidar com isso.
  - Mas os pesadelos a fazem sofrer, principalmente quando ela v espritos perturbados. No h uma maneira de acabar com isso e afast-los definitivamente?
  - No. Todas as pessoas tm sexto sentido.  uma condio natural do ser humano. Quando a sensibilidade se abre,  melhor estudar os fenmenos e procurar adaptar-se. 
Se a pessoa registra a presena de desequilibrados e no sabe lidar, pode se sentir muito mal.
  -  o que acontece com ela durante o sono. Maria Lcia  sensata, boa, por que eles a atacam?
  - No creio que ela esteja sendo atacada. Ocorre que, quando um esprito aproxima-se de uma pessoa sensvel, h uma troca energtica entre eles. Se for um esprito 
doente, perturbado, nessa troca ele se sentir aliviado e a pessoa comear a sentir o que ele est sentindo.
  - Como ela poder se defender?
  - Procurando ajuda espiritual com pessoas capacitadas que possam introduzi-la nessa delicada experincia com segurana.
  - Ela vai desenvolver a mediunidade?
  - Ela vai educ-la de forma adequada. Assim como voc tem o esprito de Marina que a ajuda e orienta, Maria Lcia far contato com espritos elevados que vo instru-la 
e ela sentir grande bem-estar 
  - Marina tem me ajudado muito. Quando a encontro o assunto e receber orientao dos nossos amigos espirituais. As pessoas me procuram pedindo ajuda e conforme 
me inspiram, eu as atendo. Estela tem mediunidade de cura e quando indicado por eles, visitamos doentes, oramos com eles, doamos energias e Deus tem nos atendido 
de uma forma ou de outra.
  - Foi o que voc fez comigo e com Margarida.
  - Eu gostaria que voc e Maria Lcia participassem desses encontros. Seria bom para todos ns.
  Jacira concordou e a partir desse dia, elas passaram a reunir-se todas as semanas, estreitando ainda mais os laos de amizade que as unia.
  Ldia lhe emprestava livros e a cada dia mais ela se interessava pelas pesquisas dos fenmenos para-normais e progredia rapidamente. Os pesadelos de Maria Lcia 
desapareceram e as mensagens esclarecedoras e elevadas comearam a surgir de seus lbios inspirados.
  Jacira sentia-se feliz e os negcios progrediam rapidamente. Ganhando mais, ela pensou que poderia dar mais conforto para a famlia. Tambm, era cansativo ter 
de tomar duas condues para ir trabalhar.
  Margarida insistia para que ela se mudasse definitivamente para o ateli, mas Jacira no queria deixar a famlia. Ento, decidiu alugar outra casa mais perto do 
ateli e mudar-se com a famlia.
  Comeou a procurar, mas o aluguel das casas perto do ateli era muito alto. Sabendo que ela estava procurando casa para alugar, uma cliente ofereceu-lhe uma muito 
boa, por um preo razovel.
  Era uma casa antiga, muito bem conservada, com jardim na frente, boas acomodaes para todos e um quintal nos fundos onde havia uma frondosa mangueira que a encantou. 
Alm disso, um nibus passava perto e em dez minutos a deixaria no ateli.
  Quando ela chegou em casa com a novidade, Aristides pensou no seu emprego. Ele no queria deixar de trabalhar e o bar ficava longe da casa. Geni tambm no gostou 
da ideia:
  - No quero sair daqui.
  - Por qu? L  muito melhor, a casa  maior e mais bonita.
  - No posso mudar. Como os meninos vo nos achar quando decidirem voltar?
  Jacira tentou convenc-la, mas Geni no cedia. Ento teve a ideia de lev-los para conhecerem a casa. Ao chegarem, Jacira apontou-a dizendo:
  - E aqui.
  Eles se entreolharam admirados.
  - Aqui? - exclamou Aristides admirado.
  - O que foi, no gostou, pai?
  -  uma casa de luxo!
  -  uma casa confortvel. Vamos entrar.
  Geni estava to admirada que a voz morreu em sua garganta. Atravessaram o jardim e entraram na sala principal.
  Os dois, admirados e pensativos, percorreram a casa toda. Finalmente, Geni conseguiu falar:
  - Esse aluguel deve ser alto. Voc tem dinheiro para pagar tudo isso?
  - Tenho. J fechei o contrato e nesta semana mesmo vou comear a mobili-la.
  - E os nossos mveis? - indagou Geni assustada.
  - No vamos precisar deles. A casa possui armrios embutidos em todos os cmodos. Tenho algumas economias. O que falta vai dar para comprar.
  Aristides ficou calado e foi ver o quintal. Alm de uma mangueira imensa, havia alguns canteiros onde o mato tomara conta.
  Jacira aproximou-se dele:
  - E ento, o que achou?
  - Aqui d para fazer uma bela horta.
  - At para cercar um pedao e fazer um galinheiro, igual ao que minha me tinha - interveio Geni admirada. 
  - Na verdade  uma bela casa... - comentou Aristides pensativo.
  - Pai, no se preocupe com o bar. Estou ganhando bem e voc s vai trabalhar se quiser.
  - Eu gosto de trabalhar.
  - Nesse caso, vamos arranjar alguma coisa aqui por perto.
  - Est certo - concordou Aristides. - Hoje mesmo falarei com Euzbio.
  Satisfeita, Jacira levou Geni para o quarto que seria do casal:
  - Vamos comprar uma cama dessas modernas, bem grande - comentou.
  Os olhos de Geni brilhavam e ela disse:
  - Se fizermos isso vamos gastar mais porque a roupa de cama que temos no vai servir.
  - Compraremos tudo novo. Da sua cama, voc  quem vai escolher.
  Foi com entusiasmo que eles voltaram para casa e comearam a arrumar tudo para a mudana.
  Eles separaram o que iriam levar, mas Jacira, que j havia comprado tudo que precisariam, selecionou o que levariam de fato.
  Quando o caminho chegou para fazer a mudana, estava tudo pronto. Enquanto eles carregavam, Jacira deixou o pai tomando conta e foi com a me e Maria Lcia esperar 
na nova casa.
  Geni ainda no tinha visto a decorao que Jacira tinha feito e ficou muito emocionada ao entrar. Apesar de tudo, parecia-lhe impossvel que aquela casa, dali 
em diante seria a sua morada.
  Sentia-se atordoada, com medo de que de repente, tudo aquilo desaparecesse e as coisas voltassem a ser como sempre tinham sido.
  Mas Jacira, atarefada, cuidando que colocassem as coisas nos lugares certos, no percebeu. Quando eles terminaram, ela aproximou-se de Geni que disse:
  - Estou meio perdida sem saber o que fazer.
  - Seria bom que voc fosse para a cozinha preparar alguma coisa. Papai logo estar aqui e estamos com fome.
  - Tem razo. Vou ver o que tem na geladeira. O que voc quer comer?
  - Faa o que quiser. J fiz as compras.
  Geni apressou-se a ir para a cozinha e foi com prazer que abriu os armrios, onde j havia uma loua pronta para uso e algumas panelas, tudo novo.
  Nesse dia comeou para eles uma vida nova. Aristides, j nos primeiros dias, comprou o que precisava e foi cuidar do quintal. Levantava cedo, tomava caf e ia 
preparar os canteiros para plantar.
  Geni desde que se mudara, sentira prazer em arrumar a cama e colocar as almofadas que escolhera sobre os travesseiros. O banheiro, que ficava ao lado do quarto 
e que era s de uso do casal, ela tambm fazia questo de limpar.
  Geni tornara-se ativa, parecia outra pessoa. Ligava o rdio na cozinha, ouvia as notcias e as comentava com Aristides, que tambm se tornara um homem bem-humorado 
e calmo.
  Jacira sabia que Maria Lcia desejava continuar a estudar e procurou um colgio perto da casa. Explicou  diretora que a menina no cursara uma escola formal, 
fizera o ensino fundamental no pensionato.
  Maria Lcia prestou exame e pde ser matriculada no primeiro ano do ensino mdio, no perodo da tarde.
  Tudo ia bem para a famlia de Jacira. Os negcios aumentavam a cada dia. Elas estavam conseguindo pagar o emprstimo de Renato com facilidade.
  Uma noite, trs meses depois de terem se mudado, passava das onze horas da noite quando Jacira chegou em casa. Os pais j haviam se recolhido, mas a luz do quarto 
de Maria Lcia estava acesa.
  Ao passar por ele, Jacira abriu a porta e entrou. Maria Lcia estava sentada em frente  pequena escrivaninha, estudando.
  - Tudo bem, Maria Lcia?
  Ela hesitou um pouco, depois disse: 
  - No estou me sentindo bem hoje. 
  - Aconteceu alguma coisa?
  - No. Mas desde cedo estou inquieta, parece que algo ruim vai me acontecer. Sinto arrepios, vontade de chorar. No sei o que fazer.
  Jacira colocou a mo na testa dela e comentou: 
  - Febre voc no tem. Comeu alguma coisa que lhe fez mal?
  - O de sempre. Nada de novo.
  Jacira calou-se pensativa e sentiu um arrepio desagradvel percorrer-lhe o corpo.
  - Isso no  seu! - disse sria. - Vamos rezar. Sente-se aqui a meu lado.
  Sentaram-se na cama e Jacira segurou a mo de Maria Lcia:
  - Feche os olhos, pense em Deus, vamos orar: Senhor, derrama sobre ns a sua luz, envolve-nos com seu manto de proteo, abenoa-nos, esclarece nossos espritos 
e nos d a sua paz.
  Nesse instante, Maria Lcia comeou a tremer e de repente disse chorando:
  - Jacira! Ajude-me! Estou sofrendo muito!
  Jacira estremeceu e sentiu forte emoo. Procurou controlar-se e respondeu:
  - Eu no posso fazer nada, pea a ajuda de Deus. Ele  quem tem o poder de ajud-lo.
  - Ele no vai me ouvir. Eu errei muito. Fui omisso. No assumi os meus compromissos e agora me sinto perdido.
  - Seja l o que for que voc tenha feito, se est arrependido, Deus vai ajud-lo.
  - Estou arrependido, mas isso no basta. Eu preciso corrigir o erro e peo que voc me perdoe. 
  - Voc no me fez nada.
  - Eu tinha prometido ajudar nossa famlia e assim que me vi na carne, esqueci tudo, fugi.
   Jacira estremeceu e perguntou: 
  - Quem  voc?
  - Neto. Sou o Neto. Preciso de ajuda!
  Jacira surpreendeu-se e, chocada, no soube o que dizer. Nesse momento Maria Lcia estremeceu, abriu os olhos dizendo aliviada.
  - Ele j se foi.
  Vendo que Jacira no continha as lgrimas perguntou:
  - O que foi? Por que est assim?
  - Voc chegou a ver esse esprito?
  - Sim.  um homem alto, magro, moreno, testa larga, cabelos escuros, no muito velho.
  -  ele!  meu irmo! Meu Deus, ele est morto! 
  Maria Lcia abraou-a:
  - Acalme-se, no chore. Pode no ter sido ele.
  - Foi sim. Eu senti muita emoo. Por que ser que ele foi embora to de repente?
  - No sei. Mas agora estou me sentindo melhor. Aquelas sensaes desagradveis foram embora com ele.
  - Apesar de mame ainda ter esperana, ele nunca mais voltar!
  - Vai contar a ela?
  - Ainda no sei. Talvez seja melhor no lhe dizer nada. Ela sofrer muito com essa notcia.
  - Ele est mal. Alm de rezar pela sua alma, o que podemos fazer para ajud-lo?
  Jacira pensou um pouco e decidiu:
  - Vamos conversar com Ldia. O esprito de Marina tambm poder nos orientar.
  - Boa ideia. Estou assustada. Desde pequena vejo espritos, alguns elevados, outros perturbados. Mas nunca me aconteceu de eles tentarem falar por mim. Foi uma 
experincia muito forte e desagradvel. Senti-me como se eu fosse outra pessoa e, ao mesmo tempo, eu mesma, sem poder impedi-lo de falar. Foi muito estranho.
  - Voc  mdium.
  - Nunca me senti assim... Temo que possa acontecer novamente.
  - Amanh mesmo vamos procurar Ldia. Ela saber nos orientar. Est se sentindo bem agora?
  - Sim. Assim que ele se foi, tudo passou. Parece at que nunca senti nada.
  - Nesse caso, vou para o meu quarto. Mas se voc sentir alguma coisa diferente, pode me chamar.
  As duas foram dormir e apesar de estarem atentas e preocupadas com os acontecimentos, ambas deitaram-se e tiveram uma noite de sono tranquilo.
  Na manh seguinte, Jacira ligou para Ldia e contou-lhe o que tinha acontecido, finalizando:
  - No sei o que fazer. Preciso saber se era meu irmo mesmo quem se comunicou. Maria Lcia tambm est assustada. Ele sentiu-se mal e ela teme que ele volte.
  - Precisamos conversar. Esta noite, voc e Maria Lcia venham a minha casa. Faremos uma prece, pediremos ajuda espiritual. Ele as procurou e pode ser que possamos 
receber orientao tanto do esprito de Marina como do meu guia.
  - Est certo. Para mim ser melhor s oito. Est bem?
  - Combinado. Estarei as esperando.
  Jacira apressou-se a ligar para Maria Lcia e pedir-lhe que comparecesse ao ateli s sete para irem  casa de Ldia.
  Apesar de estar muito ocupada com o trabalho durante o dia inteiro, o irmo no lhe saa do pensamento. Imagens da infncia lhe ocorriam com clareza, fatos corriqueiros, 
perdidos no tempo, voltavam com riqueza de detalhes a sua lembrana.
  Jacira ficava absorta a ponto de ora Margarida, ora Ester ter de cham-la  realidade.
  - Voc est longe! - disse Ester.
  - Parece estar em outro mundo! - brincou Margarida.
  Jacira colocou-as a par do que havia acontecido, e Ester considerou
  - O que aconteceu com Maria Lcia no foi surpresa para mim. Essa menina  muito madura para sua idade. Tenho comigo que  um esprito muito evoludo.
  - Sabe que  verdade? Ela deu um jeito em Geni, de uma maneira magistral e inesperada. Sua me mudou muito desde que Maria Lcia foi morar com vocs.
  - Desde que a conheci, notei que ela era muito especial e mais evoluda do que o comum. Mas  exatamente por essa razo que estou preocupada. Esse esprito, que 
pode ser mesmo o Neto, est sofrendo, reconhece que agiu errado. Como  que ele teve poder de envolv-la contra sua vontade? - indagou Jacira.
  - No sei. Talvez ele tenha tido permisso para entrar em contato com voc e essa tenha sido a forma que encontrou para chamar sua ateno - sugeriu Ester.
  -  uma hiptese - concordou Jacira.
  - Alm de conversar com Ldia por que voc no conversa com dr. Villares? Ele conhece tudo sobre mediunidade. Garanto que vai lhe dar uma boa explicao para o 
fato.
  -  uma boa sugesto. Alis, agora que minha vida est mais calma e organizada, tenho pensado em voltar a frequentar seus cursos e levar Maria Lcia.
  - Se voc for, vou junto - disse Margarida. - Nunca  tarde para aprender a viver melhor.
  As trs continuaram conversando um pouco mais at que Dorival chegou e aproximou-se sorridente:
  - O que vocs esto tramando desta vez? 
  Sempre bem-humorado, sua chegada era comemorada com alegria.
  - L vem voc para nos cobrar tudo - disse Ester.
  Foi a vez de Jacira dizer:
  - Ele tem prazer de nos fazer entender toda a burocracia das leis do nosso pas!
  -  o jeito para manter uma empresa em ordem, sem problema com a fiscalizao - tornou ele satisfeito.
  - Reconheo que voc tem trabalhado bem - lembrou Ester - reconhecemos seus esforos. Voc lida to bem com os documentos que ns, pobres mulheres ocupadas, no 
precisamos cansar nossa cabea com essas barbaridades.
  Eles riram e Margarida lembrou-se de que estava na hora do caf e convidou-os a acompanh-la at a copa, onde havia um delicioso bolo que ela fizera, antes do 
incio do expediente. 
  Os olhos de Dorival brilhavam de prazer ao dizer: 
  - Tudo que sai das mos de Margarida  delicioso. Vamos experimentar essa maravilha. 
  Jacira trocou um olhar malicioso com Ester enquanto se encaminhavam para a copa.
  Elas tinham notado que nos ltimos tempos, Dorival, a pretexto de que Marta adorava brincar com Marinho, aparecia no ateli com a filha e enquanto ela se entretinha 
com o menino, ele ficava conversando com Margarida.
  Tinham observado tambm que Margarida mostrava-se mais alegre, ia ao cabeleireiro uma vez por semana, vestia-se mais na moda e emagrecera, tornando-se mais elegante.
  Enquanto tomavam caf e comiam bolo, elas discretamente notaram a troca de olhares entre os dois. Mas Margarida no mencionara o assunto e as duas, por sua vez, 
abstiveram-se de mencion-lo.
  Elas gostavam de Margarida e torciam para que ela encontrasse algum com quem pudesse refazer sua vida. Apreciavam Dorival, mas no quiseram comentar o assunto 
com ela. Margarida vivia repetindo que estava muito bem assim, no queria perder a liberdade, nem arrumar um padrasto para o filho.
  Por esse motivo, Jacira e Ester decidiram esperar e ver o que aconteceria. O interesse dele estava claro e ela dava sinais de que notara que estava sendo admirada. 
As duas, quando sozinhas, comentavam, torcendo para que ele se declarasse logo, ansiosas para saber o que Margarida lhe responderia.
  Jacira e Ester tomaram logo o caf e saram, deixando-os a ss.
  - Ele parecia muito entusiasmado. Ser que vai ser hoje? - perguntou Jacira sorrindo.
  - Espero que sim. Vamos torcer.
  Cada uma retomou suas atividades, mas mantinham o pensamento voltado aos dois.
  O que elas esperavam no aconteceu. Depois de uma hora, Dorival foi embora com a filha e tudo voltou ao normal.
  Faltavam quinze minutos para as oito quando Jacira e Maria Lcia chegaram  casa de Ldia, onde foram recebidas com o carinho de sempre.
  Sentadas na sala, Ldia ouviu Maria Lcia falar sobre o ocorrido e quando ela terminou observou:
  - Eu sabia que sua sensibilidade iria abrir-se mais, e  hora de voc buscar uma ligao mais forte com seu guia espiritual.
  - Mas eu no sei quem ele !
  - Mesmo assim ele est ao seu lado. Conforme voc for pensando nele, pedindo sua inspirao, mais abrir a porta para que ele se manifeste.
  - Mas eu gostaria de saber seu nome, quem foi ele na ltima encarnao.
  - No  por a. Os espritos superiores s falam o que  mais til para voc. Conhecer quem eles foram ou o que fizeram neste mundo, no vai acrescentar nada ao 
seu progresso espiritual. Eles so discretos. J os menos evoludos mentem descaradamente. Adoram falar sobre sua vida passada, ou mesmo da vida de quem os est 
ouvindo, usando nomes famosos, zombando da boa f e da credulidade dos ingnuos.
  - Nesse caso no d para acreditar no que eles dizem - interveio Jacira. - Como vamos saber se estamos falando com um esprito de luz?
  - Os espritos evoludos transmitem energias elevadas, no se prestam a atender a curiosidade das pessoas. Depois, o bom senso nos manda analisar com inteligncia 
o que eles nos dizem e s aceitar o que  bom.
  - Lembra-se do Nelson? Certa vez ele me contou que um amigo dele encontrou a mulher com outro e ficou desesperado. Era muito apaixonado por ela e mesmo tendo sido 
trado no se conformava em perd-la. Procurou um Centro Esprita e lhe disseram que isso tinha lhe acontecido porque em outra vida ele havia sido muito mulherengo 
e feito sofrer muitas mulheres e estava sendo castigado. Aconselharam-no a perdo-la.
  - O conselho foi bom. O perdo  sempre melhor do que a vingana. Mas Deus no castiga ningum. As pessoas gostam de justificar suas fraquezas, culpando a vida 
pelos seus desacertos, quando, na verdade, esse amigo do Nelson colheu o resultado do que fez. Se agora a vida colocou no caminho dele uma mulher com a mesma fraqueza, 
foi para que ele experimentasse a mesma infelicidade que provocou nos outros e para que aprendesse a controlar melhor suas sensaes.
  - Quer dizer que a culpa da traio foi dele? - indagou Maria Lcia admirada.
  - No se trata de saber de quem foi a culpa. Quem usa os outros em proveito prprio, apenas para satisfazer suas sensaes, indiferente ao sofrimento que pode 
estar provocando, est mostrando a necessidade de passar pelo mesmo processo para aprender.
  - E, como estamos aqui para amadurecer, colhemos os resultados de nossas escolhas! - exclamou Maria Lcia.
  - Isso mesmo. Voc v os espritos desde pequena, o que revela que sua sensibilidade  natural. At h pouco tempo, mesmo tendo passado por tantos problemas nesta 
vida, mantinha-se equilibrada - tornou Ldia.
  - Sempre senti a presena de espritos de luz que me protegem, e, apesar de ver ao lado de outras pessoas espritos sofredores, eles nunca me afetaram. Mas h 
alguns dias eu estava me sentindo inquieta. Percebia um vulto rondando meus passos, mas no
conseguia ver-lhe o rosto. Ento, comecei a passar mal. Tentei reagir, mas ele aproximou-se e perdi o controle. Eu estava ouvindo o que minha boca falava, mas no 
conseguia parar. Foi horrvel.
  - Ele pediu ajuda dizendo que errou muito, est arrependido e sofrendo. No fim, deu o nome de meu irmo mais velho que foi embora de casa e, h muito tempo no 
dava notcias - explicou Jacira. - Fiquei chocada. Quando me acalmei um pouco e ia conversar mais, ele foi embora. Acha foi ele mesmo quem deu a comunicao?
  -  o mais provvel - esclareceu Ldia.
  - Eu quero que ele volte para conversar. No sei o que fazer, se falo com mame ou no. Ela espera que um dia ele volte...
  - Tenha calma.  melhor esperar um pouco mais para conversar com Geni. Com relao e ele, o que podemos fazer  procurar a orientao dos espritos amigos e saber 
como auxili-lo. O que aconteceu com voc, Maria Lcia, foi um fenmeno de incorporao. Eu sugiro que faamos alguns testes prticos de mediunidade para saber se 
foi uma manifestao espordica ou no.
  - Voc acha que esse fato poder repetir-se? - indagou Jacira preocupada.
  -  o que precisamos descobrir. No se preocupe, Jacira. Estela tem essa mediunidade, aprendeu a control-la, e est muito bem.
  - O que posso fazer para isso? Eu no quero mais sentir o que senti.
  - Eu e Estela nos reunimos uma vez por semana para estudarmos e entrar em contato com os espritos.
  - No  perigoso? - indagou Jacira.
  - Ns estamos protegidas por espritos amigos que nos ensinam o que fazer para nos mantermos equilibrados.
  - Ernesto me ensinou o quanto  importante controlar nossos pensamentos, ficar no bem para mantermos nosso bem-estar.
  -  isso mesmo, Jacira. Voc agora disse tudo. Nosso equilbrio espiritual e fsico, passa pelo nosso emocional. Quando aprendemos a tomar conta dos nossos excessos, 
disciplinamos nossas emoes, cultivamos o bem, nossa vida se transforma para melhor.
  - Com Ernesto aprendi a ser mais positiva, a acreditar que podia e merecia viver melhor, desde ento minha vida mudou. Voc tem razo ao dizer que somos ns que 
escolhemos onde queremos estar. Quem escolhe o bem, fica bem. Eu tambm quero vir todas as semanas com Maria Lcia para aprender mais sobre a vida espiritual.
  - Vai ser muito bom estudarmos juntas. O esprito de Marina est me dizendo que vai participar dos nossos encontros.
  - Pergunte a ela se  verdade que meu irmo morreu mesmo e se foi ele quem se comunicou.
  - Ela disse que foi ele mesmo e que oportunamente voltar ao assunto.
  Os olhos de Jacira marejaram. Ela desejava saber mais detalhes, mas controlou-se. Disse apenas:
  - A presena dela tem me ajudado muito, estou certa de que far o que puder por ele. Eu rezo sempre agradecendo a Deus por ela estar no meu caminho.
- Ento est combinado. Todas as quartas-feiras, s oito, nos reuniremos para estudarmos.
  Durante o trajeto de volta para casa, Jacira no podia esquecer o irmo. No comentou nada com Maria Lcia, tentando demonstrar calma, porm as mais diferentes 
suposies apareciam em sua mente e ela tentava imaginar qual delas teria de fato acontecido.
  Foi para o quarto,. mas estava sem sono. Como ele teria morrido? Se foi por doena, por que ele no procurou a famlia para pedir ajuda? Neto tinha morrido, mas 
e Jair, onde estaria? Por que no se lembrava da famlia?
  No podia esperar mais pela volta de Neto, mas se pelo menos Jair voltasse, Geni ficaria mais feliz.
  Apesar de ela estar mais disposta, trabalhando sem reclamar, arrumando-se melhor, seu relacionamento com o marido ter se tornado mais cordial, Jacira notava que 
de vez em quando ela ficava pensativa, triste, com os olhos perdidos em um ponto distante e sabia que ela estava se lembrando dos filhos ausentes.
  Sentou-se na cama, fechou os olhos e lembrou-se do esprito de Marina. Orou fervorosamente pedindo a ela que a auxiliasse a encontrar Jair. Pela primeira vez depois 
que os irmos foram embora, ela arrependeu-se de nunca ter tentado encontr-los.
  Se eles tinham abandonado a famlia, sido ingratos com os pais, ela tambm fora omissa, uma vez que aceitara a situao conformando-se com o abandono sem nunca 
haver se interessado em responder suas cartas nas poucas vezes que escreveram.
  Apesar de reconhecer a falha, no se recriminava. Naquele tempo, ela tambm estava alheia, mergulhada na iluso, alimentando as crenas falsas que tinha aprendido, 
julgando-se incapaz, pobre, fraca, ignorando todas as coisas boas que j possua, sem saber que poderia conseguir mais.
  Mas agora, era diferente. Ela sabia que podia confiar em sua fora, em sua capacidade de aprender e progredir. Reconhecia que com Deus no corao, esforando-se 
para fazer sua parte com capricho, a vida iria lhe dar o melhor.
  Lembrou-se de Jair com carinho. Era com ele que ela se dava melhor. Sentira-se muito s depois que ele tambm foi embora. Jair tinha sido uma criana muito alegre 
e o nico na famlia que tinha pensamentos mais positivos.
  Pensou nele com carinho e firmou o propsito de fazer tudo que pudesse para encontr-lo. No dia seguinte, conversaria com Geni para saber se ela teria guardado 
as duas cartas que ele havia mandado.
  Deitou-se, mas apesar de haver tomado essa resoluo, demorou para dormir.
  Na manh seguinte, ao encontrar-se com Geni na copa, enquanto tomavam caf, Jacira tornou:
  - Nos ltimos dias tenho pensado em Jair. Ser que ele ainda est morando no Sul?
  O rosto de Geni entristeceu quando ela respondeu:
  - Como poderemos saber? Aquele ingrato nos esqueceu. Faz tempo que no manda nenhuma carta. Mas agora, mesmo que ele quisesse, no tem mais nosso endereo. Por 
esse motivo  que eu no queria sair daquela casa.
  Jacira ficou pensativa durante alguns segundos, depois perguntou:
  - Voc ainda tem a ltima carta dele? - Tenho. Por qu?
  - Ele escreveu, mas nunca respondemos. Talvez seja por esse motivo que ele deixou de nos escrever.
   Geni suspirou triste:
  - Pode ser. Eu tive vontade de responder, mas seu pai estava muito sentido por eles terem nos abandonado e me proibiu.
  - Antes eu tambm pensava dessa forma, mas hoje mudei de ideia. Quero escrever para ele.
   Geni olhou em volta, depois disse baixinho: 
  - No vai adiantar.
  - Por qu?
  - H uns dois anos, mais ou menos, escondido de vocs eu escrevi para ele falando que estava com saudades, pedindo que viesse nos ver e se no pudesse que nos 
escrevesse dizendo como estava. Mas, nunca recebi resposta. Talvez ele tenha se mudado e no tenha recebido minha carta. 
  - Pode ser, me, mas eu gostaria de tentar. Pode dar-me a carta dele?
  Os olhos de Geni brilhavam quando ela se levantou e respondeu:
  - Vou buscar.
  Ela saiu e voltou alguns minutos depois com uma caixa nas mos. Entregou-a para Jacira dizendo:
  - Aqui est tudo que nos restou deles.
  Jacira abriu a caixa e logo viu que a primeira era de Neto. Sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e procurou controlar a emoo.
  Vendo que ela pegou o envelope e colocou-o de lado segurando a que era de Jair, Geni indagou:
  - E o Neto, voc no vai escrever para ele tambm?
  - Vamos ver. Voc escreveu para ele tambm?
  - Sim, mas tambm no obtive resposta.
  Jacira apanhou a carta de Neto, notou que fora escrita h mais de quinze anos. Ele contava que estava trabalhando em um hotel onde o salrio era pequeno, mas, 
somado s gorjetas, estava vivendo melhor do que quando morava com a famlia. Havia mais uma carta que ele enviara dois anos depois, pedindo notcias de todos e 
dizendo que estava bem.
  Jair tinha mandado trs cartas. Na primeira comentava que estava adorando Porto Alegre, fazendo boas amizades e trabalhando no escritrio de uma empresa. A segunda 
era parecida com a primeira e a ltima datada de dez anos antes informava que estava se preparando para prestar exame em uma faculdade. Pedia notcias de todos e 
tambm que torcessem para ele passar no vestibular.
  Jacira colocou as cartas na caixa. O tempo tinha passado e ela no sabia o que fazer para ter notcias. Com receio de que Jacira desistisse de procur-los, Geni 
interveio:
  - Ns temos o nome do hotel no Rio de Janeiro onde o Neto trabalhou. Mesmo ele no estando mais l, talvez eles possam nos dar algumas informaes.
  - Talvez. Assim que eu puder irei at esse hotel. Mas e Jair? Na ltima carta estava entusiasmado, prestando vestibular. Por que no nos escreveu contando se passou?
  - Vai ver que no conseguiu e desanimou.
  - No creio. Esse era um sonho dele desde pequeno. Se ao menos ele tivesse dito em que faculdade era esse exame, talvez pudssemos encontr-lo.
  - Se ele tivesse passado no exame, seja qual for a carreira, teria se formado. Se isso tivesse ocorrido, ele teria nos escrito.
  Jacira suspirou pensativa. Geni tinha razo. Jair teria tambm morrido como Neto? A esse pensamento, sentiu um aperto no peito. Um j tinha partido, seria tarde 
demais para encontrar o outro?
  Percebendo o olhar triste e preocupado de Geni, Jacira dissimulou a preocupao e disse sorrindo:
  - Vou pensar em um jeito de procur-los.
  Geni segurou as mos dela dizendo com voz splice:
  - Pode no ser fcil, mas, filha, por favor, no desista.
  - No vou desistir. S preciso descobrir como iniciar essa busca. Preciso ir trabalhar. Depois conversaremos.
  Pouco depois de Jacira sair, Geni ficou conversando com Maria Lcia, falando de quando os filhos eram pequenos e de sua saudade. Ouvindo-a Maria Lcia lembrou-se 
da me, uma onda de tristeza a envolveu e ela comeou a chorar desesperada.
  Assustada, Geni exclamou:
  - Por que est chorando dessa maneira? Est se sentindo mal?
  De repente, Maria Lucia levantou-se, olhos muito abertos e disse com voz lamentosa:
  - Voc se lamenta sem razo. Se eles foram embora a culpa foi sua. Voc no soube ser uma boa me.  Mas eu nada fiz para ser to castigada. Fui uma boa me. Dei-lhe 
todo meu amor e assim mesmo a vida nos separou.
  Geni observava assustada. A expresso do rosto de Maria Lcia, que estava sempre calma, havia se transformado. Em seus olhos fixos havia um brilho de indignao 
e ela continuou quase gritando:
  - De que adiantou ter me sacrificado tanto? Por amor a ela esqueci de mim mesma. Fiz tudo para fazer o bem, mas no valeu nada. No momento em que ela mais precisava 
de mim ele me tirou dela. E agora, ainda tenho de suportar a perseguio dele me pedindo perdo. No adianta rezarem por ele. No vou perdo-lo. No vou mesmo!
  Geni tremia sem saber o que fazer. Pensou em sair em busca de ajuda, mas ao mesmo tempo no tinha coragem de deix-la sozinha.
  Apesar de nervosa, Geni resolveu rezar. Certa vez, ainda criana, ela tinha visto um rapaz fazer uma cena parecida e a me dissera que era uma alma do outro mundo, 
pedira a todos que rezassem para ela ir embora.
  Geni comeou a rezar, embora seu nervosismo no lhe permitisse sentir as palavras que dizia, aos poucos Maria Lcia foi se acalmando. Geni sentiu-se mais calma 
e continuou rezando.
  Maria Lcia fechou os olhos e calou-se durante alguns minutos. Depois disse com voz suave:
  - Obrigada por nos ter auxiliado com suas preces. Que Deus a abenoe.
  Suspirou, abriu os olhos e Geni no se conteve: 
  - Voc est bem?
  - Ainda estou muito emocionada com a presena de minha me e com o que ela disse. Eu no sabia que estava to revoltada.
  - A alma de sua me esteve aqui e voc diz isso com essa calma? Eu estou muito assustada.
  - No tenha medo, d. Geni. Eu tenho mediunidade. Desde pequena eu vejo os espritos.
  - As freiras sabiam disso?
  - A madre superiora sabia. Mas l eu s os via. Agora eles esto querendo falar com as pessoas atravs de mim. Foi a primeira vez que vi minha me depois que ela 
partiu. Eles no me deixaram v-la antes para no me preocupar.
  - Jacira sabe disso?
  - Sabe. Ns fomos conversar com a d. Ldia. Ela tambm v e ouve os espritos. Estela tambm  mdium.
  - Por que no me contaram nada?
  - No sei. Mas a senhora soube o que fazer. Ajudou muito.
  - Eu nunca pensei muito nesse assunto, mas depois do que aconteceu acho que chegou a hora de pensar.
  - Dona Ldia emprestou-me dois livros. O Livro dos Espritos para estudar, e um romance.
  - No sabia que existiam livros de estudos sobre esse assunto.
  - Existem, sim. Esse que estou lendo conta o resultado das pesquisas de um professor francs que comprovou a comunicao dos espritos.
  - Sempre pensei que espiritismo fosse coisa de gente sem instruo.
  - A senhora est enganada. H muitos pesquisadores srios que se empenharam em pesquisar os fenmenos paranormais. Eles dizem que a sensibilidade, que alguns chamam 
de sexto sentido,  natural em todo ser humano e no tem nada a ver com religio.
  - Nunca ouvi ningum dizer isso! Estou admirada.
  - Eu estou feliz de poder estudar esse livro que explica o que est acontecendo comigo e ensina a usar minha sensibilidade de maneira adequada.
  - Hoje, quando Jacira chegar, ela vai ter de me explicar direitinho porque nunca me disse nada a respeito.
  - Ns combinamos ir uma vez por semana na casa de d. Ldia para estudarmos e fazermos alguns testes prticos.
  Geni pensou um pouco, depois respondeu: 
  - Acho que vou tambm.
  - V mesmo. O que aconteceu hoje talvez tenha sido para que a senhora comece a estudar a espiritualidade.
  - No exagere. Eu quero apenas me informar, no me envolver com as almas do outro mundo.
  - Todos ns estamos envolvidos com os que partiram deste mundo, mesmo quando no lhes percebemos a presena. Eles esto a nossa volta o tempo todo.
  Aristides entrou na cozinha trazendo um vioso mao de cheiro-verde. Seus olhos brilhavam de prazer quando o entregou a Geni dizendo:
  - Veja o que eu consegui. Voc nunca compraria um mao de cheiro-verde to lindo e cheiroso como este!
  - Est maravilhoso. Vou passar um caf bem gostoso. Voc merece.
  O ambiente estava calmo, os trs serenos e alegres, muito diferente da cena que as duas tinham vivido momentos antes.
   noite, assim que Jacira entrou em casa, Geni contou-lhe a novidade e finalizou:
  - Voc sabia de tudo. Por que nunca me contou nada?
  - Nunca conversamos a respeito. Eu no sabia que se interessaria.
  - Bom... De fato... Nunca me interessei mesmo. Mas  que eu nunca tinha visto nada. Voc precisava ver como o rosto de Maria Lcia mudou. Parecia mais velha, a 
voz, apesar de mais grossa, era forte, muito diferente dela. Fiquei assustada, com medo, senti arrepios, mas quando rezei e percebi que ela estava se acalmando, 
senti-me forte.
  - Voc sentiu que agiu de maneira certa.
  - Foi. Mas por que ser que o esprito dela estava to revoltado? Falou que estava sendo perseguida por ele. Quem seria?
  - Talvez no tenha sido fcil para a me dela partir e deixar a filha to jovem sozinha no mundo. No sei quem a estaria perseguindo. Na quarta-feira faremos uma 
sesso com Ldia, talvez possamos descobrir alguma coisa.
  - Eu quero ir com vocs.
  - Est bem. Estou bastante interessada em estudar esses fenmenos.
  - Voc interessou-se por esse assunto por causa de Maria Lcia?
  - No, me. Aconteceram comigo algumas coisas que me deram a certeza de que a vida continua depois da morte do nosso corpo.
- Aconteceu com voc o mesmo que com ela?
  - No. As pessoas so diferentes. Eu tive algumas experincias durante o sono.
  - Como  isso?
  - Quando estou dormindo, meu esprito sai do corpo e vai para outra dimenso.
  Geni abriu a boca, fechou-a novamente sem encontrar palavras que expressassem sua surpresa. Jacira sorriu e continuou:
  -  verdade, me. Nesses momentos, eu encontro o esprito de uma mulher que me protege. Conversamos, ela me leva para outros lugares onde vivem os que morreram.
  Geni meneou a cabea negativamente:
  - Como pode ser isso? Voc sonha, e os sonhos so sempre confusos?
  - Tem razo. Os sonhos podem expressar nossas preocupaes e mostrar problemas que normalmente no queremos enxergar. Mas esses que estou falando, so especiais. 
As energias so muito fortes, h um prazer muito grande que no d para traduzir em palavras. Eu tive aulas com o dr. Ernesto, um especialista no assunto, que me 
explicou o processo. No d para confundir com o sonho comum. As impresses so to fortes que nunca mais as esquecemos. Quando estamos l, no d vontade de voltar.
  - Estou pasma! Voc passou por tudo isso e nunca me disse nada? Acho que eu nunca conheci voc, est parecendo outra pessoa!
  - Mas continuo sendo eu mesma. H coisas que so to ntimas, to importantes, que preferimos guardar no corao. Mas comeo a pensar que est chegando o momento 
de compartilhar mais essa descobertas com vocs.
  Ela ficou calada durante alguns segundos, segurou a mo de Geni fazendo-a sentar-se ao seu lado no sof. Notando que ela a observava com ateno continuou:
  - Nossa vida comeou a mudar depois que o esprito de Marina conversou comigo pela primeira vez. Ela levou-me a um lugar maravilhoso e ensinou-me a enxergar a 
vida de outra forma. Com ela, aprendi que somos ns quem escolhemos nosso caminho e que colhemos o resultado de nossas escolhas.
  Notando que Maria Lcia estava parada do lado, atenta  conversa, pediu-lhe que se sentasse tambm e contou-lhe detalhadamente tudo quanto lhe acontecera.
  No omitiu o namoro com Nelson nem os motivos pelos quais rompera com ele.
  As duas ouviram com interesse enquanto Jacira, com suavidade, discorria sobre suas emoes e sentimentos. Aquele foi um momento mgico de cumplicidade e ternura 
que elas nunca tinham desfrutado.
  Elas no puderam perceber, mas o esprito de Marina estava l, derramando sobre elas energias de amor e de carinho.

    XIV
  Passava das dez quando Jacira chegou em casa. Encontrou Geni na sala e notou logo que ela estava com fisionomia preocupada.
  - Voc no me parece bem. Aconteceu alguma coisa?
  - Nada demais.  que de repente me deu uma tristeza... No sei por qu.
  - Cuidado com a recada. Quer voltar a ser como antes?
  - No tenho nenhum motivo para reclamar nem para me sentir triste.
  - Mas voc no se esquece do Neto nem do Jair.
  -So meus filhos. Sinto saudades. No d para esquec-los. Se voc tivesse filhos saberia o que estou sentindo.
  Jacira colocou a mo no brao dela e respondeu com voz suave:
  - Eu entendo. Tenho me esforado para descobrir o paradeiro deles, mas no consegui nada.
  - Faz dois meses que estamos indo s sesses na casa de Ldia. Maria Lcia tem estado bem.
  - Ldia nos disse que a me dela foi socorrida e levada para onde deve ficar.
  - Estela tem recebido mensagens dos mentores que nos ensinam a ficar bem. Garantem que tudo que a vida  para o melhor. Mas para mim est difcil aceitar isso 
- tornou Geni.
  -Por qu?
  - Tenho rezado, procurado fazer o meu melhor, mas no tenho conseguido nada.
  - No diga isso. Deus tem sido generoso com todos ns. Temos sade, trabalho, vivemos com conforto, nada nos falta.
  - Apesar de tudo isso que voc diz, eu tenho me perguntado: Por que estou sendo to castigada? Por que no posso ter notcias do meus filhos? O que eu fiz para 
que eles me abandonassem e esquecessem?
  Jacira abraou-a com carinho e respondeu:
  - A pergunta certa seria: O que a vida quer me ensinar com isso? Qual  a lio que preciso aprender para que eles voltem a meu convvio?
  Geni fixou-a admirada e respondeu:
  - Essa situao no me ensina nada. S me deixa  triste e magoada.
  -  voc que se magoa com a atitude deles. Cultivar a mgoa e a revolta no vai traz-los de volta. Por que voc no tenta pensar neles com amor e desejar que 
eles, onde estiverem, fiquem bem?
  - Como toda me, eu os quero aqui, ao meu lado.
  Jacira ficou pensativa por alguns instantes, depois respondeu:
  - Voc no precisa ser como "toda me". Talvez seja esse o motivo de eles terem ido embora.
  - Como assim?
  - Eu sei que voc os ama, mas ao entrar no "papel" de me, acreditou que deveria fazer tudo para eles. Pelo que me lembro, voc era muito apegada, controlava at 
o que eles pensavam.
  - Eu queria o bem deles. Tinha que cuidar para que no se desviassem do caminho certo.
    - Voc controlou tanto que eles acabaram indo embora.
  - Voc est exagerando.
  - Voc fazia isso comigo tambm. Muitas vezes tive vontade de ir embora.
  - Voc no faria isso! Voc no!
  - A presso que voc fazia sobre mim era muito grande. Foi por esse motivo que eles se foram.
  - Voc est me culpando pela ingratido deles? 
  - No a estou culpando. Voc queria saber por que eles nos deixaram.
  - Est justificando a atitude deles. Acha certo no darem notcias?
  - No. Eu gostaria muito que tudo fosse diferente. Mas entendo que se eles no nos procuraram mais foi porque no criamos com eles um vnculo de amizade.
  - No concordo. Ns somos uma famlia. Eles deveriam nos respeitar. Nasceram de mim. Eu os criei, perdi noites de sono, fiz o que pude para que crescessem com 
sade. Acho que merecia ser respeitada.
  - Mas as coisas no funcionam assim. Voc se esquece de que ns somos espritos encarnados. J vivemos outras vidas, trazemos necessidades a serem atendidas e 
potenciais a serem desenvolvidos que vo alm dos costumes e dos modismos da sociedade.
  A voz de Jacira estava um pouco diferente, ela falava com suavidade e ao mesmo tempo com firmeza. Geni no percebeu que o esprito de Marina, falava atravs dela. 
Sentia-se mexida, emocionada. Jacira continuou:
  - Quando Deus rene espritos na Terra formando uma famlia, o faz visando o bem de todos. Alguns vm para vencer assuntos mal resolvidos de outras vidas, mas 
todos, sem distino, reencarnam para desenvolver o autoconhecimento e aprender como a vida funciona.
  - Quer dizer que todos ns j vivemos outras vidas antes dessa?
  - Voc j sabe que  assim.
  - Sei, mas como poderia saber o que eles precisavam? Fiz o que pensei ser melhor. Est me culpando por t-los amado demais?
  - Eu no disse isso. Acontece que ao nascer, cada pessoa traz um plano de vida que, se for cumprido, vai faz-la dar um passo  frente, ser mais feliz. O problema 
 que voc, como a maioria dos pais, tendo esquecido o que aconteceu em outras vidas, deixou-se envolver pelas convenes do mundo e confundiu as coisas. Achou que 
sabia o que era melhor para eles sem respeitar a vocao que trouxeram e acabou dificultando o progresso que eles vieram buscar.
  Geni ficou pensativa. Ela nunca tinha pensado nisso. Lembrou-se de que muitas vezes se forava para ser durona com eles acreditando que seria para o bem. Comeava 
a pensar que estava errada.
  - Acho que fiz tudo errado...
  - No se condene. Voc fez s o que pensou ser o melhor naquela poca. Mas agora voc j sabe mais e poder agir de maneira diferente.
  - Do que vai adiantar? Eles no vo voltar mesmo...
  - Pense no que conversamos. Jogue fora suas mgoas. Sinta o amor que mora em seu corao e quando se lembrar deles, abrace-os com carinho, como se estivessem aqui. 
Vai se sentir muito bem. Onde eles estiverem sentiro o seu amor.
  As lgrimas desciam pelas faces de Geni que no conseguia control-las.
  Jacira abraou-a dizendo com carinho: 
  - Deus a abenoe.
  Permaneceram abraadas enquanto Geni soluava compulsivamente. Jacira sentiu que fora o esprito de Marina quem estivera conversando atravs dela e, emocionada, 
agradeceu em pensamento.
  Geni se acalmou e disse sem jeito:
  - No sei o que me de. No pude controlar-me.
  -  bom desabafar de vez em quando.
  - Estou envergonhada.
  Jacira sorriu disse:
  - Deveria sentir vergonha do tempo em que se fazia de vtima. Hoje voc expressou um sentimento verdadeiro e merece respeito.
  Geni suspirou, apanhou um leno de papel, enxugou o rosto um tanto corado pela emoo e disse:
  - O que  eu mais quero neste mundo  que os meninos voltem para casa.  s o que falta para que sejamos completamente felizes.
  - No podemos perder as esperanas. Ldia garante que eles vo dar notcias.
  - Espero que ela esteja certa.
  - Eu confio no que ela diz. Estou cansada. Vou subir, tomar um banho e dormir.
  - Seu pai ainda est vendo televiso, mas eu vou para o quarto rezar e pedir para que Deus os traga de volta.
  - Deus sabe o que precisamos e atender na hora certa. Pense neles, sinta o quanto os ama e imagine que os est abraando. Eles recebero suas energias onde estiverem.
  Quando Jacira deitou-se, lembrando-se das palavras de Marina, mentalizou os irmos. Primeiro imaginou que estava abraando Neto e lhe mandando vibraes de carinho 
e alegria, depois abraou Jair enviando-lhe pensamentos de carinho, pedindo-lhe que desse notcias.
  Quando terminou, ouviu perfeitamente a voz de Marina dizendo:
  -Faa isso toas as noites enquanto espera.
  Jacira agradeceu a ajuda que recebera e deitou-se. Em alguns minutos adormeceu tranquilamente.
  Quinze dias depois, quando Jacira chegou ao ateli, encontrou Margarina a sua espera: 
  - Ainda bem que chegou. No agentava mais esperar.
  - Cheguei no mesmo horrio de sempre. Aconteceu alguma coisa?
  Margarida segurou-a pelo brao e f-la sentar-se ao seu lado no sof:
  - Aconteceu, sim. Ontem  noite, depois que todos saram, o Dorival apareceu de surpresa. Veio falar comigo.
  - Ser que  o que estou pensando? Finalmente ele se declarou?
  - Como assim? Voc percebeu?
  - O brilho dos olhos dele quando a via, os elogios...
  - De fato. H algum tempo eu percebia que ele estava interessado, mas eu no queria me iludir. Uma vez na vida foi o bastante.
  - Mas voc tambm est interessada nele.
  - No sei at que ponto. Quando ele est aqui,fico tensa, sinto muito a sua presena. Tenho procurado resistir, mas quando ele chega, fico eufrica.
  Jacira riu bem-humorada: 
  - Confesse que voc est apaixonada! 
  - No. Eu no quero.
  - Mas seu corao diz o contrrio.
  - H momentos em que fica difcil de resistir. No quero me iludir e sofrer de novo.
  - Ele a pediu em namoro? 
  - Ele quer se casar comigo.
  Jacira bateu palmas com alegria:
  - Casamento? Que maravilha! Naturalmente voc aceitou.
  - Ainda no lhe dei a resposta. Tenho medo.
  - De qu? Dorival  um homem maduro, inteligente, instrudo, bom pai, carinhoso, honesto, alm disso, vivo. Voc estima Marta como uma filha, ela e Marinho se 
adoram. O que est esperando para dizer sim?
  - Voc acha mesmo?
  - Acho. Se voc gosta mesmo dele, no h razo nenhuma para recusar. Penso quero muito felizes juntos.
  Margarida abraou-a radiante.
  -Prezo muito sua opinio. Voc  minha melhor amiga. Depois que nos conhecemos minha vida se transformou. Nunca poderei retribuir o que fez por mim.
  - Na verdade, voc fez muito mais por mim do que eu por voc. Somos mais do que irms.
  Ester chegou, elas lhe contaram a novidade e ela considerou:
  - Eu sabia que ele no ia demorar a se declarar. Finalmente! Agora s resta correr os papis e marcar a data.
  - E eu que pensava que estava sendo discreta... Que vocs no haviam notado nada...
  As duas abraaram Margarida ao mesmo tempo com carinho e alegria.
  Quando Marinho chegou do colgio, Margarida conversou com ele sobre o pedido de casamento e finalizou:
  - Sua opinio  muito importante para mim. Acha que devemos aceitar?
  - Eu sempre quis ter um pai. No colgio todos os meus amigos tm pai, eles vo l quando tem festa. Se voc se casar, ele vai ser meu pai?
  - Vai. Ele gosta muito de voc. 
  - Eu tambm gosto dele.
  Marinho beijou a face da me e continuou alegre: 
  - Eu agora tenho um pai! No sou mais rfo.
  Os olhos de Margarida marejaram e ela o abraou feliz.
  - Marta vai ser minha irm! Que bom! Ns vamos morar juntos na mesma casa?
  - Certamente. Seremos uma famlia completa. 
  - No vejo a hora que esse casamento saia!
  Margarida ligou para Dorival convidando-o para ir  noite conversar sobre o pedido:
  - Estou ansioso. No pode me adiantar o que decidiu?
  Ela fez uma pausa, depois disse:
  - Estou pensando em aceitar.
  - Voc no sabe como me faz feliz! 
  - Precisamos conversar.
  - Pode esperar.
  Uma hora depois, Dorival apareceu no ateli, com Marta e um buqu de rosas. Vendo-o chegar, Margarida, apanhada de surpresa, corou de emoo:
  - Eu o esperava  noite!
  Ele beijou-a levemente na face, entregou-lhe as flores dizendo:
  - No aguentei esperar! Ontem ao chegar em casa falei com Marta que ficou muito feliz com a notcia! Queria que voc soubesse.
  Jacira abraou os recm-chegados, felicitando-os pelo compromisso, e sugeriu:
  - Por que no vo conversar l em cima? Vocs tm muito que planejar.
  -  verdade. Quero casar o mais breve possvel. Ns no somos jovens, temos uma posio definida, no h por que esperar.
  Eles subiram e Jacira acompanhou-os com o olhar. Ela tambm gostaria de encontrar um amor. Desejava sentir essa emoo maravilhosa que causa tanto prazer. Seu 
relacionamento com Nelson no lhe proporcionara esse sentimento.
  Reconhecia que seu aparecimento servira apenas para que ela descobrisse que poderia encontrar algum que a amasse de verdade. Estava com quarenta e trs anos e 
nunca havia amado. Intimamente se perguntava se aconteceria um dia.
  Uma hora mais tarde, Marta desceu e procurou Jacira, rosto corado, olhos brilhantes, pediu:
  - Dona Margarida est pedindo para a senhora e d. Ester subirem.
  As duas amigas se entreolharam sorrindo, e Jacira respondeu:
  - Ns j vamos.
  Minutos depois, quando subiram para a sala de Margarida, elas os encontraram diante de uma bandeja, alguma taa e uma garrafa de champanhe no balde de gelo. 
  Margarida estendeu a mo direita, onde no anular havia um anel com um belo brilhante, e disse sorrindo:
  - Queremos comunicar que estamos noivos.
  Abraos, parabns, votos de felicidade. Em meio s exclamaes de alegria, Dorival abriu a champanhe e encheu as taas pedindo que cada um se servisse. Levantou 
uma e com os olhos brilhantes de emoo disse:
  - Hoje  um dia muito feliz. Houve um tempo em minha vida muito triste. Cheguei a pensar que nunca mais sentiria alegria, prazer de viver. No me julgava capaz 
de amar de novo. Para mim, a vida havia acabado.
  Fez ligeira pausa e, notando que todos o ouviram atentamente, continuou:
  - Ao me tornar vivo mergulhei no papel de vtima, olhando a vida de forma pessimista. Vocs me ensinaram que os desafios da vida fazem parte do nosso amadurecimento. 
Que cada um tem um determinado tempo para viver aqui e ter que partir quando chegar a hora. Com a nossa convivncia, tenho aprendido muito.
  Ele fez silncio por alguns segundos, olhou em volta, e prosseguiu.
  Desde o comeo, o sorriso amigo de Margarida, sua alegria, fez-me aproximar mais dela. Conhecendo-a melhor, descobri nela todas as qualidades que admiro em uma 
mulher. Estou feliz por ela ter me aceitado. Juntos, ns quatro, formaremos uma famlia, onde haver respeito, entendimento e muito amor. Esses so os meus votos!
  - E de todos ns! - tornou Jacira.
  - Que sejam felizes para sempre! - desejou Ester.
  Margarida tinha permitido que Marinho e Marta tambm brindassem com champanhe e eles estavam felizes sentindo-se mais adultos.
  Marta, que estava ao lado do pai olhando Marinho ao lado da me, disse alegre.
  - Ns agora somos irmos. Como eu sou a mais velha, voc ter de me obedecer.
  Ele no se deu por achado e respondeu:
  - Nada disso. Depois do meu pai, eu serei o homem da casa, e  voc quem ter de me obedecer!
  - Ningum vai mandar em ningum - interveio Margarida. - Cada um vai respeitar o outro e todos vo agir no bem. Dessa forma, estaremos sempre alegres e em paz.
  - J marcaram a data do casamento? - indagou Ester.
  - Dentro de dois meses - esclareceu Dorival. - Eu queria antes, mas Margarida acha que precisar de mais tempo para arrumar tudo.
  - Eu vou programar essa festa! - exclamou Ester.
  - Ser uma festa simples - tornou Margarida. - Dorival s tem um irmo que mora no interior e eu, s tenho alguns amigos.
  - No importa o nmero de pessoas. Ns vamos fazer uma festa bem linda! - assegurou Ester.
  - Isso mesmo. O acontecimento merece! - completou Jacira. - Tenho um compromisso agora. Um fornecedor chegou e est me esperando.
  - Eu tambm j vou descer - atalhou Margarida.
  - Nada disso. Hoje  um dia especial. Vocs precisam decidir todas as coisas. Eu e Jacira daremos conta de tudo. Eu at j aprendi a lidar com as moas da oficina! 
- disse Ester com orgulho.
  - Isso mesmo - concordou Jacira. - Margarida tem o resto do dia de folga. Ns daremos conta de tudo.
  Elas desceram comentando o acontecimento. As duas acreditavam que aquele casamento seria muito feliz.
  - S falta voc!
  Jacira pensou um pouco e depois respondeu:
  - No creio que vai acontecer comigo. Acho que no fui feita para o casamento.
  Ester lanou-lhe um olhar malicioso quando respondeu
  - No acredito! Toda mulher deseja viver essa experincia! Voc no  diferente!
  - O fato de eu ter lutado muito para abrir caminho na vida e libertar-me do domnio de minha me, tornou-me muito independente. No vou aceitar ningum querer 
mandar em mim, dizer-me o que devo ou no devo fazer.
  - Voc est se lembrando do Nelson. Nunca chegou a am-lo.
  - No mesmo. Nunca conheci o amor.
  Ester sorriu, colocou a mo no brao dela, e respondeu:
  - Sua hora ainda vai chegar. Voc  uma mulher forte, ardente, bonita. Um dia aparecer algum que vai se encantar com voc e saber lhe despertar o verdadeiro 
amor.
  Jacira balanou a cabea pensativa e disse devagar:
  - Pode ser, mas eu duvido muito.
  O fornecedor j estava esperando h alguns minutos, Jacira foi atend-lo e logo esqueceu esse pensamento, dedicando-se ao trabalho.

    XV
  Trs meses depois, Dorival e Margarida entraram na sala de Jacira. Vendo-os entrar, ela levantou-se e abraou-os com alegria. Eles estavam voltando do Rio de Janeiro, 
onde ficaram trs semanas em lua-de-mel.
  Depois dos abraos, Margarida perguntou ansiosa:
  - E as crianas?
  - No colgio. Vocs no avisaram que voltariam hoje. Fizeram boa viagem?
  - tima. Eu queria ficar mais alguns dias, mas Margarida estava com saudades das crianas, pensando em vocs e no ateli - informou Dorival.
  - A viagem foi maravilhosa! Eu no conhecia o Rio e fiquei maravilhada. Mas meu corao estava aqui, com vocs. Durante a viagem, fizemos muitos planos e eu estava 
ansiosa para voltar e comear logo. As crianas deram muito trabalho?
  - No. Antes de ir voc fez tantas recomendaes que eles no quiseram desagrad-la. Levei-os a minha casa e eles gostaram tanto que todas as noites preferiam 
dormir l, apesar de que aqui tem mais conforto.
  - No incomodaram sua me?
  - Que nada. A presena deles fez muito bem a eles. Meu pai at remoou. Enquanto Maria Lcia lia e conversava com Marta, meu pai brincava com Marinho. Ensinou-o 
a plantar, a brincar com o Flip. Eles gostaram tanto que querem pedir-lhes um cachorro parecido.
  - Vou subir com as malas. Depois vou sair para falar com o engenheiro - avisou Dorival.
  Ele subiu e Jacira abraou a amiga dizendo:
  - D para ver que voc est feliz.
  - Estou mesmo. Muito mais do que esperava. Mas voc tambm me parece mudada. Est mais bonita, olhos brilhantes, com mais vivacidade. Aconteceu alguma coisa?
  - No. Mas eu senti que estava na hora de mudar. Fui cuidar de mim, mudei o cabelo, o penteado, mas o melhor foi que decidi ser uma pessoa feliz.
  - Como assim?
  - Estou aprendendo a dirigir. Vou comprar um carro.
  Margarida admirou-se:
  - Voc? No tem medo de sair guiando um carro por esta cidade to movimentada?
  - Eu cansei de andar apertada no nibus. Nossos negcios esto aumentando a cada dia. Tenho dinheiro guardado. Para que serve esse dinheiro seno para me dar conforto 
e alegria?
  - Voc  mais corajosa do que eu.
  - Estou tendo aulas desde que voc viajou e estou adorando. Na prxima semana vou prestar exame, at j escolhi o carro.
  - Que coisa boa! Voc merece tudo do bom e do melhor.
  - Mereo sim. Tenho trabalhado muito e chegou a hora de usufruir.
  Dorival voltou e Margarida lhe contou a novidade, comentando:
  - Ela  uma mulher de coragem.
  - Voc tambm  - disse Dorival. - Ningum consegue o que vocs conseguiram sem ousadia e muito trabalho. Para isso  preciso ter coragem. Vou sair, mas volto 
logo. Estou ansioso para comear a construir nossa casa.
  Ele saiu e Jacira perguntou:
  - Vocs vo mesmo construir a casa logo?
  - Vamos. Dorival concordou em morar aqui at a casa ficar pronta.
  - Vou sentir sua falta.
  - Estarei aqui todos os dias. Depois, no vamos para muito longe. Estamos negociando a compra daquele terreno que fica perto daqui.
  - Eu tambm, quando puder, pretendo comprar uma casa.
  Arlete bateu levemente, entrou e disse:
  - Tem dois homens que desejam falar com a senhora.
  - Deram o nome?
  - No. Perguntaram se era aqui que trabalhava Jacira da Silva. Eu disse que sim, eles pediram que a chamasse.
  - So fornecedores?
  - No que eu saiba.  a primeira vez que os vejo. So muito elegantes, educados. Posso mand-los entrar?
  - No.  melhor eu ir at l saber quem so.
  - Eu vou subir e comear a desfazer as malas.
  Margarida subiu e Jacira encaminhou-se  porta de entrada. Eles estavam de costa, no balco da recepo, tomando caf. Jacira aproximou-se:
  - Boa tarde. O que desejam?
  Eles se voltaram e Jacira estremeceu e exclamou admirada:
  - Jair?  voc?
  Ele a olhava admirado e respondeu:
  - Sou eu! Mas voc parece outra pessoa! O que voc fez?
  Ela abraou-o, dizendo emocionada:
  - Voc no sabe o quanto ns o procuramos. Por que no deu notcias? Onde esteve durante todos esses anos? Como nos encontrou?
  -  uma longa histria. Este  meu scio e amigo Duarte.
  - Estou encantado em conhec-la.
  Jacira apertou a mo que ele lhe estendia e convidou:
  - Vamos at minha sala. L poderemos conversar mais  vontade.
  Eles a acompanharam e depois de acomodados diante da mesa de trabalho dela, Jair, que no disfarava a admirao, perguntou:
  - Voc mudou muito, est to diferente... Quando fui embora voc trabalhava em uma oficina.
  - Eu, uma colega de trabalho e mais uma amiga abrimos esta confeco. Assim pude dar mais conforto aos nossos pais.
  - Estou surpreso! Imaginei que voc fosse ficar a vida inteira como empregada!
  - Do jeito que eu era, teria ficado mesmo. Mas mudei minha maneira de olhar a vida e tudo mudou tambm.
  - Quando mudamos por dentro, acabamos mudando as coisas de fora - disse Duarte sorrindo.
  Jacira notou que alm do sorriso dele ser contagiante, seus olhos eram expressivos e brilhantes.
  - Foi isso mesmo que eu aprendi e aconteceu comigo.
  - At parece que voc esteve conversando com o Duarte. Ele  mestre nesses assuntos. Como vo os velhos?
  - Muito bem. Tambm mudaram para melhor.
  - Mame continua preguiosa, fingindo-se de doente para manipular os outros?
  Jacira sorriu e respondeu:
  - No. Hoje est muito diferente. S o que no mudou foi a tristeza por vocs terem sumido. Ela tem sofrido de verdade por no ter notcias de vocs e do Neto. 
Na sua ltima carta voc morava em Porto alegre e ia prestar vestibular. Conseguiu passar/ Fez uma faculdade?

  - No. Estudei bastante, mas no consegui. Ento decidi tentar a vida no Rio de Janeiro.
  - O Neto tambm morava l. Esteve com ele?
  - No. Fui procur-lo no hotel onde ele trabalhava, porm ele havia deixado o emprego e ningum sabia para onde ele havia ido. Nunca mais nos encontramos.
  - O que aconteceu depois?
  - Bom, no Rio tive dificuldade de arranjar emprego. A situao foi apertando e, pressionado pela necessidade, acabei indo trabalhar no cais do porto como carregador.
  - Logo voc que sempre sonhara ser rico, ter vida boa...
  - Foi terrvel. No me acostumei mesmo. At que apareceu um emprego para trabalhar na cozinha de um navio americano que estava no porto. Aceitei na hora. Durante 
cinco anos trabalhei nesse navio, aprendi a lngua, outros servios, e acabei fazendo parte da tripulao, tornando-me muito querido do comandante.
  Jacira ouvia emocionada e ele, depois de pequena pausa, prosseguiu:
  - Era um navio de excurses. Viajava pelo mundo. Conheci outros pases, outras culturas, outros povos.
  - At que me conheceu - interveio Duarte satisfeito. - Fiz uma viagem nesse navio e logo ficamos amigos. Tambm sou brasileiro, cinco anos mais velho do que ele, 
mineiro, filho de fazendeiros, formado em agronomia. Comecei a trabalhar no Brasil. Mais tarde fui viajar, conhecer outros pases. Acabei contratado por uma empresa 
de tratores americana e fui morar nos Estados Unidos. Sonhava montar minha prpria empresa. L, trabalhei muito, formei capital, montei minha empresa. Em uma viagem 
conheci Jair, ficamos amigos. Percebi logo que ele tinha todas as qualidades para ser um bom administrador e o convidei para deixar o navio e ir trabalhar comigo.
  - No comeo como funcionrio, mas o negcio foi crescendo e h trs anos nos tornamos scios - completou Jair.
  - Voc no imagina o quanto mame sofre por no ter notcias suas. Ainda bem que veio... Aconteceu uma coisa que no tive coragem de contar a mame...
  Ela hesitou, e ele perguntou: 
  - O que foi?
  Jacira pensou durante alguns segundos, depois decidiu:
  - Vou contar-lhe. Preciso dividir esse assunto com voc. Temo que Neto no esteja mais neste mundo...
  Jair trocou um olhar com Duarte e levantou-se assustado:
  - Por que est pensando isso? O que lhe fez suspeitar que ele tivesse morrido?
  - Sente-se. Seja como for, vou contar-lhe.
  Jacira falou-lhe sobre Maria Lcia, e a comunicao que Neto tinha dado atravs dela. Quando terminou, notou que Jair estava plido. Olhou para Duarte dizendo:
  - Ento ele morreu mesmo! Eu no quis acreditar! 
  - Eu nunca duvidei! Tenho certeza de que todos continuamos vivos depois da morte.
  Jacira olhava-os surpreendida e indagou: 
  - Voc sabia?
  - Faz algum tempo que venho sonhando com ele. Tal qual voc contou. Ele diz que errou muito, est sofrendo, arrependido. Pedia que eu o ajudasse.
  - No foi um sonho comum. Voc esteve com o esprito dele! Eu sei como  porque tem acontecido comigo. Quando durmo, costumo encontrar-me com Marina, um esprito 
iluminado que tem me ajudado muito.
  - Tem razo. Esses encontros astrais deixam uma emoo forte e difcil de ser esquecida - interveio Duarte.
  - Quando tinha esses sonhos ficava vrios dias s me lembrando deles. Como tenho estado preocupado com a falta de notcias do Neto, pensei que estivesse para que 
voc se convencesse. Iepoi          teceu aqui, no tem mais como duvidar.
- . Estou arrepiado. No poderia ter sido apenas coincidncia?
Duarte sorriu e respondeu:
-  melhor aceitar a realidade. Voc tem mediunidade. Sua sensibilidade se abriu e enquanto no estudar o assunto, aprender a lidar com ela, estar sujeito a ser 
envolvido pelos espritos.
- Mas eu no quero saber de nada disso. No vou estudar nada.
- Se tiver chegado a hora de voc conhecer o mundo invisvel, no ter como escapar. As provas vo se multiplicar ao seu redor e quanto mais resistir, mais fortes 
e convincentes elas vo se tornar.
- Isso  uma imposio.
- No.  apenas o momento de amadurecer. Dar um passo  frente.
Jair ficou calado, pensativo. Jacira observava surpreendida. Duarte falava com voz calma, mas havia muita convico em sua voz. Ela no se conteve:
- Penso como voc. No sei por que as pessoas resistem a aceitar a presena dos espritos. No sei se  medo de assumir as mudanas que essa crena provoca ou para 
no se dar ao trabalho de pensar e ter de reconhecer seus pontos fracos.
Jair fixou-a srio e comentou:
- Voc mudou mesmo. Voltou a estudar?
- Conheci um professor que abriu meus olhos para a vida. Ensinou-me que neste mundo ningum  vtima. Naquele tempo eu culpava os outros pelas dificuldades que enfrentava, 
sem perceber que estava apenas colhendo os resultados de minhas atitudes. Tanto ele como o esprito de Marina me fizeram acreditar que havia um grande potencial 
dentro de mim para ser desenvolvido. Ento, fui  luta e as coisas comearam a acontecer.
  Duarte sorriu satisfeito e tornou:
  - As pessoas tm receio de mudar. Na vida nada  esttico. Quando o homem quer ficar parado, ela promove a mudana. Quando ele aceita, tudo bem. Caso contrrio, 
conforme a intensidade de sua resistncia, a vida o pressiona, apertando o cerco at ele ceder.
  Jacira interveio:
  - Precisamos dar a boa notcia a mame, com cuidado. Vou para casa antes prepar-la.
  - Iremos juntos. Voc entrar sozinha e fala que vamos chegar.
  - Est bem. Estou ansiosa para que ela o encontre. Antes quero apresentar-lhe as minhas scias. Vamos em seguida.
  Ela ligou para Arlete que logo apareceu
  - Pea para Ester e Margarida virem ate aqui. Ester chegou primeiro. Assim que Jacira acabou de apresent-la, Margarida entrou.
  - Esta  Margarida, que alm de scia  minha melhor amiga. Meu irmo Jair e seu scio Duarte. Margarida no se conteve:
  - Voc  o famoso Jair? Finalmente apareceu. Sabe que ns quebramos a cabea tentando descobrir onde voc estava? Merece um abrao!
  - Pensei que ningum mais se lembrasse de mim - respondeu Jair sorrindo enquanto a abraava satisfeito.
  - Por onde voc andava?
  Foi Jacira quem respondeu:
  - Enquanto ns suvamos a camisa o procurando, ele estava trabalhando em outro pas.
  - Como  que ns no pensamos nisso?
  A risada gostosa de Margarida deixou o ambiente alegre e descontrado. Ela prosseguiu:
  - Agora Geni no vai ter mais o nico argumento que ainda sustentava para ser infeliz. O que ser dela sem ele?
  Todos riram gostosamente. Depois, Jacira disse:
  - Ns iremos agora at em casa dar notcia. Em minha agenda no tenho mais nenhum compromisso para hoje. Mas se algum vier me procurar, por favor, Ester, atenda.
  - Deixe comigo.
  - J vi que no estou fazendo falta - brincou Margarida fazendo bico. - Voc agora s pede coisas para Ester.
  - Voc acabou de chegar de viagem. Est em lua-de-mel. Mas no perde por esperar. J que voltou com tanta vontade de trabalhar, tenho uma lista imensa de encomendas 
de clientes para entregar-lhe. Amanh conversaremos.
  Voltando-se para os dois, Jacira continuou: 
  - Vamos embora.
  Depois das despedidas, eles saram. Ester havia deixado seu carro com o motorista para lev-los. Durante o trajeto, Jacira, ansiosa, pensava como dar a notcia 
aos pais.
Ao descerem diante da casa, Jair gostou do que viu. Diante da porta da entrada Jacira disse:
  - Vou entrar. Esperem aqui.
  Jacira foi direto  cozinha, onde a me preparava o jantar. Vendo-a chegar Geni comentou:
  - Veio cedo!
  - Papai est em casa?
  - No. Foi visitar Euzbio. Quando vai l nunca volta cedo.
  - Me, vamos nos sentar na sala. Tenho uma boa notcia para lhe dar.
  Depois de acomodadas, uma ao lado da outra no sof, Jacira disse:
  - Finalmente tive notcias do Jair.
  - Verdade? Ele est bem? 
  - Est muito bem.
  - Por que demorou tanto para aparecer? Onde ele tem andado esse tempo todo?
  - Calma, me. Ele andou trabalhando em um navio de turismo, viajava muito. Mas agora est voltando. 
  - Como soube?
  - Ele nos procurou. Descobriu nosso endereo novo. 
  - Onde est ele? Quero v-lo. No o deixe sumir novamente.
  - Ele no vai sumir. Apareceu no ateli hoje  tarde. 
  - E voc no o trouxe aqui? 
  Geni levantou-se, agarrou as mos de Jacira: 
  - Leve-me onde ele est. Pelo amor de Deus!
  - Procure se acalmar. Ele veio comigo, est esperando na porta.
  - Veio? Est aqui, por que no entrou?
  Sem esperar pela resposta, Geni correu para a porta, abriu-a e vendo o filho abraou-o soluando. Muito comovido, Jair apertou-a de encontro ao peito, sem saber 
o que dizer. No esperava ser recebido daquela forma. Geni nunca demonstrara seus sentimentos, estava sempre aptica, indiferente.
  Aos poucos, foi se acalmando. Jacira pediu:
  - Vamos entrar.
  Geni continuava abraada ao filho, distanciava-se um pouco, olhava-o embevecida e voltava a abra-lo. De fato, Jair ganhara corpo, estava bonito, bem cuidado, 
elegante.
  Duarte entrara e os observava satisfeito. Jacira insistiu:
  - Venha, me, vamos entrar e conversar.
  S ento Geni notou a presena de Duarte. De pois de apresent-lo, Jacira acomodou-os na sala. 
  Geni sentou-se ao lado do filho crivando-o de perguntas sem dar-lhe tempo para responder:
  - Como pode fazer isso comigo? No sabe como fiquei angustiada sem saber onde estava! Veio para ficar, no  mesmo? Chega de andar pelo mundo. Voc passou no vestibular? 
J se formou?
  Jair, sem saber por onde comear, olhou para Jacira, que segurou o brao de Geni, chamando sua ateno:
  - Me, voc no est dando tempo para ele responder. Calma... Ele vai contar-nos tudo.
  Vendo que ela no conseguia controlar a ansiedade, foi buscar um copo de gua:
  - Beba, me. Se Voc no se acalmar, ele no vai poder dizer nada.
  Ela tomou alguns goles, depois tornou:
  - Vou ficar calada, pode falar.
  Jair relatou como fora sua vida desde que sara de casa e finalizou:
  - Bem, no incio escreve duas cartas, mas no recebi respostas. Ento, pensei que no me amavam como eu os amava.
  Ele ia responder, mas ela no lhe deu tempo. Meneou a cabea dizendo:
  - Eu sei que voc vai dizer que eu nunca demonstrei o quanto lhes queria bem.  verdade, naquele tempo eu pensava que uma boa me precisava ser durona, impor-se 
para ser respeitada. Eu fui a culpada por vocs irem embora. Pode dizer. Eu assumo minha culpa.
  - Voc no teve culpa. Na poca fez o melhor que sabia. Eu  que no me conformava em viver naquela pobreza. Papai desempregado. Jacira se esforando para nos 
ajudar. Samos de casa para procurar uma vida melhor. Aqui tudo estava difcil. Eu sempre acreditei que tinha condies de melhorar de vida. Sabia que teria de estudar, 
esforar-me. Foi o que fiz. Hoje posso dizer que progredi, estou bem, mas ainda quero melhorar.
  - Para tentar melhorar de vida vocs no precisavam sair de casa. Jacira conseguiu e vocs tambm conseguiriam.
  - Pode ser. Mas o ambiente de casa no era dos melhores. Voc reclamando, papai desanimado, Jacira sem alegria nem motivao. Chegou um momento

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em que eu no suportei mais. Sentia-me sufocado, sem rumo, precisava respirar.
  - E voc ainda diz que eu no tenho culpa! Se eu tivesse sido diferente, mais compreensiva, me posicionado melhor, vocs no teriam sado daqui.
  - Me, ns agimos de acordo com o que pensvamos naquela poca. Hoje estamos mais esclarecidos, mais maduros, aprendemos com nossas experincias. Vamos esquecer 
o que passou. Nossa vida melhorou e podemos ser mais felizes daqui para a frente.
  Geni pensou um pouco, depois disse sorrindo:
  - Est certo. O passado acabou. Vamos pensar no futuro.
  - Isso mesmo.
  Maria Lcia apareceu na sala e Jacira pediu: 
  - Maria Lcia, venha conhecer Jair e Duarte.
   Depois das apresentaes, Maria Lcia disse: 
  - Eu vim avisar que o jantar est pronto.
   Geni levantou-se:
  - Meu Deus! Esqueci completamente do jantar. Vocs devem estar famintos.
  - No se preocupe, d. Geni. Eu cuidei de tudo como a senhora gosta.
  - Nesse caso, vamos comer. Estou morrendo de fome - tornou Jacira, levantando-se e convidando-os para a sala de jantar onde Maria Lcia j havia arrumado a mesa 
com capricho e bom gosto.
  Foi com prazer que se sentaram, sentindo o cheiro gostoso da comida, notando o carinho com que Maria Lcia havia disposto as travessas.
  A conversa fluiu alegre, principalmente depois que Jair avisou que tinha voltado ao Brasil para ficar.
  Passava das dez quando Aristides chegou em casa carregando uma bandeja de salgadinhos que Euzbio mandara para Geni. Ele sabia que ela reclamava quando ele se 
demorava no bar e desejava agrad-la, uma vez que gostava muito de receber o amigo e recordar o tempo em que tinham trabalhado juntos.
  Logo que entrou estranhou as luzes acesas e o rudo de conversa animada que acontecia na sala. Curioso, foi at l. Vendo-o parado na porta, Geni, sentada ao lado 
de Jair no sof, levantou-se:
  - O Jair voltou!
  Ele abriu a boca, fechou-a de novo, e, emudecido pela surpresa, continuou parado com o pacote nas mos.
  Geni insistiu:
  -  ele mesmo. Jair voltou para casa e veio para ficar.
  Percebendo a perplexidade do pai, Jacira aproximou-se dele, livrou-o do pacote enquanto Jair, em p, abriu os braos dizendo:
  - No vai me dar um abrao?
  Aristides estendeu os braos e Jair o abraou emocionado. Ele nunca tivera para com o filho um gesto de carinho. Seu pai dizia sempre que um homem no chora, que 
demonstrar sentimentos era coisa de mulher. Ele e Geni reprimiam os sentimentos.
  Jair tinha um temperamento carinhoso. Quando pequeno tentava manifestar seu afeto, mas foi repreendido e dali para a frente teve receio de expressar seus sentimentos.
  Ele se preparava para visitar a famlia, pensando encontrar a mesma situao a que estava habituado. Mas com surpresa percebeu quer eles tinham mudado. O prazer 
dessa descoberta foi tanto, que ele se sentia feliz por ter regressado. Por esse motivo, abrira os braos para o pai, manifestando sua alegria.;
  Depois do abrao, Aristides, sem jeito, por ter se emocionado diante de todos, estava embaraado.
  Jair notou e procurou agir com naturalidade, segurou o brao dele:
  - Venha, pai, quero que conhea meu amigo e scio, Duarte.
  Aristides estendeu a mo:
  -Aristides Silva. Muito prazer.
  - Gilson Duarte, o prazer  meu.
  Jacira convidou:
  - Vamos nos sentar  e continuar nossa conversa. Venha, pai, sente-se aqui ao lado do Jair.
  Vendo-os acomodados ela continuou:
  - Sabe pai, ele tem muitas coisas interessantes para nos contar. Trabalhou em um navio de turismo durante cinco anos e conheceu muitos pases.
  Aristides olhou-o admirado. Ele sempre sonhara viajar, conhecer o mundo, mas no imaginava que isso fosse possvel. No se conteve:
  - Como foi que conseguiu isso tudo?
  - Trabalhando. Estava no Rio de Janeiro procurando emprego. O dinheiro acabou e fui trabalhar no porto.
  - Fazendo o qu? - indagou ele.
  - Carregando sacos. Mas eu sabia que seria por pouco tempo. Ento soube que o capito de um navio de turismo estava contratando pessoas, fui atrs. Aceitei tudo 
que ele props. O salrio era pequeno, mas tinha acomodao e comida, alm de muitas possibilidades de melhorar.
  Duarte interveio:
  - Eu fiz uma viagem nesse navio e quando o conheci, ele j era o preferido do capito e dirigia toda parte administrativa do navio. Era to eficiente que o convidei 
para trabalhar na minha empresa. Isso faz algum tempo. Agora somos scios.
  - Scios! - exclamou Aristides admirado.
  - Scios - confirmou Duarte. - Formei-me em agronomia e trabalhamos com fertilizantes.
  Aristides estava fascinado.
  - Sempre gostei dessa rea. Se tivesse tido condies de estudar, teria me formado nessa profisso.
  - Gosto muito do que fao.  gratificante ajudar a natureza a multiplicar seus frutos, preservando a qualidade.
  Os demais olhavam surpreendidos para os dois que se entrosaram na conversa, continuando o assunto com interesse. Aristides fazia perguntas e Duarte respondia com 
prazer.
  Jair aproximou-se de Jacira dizendo baixinho:
  - Isso eu nunca poderia esperar. Desde quando ele se interessa por agronomia?
  - No sei. Mas desde que nos mudamos para c ele tem se dedicado a plantar. Transformou nosso quintal. Fez uma horta, plantou flores e passa trabalhando l todo 
tempo livre.
  Maria Lcia aproximou-se de Jacira:
  - Vou a cozinha passar mais um caf e buscar mais algumas fatias de bolo. 
  - Faa isso.
  Ela se foi e Jair comentou:
  - Onde voc encontrou essa preciosidade? 
  Jacira sorriu:
- Ela apareceu em nossa vida em boa hora. Mame melhorou muito depois que ela chegou. Eu a adoro.
  - Alm de tudo  linda! Parece um anjo. 
  Jacira meneou a cabea negativamente:
  - Cuidado, Jair. Maria Lcia  para mim como uma filha.
  - No falei por mal.
  Jacira olhou nos olhos dele e perguntou:
  - Como vai sua vida amorosa? Voc se casou, vive com algum?
  - No. Apaixonei-me algumas vezes, mas nada que me fizesse pensar em casamento. Sempre que pensava nessa possibilidade, lembrava-me da nossa famlia e desistia. 
No queria aquela vida para mim.
  Jacira no conteve o riso. Ele perguntou:
  - E voc, casou-se?
  - Antes ningum me queria, depois que eu comecei a me cuidar, apareceram alguns pretendentes. Tive um namorado, mas quando descobri que ele desejava que eu deixasse 
de trabalhar e queria mandar em mim, desisti. At hoje, nunca amei ningum.
  Jair olhou-a de alto a baixo, depois disse malicioso:
  - No sei o que voc fez, mas se transformou em uma mulher linda, elegante, charmosa. Qualquer hora vai aparecer algum e voc vai se apaixonar.
  Ela riu satisfeita.
  - Ser? No conto mais com isso.
  Jacira foi at a cozinha e Jair foi junto. Aproximou-se de Maria Lcia dizendo:
  - H quanto tempo voc mora aqui?
  - Vai fazer trs anos no ms que vem.
  - J? O tempo passou depressa - comentou Jacira. - Vamos colocar o bolo naquele prato novo. 
  - Sei qual .
  Enquanto Maria Lcia foi buscar o prato, Jair tornou: 
  - Olhando para ela, lembrei-me do Neto. Nunca pensei sobre o que acontece depois da morte. Ser mesmo que continuamos a viver em outro lugar? Parece impossvel!
  - Por qu? Tudo neste mundo  natural. A realidade que conseguimos perceber  quase. Nada. O mundo invisvel  maior do que supomos.
  - Pode ser. Mas para acreditar que a vida continua, precisamos de provas.
  Maria Lcia dispunha as fatias de bolo no prato, olhou para Jair dizendo com voz firme:
  - As provas esto a nossa volta. Mas  preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.
  - O que dizer?
  - A vida s revela seus segredos para quem busca com sinceridade e est pronto para saber a verdade.
  - Acredita mesmo que meu irmo morreu e se comunicou por voc?
  - No sei se foi seu irmo. Mas tenho certeza de que era algum que morreu e est arrependido das coisas que fez. Sente-se impotente para se redimir de seus erros. 
Ento conclu que  melhor refazer nosso caminho enquanto estamos vivendo aqui.
  Jair admirou-se:
  - Diz isso com essa calma? Se fosse comigo estaria com muito medo.
  Maria Lcia sorriu levemente e respondeu:
  - O fato de terem morrido no os torna melhores nem piores do que quando viviam aqui. Continuam as mesmas pessoas.
  Ela coou o caf, colocou as xcaras na bandeja e voltou  sala. Antes que Jacira a acompanhasse, Jair perguntou:
  - Ela parece uma menina. Quantos anos tem?
  - Dezenove.   um esprito muito Lcido. Eu no saberia precisar quantos anos ela de fato tem.
  - Estou arrepiado. Voc fala de um jeito!
  Jacira riu e comentou:
  - Depois vamos conversar sobre reencarnao.
  - Voc parece o Duarte! Ele vive falando de vidas passadas. Para mim no parece vivel.
  Voltaram para a sala e Geni estava sozinha no sof.
  - Onde eles esto? - Indagou Jair.
  - No quintal. Tide foi mostrar a ele suas plantas. No pararam de conversar.
  Jair trocou um olhar com Jacira como a perguntar como seu pai teria mudado tanto. Ela f-lo sentar-se a seu lado no sof:
  - Tem uma coisa que preciso lhe dizer. As pessoas quando querem mudar as coisas para melhor, tentam controlar os acontecimentos a sua volta, fazendo as mesmas 
coisas, pensando da mesma forma e conseguem o mesmo resultado.  preciso agir de forma diferente. O que funciona  a mudana interior.
  - De que forma?
  - Nossa cabea est cheia de falsas crenas, ns escolhemos por meio delas. A verdade no seu esprito  muito maior do que voc imagina. O segredo est em valorizar 
suas qualidades e melhorar seus pontos fracos. S quando voc muda por dentro, consegue mudar as coisas de fora.
  - Voc est dizendo que mudou por dentro e nossos pais melhoraram? Simples assim?
  - Foi o que aconteceu. Tornei-me mais otimista, acreditei mais em mim e na vida, joguei fora a depresso, a revolta, o vitimismo. Fiquei melhor. Eles, tanto quanto 
eu, estavam vivendo no crculo vicioso das crenas erradas, aprendidas de pessoas que tambm as aprenderam com os outros. Aos poucos, fui plantando minhas novas 
ideias, eles entenderam e deu certo. Foi o que aconteceu.
  - Voc foi melhor do que eu ou o Neto. Ns fomos embora, mas no foi por falta de amor aos nossos pais.
  - Vocs no tinham experincia. Fizeram o que acharam melhor. Eu muitas vezes tambm tive vontade de abandonar tudo e ir embora. Foi o carinho de um esprito amigo 
quem me ajudou a acordar e ter foras para reagir. Sem a ajuda do invisvel, eu no teria conseguido.
  - Como foi isso?
  Jacira contou-lhe suas experincias com o esprito de Marina, sua amizade com Ernesto, e finalizou:
  - Quero que o conhea. Ernesto  maravilhoso. Tem sido meu conselheiro desde o inicio.
  Ns morvamos em Nova York e l h vrios professores de autoajuda. Duarte  amigo de um deles e muitas vezes convidou-me a assistir suas aulas. Fui algumas vezes. 
Eles ensinam o bvio. Nada mais do que isso.
  Jacira pensou um pouco e respondeu:
  - Apesar disso a gente no v. Foi depois que assisti s aulas de Ernesto que comecei a enxergar o bvio.
  Eles riram e Jair considerou:
  - Por que ser que temos tanta dificuldade para mudar nossas crenas?
  - Penso que seja o hbito. Quando aceitamos uma crena, mesmo que seja errada, fazemos tudo para refor-la. Condicionamos mudana com insegurana. Contudo, algum 
j disse que a segurana est na mudana.
  Jair olhou-a admirado:
  - Nunca imaginei que voc fosse to inteligente. Devo dar a mo  palmatria.
  - Todos somos inteligentes. Nosso esprito  inteligente. Mas minha maneira de olhar a vida bloqueava e impedia a manifestao do meu esprito.
  Aristides e Duarte voltaram  sala conversando animadamente.
  - Est na hora de irmos - lembrou Jair.
  Duarte olhou a hora e admirou-se: 
  - No sabia que era to tarde. 
  Geni aproximou-se de Jair:
  - Pensei que vocs fossem ficar aqui.
  - No, me. Estamos no hotel. Vamos chamar um txi e ir embora.
  - No quero que voc v...
   Jair sorriu:
  - No se preocupe. Viemos para ficar. Teremos muito trabalho pela frente. Vamos organizar nossa empresa aqui.
  Depois de mais um caf com bolo, eles se despediram. Uma vez no taxi, Duarte tornou:
  - Essa no  a famlia que voc disse que tinha. Seu pai  um  homem inteligente, bem-humorado, sua me amvel, alegre, e sua irm ento,  uma mulher linda, 
lcida que sabe o que quer da vida. Voc era cego mesmo!
  - Eu no soube enxergar o que havia por trs daquela imagem aparente que eu conhecia. Jacira foi mais arguta do que eu.
  - assim mesmo. Ns criamos imagens das pessoas, acreditamos no que parecem, sem v-las como realmente so. Tem razo com relao a sua irm.
  - Antes assim. Sinto-me feliz por ter voltado. H momentos que Jacira fala igual a voc. Acredita em vidas passadas, em espritos,  amiga de um professor de autoajuda, 
teve aulas com ele. Alm de voc, agora tem ela para colocar essas ideias em minha cabea!
  - Vamos ver se depois disso voc vai enxergar o que estamos querendo lhe mostrar.
  - Amanh vamos encontrar com nossos contatos e ver se fechamos negcios.
  - Est tudo acertado. Falta s assinarmos o contrato. As condies so boas para ambas as partes, como deve ser. No creio que eles voltem atrs.
  - Eu s acredito depois que tudo estiver regularizado.
  Duarte riu bem-humorado e respondeu:
  - D um friozinho na barriga, sei como  isso.  a primeira vez que voc assume essa responsabilidade.
  - , d, mas ao mesmo tempo  uma sensao de vitria, de conquista...
  - Sei como . Amanh at o fim da tarde teremos tudo concludo. Depois, vamos procurar lugar para morar. Estou cansado de viver em um hotel.
  - Vamos alugar um apartamento e dividir as despesas.
  - Ser melhor. Mas agora bateu o casaco. Quero me esticar na cama e dormir. Eu no consigo dormir no avio. J voc, dorme mesmo.
  -Mas  um sono  leve que no descansa. Tambm estou modo. Alm disso, abusei daquele bolo da mame. Tinha me esquecido de como e bom.
  O txi parou em frente ao hotel, eles desceram, entraram, apanharam a chave e foram imediatamente para o quarto, onde se prepararam para dormir.
  Jair deitou-se, mas apesar de cansado, no dormiu logo. As emoes inesperadas daquele dia o deixaram sensibilizado. Durante aqueles anos, muitas vezes pensara 
em voltar para casa. S no o fizera por recordar-se de como era difcil a vida em famlia.
  Apesar disso, nos primeiros tempos sentira saudades, escrevera algumas cartas. Magoou-se por no ter recebido resposta. Procurou sepultar as lembranas e seguir 
adiante, reprimindo os sentimentos, tentando aceitar a falta de amor dos seus.
  Encontrou em Duarte um verdadeiro amigo. Desde que o conheceu, aprendeu a admir-lo por seus sentimentos nobres, pela sua maneira de enxergar a vida, sua elevao 
de esprito. Ele ensinou-o a olhar as coisas de uma forma melhor, desenvolveu
a sua autoconfiana. Redescobrir o amor de sua famlia foi para ele uma grata surpresa. Sentia-se feliz e de bem com a vida.
  Duarte deitou-se, dormiu logo. Sonhou que estava em uma sala de estar, muito bem-arrumada, de estilo clssico antigo, olhou em volta e viu uma linda mulher sentada 
em uma poltrona.
  Ele estremeceu e correu para ela exclamando:
  - Marlia!  voc! Finalmente voc veio!
  Ela levantou-se, abraou-o com carinho e ele sentiu o perfume gostoso que vinha dela.
  - Faz tempo que voc no me visitava! Pensei que tivesse me esquecido.
  Ela sorriu com suavidade e respondeu:
  - Voc sabe que est em meu corao. Vim para dizer-lhe que voc encontrou seu caminho e ser muito feliz. Eu vou voltar por meio de voc. Estaremos juntos de 
novo. Vai dar tudo certo.
  Gilson acordou ainda ouvindo suas ltimas palavras e sentou-se na cama emocionado. Ela ia voltar, teria olvido bem?
  Ainda estava sentindo o perfume dela e a maciez de seus braos carinhosos. Levantou-se, tomou um copo d'gua e deitou-se de novo pensando em sua vida.
  Filho de um rico fazendeiro de Minas Gerais, ainda jovem, Gilson apaixonou-se por Marlia, uma linda moa da alta sociedade mineira, e foi correspondido. Ficaram 
noivos, fizeram projetos, pretendiam casar-se assim que ele terminasse a faculdade de agronomia. Mas esse casamento nunca se realizou. Vitimada por uma pneumonia, 
Marlia veio a falecer.
  Desesperado, Gilson no conseguiu aceitar a morte de sua amada. Entregou-se ao desnimo e seus pais tentaram, sem obter xito, que ele retomasse a alegria de viver.
  Os amigos tentaram interess-lo novamente na vida, mas ele a cada dia ficava mais triste. Quando as lembranas se tornavam muito dolorosas, Gilson ia ao tmulo 
de Marlia, levando as flores das quais ela tanto gostava.
  Vrias fezes, familiares e amigos davam pela sua falta e o encontravam l, ajoelhado no tmulo, olhos perdidos no vazio, mergulhado na sua dor.
  Certo dia, um de seus amigos aconselhou-o a procurar a ajuda do mdium Chico Xavier na cidade de Uberaba, afirmando que a vida continua depois da morte, que Marlia 
continuava viva no outro mundo e que a atitude dele no aceitando sua partida a estava fazendo sofrer.
  Foi to insistente que Gilson decidiu ir at o mdium na casa humilde, onde ele atendia a todos com carinho. Quando chegou estava anoitecendo e a pequena sala 
estava lotada. Havia muitas pessoas conversando entre si, algumas falando da dor da perda de um ente querido, outras relatando suas experincias naqueles encontros.
  Ao fundo, uma mesa grande, vrios livros, papel, lpis, e pessoas sentadas ao redor. Cadeiras dispostas em fileiras para os visitantes. Gilson entrou em silncio, 
sentou-se em um canto e esperou.
  Em seu pensamento emocionado as lembranas de Marlia reapareceram com fora e ele tentava conter as lgrimas.
  No conversou com ningum, olhou em volta, nenhum conhecido. Ele pensou:
  "Marlia, preciso saber se voc est viva, fale comigo de alguma forma. No estou aguentando pensar que nunca mais vou v-la!".
  Uma porta nos fundos da sala abriu e Chico entrou. Mulato, lbios grossos, sorriso largo, sentou-se ao redor da mesa. As pessoas o olhavam com esperana e alegria 
e ele indicava as pessoas que falariam sobre O Livro dos Espritos enquanto ele psicografaria, respondendo s consultas das pessoas cujos nomes estavam nos papis 
a sua frente.
  O silncio se fez e depois de uma prece de um dos presentes, ele segurou o lpis e comeou a escrever vertiginosamente enquanto um rapaz ao lado o auxiliava virando 
as folhas.
  O tempo foi passando, as pessoas se revezando na palestra, at que horas depois, o mdium deixou o lpis cair. Foi feita uma prece de agradecimento. Ningum se 
levantou. Chico, bem-disposto, conversava com as pessoas a sua volta. Ao mesmo tempo, um rapaz apanhou as folhas de papel na caixa onde o mdium as colocara e foi 
chamando os nomes das pessoas e entregando as mensagens.
  - Senhor Duarte. Est presente?
  Como no obteve resposta repetiu:
  - Senhor Gilson Duarte, encontra-se no recinto?
  Arrancado dos seus pensamentos, tremendo de emoo, Gilson levantou e aproximou-se dele:
  - Sou eu.
  O rapaz estendeu-lhe algumas folhas de papel dizendo:
  - Esta mensagem  para o senhor.
  Com as mos trmulas ele segurou as folhas com emoo. Uma senhora comentou:
  - O senhor foi mais feliz do que eu.  a terceira vez que eu venho e ainda no recebi nada.
  Gilson voltou ao seu canto, abriu os papis e leu:

  "Meu querido Gilson. Estou feliz por poder dizer-lhe que a morte no  o fim. Eu continuo viva! Tive de partir to jovem, no momento em que sonhava poder viver 
para sempre ao seu lado. Foi difcil de aceitar. Mas hoje sei que a vida faz tudo certo. Um dia entender isso. No se revolte. No chore mais. Sofro vendo sua tristeza. 
Preciso seguir meu destino e desejo que voc siga o seu. Vamos viver com alegria. Aproveite a oportunidade que a vida est lhe oferecendo para se tornar uma pessoa 
melhor. Um dia estaremos juntos de novo. Jesus o abenoe, da sempre sua - Marlia".

  Emocionado, Gilson releu a mensagem vrias vezes. Notou que o mdium se despedia dos amigos. Com olhos molhados, foi at ele e aproximou-se com a mensagem nas 
mos. Chico, que ia se afastar, vendo-o parou. Rapidamente Gilson segurou a mo do mdium e beijou-a agradecido. Chico apertou a mo dele e beijou-a tambm. Depois 
o abraou com carinho dizendo:
  - Marlia! Que linda ela !
  Mesmo depois de tanto tempo decorrido, Gilson sempre que se recordava daquela noite, emocionava-se. Foi assim que ele teve certeza de que a vida continua.
  Depois dessa noite, interessou-se em conhecer o espiritismo e sempre que podia ia a Uberaba assistir s reunies de Chico Xavier. Leu seus livros, fez campanhas 
para os pobres que ele assistia com seu grupo e levou seus pais para conhecer o trabalho dele.
  Quando estava l, ficava por perto ouvindo os casos que o mdium contava, os ensinamentos que distribua nas ruas conversas bem-humoradas e voltava para casa mais 
animado.
  Pensava no -Chico sempre com gratido e desejava que onde ele estivesse fosse muito feliz.
  Aos poucos retomou sua vida, terminou os estudos, mas no quis trabalhar na fazenda com o pai, conforme o desejo dele. Sentia necessidade de viajar, aprender, 
construir uma vida melhor conforme Marlia lhe havia pedido.
  Foi para os Estados Unidos contratado por uma empresa de tratores onde ficou durante alguns anos. Formou um capital e montou sua prpria empresa de insumos e fertilizantes 
para a lavoura.
  Prosperou, a empresa cresceu. Conheceu Jair, gostou dele, reconheceu que tinha potencial, contratou-o. Tornaram-se amigos. Ensinou-lhe tudo que sabia uma vez que 
ele mostrou interesse, empenhava-se em aprender. Alm de amigo, tornou-se seu homem de confiana.
  Um dia Gilson sentiu que estava cansado de viver fora do Brasil. Sentiu saudades da comida, da msica, das coisas que s encontrava no seu pas, ento decidiu 
voltar.
  Sua irm Janice tinha se casado, era me de dois filhos e ele s os conhecia em breves momentos quando passava alguns dias visitando a famlia.
  Decidiu montar a fbrica no Brasil e props sociedade a Jair. Ele no tinha capital, mas Gilson emprestou-lhe o necessrio para que ele pagasse conforme o negcio 
fosse crescendo. Jair aceitou. Fizeram o projeto e tomaram as providncias para realiz-lo.
  Desde que recebera a carta de Marlia, Gilson pedia a Deus que lhe permitisse encontrar-se com ela durante o sono. Sabia dessa possibilidade. Mas s naquela noite 
ele havia conseguido. A sensao forte de t-la abraado no lhe saa do pensamento.
  Suas palavras cheias de carinho repetiam-se em sua mente e ele procurava descobrir o que elas queriam dizer.
  Pensando nisso, lembrou-se dos compromissos do dia seguinte, deitou-se querendo dormir. Tentou relaxar, mas as palavras de Marlia se repetiam e s quando o dia 
estava comeando a clarear foi que ele finalmente conseguiu adormecer.
  Jacira olhou o relgio e apressou-se. Dentro de alguns minutos Gilson chegaria para busc-la. Fazia quatro meses que Jair tinha regressado e desde ento a vida 
de Jacira tornara-se muito movimentada.
  Entusiasmada com o projeto deles, procurou auxili-los ao mximo. Depois de tantos anos fora do pas, eles precisaram atualizar-se e Jacira tinha condies de 
orient-los. Dorival cuidou das providncias para legalizar a empresa ela das outras questes.
  Multiplicou-se no trabalho, uma vez que o movimento do ateli estava crescendo, mas bem-humorada encontrava tempo para tudo. Sentia-se til e feliz. Nunca tinha 
trabalhado tanto, mas fazia-se com prazer.
  Todo o tempo de que dispunha, estava com os dois, opinando, revelando-se muito eficiente e prtica. Tanto Jair como Gilson no tomavam nenhuma deciso sem consult-la 
e os trs decidiam todas as providncias juntos.
  Aristides tambm estava empolgado, Jacira nunca se lembrava de t-lo visto com tanto entusiasmo. Parecia outra pessoa. Desde o incio colocara-se  disposio 
deles, ajudando no que podia.
  A casa de Jacira, antes silenciosa, tornara-se movimentada. At Geni, alegre por ter o filho de volta, esmerava-se na cozinha com Maria Lcia, experimentando receitas, 
fazendo o que cada um gostava.
  Maria Lcia integrara-se perfeitamente na famlia, tornara-se mais alegre. Gostava de cantar, mas s o fazia quando no havia ningum em casa. Aprendia no s 
as canes em voga como as mais antigas.
  Geni lhe ensinara algumas msicas de sua juventude e ela as aprendera com facilidade. Cantava com tal sentimento que Geni sentia-se transportada aos anos da sua 
mocidade. Insistia com Maria Lcia para que cantasse diante da famlia, mas ela se recusava. At o dia em que Jacira chegou inesperadamente e a surpreendeu.
  - Voc tem alma de artista! - disse. - Por que nunca nos disse que sabia cantar desse jeito?
  - Minha me sempre cantava comigo. Foi ela que me ensinou muitas canes. Mas aqui ningum tem esse hbito e eu pensei que no iriam gostar.
  - Como no? Voc tem uma linda voz, afinada,  um prazer ouvi-la. Quando sentir vontade de cantar, cante. A msica faz bem  alma. Nunca pensou em dedicar-se  
msica?
  - Sempre sonhei em aprender a tocar violo. Assim poderia cantar e acompanhar.
  -  uma boa ideia. Voc acha que daria conta de estudar e aprender violo ao mesmo tempo? 
  - Claro que sim!
  - Nesse caso, vamos ver uma boa escola.
  Os olhos dela brilhavam de alegria quando abraou Jacira, que beijou sua face com carinho. 
  Apesar de gostar muito dela, Jacira tinha dificuldade em demonstrar seu afeto, no apenas com ela, mas com todos da famlia.
  Naquele momento, Maria Lcia foi to espontnea, deu-lhe tanto prazer, que a partir dali, Jacira tornou-se mais carinhosa com as pessoas.
  Jair entrou na sala dizendo:
  - Est pronta? Vamos. Gilson est esperando no carro.
  Jacira apanhou a bolsa e o acompanhou. Vendo a chegar, Gilson abriu a porta do carro para que ela entrasse:
  - Como voc est linda! 
  Jair interveio:
  - No fale assim que ela pode acreditar!
  - Antes eu no acreditava, mas agora eu sei que sou bonita!
  - Viu como ela est ficando convencida?
  - Acho bom voc se controlar. Ela pode no gostar e nos deixar de lado. - comentou Gilson.
  Jacira que se sentara atrs no carro respondeu:
  - J entendi! Voc est querendo me "comprar". Saiba que eu no me vendo. Estou ajudando vocs porque me faz bem, d-me prazer. Sou uma pessoa boa. S.
  Mesmo dirigindo o carro, sempre que possvel, Gilson a olhava pelo retrovisor. Ela percebia os olhos dele fixando-a e fingia no ver.
  Notava que ele a olhava com admirao, mas no sabia o tanto que isso significava. Algumas vezes, Jair brincava insinuando que Gilson estava gostando dela. Mas 
ele nunca lhe dissera nada que a fizesse acreditar que fosse verdade.
  Jacira sentira-se atrada por ele desde o primeiro dia. Com a convivncia, a admirao, tornara-se um sentimento maior. Ela se emocionava com a proximidade dele, 
com sua maneira de ser e principalmente com a postura tica e firme que tinha diante da vida.
  Alm disso, ele compartilhava suas ideias sobre espiritualidade e ensinara-lhe muitas coisas com suas atitudes verdadeiras e naturais.
  Ela estava pensativa, calada. Gilson deu uma olhada pelo espelho e comentou:
  - Eu gostaria de saber o que voc est pensando... To calada... To sria...
  Jacira sorriu:
  - No estava pensando em nada...
  - Sua resposta revela que voc no quer falar sobre isso.
  - Quem sabe o que se passa na cabea de uma mulher? - perguntou Jair rindo.
  Tinham chegado ao local e Jacira sentiu-se aliviada por no ter de responder. Desceram e entraram na loja onde pretendiam comprar alguns mveis para
 pequeno escritrio da fbrica. Ela j estava funcionando havia um ms e com essa compra eles terminariam as instalaes.
  Jair fizera algumas viagens pelo interior divulgando a nova empresa, oferecendo seus produtos de maneira atraente, e os primeiros negcios comearam a aparecer.
  Jacira, Maria Lcia e Gilson, continuavam indo s reunies na casa de Ldia. De vez em quando Geni os acompanhava. Mas Jair, apesar dos convites, nunca ia.
  Ele tinha medo e no gostava nem de falar sobre o assunto. Gilson o advertia:
  - No adianta fugir. Voc tem mediunidade.  melhor estudar a fim de evitar alguma surpresa.
  - Voc e Jacira s falam nisso! Eu no tenho nada e no quero me envolver com esse assunto.
  Depois que comeara a frequentar essas reunies, Maria Lcia sentia-se muito bem. O esprito de sua me nunca mais a assediara.
  O esprito de Marina costumava comparecer a essas reunies e informara que Rosalina se encontrava em um lugar de refazimento e que, quando estivesse bem, voltaria 
para conversar com ela.
  Dentro da loja, depois de fazerem algumas compras, Gilson lembrou:
  - No podemos nos atrasar. Hoje  dia da reunio na casa de Ldia 
  Jacira concordou com a cabea e disse para Jair:
  - Hoje seria um dia bom para voc nos acompanhar a essa reunio.
  - Por qu? No vejo nada de especial.
  - Esqueceu? Hoje  aniversrio do Neto.
  Jair sentiu um forte arrepio percorrer-lhe o corpo. Por um momento a figura do irmo surgiu em sua mente.
  - No me lembrava disso. No guardo datas com facilidade.
  - Nos ltimos dias tenho pensado muito nele e hoje pensei em levar algumas flores para fazer uma homenagem a ele.
  - Voc fala como se ele estivesse morto mesmo. Eu no tenho essa certeza.
  - Bem que eu gostaria que ele estivesse vivo. Mas diante do que aconteceu, estou inclinada a acreditar que ele de fato morreu. Sendo assim, nesta data, pode ser 
at que ele venha nos visitar.
  - No acredito nisso. Voc est se iludindo. Que provas tem de que era o esprito dele que Maria Lcia recebeu?
  Gilson interveio:
  - Que provas voc tem de que no era?
  Jair estremeceu e disse nervoso:
  - Vocs querem  me deixar irritado. No gosto desses assuntos. Neto est to vivo quanto eu e, com certeza, a qualquer momento vai aparecer em casa.
  - Se ele voltasse para casa, mame ficaria em paz. Sabe como ela . No se esquece dele. Sempre diz que a presena dele  a nica coisa que falta para que ela 
se sinta completamente feliz. Mas temo que isso nunca acontea.
  - s vezes sinto vontade de sair  procura dele. Estou certo de que com uma investigao bem feita, conseguiria encontr-lo.
  - O nico endereo que temos  o do hotel onde ele trabalhava. L ningum sabe informar nada a respeito dele. Dizem que ele deixou o emprego e nada mais.
  - No momento, no tenho tempo para ir procur-lo. Mas assim que tiver uma folga irei ao Rio e estou certo de que serei bem-sucedido. Quero mostrar a vocs que 
essa loucura de sesses espritas  uma grande iluso.
  Jacira trocou um olhar de cumplicidade com Gilson que respondeu:
  Faa isso mesmo. A hora da verdade sempre chega, no importa o tempo que demore.
  Gilson lanou-lhe um olhar desafiador e provocou:
  - Se voc no acredita por que tem tanto medo de ir a uma simples reunio na casa de Ldia?
  Jair levantou a cabea irritado:
  - Meu medo  que uma desculpa para no ir. Iria me sentir ridculo sentando em uma mesa e esperando pela manifestao de espritos.
  - Voc quer mostrar-se corajoso, mas  covarde. Diga a verdade. Voc est tremendo de medo! - Caoou Jacira rindo. E continuou: - Se quiser ir prometo segurar 
a sua mo para dar-lhe coragem. Os espritos no fazem mal a ningum.
  Jair encarou-os com raiva e respondeu:
  -Pois eu vou mostrar-lhe que no acredito mesmo e no tenho medo de nada. Irei com vocs e no preciso de ningum.
  Naquela noite, a famlia inteira foi  reunio na casa da Ldia. Como era aniversrio de Neto, Jacira disse aos pais que levaria flores e rezariam pedindo a Deus 
que descobrissem o paradeiro dele.
  At Aristides resolveu ir. Sempre conversava muito com Gilson, a quem admirava. Ele j lhe falara sobre espiritualidade, relatando alguns fenmenos de mediunidade 
e despertando seu interesse.
  Quando chegaram na casa de Ldia, faltavam alguns minutos para a hora da reunio. Ldia tinha um esperanoso quarto nos fundos da casa que destinara s atividades 
espirituais. Tinha uma mesa redonda no meio, cadeiras em volta e outras mais atrs. Ela sabia que naquela noite, mais pessoas iriam.
  Do lado, um aparador sobre o qual estava um lindo vaso com flores, uma bandeja com uma jarra de gua e alguns copos. A sala estava iluminada apenas por uma luz 
azul e no aparelho de som, uma msica suave harmonizava o ambiente.
  Ldia recebeu-os com carinho, colocou as flores que Jacira trouxera em um vaso e convidou-os a ir para a sala de reunies onde Estela j se encontrava.
  - Hoje  aniversrio do Neto. Trouxemos estas flores em homenagem a ele.
  Geni segurou o brao de Ldia dizendo com voz splice:
  - Viemos pedir, aos espritos seus amigos que nos ajudem a ter noticias do meu filho. Deus sabe onde ele est e pode nos ajudar.
  - Vamos pedir, d. Geni. Eles sempre ouvem os pedidos de uma me. Sentem-se. Est na hora de iniciarmos a reunio.
  Ela pediu que todos se sentassem ao redor da mesa. Apesar de ter lugar para todos, Jair preferiu ficar nas cadeiras de fora.
  Ldia solicitou que relaxassem e elevassem o pensamento pedindo a ajuda de Deus. Fez comovida prece saudando os amigos espirituais e abrindo a reunio.
  Pouco depois, Estela comeou a falar com voz suave:
  -  com alegria que estou aqui, trazendo o carinho de muitos amigos. Quero falar da generosidade da vida, que apesar dos nossos enganos, trabalha sempre para nos 
conduzir a uma vida melhor. Confiemos na bondade divina que nunca nos desampara. Deus nos abenoe.
  Ela calou-se e o silncio se fez alguns segundos. Jair, sentado no fundo da sala, estava inquieto.
  Remexia-se na cadeira respirando com dificuldade. Arrepios percorriam-lhe o corpo e uma angstia insuportvel comprimia-lhe o peito.
  Ia levantar-se quando Ldia j em p do lado Dele colocou a mo sobre sua testa dizendo:
  - Tenha calma. Isso no  seu. No tenha medo. Jair arfava, esforando-se para respirar e tentava levantar-se, mas Ldia, segurando sua testa, disse com voz firme:
  - Se voc no se acalmar e continuar assim, ter de ser retirado  fora. Queremos ajud-lo, mas precisa cooperar.
  - Eu no aguento mais! Quero falar! Todos esto aqui. Me, estou arrependido. No fiz o que prometi. Filha, eu estava louco. No sabia o que estava fazendo quando 
as abandonei! Paguei muito caro a minha loucura. Por favor, perdoem-me. Estou sofrendo muito.
  Emocionada, Jacira segurou a mo de Geni que, com olhos arregalados, tremia assustada. Jair continuou:
  - Vocs no esto me conhecendo? Sou o Neto.
  Geni soltou um soluo, olhou aflita para Jacira que continuava apertando sua mo e passou o brao sobre os ombros dela, procurando ampar-la.
  Nesse momento, Maria Lcia estremeceu e disse raivosa
  - Voc agora se diz arrependido, implora perdo, mas eu no o perdoo. Eu o amei com todo o corao, ofereci-lhe o meu melhor e voc nos deixou para ir atrs da 
sua ambio. Trocou-nos por dinheiro. Se tivesse sido por amor, talvez eu o perdoasse, mas foi s interesse. O pai dela era rico e o comprou. E eu tive de me sujeitar 
a uma vida difcil, criar minha filha sem poder dar-lhe tudo quanto ela merecia. Depois de tudo que nos fez, hoje nos encontramos aqui. Vendo-o, minha mgoa reapareceu 
e continua viva como no primeiro dia. Voc tem de pagar por tudo o que nos fez.
  - Rosalina, eu estava errado. Por favor, perdoe-me.Hoje reconheo que voc  o amor de minha vida. Depois que a deixei, nunca mais fui feliz. Diga que me perdoa. 
Estou disposto a refazer o nosso caminho. Quero ficar junto com voc, comear de novo. Juntos, construiremos um futuro melhor. Sei que  possvel. 
  -  muito tarde. A ferida continua doendo. No posso esquecer.
  - Por favor, d-me uma chance, eu sofri, amadureci, mudei... Por favor, no me levem embora. Eu quero ficar, falar com minha me, pedir perdo, deixem-me ficar 
um pouco mais, deixem... 
  Jair calou-se, respirou fundo. Ldia ofereceu-lhe um copo de gua que ele segurou com a mo trmula e foi tomando devagar. Ela encaminhou-se at Maria Lcia quer 
soluava, colocou a mo em sua testa dizendo:
  - Acalme-se, Rosalina. Voc est perturbando Maria Lcia.
  - Desculpe. No desejo mago-la. Perdoe-me.
  - Voc agora precisa ir embora.
  - No. Quero conversar com minha filha.
  - Agora no  possvel. V com essa moa que est ao seu lado. Quando estiver melhor, poder voltar e conversar com ela. 
  Maria Lcia suspirou, abriu os olhos tentando acalmar-se. Ldia deu-lhe um copo de gua. Ela bebeu e foi serenando.
  Geni soluava baixinho, Jair, plido, procurava controlar a emoo e refazer-se. Aristides, olhos marejados, observava calado.
  Ldia sentou-se novamente:
  - Vamos agradecer a bondade divina que hoje permitiu a presena de dois espritos sofridos, que necessitam do nosso carinho. No temos condies de julgar ningum, 
portanto, vamos orar em silncio a favor de todos os envolvidos para que cada um encontre a paz no corao.
  O silncio se fez e depois de alguns segundos, Estela comeou a falar:
  - Chegou a hora de eu conversar com vocs sobre o que aconteceu aqui esta noite. H muitos anos atrs, vivia em uma aldeia na Itlia uma jovem muito bonita, de 
famlia rica e importante, chamada Gina que se apaixonou perdidamente por um jovem e foi correspondida. Casaram-se, tiveram dois filhos. Ele, muito rico, carter 
fraco, mulherengo, apesar de gostar de Gina, envolvia-se com outras mulheres. Num desses encontros, apanhado por um marido trado, morreu assassinado, deixando dois 
filhos adolescentes. Gina, de temperamento dramtico, emocionalmente exacerbada, no suportou a traio nem a viuvez. Entregou-se  depresso, perdeu o gosto pela 
vida. Nada mais lhe interessava. Os filhos: o mais velho ambicioso e desejoso de poder, envolveu-se com poltica, no medindo esforos para conseguir o que desejava. 
Valia tudo desde que se sentisse dono do mundo.
  "O mais novo tinha prazer em usufruir a riqueza, gastava sem limites, imaginando que seu dinheiro nunca acabaria. Ambos se deram mal. Gina foi definhando at morrer 
com menos de cinquenta anos. O filho mais velho tornou-se poderoso, mas morreu odiado e perseguido pelos inimigos polticos. J o mais novo acabou na misria, depois 
de depredar toda a fortuna terminou seus dias em um asilo, inconformado e triste."
  Estela calou-se durante alguns segundos. Todos a ouviam atentos e ela prosseguiu:
  -  fcil de imaginar como voltaram  vida astral. Durante muito tempo cada um teve de suportar os resultados de suas escolhas. Arinos, o marido de Gina, reconhecendo 
que seu assassino tivera motivos para tirar-lhe a vida, em vez de partir para a vingana como fizera no incio, reconheceu seus erros, pediu ajuda e foi auxiliado.
  "Arrependido, procurou Gria e a encontrou ainda mergulhada na depresso, vivendo em uma regio umbrtica e triste. Estava fraca e sem vontade prpria. Ele tentou 
de todas as formas ajud-la, mas ela no reagia a nada.
  "Um mentor espiritual aconselhou-o a procurar os dois filhos. Foi o que ele fez. Procurou por eles. O
mais velho, Vitorio, estava preso pelos seus inimigos, sendo forado a obedec-los trabalhava como escravo. J Gino, o mais novo, estava inconformado com a misria, 
alimentando a iluso de ainda ser muito rico.
  "A custo, Arinos conseguiu auxili-los e conduzi-los a uma recuperao. Aos poucos eles foram melhorando e se conscientizando dos seus erros. Arrependidos, juntaram-se 
ao pai no auxlio a Gina. Todos se sentiam culpados pela depresso dela.
  "Dedicaram-se bastante e aos poucos ela foi reagindo. Eles melhoraram, mas as lembranas das falhas do passado surgiam impedindo-os de seguir adiante. Ento, foram 
aconselhados a reencarnar. Arinos e Gina iriam primeiro e os dois filhos depois. Tudo programado. A vida encarregou-se de colocar em prtica."
  Estela fez silncio durante alguns minutos. Depois, deu um longo suspiro e tornou:
  - Preciso parar aqui. Mas esta histria vai continuar. Eu voltarei para contar. Podem esperar. Um abrao agradecido da amiga Marina.
  O silncio se fez. Ldia murmurou ligeira prece de agradecimento e acendeu a luz. Todos emocionados desejavam falar, mas no conseguiam.
  Ldia distribuiu os copos de gua e eles tomaram em silncio. Sabiam que eram os personagens daquela histria. Era a vida da famlia que se repetia.
  Geni soluava baixinho e Ldia aproximou-se colocando a mo sobre a dela, com carinho. Ela levantou a cabea dizendo triste:
  - Meu filho est morto? Era o Neto mesmo?
  - Era ele, sim. Mas a morte no  o fim e ele continua vivo em outro mundo.
  Geni suspirou triste e respondeu: 
  - Mas ele nunca mais voltar!
  - Ao contrrio. Ele est de volta e poder visit-la outras vezes.
  Geni abanou a cabea negativamente: 
  - Ah! Mas no  a mesma coisa!
  Ldia sentou-se ao lado dela e, segurando sua mo, explicou-lhe:
  -  diferente, mas ele continua o mesmo, s que agora est mais lcido, percebeu o quanto estava errado e est se empenhando para tornar-se uma pessoa melhor. 
Isso  motivo de alegria, no de tristeza.
  - Pobre filho, est sofrendo muito!
  - A culpa  muito dolorosa. Ele sofre porque tem conscincia dos seus erros e ainda no conseguiu ser perdoado por aqueles a quem prejudicou.
  Maria Lcia levantou-se, aproximou-se delas dizendo:
  - Terei estendido bem? A filha a que ele se referia sou eu? Mas o nome de meu pai no era Neto. Era Vicente.
  Todos os presentes fixaram os olhos nela admirados. Aristides respondeu emocionado.
  - O nome dele era Vicente, igual ao de meu pai. Por esse motivo todos o chamavam de Neto. Se isso  verdade, voc  minha neta! 
  Maria Lcia abraou-o emocionado e Geni juntou-se a eles no mesmo abrao. Jair e Jacira, aproximaram-se, olhos brilhantes de emoo, e abraaram-se a eles em silncio. 
A emoo era tanta que no conseguiram express-la em palavras.
  Quando se sentiram mais calmos, Ldia tornou:
  - Sinto-me feliz por essa revelao. Eu sabia que Maria Lcia tinha uma ligao muito forte com vocs. Hoje  um dia de festa. Vamos para a sala. Temos que comemorar. 
Vou abrir um vinho, fazer um brinde.
  Ela saiu e todos a acompanharam. Mais refeitos da surpresa, comentavam os acontecimentos. Jacira aproximou-se de Ldia.
  - Marina falou de todos, menos de mim. No mencionou o meu nome. Ser que no perteno  famlia? Nesse caso, por que estou aqui?
  - Essa  uma pergunta que na hora eu tambm me fiz. Mas Marina disse que a histria vai continuar, ento saberemos.
  Gilson aproximou-se de Jair:
  - Como se sente?
  - Difcil de explicar. Estou um pouco confuso, mexido, emocionado. Sinto que alguma coisa mudou dentro de mim. Preciso de um tempo para refletir, entender o que 
aconteceu.
  - Sei como . Voc estava distante da realidade e agora sabe, sente como as coisas so. A poeira vai assentar e voc vai ficar bem.
  Jair respirou fundo e comentou:
  - Senti-me muito mal. Pensei que fosse morrer. No conseguia segurar minha boca que falava sem parar. Eu ouvia sem poder control-la. O que mais me espanta  que 
quando parei de falar, tudo desapareceu e, como em um passe de mgica, voltei ao normal. Como pode ser isso?
  - O mal-estar que voc sentia, no era seu. Quando o esprito de Neto aproximou-se e o envolveu, tudo que ele sentia voc sentiu. Assim que ele foi afastado, voc 
voltou ao normal.
  - Ser que foi o esprito do Neto mesmo? Eu preciso ter certeza de que ele morreu, de que no estamos sendo vtimas de uma mentira.
  Gilson sorriu e respondeu:
  - Concordo. Precisamos saber o que aconteceu a ele. Amanh mesmo vamos pesquisar, tentar descobrir. Se ele est morto, deve existir uma prova qualquer em algum 
lugar, um atestado de bito, um tmulo.
  - Isso mesmo. Vamos investigar.  importante para nossa famlia.
  Eles continuaram conversando com Ldia sentados na sala, fazendo perguntas sobre mediundade e vida aps a morte com muito interesse.
  Naquela noite, deitada na cama ao lado do marido, Geni abraou-se a ele trocando ideias sobre o que teria acontecido ao filho, imaginando como ele teria morrido.

  XV
  A partir daquela noite, as reunies na casa de Ldia ficaram muito concorridas. Todos tinham interesse em comparecer, esperando que Marina voltasse para continuar 
a histria da famlia, como havia prometido. Ela, porm, no comparecia.
  Os negcios estavam prosperando. A casa de Margarida estava sendo construda e eles sentiam-se muito felizes. A empresa de Duarte e Jair ia formando uma carteira 
razovel de compradores de seus produtos e eles, confiantes, dedicavam-se com garra e disposio.
  Jair viajava por outras capitais, distribuindo amostras dos produtos, conquistando novos clientes. Nessas viagens, levava livros espiritualistas que Gilson lhe 
emprestava, e,  noite, no hotel, mergulhava na leitura.
  Quando regressava, discutia com Gilson suas dvidas, interessado em encontrar comprovaes e esclarecer-se. Ao chegar, a primeira pergunta que fazia era se Marina 
tinha comparecido s sesses e contado o restante da histria.
  Ele esperava que ela pudesse dar-lhe uma pista para que descobrissem como Neto morrera.
  Gilson tinha contratado um detetive especializado em procurar pessoas desaparecidas e no media esforo para auxili-lo no que precisasse.
  Estava difcil. A nica pista era o hotel onde ele havia trabalhado, porm l ningum sabia de nada. Os anos tinham passado, o hotel tinha sido vendido, os funcionrios 
eram outros. Procuraram nos arquivos policiais, na lista de bitos da prefeitura, no encontraram nada. Mesmo assim por causa da insistncia de Geni e de Jair, continuavam 
pesquisando.
  Dois meses depois, Jair precisava viajar para o sul na segunda feira para poder comparecer  sesso na casa de Ldia.
  Durante a reunio, quando o guia espiritual de Estela compareceu dando sua mensagem, Jair pediu-lhe que os ajudasse a descobrir o que havia acontecido a Neto.
  O esprito respondeu que o caso estava sob os cuidados de abnegados instrutores, que o Jair continuasse orando em benefcios do irmo e confiasse na bondade divina.
  No era isso o que ele desejava ouvir e, ao trmino, retirou-se desanimado. Na volta, notando sua decepo, Gilson considerou:
  - No fique triste. As coisas s acontecem na hora certa.
  - Ele deve saber de tudo. O que custava facilitar nossa busca?
  - Eles no agem sem que a vida lhes d permisso. Respeitem os acontecimentos porque sabem que eles tm uma razo de ser. Para eles,  mais importantes que as 
pessoas descubram o prprio caminho, conheam as leis csmicas e aprendam como a vida funciona. Esse  o caminho da evoluo.
  Jair teve de conformar-se. Gilson emprestou-lhe mais um livro para ler durante o vo at Porto Alegre. Mas ele sequer abriu. Seus pensamentos tinham voltado no 
tempo quando muito jovem morava naquela cidade durante algum tempo.
  Lembrou-se de dois amigos que deixara l e que nunca mais encontrara. Fora um tempo em que trabalhara muito, passara dificuldade, mas fizera boas amizades.
  O que teria acontecido com eles? Estariam ainda morando l? Seria bom reencontr-los. Assim que se instalasse no hotel iria procur-los.
   noite, consultou a lista telefnica e encontrou o nome de um deles. Ligou. Uma voz de mulher atendeu e ele perguntou:
  -  da casa do Berto?
  -  sim.
  - Posso falar com ele?
  - Um momento.
  Enquanto esperava, ouviu vozes de criana conversando, rindo. Pouco depois o amigo atendeu:
  - Quem est falando?
  - Jair. Lembra-se de mim?
  - Jair, seu safado.  voc mesmo? No acredito!
  - Sou eu sim. Cheguei hoje, vim a trabalho. Estou de passagem. Senti saudades de vocs.
  - Por onde tem andado? Voc sumiu... Nunca mais deu notcias.;
  Estive fora do Brasil. Regressei h alguns meses.
  - Voc nem pense em ir embora sem vir a minha casa, conhecer minha famlia.
  - Terei o maior prazer de encontr-lo, matar as saudades dos velhos tempos.
  - Neste caso vou busc-lo agora mesmo. Preciso mesmo ter uma conversa com voc. Em que hotel voc est?
  Jair deu o do hotel e disse alegre:
  - Estarei o esperando.
  Satisfeito, Jair tirou a roupa da mala para no amassar, depois de dar uma vista de olhos no espelho, desceu e sentou-se no saguo do hotel
  Dez minutos depois, Berto chegou. Era um homem alto, encorpado, rosto largo, cabelos crespos, sorriso fcil, olhos vivos e alegres.
  Jair levantou-se olharam-se e trocaram um abrao apertado.
  - Vamos tomar alguma coisa e conversar - convidou Jair.
  Depois de acomodados. Berto contou que se casara e tinha um casal de filhos. Formara-se em engenharia civil, montara uma construtora, tinha uma vida feliz.
  Jair colocou-se a par de suas aventuras pelo mundo e o que estava fazendo em Porto Alegre.
  - Por essa razo no o encontrei. H uns trs anos, mais ou menos, eu o procurei, precisava muito falar com voc.
  - Aconteceu alguma coisa?
  - Aconteceu.
  Berto hesitou um pouco depois decidiu:
  - Uma vez voc me disse que tinha um irmo mais velho que se chamava Neto.
  -  verdade.
  - Eu sabia! - exclamou ele satisfeito. - Era ele mesmo!
  - Voc o conheceu ? Onde? 
  - Aqui mesmo em Porto Alegre.
  - Mas ele morava no Rio. Tem certeza de que era ele?
  - Era sim. Eu tinha negcios com um rico empresrio cuja filha foi estudar no Rio de Janeiro e voltou de l casada com um rapaz chamado Vicente da Silva Neto. 
No era esse o nome dele?
  - Era... H tempos o estamos procurando. Sabe o endereo dele?
  Berto hesitou um pouco depois tornou:
  - Infelizmente ele faleceu de maneira muito triste.
  Jair segurou o brao do amigo com fora:
  - Ento ele est morto mesmo. Como foi isso?
  - Segundo sei, ele trabalhava na empresa do sogro e no se dava bem com ele. Parece tambm que o casamento no deu muito certo.
  - Por qu?
  - No sei bem. Ouvi comentrios de que a esposa era muito ciumenta. Dora era filha nica e seu Nivaldo a mimava muito. Aconteceu que os negcios dele comearam 
a ir mal e ele culpava o genro. Eles brigavam muito. Seu irmo chegou a sair de casa algumas vezes. Mas Dora chorava e seu Nivaldo ia busc-lo de volta.
  - O Neto tinha um gnio difcil. Sempre de mau humor.
  Berto ficou calado durante alguns segundos e Jair pediu:
  - Quero saber tudo. Seja o que for, pode falar.
  Berto suspirou e decidiu:
  - Est certo. Havia rumores de que seu irmo desviava dinheiro da empresa. No sei se  verdade. Alguns dias antes de a falncia ser decretada, seu Nivaldo desapareceu 
levando a filha, sem dizer nada para o genro, que ficou sozinho diante da situao. Ningum nunca soube para onde foram.
  Ele vez ligeira pausa e continuou:
  - Neto tentou fazer o mesmo. Durante a madrugada apanhou todo dinheiro disponvel, arrumou seus pertences e colocou no carro. No dia seguinte foi encontrado morto 
dentro do carro, sem nada. A polcia noticiou como assalto, mas os ladres nunca foram encontrados.
  Jair no conteve a emoo, olhos marejados disse:
  - Eu sabia que ele estava morto, mas no imaginei que tivesse sido assassinado!
  - As pessoas que conviviam com eles disseram no acreditar que o mvel do crime tenha sido roubo.
  - No? Por qu?
  - Seu Nivaldo andava cercados por dois seguranas para proteo, mas era voz corrente que eles eram seus capangas e faziam servio sujo para o patro.
  - Em que lugar meu irmo foi cair...
  - Concordo. Por causa do nome eu desconfiava que ele pudesse ser seu irmo. Tanto que quando aconteceu, procurei voc por toda a parte para lhe contar. Esperando 
encontr-lo guardei alguns jornais da poca para lhe mostrar.
  - Voc ainda os tem?
  - Tenho. Vamos para minha casa. Minha mulher est nos esperando.
  Jair o acompanhou pensativo. Foi recebido pela esposa do amigo com carinho, brincou com as crianas, conversou sobre outros assuntos. Enquanto ela cuidava do jantar 
e dos filhos, Berto levou Jair para seu escritrio nos fundos da casa e entregou-lhe uma pasta onde estavam os jornais falando do crime.
  - Eu gostaria que nosso encontro fosse feliz, por esse motivo hesitei em dar-lhe essa notcia. Mas depois pensei que se estivesse em seu lugar, gostaria de saber 
a verdade.
  Ento Jair contou-lhe nos mnimos detalhes, como tomou conhecimento da morte do irmo e finalizou:
  - Depois desses acontecimentos, eu senti que precisava descobrir a verdade. Tenho pedido muito a Deus e finalmente hoje a encontrei.
  - Eu sou catlico e nunca acreditei em comunicao de espritos. Agora voc balanou minha incredulidade. Quanto mais penso nisso, mais sinto que depois dessa 
descoberta passarei a olhar o mundo de forma diferente.
  - Voc foi instrumento para que eu tivesse a prova de que no foi iluso. Estou certo de que a vida continua depois da morte e tambm que ns todos continuaremos 
vivos no outro mundo. Diante disso, s posso agradecer por se incomodar em guardar essas; informaes para mim.
  A conversa fluiu alegre, ambos falando dos projetos futuros. Quando Berto levou Jair de volta ao hotel,          ha se fortalecido e ambos prometeram dali para 
a frente continuar mantendo contato.
  Jair chegou ao hotel passava das onze Sentia vontade de ligar, para casa e contar a novidade. Mas pensando melhor decidiu falar primeiro com Gilson.
  Ainda no sabia se deveria contar aos pais como Neto morrera. Talvez fosse melhor tentar amenizar os fatos.
  Ligou para Gilson que atendeu logo. Depois dos cumprimentos, Jair contou-lhe tudo e finalizou:
  - Ainda estou emocionado. A verdade apareceu sem que eu precisasse fazer nada.
  -  assim mesmo. Quando chega a hora a vida age. Ns temos nos esforado para manter a confiana fazendo nosso melhor.
  - Eu acreditei no que os espritos disseram. s vezes um pensamento de dvida aparecia e eu me esforava em mand-lo embora. Mas depois do que aconteceu hoje, 
nunca mais esse pensamento vai me incomodar. Agora entendo por que voc e Jacira so to confiantes.  que j -chegaram  certeza.
  - Essa certeza nos d fora para enfrentarmos os desafios do caminho com disposio e coragem. Tudo est certo. A vida age sempre para o melhor.
  Jair suspirou satisfeito e respondeu:
  - Apesar de lamentar o que aconteceu com Neto, sinto-me feliz por ter essa certeza. O que me emociona  descobrir que a vida est cuidando de mim o tempo todo 
e dispondo os fatos conforme minha necessidade. No  incrvel?
  Gilson riu bem-humorado e respondeu:
  - Voc esqueceu o fato de que somos filhos de Deus?
  No dia seguinte, logo cedo, Gilson foi ao ateli procurar Jacira. Ela tinha acabado de chegar e recebeu-o com prazer. Estava bonita dentro de um vestido vermelho 
muito elegante e ele comentou:
  - Voc est cada dia mais bonita. Qual  seu segredo?
  Rosto corado de prazer ela respondeu:
  - Alegria de viver. Estou de bem com a vida!
  - E ela retribui fazendo-a florescer.
  Jacira emocionou-se e tentou dissimular: 
  - O que o trouxe aqui to cedo?
  - Tenho uma novidade. Jair ligou ontem  noite. 
  - Pelo brilho de seus olhos deve ser alguma notcia boa. Ele fez algum grande negcio?
  - No se trata disso. Ele teve notcias de seu irmo.
  - At que enfim! Encontrou uma pista?
  - Melhor. Ficou sabendo como ele morreu e quando.
  - Sente-se, Gilson, quero saber tudo nos mnimos detalhes.
  Sentados um diante do outro. Gilson colocou-a par de tudo. Olhos cheios de lgrimas Jacira acompanhava o desenrolar dos fatos com muita emoo.
  - Agora d para saber por que ele veio at ns pedir ajuda - finalizou ele.
  Jacira, cabea baixa, lutava para controlar a emoo sem conseguir. Os soluos romperam a barreira e ela curvou-se chorando copiosamente. 
  Gilson aproximou-se, ofereceu-lhe um leno e ela tentou enxugar o rosto. Penalizado, ele passou o brao sobre os ombros dela que se levantou e o abraou. Rosto 
mergulhado nos seus cabelos, sentindo o perfume gostoso que vinha dela, apertou-a de encontro ao peito.
  Aos poucos ela foi serenando, mas de vez em quando estremecia tentando conter a catarse. Gilson no se conteve e colou os lbios nos dela com amor.
  Jacira deixou-se envolver na forte emoo e no pensou em mais nada, a no ser em viver aquele momento h tanto tempo imaginado.
  Beijaram-se vrias vezes, depois ela afastou-se um pouco dizendo baixinho:
  - Desculpe. No consegui me conter.
  Ele fixou os olhos nos dela e beijou-a novamente. 
  - No adianta tentar, Jacira.  mais forte do que ns. Venha, vamos nos sentar no sof.
  Depois de acomodados ele continuou:
  - Senti-me atrado por voc desde o primeiro dia.Esse sentimento foi crescendo e hoje no consegui me conter. Diga que tambm me quer.
  - Voc me atraiu tambm desde o comeo. Eu esperava que demonstrasse. Mas se em algum momento. Voc parecia interessado, em seguida mostrava-se indiferente, dando 
a impresso de que no queria gostar de mim. Quando agia assim, eu sentia que havia alguma coisa que o impedia de manifestar seu afeto. Por fim, imaginei que seu 
interesse no era grande o bastante para termos um relacionamento.
  - Voc sentiu que eu guardo um segredo doloroso no corao. Mas hoje, sinto que a amo mais do que tudo. Quero casar com voc, viver para sempre a seu lado.
  Beijaram-se novamente e Gilson continuou:
  - Vou abrir meu corao sobre os acontecimentos do passado que infelicitaram minha juventude e me fizeram acreditar que a felicidade neste mundo tinhas se tornado 
impossvel para mim.
  Olhando nos olhos dela com carinho Gilson falou sobre seu relacionamento com Marlia, a dor que sentiu ao enfrentar sua morte prematura e a dificuldade que teve 
para reassumir sua vida. E concluiu:
  - Se eu no tivesse ido procurar Chico Xavier, recebido a sua mensagem de Marlia, talvez minha vida tivesse sido diferente. Todavia, a certeza de que somos eternos, 
a beleza de saber que apesar dos desafios no estamos ss, confortou-me, fez-me aceitar os fatos de forma menos dolorosa.
  - Posso avaliar. Essa certeza tambm mudou completamente minha vida. De uma mulher deprimida, que se vitimava, sem futuro nem alegria de viver, tornei-me o que 
sou hoje. No vou negar que precisei lutar para jogar crenas que alimentei durante toda a minha vida. Mas o resultado valeu a pena.
  - Eu reagi. Nos primeiros tempos foi difcil jogar fora meu projetos de felicidade. Mergulhei nos estudos
e no trabalho para fugir das lembranas. Mas, aos poucos, voltei a ter prazer de cuidar de mim, de sentir-me de bem com a vida. S no tinha conseguido amar outra 
vez.

  XVI
  - Eu gostaria de ir agora falar com mame. No tenho nada importante marcado em minha agenda, mas se aparecer algum fornecedor, voc pode atender?
  - Deixe comigo. V e demore o quanto quiser. Vocs dois deveriam tirar o dia para comemorar. Ester e eu daremos conta de tudo.
  Jacira apanhou a bolsa e ambos saram de mos dadas sob o olhar carinhoso de Margarida. Ao passarem pela recepo, acenaram para Ester, que os olhou surpreendida, 
saram.
  Ao entrarem na casa de Jacira, Geni estava na cozinha preparando o almoo, Aristides no quintal cuidando da horta e Maria Lcia na sala arrumando flores no vaso.
  Vendo-os entrar aproximou-se:
  - Estava cuidando da sala. No os esperava. Alguma novidade?
  - Sim - respondeu Jacira -, mame deve estar na cozinha. Papai est em casa?
  - Est no quintal.
  - V cham-los, por favor.
  Ela saiu e os dois acomodaram-se no sof. Pouco depois Maria Lcia voltou com eles. Gilson levantou-se para cumpriment-los.
  - Temos novidade - disse Jacira.
  - O que aconteceu? - indagou Geni preocupada. 
  - Jair teve notcias do Neto.  melhor se sentarem. 
  Maria Lcia fez meno de retirar-se, mas Jacira completou:
  - Voc tambm.
  Geni sentia as pernas bambas e Aristides ajudou-a a acomodar-se ao lado dele no sof.
  - O que ele descobriu?
  Jacira fez uma pausa escolhendo as palavras. Pelo tom de sua voz, notava-se que estava tensa.
  - O que os espritos disseram  verdade. Infelizmente Neto est morto.
  Geni levantou-se nervosa:
  - Como assim? Tem certeza mesmo?


  Sim. Ele morreu em Porto Alegre e seu corpo est enterrado l.
  Aristides levantou-se, abraou-a e f-la sentar-se novamente. Ela soluava desconsolada. Maria Lcia observava calada e triste.
  Aos poucos ela foi parando de chorar e levantou o rosto dizendo:
  - Quero saber os detalhes, tudo que aconteceu.
  Jacira contou como Jair reencontrara Berto e ele lhe falou sobre Neto. Contou que ele se casou, deixou o hotel no Rio de Janeiro, mudou-se para Porto Alegre e 
foi trabalhar na empresa do sogro.
  Ao que Geni comentou:
  - Ento ele ficou bem de vida. Por que ser que nunca nos procurou? Ele poderia ter nos comunicado seu casamento. Teve filhos? Jair conheceu a viva?
  - No. Neto no teve filhos. O sogro dele vendeu tudo e foi embora da cidade depois que Neto morreu. Berto no sabe para onde foram.
  - Que coisa estranha!
  Aristides interveio!
  - O Neto no merece suas lgrimas.  um ingrato. Sabia que estvamos lutando muito para sobreviver. Quando ficou bem de vida no pensou em ns.
  - Pai, no vamos julgar. Ns no sabemos as dificuldades que ele passou, nem como morreu. Quando ele veio em esprito, disse que errou muito nesta vida, arrependeu-se. 
Pediu-nos perdo. Nunca foi feliz e ainda no est bem.
  Geni interveio:
  - Era meu filho e eu o amo muito. Estou sofrendo por saber que ele morreu longe do meu carinho. Pode ter ficado doente, no ter sido bem cuidado.
  - Ele tinha a esposa - tornou Aristides.
  - Por mais que a esposa tenha amado, nunca ser igual ao meu amor de me. Eu faria tudo para que ele no morresse.
  - Quando chega a hora, ningum pode evitar - disse Aristides.
  Jacira olhou para Gilson sem saber o que dizer. Reconhecia que, mesmo no tempo em que Geni vivera mais alienada, nunca esquecera os filhos.
  Gilson tomou a palavra:
  - A senhora tem todo direito de expressar a sua dor. Mas  bom lembrar-se de que a morte no  o fim. A vida continua e seu filho est agora aprendendo a tornar-se 
uma pessoa melhor. Ele est sob a proteo de espritos bondosos, foi levado para um lugar onde ter como recuperar-se. Sei que a senhora deseja muito que ele vena 
suas dificuldades, encontre a serenidade e sinta-se mais feliz.
  Geni suspirou triste:
  -  o que eu mais desejo.
  - Ele est arrependido. Neste momento, sabendo que a senhora sofre por ele ter se afastado da famlia e no ter lhes dado o apoio que prometera, sente-se mais 
culpado.
  Geni olhou-o assustada:
  - No  isso o que eu quero.
  - Mas  isso que est acontecendo. Como acha que ele vai reagir percebendo o quanto a fez sofrer?
  Geni no respondeu logo, refletindo sobre as palavras de Gilson. Depois tornou:
  - Eu no tinha pensado nisso. Imaginava que revelando minha tristeza estava demonstrando o quanto eu o amo e sinto saudades.
  - Ele sabe disso. E  por esse motivo que est sensibilizado por no ter correspondido ao seu afeto como gostaria. Mas tanto a senhora como ele, sabem que a separao 
 temporria. Um dia vocs vo se encontrar e poder esclarecer todos os pontos.
  -  verdade, me. Apesar de tudo, ns j temos a certeza de que a vida continua. Essa  uma beno que devemos agradecer a Deus.
  Maria Lcia, que estivera calada, manifestou-se:
  - Apesar de no ter conhecido meu pai, lamento sua morte. No  esse fato que me incomoda. Sei que a vida faz tudo certo e se o levou de volta foi porque era o 
melhor. Sei que ele nos abandonou, mas no me permito julg-lo. O que me entristece  que minha ,me no o perdoa. Essa atitude a est fazendo sofrer e impedindo 
sua recuperao. Ningum pode estar em paz conservando o dio no corao. Minha me  uma pessoa boa, sua atitude no se justifica. O que eu mais quero  que ela 
perceba o mal que est fazendo a si mesma e pessoa equilibrar-se.
  Jacira abraou-a com carinho:
  - A dor s vezes obstrui o raciocnio. Ela amava seu pai, entregou-se a esse amor com sinceridade, mas no momento em que esperava apoio e afeto, ele, seduzido 
pela ambio, trocou-a por outra. Sentiu-se duplamente rejeitada, sofreu por ela e mais ainda por voc. Tenho impresso de que ela no perdoa o fato de ele ter abandonado 
a filha que ela tanto ama.
  - Mame sempre foi muito apegada a mim. O tempo todo me superprotegia, querendo suprir a falta do meu pai. Eu notava isso.
  - Temos que mudar nossa atitude. Voc deve jogar fora a tristeza e no olhar essa  situao com preocupao. O que vai ajudar  ficar mais positiva. Confiar na 
ajuda espiritual. Lembre-se de sua me de maneira otimista. Reveja os momentos de alegria que viveram juntas. Deseje que ela fique bem. Mande-lhe energias de amor 
e paz. Vamos contribuir para que ela se refaa.
  Maria Lcia beijou a face de Jacira com carinho:
  - Tem razo. Eu estava agindo errado. Quando minha me morreu, pensei que tivesse ficado sozinha no mundo. Mas a vida trouxe-me para c. Pensei ter encontrado 
amigos generosos que me aceitaram e deram carinho. Mas encontrei a minha famlia. Meus avs, tios. Tudo que nunca pensei que teria. Entendi que a vida cuida de ns 
e sempre nos apia. No vou mais ficar triste. De agora em diante vou confiar. Assim como a vida cuidou de mim com tanto carinho, tambm vai cuidar de minha me.

  347
  Geni e Aristides juntaram-se a elas no mesmo abrao emocionados por suas palavras. Depois, Aristides pediu a Maria Lcia:
  - Estamos precisando de um caf. No quer providenciar?
  - Vou agora mesmo.
  Ela deixou a sala e Gilson, que se sentara novamente, tornou
  - H ainda outro assunto que eu desejo conversar com vocs.
  Aristides se interessou:
  - Quer que eu visite alguns fregueses enquanto Jair est fora?
  - Sua ajuda  sempre bem-vinda. Podemos conversar sobre isso mais tarde. Nosso assunto  outro.
  Vendo que os dois sentados no sof olhavam atentos, Gilson continuou:
  - Acho que nos conhecemos bem, portanto vou direto ao assunto. Eu e Jacira nos gostamos, queremos nos casar, pedimos que nos abenoe.
  Os dois no esconderam a surpresa e Aristides respondeu satisfeito:
  - Tem todo nosso apoio. Serei muito feliz em t-lo em nossa famlia.
  Maria Lcia, que voltara com a bandeja de caf, colocou-a sobre a mesa e aproximou-se:
  - Eu sabia! At que enfim criaram coragem para decidir. Em vez do caf  melhor buscar uma champanhe. Temos que comemorar!
  Geni muito emocionada perguntou: 
  - Pensam em se casar logo? 
  - Sim. O mais breve possvel! 
  Geni olhou para Jacira:
  - Voc tambm vai nos abandonar?
  - Voc sabe que no. Ainda no programamos os detalhes. Mas queremos ter a nossa prpria casa.
  - Isso mesmo - concordou Gilson -, mas nos instalaremos perto e continuaremos sempre juntos.
  - Alm do que sua neta continuar lhes fazendo companhia - completou Jacira.
  Maria Lcia trouxera uma garrafa de champanhe, Aristides abriu, serviu e cada um apanhou uma taa, depois ele disse:
  - Vamos brindar pela felicidade dos noivos e que continuaremos juntos por muitos anos.
  Tocaram as taas, beberam um pouco. Depois, Geni levantou novamente a taa:
  - Que o esprito do Neto, esteja onde estiver, receba nosso carinho e saiba que o amamos muito. Que ele fique em paz e seja feliz.
  - Que assim seja - murmuraram todos emocionados.
  Geni, mais refeita, foi para a cozinha ligar novamente o fogo e terminar o almoo.
  Na sala, os noivos trocavam ideias sobre o casamento. Gilson desejava levar Jacira a Minas Gerais para apresent-la a sua famlia e comunicar o noivado.
  Depois do almoo, os dois, sentados no sof da sala, olhos nos olhos, mos dadas, conversavam fazendo projetos para o futuro.
  Dois dias depois, Jair voltou da viagem. No encontrando Gilson no apartamento nem na empresa, foi at o ateli procurar Jacira e encontrou-o na sala dela.
  Depois dos cumprimentos, Gilson abraou Jacira contanto a novidade. Jair no conteve o entusiasmo. Deu um sonoro beijo no rosto corado da irm e abraou o amigo:
  - Esta foi a melhor notcia que recebi nos ltimos tempos. Bem que desconfiei. Voc vivia rodeando Jacira.
  Depois de comentarem sobre o casamento, Jair perguntou:
  - Vocs contaram a mame sobre o Neto?
  - Sim. Mas achamos melhor omitir certos detalhes para poup-la. Mame sentiu muito.
  - Ela sabia que Neto tinha morrido.
  - Mas no tinha certeza. Gilson conversou muito com ela, e aos poucos, ela foi se acalmando.
  - E papai, como reagiu? Ele  mais reservado.
  - Embora tenha se esforado para parecer duro, deu para perceber que se emocionou. Mostrou-se magoado por Neto ter nos abandonado. Maria Lcia, apesar do entendimento 
que tem, sentia-se preocupada porque Rosalina no o perdoou.
  - Quando todos ficaram mais calmos, falei que queremos nos casar e eles aprovaram. A tristeza ficou momentaneamente esquecida, seu pai fez um brinde e tomamos 
champanhe - explicou Gilson.
  - Foi melhor do que eu esperava! Pensei encontrar um ambiente de tragdia e encontrei essa notcia Ainda bem!
  - D para perceber que em todos esses acontecimentos, fomos muito auxiliados pelos nossos amigos espirituais - lembrou Gilson.
  - Tem razo - concordou Jacira.
  - Tambm acho - completou Jair -, depois de amanh  quarta-feira. Estaremos l para agradecer a Deus.
  Fez ligeira pausa e continuou:
  - E quem sabe o que poder acontecer? Tenho esperana de que o esprito de Marina volte para contar-nos o resto da histria, conforme prometeu.
  - Isso s vai acontecer no momento certo - opinou Gilson.
  - Quem pode saber se no ser nesta semana? - indagou Jacira sorrindo.
  Em seguida, passaram a conversar sobre os negcios e suas expectativas sobre o futuro.
  Em Branco
  Os trs meses que faltavam para o casamento de Jacira e Gilson passaram rapidamente. Ele desejava comprar uma casa, mas Jacira preferiu pensar nisso depois do 
casamento. Convenceu o noivo ao afirmar:
  -  melhor fazer isso com calma para fazermos um bom negcio.
  - Ento, vamos alugar um apartamento.
  - No ser preciso. Provisoriamente ficaremos no ateli.
  - Mas l j tem Margarida.
  - Daqui a trs meses a casa dela estar pronta, mas mesmo que no esteja, h espao na minha ala, onde h uma sute e uma boa sala, bem mobiliadas. Ficaremos bem 
l. Quando voltarmos da viagem, trataremos de tudo.
  - Ser que no vamos tirar a privacidade de Margarida?
  - No. Somos como irms. Ela ficar feliz em nos ter por perto. Trs meses passam depressa. Enquanto
Dorival cuida dos papis para o casamento, vamos ficar uma semana com sua famlia.
  Geni desejava que eles se casassem na igreja, mas os noivos alegaram que no eram dessa religio. Ester e Margarida queriam contratar um buf e programar uma festa.
  Os noivos concordaram. Estavam felizes, principalmente Jacira que tinha muitos motivos para comemorar. Sentia-se uma vencedora, agradecia a ajuda de Deus, mas 
reconhecia que tinha se esforado, feito a sua parte nesse processo.
  Enquanto as duas amigas tratavam do evento, Gilson levou Jacira para Minas Gerais para apresent-la  famlia.
  Era noite quando chegaram  casa dos pais de Gilson. Foram recebidos com muito carinho. Jacira gostou deles. Eram pessoas simples e amveis e ela sentiu-se muito 
 vontade. Parecia-lhe conhec-los h muito tempo.
  Enquanto Gilson conversava com o pai na sala, Eunice levou Jacira ao quarto onde deveria se instalar. Depois lhe mostrou o quarto de Gilson.
  - Apesar de ele ficar longe o tempo todo, conservei tudo como ele gostava.
  Contou-lhe coisas do tempo que ele era menino, mostrou-lhe algumas fotos. Quando elas voltaram a sala, Jlio aproximou-se dizendo:
  - Vocs devem estar cansados da viagem. Querem descansar um pouco antes do jantar?
  - No se preocupe, estou bem - respondeu Jacira. - Confesso que durante a viagem eu estava um pouco tensa. Tinha receio de no ser aceita na famlia.
  Eunice abraou-a:
  - Bobagem. Ns j a conhecamos desde que Gilson voltou ao Brasil e a admirvamos. Ele falava de voc com tanto entusiasmo!
   O que ns mais queramos era que ele encontrasse algum e fosse feliz.
  Os olhos de Jlio brilharam emocionados ao dizer essas palavras.
  Mais tarde chegaram Janice, o marido e os filhos para conhec-la e participarem do jantar.
  Jacira sentiu-se bem na companhia deles e se emocionava pensando que dali para a frente, faria parte daquela famlia.
  Uma semana depois, quando regressaram, Jacira entusiasmada descreveu para todos os acontecimentos da viagem. Principalmente o quanto havia gostado e como fora 
recebida por toda a famlia.
  Na vspera do casamento, Jacira custou a dormir. Sua vida iria mudar completamente, mas seria para melhor. Sentia-se emocionada e feliz.
  s sete horas da noite do dia seguinte, Jacira, linda, vestida de noiva, de brao com Aristides, muito elegante em um terno preto, entrou no salo iluminado, elegantemente 
decorado com flores naturais, andando lentamente pelo tapete vermelho. 
  Ao redor havia cadeiras em fila cheias de pessoas muito elegante, que se levantaram para v-los passar. Um conjunto tocava uma msica suave.
  Ao fundo, uma mesa coberta por uma fina toalha branca bordada, decorada com flores brancas e cristais. L esperavam o juiz e seu auxiliar. De um lado Gilson, circundado 
por seus pais, e do outro Geni, Maria Lcia e Jair, olhos midos de emoo.
  Gilson aproximou-se quando Jacira chegou e Aristides a entregou a ele dizendo baixinhos:
  - Cuide bem dela!
  Gilson concordou levemente com a cabea. Aproximaram-se e o Juia oficiou a cerimnia. Quando os declarou casados, Ernesto Vilares, um dos padrinhos da noiva, fez 
emocionada prece, pedindo a Deus que abenoasse os noivos e desejou-lhes felicidades.
  Depois eles se encaminharam para a outra sala onde receberiam os cumprimentos e seria servido o jantar.
  As pessoas que participaram da festa adoraram. O jantar foi delicioso, os msicos animados, a alegria dos presentes contagiante. Em determinado momento, Ester 
e Margarida levaram os noivos para outra sala onde trocaram de roupa. Tudo estava programado para a viagem.
  Enquanto a festa decorria animada, eles fugiram e foram para um hotel onde passariam a noite. No dia seguinte, viajariam para Nova York onde ficariam duas semanas.
  Quando a porta da sute do hotel se fechou sobre eles, o corao de Jacira batia forte. Ao mesmo tempo em que desejava a proximidade de Gilson, receava no saber 
como agir. Ele era ignorante em matria de amor.
  Fechou-se no banheiro, tirou o vestido, tomou um banho e vestiu a linda camisola de cetim branco, que Ester fizera questo de lhe presentear para a ocasio, e 
ficou sem saber o que fazer.
  Depois tomou coragem e decidiu. Abriu a porta. Vendo-a entrar, Gilson aproximou-se, no lhe deu tempo para pensar. Abraou-a com amor e beijou-a repetidas vezes.
  Nesse momento, Jacira esqueceu seus receios de momentos antes. Algo nela despertou forte e correspondeu emocionada expressando o sentimento de amor que sentia 
no corao.
  Aqueles momentos de plenitude e carinho ficariam para sempre em suas lembranas.
  A viagem de npcias decorreu maravilhosa. Jacira adorou tudo, e quinze dias depois, ao regressarem, vinham cheios de presentes, fotos e novidades.
  A vida voltou ao normal. Jacira assumiu os negcios e Gilson as atividades da sua empresa, que ia progredindo a cada dia.
  Jair e Maria Lcia freqentavam as reunies na casa de Ldia, desde o noivado de Jacira. Ele tomara gosto de estudar espiritualidade e depois que a sesso se encerrava, 
ficava conversando com Estela, colocando suas dvidas.
  Essas conversas entre eles tornaram-se um hbito, o que fazia Maria Lucia provoc-lo dizendo que ele estava mais interessado na moa do que nos espritos. Ele 
negava e a aconselhava a arranjar um namorado.
    Assim que Gilson e Jacira colocaram os negcios em ordem, voltaram a frequentar as sesses na casa de Ldia.
  Naquela noite, ao sentarem-se ao redor da mesa, Jacira sentiu uma sensao muito agradvel, semelhante a que sentia quando Marina a levava para o jardim de seus 
sonhos.
  A famlia toda estava unida naquele momento e at Aristides, que s ia de vez em quando, estava presente.
  Ldia iniciou a reunio com uma prece saudando os amigos espirituais, pedindo a inspirao divina. No ambiente, iluminado apenas por uma luz azul, uma msica suave 
embalava os presentes.
  Quebrando o silncio, Estela comeou a falar:
  - Somente hoje foi possvel voltar para cumprir o que lhes prometi. No  fcil relembrar os momentos difceis que vivi, sentir de novo as emoes dolorosas do 
passado. H muitos anos, vivia na cidade de Londres uma atriz talentosa e excelente cantora, que se apresentava com o pseudnimo de Amy Lockweel. Muito bonitas, 
carismtica, era invejada pelas mulheres e provocava paixes nos homens.
  "Por causa da sua fama, viu-se envolvida em escndalos, mas na verdade ela era uma pessoa simples em expressar sua arte. Havia alguns anos que se apaixonara por 
um jovem alfaiate com quem se casara secretamente, uma vez que seu contrato proibia casamento. Seu agente utilizara o carisma dela com grande sucesso, desde o incio 
de sua carreira, criando a imagem de uma mulher fatal.
  "Dessa unio nasceu uma filha que ela internou em um colgio, para dar-lhe uma boa educao e proteg-la dos escndalos. Seu marido lhe pedia constantemente que 
deixasse o palco, tirasse a filha do colgio e fossem viver no interior, mas ele recusava. Adorava a profisso e no queria tirar a menina que estudava no melhor 
colgio do pas. 0 que o marido ganhava no dava para suprir as despesas.
  "Uma noite, quando se apresentava no teatro, uma mulher da plateia levantou-se, tirou uma pistola da bolsa, apontou para ela e atirou diante dos olhos assustados 
da plateia, que ficou em pnico. Amy caiu em uma poa de sangue.
  "O pano fechou a cena e enquanto tentavam socorrer Amy, a mulher foi presa. Tratava-se de uma lady, cujo marido ocupava alto cargo na corte e era um ardente admirador 
da artista.
  "Com a morte de Amy, seu nome verdadeiro apareceu, John ficou conhecido como seu marido e Mary como filha, que, com o escndalo, foi forada a deixar o colgio."
  Estela fez uma pausa enquanto os presentes atentos esperaram em silncio que ela prosseguisse:
  - Querendo proteger a filha do escndalo, John deixou o emprego na alfaiataria e foi morar com Mary no interior, longe da capital. L tentou refazer sua vida. 
Era um homem bonito, charmoso e logo arrumou emprego de vendedor em uma loja. A filha do dono apaixonou-se por ele. Pensando em oferecer um lar e uma vida melhor 
para Mary, John casou-se com ela.
  "Disposto a corresponder a confiana do sogro que permitira que sua nica filha e herdeira se casasse com ele, John trabalhava incansavelmente. No tinha hora 
para deixar a loja, e muitas vezes chegava em casa tarde, quando Mary j estava dormindo.
  "Linda, sua esposa, depois do casamento revelou-se muito exigente e ciumenta. Mimada, exigia que John provasse que a amava o tempo todo. Ele chegava cansado e 
a encontrava deprimida, irritada, de mau humor.
  "Quando engravidou ficou pior. Estava difcil suportar. Depois que a menina nasceu ela deixava Mary cuidando do beb e aparecia de surpresa na loja imaginando 
que ele a estava traindo com alguma freguesa.
  "Enraivecida, porque ele no fazia o que ela queria, descontava sua raiva em Mary. Obrigava-a a fazer todo servio da casa sem nunca agradecer sua boa vontade. 
Ao contrrio, vivia repetindo que ela era feia, desajeitada, burra, e que no servia para nada.
  "Nos primeiros tempos, Mary chorava, mas depois foi ficando revoltada. Algumas vezes, ficava acordada esperando pelo pai, pedia-lhe que interferisse. Mas ele se 
recusava, aconselhava que tivesse pacincia. Para alivi-la do servio da casa, John contratou uma empregada pensando assim acalm-la.
  "Ento, Linda pediu ao pai que colocasse Mary para trabalhar na loja todas as tardes, alegando que ela era muito tmida e precisava ficar mais esperta.
  "Como ele fazia-lhe todas as vontades, convenceu John a aceitar. Na verdade, o que Linda queria era que ela vigiasse o pai. Todas as noites, enchia-a de perguntas, 
mandava que ela fizesse uma lista de todas as freguezas que ele atendia etc.
  "Para poder ter um pouco de paz, Mary obedecia, mas odiava essa incumbncia. Aos dezessete anos, Mary tornara-se uma moa bonita, cheia de vida, lembrando muito 
o carisma da me. Sua presena despertou o interesse de vrios rapazes, mas nenhum deles a interessou. At que surgiu um engenheiro, recm-chegado  cidade, que 
se apaixonou perdidamente por ela e foi correspondido.
  "Como ele era casado, ela fez tudo para resistir. Mas no conseguiu. Uma noite os dois fugiram e foram viver bem longe dali. Miriam, a esposa abandonada, mergulhou 
na depresso e um ano depois suicidou-se. Sem saber o que tinha feito, Mary e James viveram felizes juntos durante anos. James morreu primeiro, e, ao regressar ao 
mundo espiritual, soube do suicdio de Miriam e mergulhou na culpa. Quando Mary morreu, alguns anos depois, procurou por James, mas ele, sentindo-se culpado, recusou-se 
a v-la. Ela, abandonada, arrependida, desiludida, entrou em depresso. Castigava-se constantemente, perdeu a vontade de viver e tornou-se uma sombra do que fora."
  Com naturalidade, Marina revelou ser a protagonista da histria.
  - Eu a estava esperando, ansiosa, angustiada por no ter podido fazer nada para evitar a tragdia. Ela era a filha que eu amava tanto, que sonhara conduzir a uma 
vida digna e feliz, mas no tinha conseguido. Mary tornara-se um rob, sem vontade nem alegria.
  "Eu me sentia culpada por no ter feito o que John queria. Se eu tivesse renunciado  arte, partilhado com ele uma vida pobre, mas digna, a situao no teria 
chegado aonde chegou. Eu teria dado a ela uma vida modesta, mas feliz, e evitado sua desgraa.
  "Durante anos vivi me recriminando at que com a ajuda de dedicados amigos espirituais descobri que, mesmo que eu tivesse feito o que John queria, no teria podido 
evitar certos fatos, que tiveram origem em nosso passado. Senti que enquanto no fizesse alguma coisa por mim e procurasse melhorar, no poderia ajudar os que eu 
amava.
  "Disposta a refazer o caminho, esforcei-me para conseguir equilibrar meu mundo interior e ao mesmo tempo dediquei-me ao trabalho em favor da comunidade.
  "Assim que me foi possvel, com a orientao dos meus mentores, consegui trazer Mary para perto de mim e, com a ajuda de Deus e muita persistncia, ela foi melhorando. 
Mas suas recadas constantes eram motivo de preocupao e eu receava que ela voltasse ao lugar sombrio de onde a tnhamos tirado.
  "Feita uma consulta aos nossos superiores, soubemos que a nica maneira de ela se recuperar seria por meio da reencarnao. Esse recurso s funcionaria se beneficiasse 
todos os envolvidos.
  "Levamos algum tempo para tirar Miriam da loucura em que mergulhara, refazer seu corpo astral agredido pelo suicdio e fazer James vencer a culpa e entender que 
essa seria a chance de conquistar a paz.
  "James reencarnou, depois Miriam tambm. Devido s circunstncias ela teria pouco tempo de vida na terra.  que ela precisava desfazer-se das energias doentias 
que ainda castigava seu corpo astral, o que s seria possvel por meio de novo corpo. Ambos se encontravam, desejavam casar-se, mas ela teve que regressar. Ele ficou 
arrasado. No astral, Miriam, mais refeita, conseguiu comunicar-se com ele e ajudou-o a se refazer.
  "Miriam gostaria de estar aqui, mas no momento no foi possvel porque est se preparando para voltar. Vai nascer como filha e assim acrescentar ao amor carnal 
que sentia pelo marido, o amor de filha, que vai transformar o relacionamento para melhor. H muito, ela perdoou a traio, reconheceu que ningum  de ningum e 
cada um precisa seguir o prprio caminho. Mandou dizer  sua antiga rival, que como sua filha, vai se esforar para transformar os desentendimentos em amor. Sente-se 
serena, preparada e feliz.
  "Nesse momento, quero agradecer Gina e Arinos, que acompanharam meu empenho em ajudar minha filha e aceitaram receb-la em seu lar. Os mentores sugeriram essa 
possibilidade explicando que ela seria benfica para os trs. E de fato, foi o que aconteceu."
  Maria Lcia, em silncio, pensava em sua me, perguntava-se quando Rosalina perdoaria o pai.
  Marina sentiu a angstia dela. Ouviu seus pensamentos e continuou:
  - Trago notcias de Rosalina. Ela sente-se mais calma. Aceitou receber Neto para conversar sobre o passado e o futuro. Com a ajuda de Deus, eles acabaram se entendendo. 
Vamos orar, mandar-lhes boas energias e deixar a vida trabalhar em benefcio deles. Ela sempre sabe o que faz.
  "Agora preciso ir. Como podem ver, vocs todos esto ligados pelo passado e  com alegria que eu digo: o ciclo se completou com sucesso. De agora em diante, vo 
usufruir um tempo de progresso e paz onde tero a chance de se elevar ainda mais.
  "Ns estaremos torcendo para que continuem progredindo, usando o conhecimento to duramente conquistado sempre em favor de uma vida melhor. Que Deus os abenoe."
  Ela se calou. Estela suspirou longamente os olhos. Quando Ldia acendeu a luz, olhos marejados, ningum fez uso da palavra.
  Gilson, olhos brilhantes de emoo, depositou um beijo na mo de Jacira, que tinha entre as suas.
  O silncio permaneceu porquanto ningum desejava quebrar a mgica do momento. Foi Jair quem se manifestou:
  Aproximou-se de Estela, olhos nos olhos, e disse:
  - Eles no falaram de ns. Mas nem precisava. Estava escrito que voc aceitara se casar comigo.
  Ela corou e no respondeu logo. Ele segurou a mo dela e continuou:
  - Dona Ldia, desculpe se me precipitei. Estou apaixonado por ela. A senhora sabe, estou sendo sincero.
  Diante do olhar malicioso dos demais, Ldia chegou perto deles e tornou:
  - Eu no sei nada disso. Quem tem que responder  ela.
  Todos fixaram os olhos em Estela que disse:
  - Eu tambm gosto de voc.
  Ele abraou-a e beijou-a delicadamente na face.
  - H algum tempo eu desejava dizer quanto a amo, mas voc nunca demonstrou que gostava de mim. Hoje, tive vontade de me declarar. Essa noite festiva, cheia de 
revelaes, impulsionou-me. Agora a comemorao mais completa. Isto , se dona Ldia me aceitar como genro.
  Ldia abraou-o sorrindo:
  - Que remdio! Estela o escolheu! Sejam felizes!
  Depois passaram para a outra sala onde Ldia trouxe champanhe. Aristides a abriu, serviu as taas, apanhou uma e disse:
  - Essa noite lavou minha alma. Nunca senti to feliz. Pensei que a vida me tivesse esquecido, mas quando menos esperava, ela me fez reviver. No sei rezar nem 
falar coisas bonitas. S quero dizer que em silncio, sem ningum esperar, a vida nos mostrou que apesar da nossa viso mope, dos nossos pontos fracos, ela trabalhava 
em favor da nossa amizade.
  Enquanto eles conversavam felizes, Marina e Neto observavam emocionados. Depois, ela passou o brao perto dele: 
  - Nada mais temos a fazer aqui. Vamos embora.
  Neto comentou:
  - Agora, o que falta  Rosalina me perdoar.
  - Continue se esforando para tornar-se uma pessoa melhor, faa a sua parte que a vida far o resto. Vamos agradecer a Deus por esta noite.
  Neto concordou.
  De braos dados eles volitaram, observando a beleza do cu estrelado, sentindo no corao a grandeza da vida que, como me generosa, com amor, ensina a todos a 
conquistarem uma vida melhor.
  Fim
